I-LXII Jaezes de vida e morte
Corro à frente, para que me sobre tempo para me explicar:
Temo ser vista como uma mulher apaixonada,
frustrada por um fantasma ser trocada.
Temo ser vista como tola e desajeitada,
que, sob as águas, carregava mais do que sustentava.
O dinheiro limita nossos destinos,
os sinais duplicam toda vez que nos repudiam.
Tenho alucinado, mas ainda as coisas separo.
Não é difícil quando sobreviver é a loucura que nos agarra,
nos puxa, nos afunda, nos fragmenta e nos alastra.
Se vejo as estrelas, se presencio o por do sol,
sempre há algo em qualquer lugar que nos faz parar.
É loucura pensar em nos encontrar.
Talvez com dias como agosto em anos embolísticos,
filha de Fanuel e Abraão, teria minha idade escrita
ao acaso por fingir-me morta sobre o chão.
Gozaria dias por dia, noites em uma revelação,
encargos por vida, e paixões por um homem sem coração.
I-LXI Jaezes de vida e morte
Há tanto digo ao escuro:
Perdoe meus reflexos, meus péssimos hábitos,
cada noite sinto-me melhor sendo acuado.
Já levo o tempo para perder-se comigo,
atrasado, atado aos embaraços,
um presente como o passado.
Instinto infeliz que me pune por nada,
fez-se em minha casa, tomou-me a alma.
Temendo jogarem-me fora, vi-me perdendo a honra:
"Os erros não são meus, o mundo não se toca!
Chances nada adiantam se o dia sempre volta."
E tudo soa como piada para que alguns guardem mágoas.
Não que eu sinta o que escrevo ou de tudo me abstenho,
é só vício ludibriar-me por inteiro.
I-LX Jaezes de vida e morte
Sós sendo um e perdidos quando par,
a esperança é pouca e não a vejo acabar.
É a ironia de quem existe e persiste,
ser leigo quando aprendo e fraco quando insisto,
é a pressa de estar diante de quem me tem repelido.
Ensino fogo aos homens para olharem sempre a quem,
pois o controle que me tem fere-me quando se mostra e intervem.
Rogo então ao Pai antes das construídas morais,
para que eu presencie e seja vítima das hipocrisias angelicais.
Liberto-me de quem me tem,
e afundo-me sem carregar o ar que tanto faz reféns.
Lastimo apenas os rastros que se perderam nos anos,
recuperar uma porção será como portar oceanos.
Pois quando me provoca, noto-me fervorosa,
como se a fonte da vida é ter-me exposta.
I-LIX Jaezes de vida e morte
Lastimo nervoso nas revanches que levantam meu nome,
estive sonhando com outro mundo em silêncio, e notei meu desespero.
Se eu perder uma única vez, não me restará vida para rogar,
e, de novo, a mentira é a saída para me safar.
Na última noite bebi, e exaltei os homens
que me forçaram o que fiz.
Um em particular, recordo de implorar para que
o verão não dure até nos secar.
Para que decida desconciliar,
se é o que nos prende ao altar.
Nada nos faz rico no escuro,
soamos tão lúcidos quanto incultos,
e a mente nós seguramos no mar,
não é que usaremos isto,
mas é o que nos resta amar.
I-LVIII Jaezes de vida e morte
Os dias que têm vindo
não me levam tão longe quanto cobiço.
Derramando virtudes à medida que preciso,
anseio voltar por este caminho.
Curando, adoecendo, fingindo ver o que não vejo:
As vestes caras não combinam com minhas marcas imaginadas,
e minhas palavras falsas fazem-me um oportunista camarada.
Leve-me ou não a mal, eu irei de qualquer forma ao caos.
Todos meus discípulos se perderão,
tento a presunção antes de estar sob o chão.
I-LVII Jaezes de vida e morte
Nas minhas piores ideias,
atrevi dar-me mais que sete dias.
Montei o que me tire a culpa,
mas palavras têm se enferrujado na covardia.
Sobra quem peça perdão pela bagunça que
fazemos dos dias.
Lembro-me do ar escasso de Sodoma,
havia ainda tanto a ser discutido antes daquela escolha.
Mãe estava certa ao dar-me menos de uma semana,
pois já não havia onde por esperança.
O mundo sabia que eu jamais seria como ela,
eu carregava um futuro que seria enterrado depressa.
Por Deus, como foi bom viver,
um dia se desculpará por o que me fez perder.
I-LVI Jaezes de vida e morte
Como é bom estar vivo em prantos sob as asas de Piasa,
que, há muito, tem devorado minha raça.
Se meu Pai sonhar por me fora,
matar-me-ei antes desta hora.
É o testemunho de muitos que me faz verídico,
pois pelo pouco que ando já mal me sinto.
A crença de mim vem do inimigo,
a vida que fiz não me serve de abrigo,
e o passado que tracei foi tomado por vitimismo.
Me envergonho das loucuras passageiras e temo as que se permeiam.
É aflição que toma meu coração, pois me perdi nas lutas por paixão.
Queria eu residir aqui, como se, pelo mal, fosse meu teto resistir.
E não me acabaria em mil olhares, seria visto por mim e por Ele,
quem sabe.
I-LV Jaezes de vida e morte
Pus-te como promessa de vida,
e vi-te ausentar para que me pusesse a pensar:
O quão longe tenho ido que precise ser omitido,
o quão distante perduraria se fosse eu quem o seguiria.
E sobrevivi daquela morte de fantasia.
Nunca o vi chegar, exceto agora que,
diante da passionalidade, o vi brotar.
Há quanto esteve lá? Pois o trouxe em meio
ao júbilo, como por culpa por ver-me queixar.
O passado justifiquei pela ignorância,
pedi perdão pelas ameaças de criança.
E pelo medo deste acaso, perco a noite
acordado: Será um presente por agrado,
ou és um grego desalmado?
I-LIV Jaezes de vida e morte
Sinto que a vida vale a pena
quando um mortal me tens em mãos
e me corteja, disse ao Pai muitas vezes.
Fui agraciado pelos céus de sábado,
e agora sofro temoroso por um domingo ao acaso.
Um de meus vícios é apostar o que recuperei,
penso o quão péssimo é isso, e concluo ser pior que imagino.
Costumo perder-me na conta de quantos sacrifico
para fazer deste mundo um lugar para mim e meus filhos.
Assim ponho-me louco, para a que a conclusão
de um fim venha, e me arranque a vaidade do corpo.
Real ou não, ainda assim é por você,
vícios não seriam hábitos se não voltassem a acontecer.
Temo um mundo pior por domá-lo,
sofro um pouco menos por ser um amparo.
Oro ser este o último dos que me inspiram a estimar,
pois mal atingi o meio e tantos de ti vi passar.
I-LIII Jaezes de vida e morte
Diante de tanta enfermidade, por nada sofro que me adoeça.
Amarguro-me sob luxos que me separam dos apuros,
e falho estando bem, lembrando-me dos anseios que trouxe ao mundo.
Privilegiado por chorar e viver para lembrar,
duvido ser vício, duvido não haver sentido no que lastimo.
Se há alguém, não sou eu quem a vida, com regalo, atravessa.
Não serei eu quem peregrina aos refúgios de quem espera.
Nego dizer que arrisquei por não haver o que fiz.
Perante aos infelizes em busca de tempo,
creio eu ser mais feliz.
Culpam minha índole que abandona a caça,
que, por qualquer prazer, se desvia da estrada.
Índole que me leva ao longe, ao fundo, respirando e desvairando,
alcançando e pensando, e menos me culpando.
Meu ápice do prazer é à tona trazer algo meu que nem sei se sou eu.
É pouco caso fazer do que conheço, e aos outros dizer que tenho o que mereço.
Gozo pelo privilégio de não ser exposto,
por o luxo de amar alguém pelo prazer do desconforto.