nato1961

nato1961

Ator, professor, artista plástico, escritor. Graduação em Teatro e em Educação Artística, especialização em Metodologia do Ensino da Arte. Quatro novelas publicadas, uma adulto, e três são infantojuvenis, além de textos publicados em várias editoras.

Perfil
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Ópio

Libertar-me-ei das minhas amarras,
abandonarei o vazio dos alucinógenos,
puro e selvagem tédio alucinante,
libertarei a minha luz,
sairei desse vazio.

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Poemas

19

Perfume do passado

Quando eu o vi,

me veio para o olfato

um passado de suaves

noites ditas profanas,

de profundos sentimentos de amor,

de perfumes de corpos que se entrelaçaram

em leitos molhados de suor,

de beijos molhados com gosto de cerveja e cigarro,

de longas tardes de verão esperando

o pôr do sol.


Performance do texto em:
https://www.youtube.com/watch?v=DBBOzRMuiOk

168

Música Venha Paixão

Letra: Nato Matos

Composição musical: Nato Matos e Joara Ledoux

 

Que seja esse homem

Que seja essa mulher

Darei muito amor

Se você me quiser

 

Terás o meu corpo

Terás a minha paixão

Mas não maltrate

Este grande coração

 

Refrão / Estribilho: É assim, querida

                                É assim, querido

                                Quero você

                                Comigo nesta vida

 

Darei uns abraços

Com grande animação

Serás meu chamego

Não será ilusão.

Se quiser conhecer e compartilhar a canção acesse o youtube em:  https://www.youtube.com/watch?v=MYVSsl0oUaI
183

Meus pensamentos para viver feliz

No arco-íris a união das cores vigoram o brilho.

Não consinta que transformem você naquilo que você não é, aconteça o que acontecer, seja sempre você mesmo. Mas siga o caminho do bem.

Até na escuridão existe luz! Busque-a.

A Razão é um Grande Bem que foi dado ao Ser Humano, e sendo um Grande Bem, tem de ser Bem Cuidado.

A decência desses que se dizem decentes, não me interessa!

Penso no impossível, para conseguir o possível.

No arco-íris todas as cores brilham! E fica lindo.

Sua dita moral não me interessa.

Não tenho pressa para chegar ao Nirvana! Quem vai decidir é o Tempo.

Na Espiral do Tempo, ou da Vida, sou o seu reflexo e você o meu.

Não quero a sua decência, quero o seu amor.

No jardim da nossa alma estão as flores coloridas, cultive-as!

Para tentar me entender, sempre perguntei ao espelho da razão!

Me contento em perceber que eu e você já estamos conectados espiritualmente!

Se você tem Deus no coração, a sua estrela nunca vai perder o brilho.

Para quem não sonha, o céu é o limite.

Deus é tudo na minha vida!

Amor não se deleta, salva.

Quando a minha mente está saudável, o corpo todo obedece!

Se não quero ficar no apagado, acendo uma luz!

Aqui na Terra, sou espírito e matéria!

Deus é a força magnífica que me impulsiona a viver dia após dia aqui na Terra.

Faça Amor, esqueça a guerra!

203

O rosto e a máscara

Tirei a máscara do meu rosto,
No espelho da razão,

Vi um belo rosto... o verdadeiro.

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239

O personagem

Quando criança pintava o meu rosto,

Ficava em frente de um espelho qualquer,

Ninguém entendia,

Às vezes até me batiam,

E eu estava apenas inventando um personagem,

Nascia ali o desejo de fazer Arte, de fazer Teatro,

Ou de atuar em um circo montado em algum canto do mundo.

Hoje, não preciso mais pintar a cara,

Hoje, eu sou personagem de mim mesmo,

De cara pintada, ou não.
207

Gênesis, talvez sim

Eva masturbava-se pensando em um Deus colorido ilimitado,

Adão delirava de prazer ao ser penetrado por uma lasciva serpente,

Eva e Adão morderam a maçã,

Deus imediatamente sancionou a lei do Amor livre.

192

Gênesis, talvez

Adão deu a maçã para o outro Adão morder,

e ele mordeu! Não ocorreu nenhum Pecado Original.
Eles fizeram amor.

Enquanto isso, Eva banhava os pelos pubianos

e conversava com Deus na lagoa colorida.
206

A comunidade quilombola de Pedro

O outono se despedia ao som do vento. Pedro ficava espreitando todo o movimento que circundava no povoado, tentando decifrar algo que nem ele mesmo sabia. Era tudo tão amplo, ao mesmo tempo escasso. Um ano sem chover. Os mantimentos que seus congêneres haviam estocado nas prateleiras de madeira rústica findavam aos poucos. A agricultura de subsistência clamava por água, sentia sede, necessitava do líquido miraculoso para crescer e nutrir àquela pequena população. Remanescentes de Quilombos! Ainda sentiam na pele negra o descaso de um Governo que os tratava com hostilidade. A coragem atrelada à vontade de viver embevecia-os de força para caminharem com dignidade, enfrentando o inimigo, batizado de Grandes Senhores. Ainda Grandes Senhores.

         Pedro tinha apenas dez anos de idade. Audacioso, arguto, sorridente. No corpo franzino exibia a altivez de alguém sedento de progresso. Soltar pipas, jogar futebol, bolinhas de gude, e tantos outros brinquedos já não preenchiam sua ansiedade, mas, exibia no molejo do corpo o desejo de conhecer outros horizontes. Não sabia ler, nem escrever. Observava atento a sua mãe, e os irmãos mais velhos, na mesma condição, trabalhando na fazenda de Seu Fulano, há quilômetros de distância do povoado. Imensa fazenda! Um mundão de terra. Seu coração gelava só em pensar que um dia teria que desbravar toda àquela terra capinando um chão, que nunca seria seu, para no final do mês, receber um salário que mal dava para prover as necessidades que o dia-a-dia ordenava.

        A pequena plantação que havia no fundo da casa, estava pálida, contornada de areia argilosa, pedia água. Vez em quando o garoto apalpava as folhas ressecadas, ou soltava-as ao vento.

       Em uma madrugada turva, cambaleante, Pedro levantou da cama, abriu a janela do quarto, olhou para o céu, extraordinariamente percebeu nuvens se aproximando. Pensou em chuva, abruptamente ajoelhou-se, orou. As nuvens foram crescendo, crescendo. Os primeiros pingos ecoaram uma linda canção nos ouvidos daquele garoto. Ele ficou horas e horas ali, ajoelhado, quieto. A chuva fora aumentando, aumentando, até transformar-se em aguaceiro. A chuva coadjuvou para que seus pensamentos transcendessem, viu-se escrevendo, lendo livros e mais livros, não queria apenas assinar o nome ou ser mais um eleitor usando uniforme galante para dar o voto ao Seu Fulano, filho de Seu Fulano, e neto de Seu Fulano. Ele queria entender o mundo, um mundo que não era o dos seus amigos, nem o dos seus irmãos, nem o dos seus vizinhos que apenas assinavam o nome, ou soletravam palavras ao vento quando tinham oportunidade. Fugir daquele local não estava nos seus planos, abandonar os seus parentes, não era o seu ideal. A chuva caía lá fora, mas, no seu interior desejava decifrar enigmas que só através da leitura poderia entender, assim confabulava consigo, enquanto isso, as plantações, a calçada revestida de barro amarelado, e o capim que circundava o pasto, eram encharcados com os pingos de ouro.

       E a noite deu lugar para o dia reinar com seu manto molhado.

       Recostado na janela Pedro adormeceu. Ao acordar com o canto do galo, a chuva havia cessado. As nuvens escuras observavam do céu a população em movimento para lavar, ou enxugar o que a água tinha deixado. Sua mãe e seus dois irmãos já estavam caminhando para a lida, mais um dia de trabalho. Pedro acenou para eles, aproveitando a estiagem, sentou no resquício de uma calçada que servia de apoio para a entrada da casa. Seus olhos se fecharam! Sonhou com os livros, as letras, as palavras, o mundo. Um globo azul girava com Pedro sentado em um cavalo alado visitando cidades, estados, países, planetas... acordou subitamente com o grito de sua mãe chamando-o para conhecer alguém que tinha encontrado no caminho, proferindo ser a nova professora. Há três anos que a mais recente tinha ido embora, coagida, ora, os homens de Seu Fulano não dormiam, tinham olhos e labaredas de dragão, quando se viam ameaçados, soltava fogo através das ventas para expulsar quem cruzasse os seus caminhos. Mas alguém tinha novamente ouvido as suas orações! Deus? Os Orixás? Os Caboclos? Os Santos? Pedro não pediu explicações, sorriu, gargalhou parecendo que tinha ganhado o tão esperado presente de aniversário ao cumprimentar a nova mestra. Ela retribuiu o sorriso, sentou estreitamente ao seu lado para colocar no caderno de anotações o nome do novo aluno.

       Pedro finalmente aprenderia a ler o livro de histórias infantis que a antiga professora havia lhe dado de presente, onde na capa tinha a imagem de um jardim com lindas flores violetas.
237

Você, eu, nós

A sua alma está lavada de suor

O seu perfume está com cheiro de sabão

Vou esperar você em noite de lua cheia

Vamos passear nos jardins prateados.

 

Não vou ficar aqui sozinho

Não vou comer carne ou capim

Não vou lamber o ânus de um cavalo selvagem

Para mostrar que te admiro.

 

A sua alma está lavada de orvalho

O seu perfume está com cheiro de limão

Vou esperar você na casa vermelha

 

Não vou vestir roupa de cetim

Não vou lamber as patas de um leão

Para mostrar que te admiro.

 

206

Ele e o voto

Demonstrando tranquilidade, olhar astuto, silencioso, ele caminhou para participar de um momento muito importante para a nação. Naquela afável manhã de primavera ia votar para presidente da República na sua amada pátria. Tentava não recobrar dos momentos angustiantes que havia passado, ao demonstrar insatisfação diante do candidato que tinha na intenção de votos mais da metade da população segundo redes sociais, pesquisas de opinião obtidas de fontes seguras, ou não, e invenções que a população obstinava em propagar.

Ele não estava conformado com o andamento das eleições, jazia no seu coração o sentimento de alienação, sensação de culpa que poderia ter sido evitada caso tivesse participado com mais veemência das campanhas que ocorreram em uma das redes sociais das quais fazia parte. Mas era tarde demais. Cabia-lhe seguir em frente, confiante que o seu voto poderia contribuir para um resultado que fosse favorável à sua ideologia partidária. Pairava na atmosfera o medo. De um lado, bradavam os cidadãos que acreditavam nos chamados partidos de direita, do outro, rebatiam os de esquerda com os seus ideais. Ele era de esquerda.

Nas ruas daquela cidade já não se via a panfletagem de outrora exibindo em papéis coloridos a imagem dos candidatos, tratava-se de um segundo turno, tudo corria com mais leveza, apenas nos locais destinados à votação ainda ocorria o mesmo entra e sai presente no turno anterior. Ele antes de chegar ao seu propósito, percebeu-se refletindo sobre o mundo que o cercava, questionando sobre qual era o verdadeiro sentido do voto para aquela nação. Ficava sem entender o que levou uma população a cair nas garras de um candidato que a desrespeitou, a partir do momento que se recusou a participar de um debate com seu opositor, algo considerado de extrema importância para o desenrolar de uma eleição. Não era justo que alguém, que se predispõe a governar um país, tenha conseguido hipnotizar uma grande quantidade de eleitores, sabendo-se que esse alguém fazia questão de propagar uma série de preconceitos sociais, além do aniquilamento de projetos que trouxeram benefícios para a população carente simplesmente por ter sido herança do Governo anterior. Para ele, na condição de cidadão participativo, era difícil, até confuso, entender o que se passava no raciocínio da população. Seguir em frente e agir de modo consciente, foi a determinação do momento.

Ele, ao chegar no ginásio onde ocorreria a votação, subitamente dirigiu-se para a seção indicada no título de eleitor e após a entrega do documento confirmando seus dados, caminhou cautelosamente até a urna eletrônica, mas no exato momento de colocar o dedo indicador na tecla para confirmar o voto, veio à memória o assassinato brutal de uma vereadora que se recusou a aceitar uma sociedade injusta, excludente. Com o dedo trêmulo, apertou a tecla confirmando o voto. Missão exercida, assim ajuizou, sorriu, foi embora.
207

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