paola_

paola_

- tenho um pé no lírico e o outro no óbito -

n. 0000-12-17, São Paulo

Perfil
51 811 Visualizações

vazar

fechei meus olhos enquanto a água escorria 

fluía de forma tão fácil e leve

morna e constante

por um breve momento nada me ocorria

o relaxamento era inevitável 

toda preocupação se esvaia 

rumo ao ralo ela seguia
Ler poema completo

Poemas

82

fenecimento

Sempre que tenho alguma crise
E alguém presencia
Passa um período de dias
A pessoa simplesmente some
Isso mesmo, some…
Devo ser medonha
Bizarra
A parte mais triste
É acreditar: ‘ — dessa vez será diferente…’
Nunca é
E tudo bem
Nunca pertenci a lugar algum
Não me encaixo
Se tento
Me desfaço
Se sou eu mesma
Sou deixada pra trás
Tratada como um tanto faz
Vivo em constante dèja-vu
Conhecer
Simpatizar
Relacionar
Perdurar (mero engano)
Afastar
Faltar
Vivo num roteiro
Na primeira vez
Senti uma dor dilacerante
Parecia que estava sendo cortada
Cada lembrança
Era um golpe
Incapacitante
Hoje, bem, hoje tô anestesiada
Vazia
Não tenho lágrimas
Os remédios não me deixam falhar
Sofro sem sentir
Há tempos cansei de existir
Volta e meia sempre voltam aqueles pensamentos
Partir seria a solução ou a desolação?
 
 
235

açúcar

De longe via meu pai, me esperando no portão da escola, ao me ver suja de terra sorria, logo pensava: hoje é dia de tortinha de morango ou salgadinho? Era um ritual. Minha mãe não comprava nada e dizia que não podia abusar do açúcar.
Subíamos a rua, e perto da estação de metrô aquela doceria me chamava, meu pai dizia: 
- Pode escolher...
Nem pensava: tortinha de morango, agora!
O açúcar sempre esteve por aqui, mesmo depois de adulta, continuo usando. 
Acho que busco nele algum contentamento, conforto….acho que se tornou meu porto.

287

inflamação

Quando estamos na bolha
Só vemos aquele espaço
Não há pontes
Nem fontes
Parece impenetrável 
Mas na verdade é permeável 
De dentro não temos visões
Quem dirá soluções 
Por conta de sua leveza
Somos levados sem nenhuma sutileza  
E assim, nossa energia se esvai
Se retrai
Mas a bolha não se desfaz 
Sem atentar
Continuamos matutando
Boicotando
Qualquer ideia 
E assim alardeia
A mesma reação em cadeia
844

precário

enquanto estou em movimento 
não sinto desalento 
parece até que estou em equilíbrio 
até me arrisco a riscar um rabisco
em repouso 
tudo se desmancha 
minha construção é arenosa 
vazia em sua essência 
é constante essa minha penitência
855

fisgar

desaprendi como alucinar 
aquela falta de ar 
que prejudicava meu pensar 
aquele riso sem sentido 
e a preocupação em não parecer ridículo 
ficar horas imaginando cenários 
enquanto emendava atalhos 
tudo ao redor cintilava 
mesmo quando o sol não raiava
848

esmorecida

Cansada de existir
Cansada de querer partir
Cansada de desejar sumir
Cansada de sempre desistir
Cansada de ainda me iludir
É tanto cansaço
É tanto fardo
É uma vida de arrasto
214

domingo

É o dia da semana que mais me sinto inútil, sem vontade, sem querer…
Inevitavelmente começo a me culpar
por deixar o tempo passar
e mais uma vez falhar.
Me pego olhando pela janela do quarto
um sol bonito, 
refletido na parede branca, 
é quase possível ver uma aura com tamanho brilho
que até me desvio.
Mas permaneço em meu quarto, 
ouvindo músicas, 
o vai e vem dos carros, 
os latidos dos cachorros, 
minha filha conversando com desenhos animados…
Coisas pequenas, 
que são capazes de me desviar
dessa melancolia que me é tão peculiar.
223

inexpressiva

Me sinto anestesiada 
Um vazio pesado 
Que turva minha visão 
Não existe dor
Nem furor 
Apenas sonolência 
E torpor 
Difícil explicar 
Me perguntaram: e seus planos?
Ri
Pra começo de conversa 
Queria nem estar aqui 
Nesse planeta 
Mas estou 
Então
Não me faça perguntas difíceis 
Se puderes me sentir 
Verás todo meu fluir
296

reserva

Estou deitada
Pensando 
Em mais um dia que terminou 
E não fiz nada de útil 
A vontade de te procurar só aumenta 
Mas não posso 
Não devo
Preciso esquecer que te conheci 
Afinal de contas qual é o meu problema?
Cada vez que sinto a sua presença me falta o ar
Evito te olhar 
Dizem que os olhos são o espelho da alma 
Tenho medo que consigas perceber 
Aquilo que me esforço pra esconder
216

enguiçada

Li por aí pra não perdermos o interesse pela vida mas sim dar um significado pra ela.
Comecei a pensar: como significar algo que foi esvaziado?

Uma pintora consegue significar sua vida por meio da tinta, cada pincelada pode ser ensaiada ou improvisada, texturas, cores, profundidade, movimento…

Estou inerte como nunca
Ando uns passos pra frente
Mas retrocedo uma caminhada 
Pensei: é melhor ficar parada!

Olho ao meu redor 
Pessoas avançando
Buscando
Exercitando 
E eu aqui, vegetando

Minha mente tem algo de muito errado
Não é apenas um ato falho
Antes fosse um mero embaraço
Buscando algum estardalhaço
856

Comentários (3)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
farlleyderze

Sou editor da Microeditora Press. Se tiver interesse em publicar um livro, conte com minha Editora. Tenho o mesmo pensamento desse portal maravilhosos ESCRITAS.ORG, de difundir o trabalho literário e, sobretudo, sem interesses econômicos. Parabéns pelos seus textos, por nos brindar com a poesia, a emoção. Deixo meu contato pessoal: [email protected] Estou te seguindo lá no MEDIUM também.

Gabriel Andrade

espetacular!

stheportugal

Me senti dentro das escritas!