Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
preciso de um amor para me aliviar da solidão e da dor,
preciso de alguns sonhos para refazer minhas quimeras,
preciso de uma nova sinfonia para apurar-me os ouvidos,
preciso de um porto onde meu barco não naufrague,
preciso de herói que o meu está há muito morto,
preciso de um deus para me amparar a alma naufragada,
preciso de novo par de asas para me livrar das pedras das estradas, preciso, sobretudo e rapidamente, perder esse vácuo de mim.
190
LUZ E SOMBRA
Houve um tempo, nos soslaios dos ébrios caminhares por entre as imagens do mundo,
que singular força me precipitou a algo que imaginei ser uma luz.
E tal como as mariposas de retinas cegas buscam o fatal enlace à florescência das lâmpadas de néons;
da ampla e espúria circunferência de meu ego, lancei-me à vertigem de cândido brilho, com soberano desejo.
Foi então, com as híspidas aas espiralando-se ao chão, que aprendi que as luzes nem sempre são confiáveis, e que, muitas vezes, tiram das sombras suas tênues e virgens essências.
140
SEM RUMO
220
ALMAS E CORAÇÕES
Deviam-se se cuidar mais as almas e os corações com os sonhos nuvem, com os amores e ideais inexequíveis e com as esperanças exageradas nas imagens espraiadas por aí.
Sim, deviam-se cuidar mais as almas e os corações com as pedras e lamas aos chãos, com os espinhos de entre flores e folhas e com as adagas escondidas às mãos,
porque, às escolhas erradas, não mais sustentam as póstumas e voláteis palavras; porque, das ilusões antes projetadas, podem restar-lhes - às almas e corações descuidados - tão somente dolorosos, angustiantes e insolúveis descrenças fortificadas aos inexoravelmente secos e rígidos hiatos. RENASCIMENTO INGLÓRIO
Essa noite tive um sonho deveras estranho: havia-me, e a quatro titãs e a meus três filhos, todos a certa distância, entre planícies, montes e estranhos horizontes.
E eu via dos titãs as barcas trincadas, e eles viam-me com as asas machucadas, enquanto as crianças viam-nos admirados sem entenderem a nada.
Aos titãs - dois do gênero masculino e dois do feminino - eu via os olhares de fogo, os corações de pedra, as palavras-pluma lançadas e as mãos a esconderem fios de lâminas afiadas.
E eu lhes queria exterminar as frinchas que sabiam haver, mas que omitiam de suas barcas; e às crianças eu queria recuperar ainda intactas;
enquanto os titãs, com suas crinas inclinadas, suas poses heróicas, suas harpas mágicas e suas soberbias incontroladas, esparramavam imagens tão fascinantes aos mambembes espetáculos em que se apresentavam, que as iam deixando encantadas.
E não sei por quê, ficaram sabendo os titãs que, depois de mais uma vez ao limite provado, eu havia sido poupado do eterno reino apagado;
e, embriagados de ira, quiseram-me provar o maior dos erros e meu pior castigo: minha pequenez e minha morte viva na vã e vil jornada.
De repente, tudo se convulsionou: sobre terras, mares e reinos distantes riscaram os céus com asas ainda puras as crianças;
os titãs, em seguida, pousaram-se um pouco além delas, com suas barcas volantes; e eu me caí um pouco antes, com as asas realmente quebradas.
As crianças, então, ergueram-se puras; os quatro titãs passaram por elas, abreviando-se em dizerem que eu era um ser negro que decaiu em forma humana,
e que, uma vez mais, tinha escapado da ira inflamada dos deuses, os quais esperavam pelo justo acerto de contas;
e seguiram-se em meu rumo, deixando à passagem flores de todas as cores, e cheiros que perturbavam todos os sentidos das águias e das formigas que passassem por perto,
como dos pequenos que se confundiam por entre as florestas que plantaram entre delas a visagem de mim.
Quando apontaram na esquina de entre os tempos e espaços, estava-me soerguido e já de tudo conhecedor do que haviam dito
e feito ao disseminarem suas alvas figuras e seus belos, voláteis e eficazes verbos por entre as searas férteis das senciências e dos desvarios sapiens.
E então, vi quando as crianças iam-se trnando adultas, cada vez mais confusas, a caminharem por entre as flores e as árvores que foram plantadas pelas ruas, passeios e veredas da vida;
e tão confusamente que lhes chamei atenção para dois buracos sob meus braços erguidos, tentando lhes explicar o motivo de minha grande ausência
e lhes mostrar que não era - como lhes disseram os titãs - as minhas disseminações; mas que, como ocorreu comigo,
que se cuidassem, porque pela palavra e pelas ilusões de mitos e lendas criados é que poderiam incorrer as maiores quedas de suas vidas.
Sem ser ouvido, bradei, enfim: "Sou eu, seu pai, meus filhos; sou eu!"; enquanto se riram desdenhando os titãs que já lhes havia envenenado os puros sacrários.
Neste momento, pus-me a olhar a lendária barca, por onde sempre voavam essas criaturas, invertebradamente criadas por homens tão inglórios como eu;
e me caminhei a ela - à barca - com uma ira tal que deixava negro o chão por onde passava.
E me pus a destruí-la e a desmantelava quanto mais se riam os titãs e mais choravam meus filhos pela inconteste prova de minhas imanências abnormais e espúrias,
sem perceber que estava, assim, condenado pelo resto de meus tempos, a lutar e a me prostrar, mesmo na frente dos que mais amo, contra os reflexos avessos de mim mesmo.
117
ETERNA MÃE
Ele a perdera estando ausente, mas numa noite, meio enlouquecido, talvez pelo remorso de sua covardia,
quis encontrá-la novamente, e a qualquer custo; então saiu desnudado pelas rua, sob uma suave noite escura.
Acima, havia a lua a contemplar, de esguelha, a estranha cena e as estrelas se escondiam detrás das encharcadas nuvens.
Agora era ele, com seus 45 anos surrados, cansado e à sua procura dela: a perdida luz;
e viu, ao longe, enormes montes, em cujos itinerários haviam ainda mais sombras e abismos vazios.
Não era corredor, muito menos tinha a força de outrora, mas ainda assim pôs-se correndo a curso;
ao caminho, havia pedras e fantasmas terríveis que lhe atravessavam o caminho.
Quase, quase esvaído, pôs-se a cair uma espessa chuva, como que em doloroso choro vindo dos céus;
e sob a chuva - salgada - uma voz ressoou-lhe candidamente:
"Por que te sofres tanto e por que me procuras, se - mesmo daqui de tão longe - sempre estive com você, meu filho?"
173
MOSTRA UM ROSTO, E EU TE SERVIREI SOMBRAS JUNTO COM O VINHO DO PORTO!
Algo sobrevoou
diferente por este escuro
deserto hoje;
algo que
há muito me olha, como a todos
os demais espelhos que
aqui se afloram:
Algo que
sugeriu que eu fosse espiar pela janela,
o que imediatamente me remeteu à lembrança,
retratada por Platão,
da caverna;
algo que
me sugeriu um vinho tinto do porto
que me remeteu à ideia de má-fé já inicial
de um ser cujo nome faço
segredo;
algo com o estilo
de erros meticulosamente calculados
para dissimilar as ações que me remete ainda
a uma outra visão, da qual tambem
faço segredo.
Ana tivesse
viva, eu ainda arriscaria,
porque com Ana havia vida até
na morte fria,
mas, como
está ao apagamento definitivo,
eu, simples cão, não vou mais bancar
heróis, deuses ou vilões
adivinhões!
154
OS FANTASMAS!
Havia fantasmagóricas e silentes vozes, e risos, e choros, e saudosos amores, e desamores que ressoavam por aqueles esquálidos corredores em que me colocava a caminhar solitário nas madrugadas;
e era como se eles tivessem sendo obrigados a deixarem tudo para trás - após apagados -, promiscuamente misturados com as infindas e esplêndidas imagens proliferadas pelos ainda incauto andantes da vida;
e era como se quisessem - mesmo ausentes das senciências vivas e incapazes de com elas voltarem a interagir de alguma forma -
continuar ainda, agora de modo sempiternamente pueril, como templos depositários de comunhão, amor e esperanças;
e era como se eu os tivesse conhecido humanos e; agora, estranha e fidedignamente, sentisse-os como anjos em procissão e sofrimento em busca de alguma purificação enquanto caminham pelo espesso limbo.
Até que, por não sei por qual razão, fui novamente liberado de um tumor que parecia definitivo,
e, ao regressar para casa, a reparar pela viagem os movimentos das árvores, dos carros, das carnes e de invisíveis asas,
pus-me a lamentar minha própria sina, qual seja não lhes ser conveniente que eu fale;
mas antevi minha chegada entres os que esperavam por distante e longa ausência:
todos com as mesmas perguntas e com semelhantes recomendações feitas por enfermeiras, médicos e demais transeuntes do hospital.
Ora, que da parte lume não é difícil decifrar ao sapiens, uma vez que ele enche as bochechas, acentua as orelhas e aguça a visão, foi certa a previsão, exceto por uma coisa:
meus filhos diziam o tempo todo: "Papai, papai, você não vais mais embora? Você levar pra jogar bola? Você vai me dar um presente? Você me leva para nadar?"
Com o peito dolorido, um pouco de morfina ainda correndo às veias e a tosse insistindo em cutucar-me os pulmões,
decidi que sim; alheamente ao que falavam os visitantes adultos, a mulher e a filha já crescida.
E lá, enquanto nadavam, - abrigado a uma sombra de palmeira - Eu contemplava a puerícia e a sublimidade do ainda não se saber ser.
E o vento - como há muito não sentia, trancado que estava naquele prédio em que a morte parecia caminhar desdenhando moucamente dos moribundos -
confidenciava-me aos ouvidos: "Enquanto os adultos esqueceram, as crianças sabem.
Sim - talvez como também os fantasmas que te visitaram à crina de suas peregrinações, tenham redescoberto após suas passagens por aí -;
as crianças, em seus inconspurcos templos, realmente ainda sabem.
160
AS COISAS, E NÓS COM ELAS, PASSAMOS!
As flores se foram, os pássaros se foram, os sonhos se foram; as donas beijas e as senhoras puristas também se foram a andarem entre outros sonhos ___ e leitos por aí;
deixando tão somente o lamento final da vida a se esvair, solitária e angustiadamente, entre as palidezes das paredes e as silentes escuridões ___ das madrugadas.
Neste estranho cenário, parece haver outra coisa errada: enquanto padece o niilista em esperança de continuar sendo com suas projeções ___ falhas,
suas mãos choram inexequiveis vontades de a tudo eternizar em incontroláveis emoções súbitas ___ e em vivos versos,
que reflitam às retinas dos pássaros perdidos e dos que ainda voam com suas resistentes ___ e férteis asas.
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*