Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
entre as razoes dos sapiens e as vertigens de seus além-mares:
Bem, muito bem, eu não sei se sorrio ou se choro disso:
Aonde vou? Não sei.
Aonde vais? Com certeza absoluta não sera comigo!
159
É A MORTE
É a morte, a morte é que é, a morte de tudo em vida e a morte da própria vida;
é a morte, vinda por perda do amor do amante, ou da mãe, ou do pai, ou do filho, ou mais que tudo de si mesmo.
Sim, caríssimos, é a morte, ou melhor, é o medo dela que se anuncia por nossos fracassos ao caminho,
que dá combustível a essas nossas faustas atuações e fantasiosas vesanias entre deuses, anjos, demônios ou quentes corpos putos de outros ratos humanos.
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O ATAQUE COMO VÃ DEFESA
Por que atacas tanto meu amor, exigindo que eu seja como os filhas da puta dos anjos,
que moram com deuses e que têm tudo em seus paraísos secretos
- provavelmente, até vastíssimas promiscuidade entre paus e bocetas de asas sem que sejam elucubrados ou julgados em momento algum -,
se sou um simples humano, e ainda assim mais que eles, e mais também que os demônios,
e que, por isso, como você, meu amor, dissimulo mais por natural condição, mas também amo mais, amo muito mais,
muito mais,
que esses sublimes e fantasiosos anjos otários que inventamos e que ficam de plantão
a olharem todas as cenas ora desdenhando, ora se masturbando em fausto fogo idílico?
117
OS VELHOS MENESTRÉIS
Pobres de nós velhos, que pensamos dominar o mundo e regozijamos vastos conhecimentos da vida, e do mundo,
e da mentes, e dos corpos, e até abusamos da vantagem de ser velhos para angariarmos vantagens,
enquanto falamos de amor, de paz e promovemos guerras por aí.
Tudo isso só porque perdemos a capacidade e nos alegrarmos com figurinhas compradas no boteco da esquina,
para montar aquele álbum que cheirávamos como se fosse o melhor perfume que existia;
ou porque perdemos a capacidade de nos transformar naqueles heróis aos quais assistíamos quando crianças,
ou de tremer diante daqueles pares de pernas que desfilavam à nossa frente,
ou quando passávamos anel por entre as mãos das mocinhas e lhe poupávamos de queimadas bruscas no paredão,
só porque ainda tínhamos algo de tão puro e sonhador que nem os anjos mais promíscuos já sonharam ter.
160
NA MÃO!
Somente quem já não ficou a ver navios ou de pau duro em má situação, quando aquela pomba que dizia nos amar voou vociferando suas indignações,
ou quem já passou pelas sinuosas trilhas das estações sem os rígidos frios hiemais e as fluorescentes foices estivais,
poderia realmente falar, com direitos adquirido às horas mortas, das angustiantes e dolorosas quedas de meus voos sem asas,
dos estranhos marulhos de minhas enturvadas águas e das desarmoniosas cegueiras de minhas fluorescências fragmentadas.
198
O VERBO AMAR
Dizer que ama alguém só para fodê-la ou para mantê-la sob as rédeas da egolatria possessiva
é um dos mais bárbaros e imperdoáveis crimes que já vi minha vida;
é como disparar em dois alvos com um tiro só, atingindo a falsa crença do interlocutor
e a profunda sombra do próprio cerne.
140
FILOSÓFICOS
Dos bem traçados pensamentos filosóficos às repetidas orações de fervorosa fé, e aos adocicados versos de amor,
a maioria das coisas que costumo ler parecem escritas por covardes ou alienados.
E tudo bem que queiram passar a vida persistindo em grafar chãos e sombras pensando ser céus e luzes,
mas, quanto a mim, não mais posso me permitir escrever absurdas mentiras:
nunca fui digno, nem mesmo um pouco menos fausto e dissimulado que seja,
para me situar em outro lugar que não os destroços e os lixos de minhas próprias loucuras.
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SEM SURPRESAS
Ainda bem que já não me surpreendo mais com os menestréis, com os doutores e com os velhos puristas que habitam os píncaros urubuzeiros:
quando eu era jovem, diziam que minha geração estava perdida, e hoje repetimos o discurso de que a nova geração está perdida;
e nisso eles acertaram mesmo em cheio, porque todas as novas gerações estiveram perdidas no exato ponto em que envelheceram,
porque, quanto mais estudados e talhados a conhecimentos e experiências de vida, é que mais reinauguramos incautamente as casualidades do universo,
desafiamos o poder do átomo, criando mortais ogivas nucleares, decidimos pela guerra quando podemos escolher a paz,
e contribuímos, embora os esplendes discursos sejam sempre mantidos, para os ominosos apartheids entre raças e povos.
174
REGOZIJOS E SENCIÊNCIAS
Enquanto vos regozijais com vossas senciências por aí, digo que não há nenhuma chance ou esperança:
as casualidades morreram, as probabilidades foram aprisionadas e tudo foi recriado, inclusive os próprios destinos porvires;
Sim, enquanto vos rejubilais de vossas nobilíssimas e filiais origens, afirmo que não há absolutamente nenhuma esperança mais:
agora, a tudo o homem faz com uma cegueira tal, que lhes fizeram refém até aquilo a que chamam de Pai.
195
NUVEM ESCURA
Nuvem que carrega esplendores e tempestades, não sei exatamente quando perdi minha paz ilhada,
mas ainda me lembro de quando caminhava por uma estrada sinuosa e esburacada, e você chegou sem hesitar, toda alvissarada.
Ainda não tinhas a adaga nem o verbo afiado - eras só flores e sonhos esplendorosamente anuviados, que me davas com gosto declarado -,
isso veio depois, bem depois de andarmos por serras e montes elevados; e eu nem me lembro mais de quando nos caímos pela primeira vez, mas a terra tremeu sob meus pés e as sombras balouçaram às minhas madrugadas.
Até tentei fugir do iminente naufrágio, mas todas as portas e janelas já estavam fechadas, e a bela luz da morte de não sentir, de não querer, de não amar já havia inexoravelmente me abandonado;
hoje tomo meu café, fumo meu cigarro de palha enrolado e ando pelas avenidas dos vivos e dos mortos, com o pouco que de mim haja restado,
que todo o mais a ti também fora com mesmo gosto ofertado sob sóis e chuvas, às noites e às noites ausentes, entre as brisas e as tempestades ferventes neste incomensurável, mas ébrio amor degenerado.
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*