Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
As gentes sorrimos sonhos e conquistas fluorescentes, enquanto outros choram dores e angústias recorrentes,
em inexorável, ávido e cíclico vício de cultuarmos - com palavras, sentimentos e halos de pedras -
as incomensuráveis paixões pelas imagens, que florescem em nossos suntuosos e abnômalos umbrais.
190
DESORIENTADO
... acabaram-se
as certeiras lâminas verbais,
fizeram
greve as flores nos meus
carnavais,
saíram
todos a se incendiarem
em nuvens,
e eu fiquei,
desertificado com lembranças
do que nunca fora
como disseram:
hoje,
só ouço uma música
e só vejo uma rosa que, também,
provavelmente esteja longe
do meu modesto
alcance!
141
AO DESERTO
... um anjo
in vitro ao espelho avesso
se desfilou,
uma rosa
com pétalas negras
se mostrou,
a princesa
foi foder com marinheiros
de céus outros,
doutores
e até padres com sêmens
a benzeram:
anoiteceu,
a sombra lh chegou
e se lhe assentou entre a cinza
e a cal,
até que,
depois de muito tempo,
outra flor lhe
nasceu!
167
O PARADOXO DO SER
Há um querer cintilar, entre as espectrais coisas a que nos ligamos, com a vesania da mente e com o paradoxo da palavra que me incomoda.
Nas verdade, nenhuma metafísica, fé ou qualquer outra alucinação pode ser verdadeira, além de nossas idéias de que nos sejam.
Assim, nossas projeções e visões de tudo que nos cerca, ou do que abstratamente criamos, são-me tão aterradoras que superam o último ciclo do inferno de Dante, também, logicamente, inaugurado no teatro de nossas existências inconcretas.
Não gosto de ser extensivo diante de velórios, sobretudo quando ele dá sob cintilantes brilhos de alguns de meus irmãos apagados.
O estar tenuamente no meio das coisas (entendam-se: viver entre elas, e sem elas nada ser) de Heidegger; a condição inerente que o homem tem de poder fazer escolhas sob todas as circunstâncias, apregoado por Jean Paul Sartre; o Zaratustra e outros reflexos egocêntricos de Friedrich Nietzsche espalhados com sua assumida soberbia; e aquela estorinha fabulada, contada pelo ébrio pescador, alheio aos imperadores dos verbos, no botequim que eu freqüentava, têm todos suas relevantes verdades verbalizadas, diante, logicamente, das retinas de seus emissores e das idéias que têm delas os demais abnormais que as ouviram ou leram, em concordâncias ou não, uma vez que foram inauguradas e postas por e entre outros abnormais.
De fato não me parece possível exteriorizar em regozijos, contos, invenções ou quaisquer enredos que envolvam o verbum volat, sobre nossos semelhantes e as coisas entre as quais estamos, sem que mostremos reflexos próprios e de nossos semelhantes, ou vice-versa. Ou seja: não me parece plausível um fiel olhar diante do espelho, intrínseco, sem que se veja um pouco de nossos congêneres.
Isso coloca a faustidade do lume ou a verdade do ser como absolutas em suas existências anômalas?
Se tudo reflete de nossos cernes, parece-me haver um grande paradoxo:
Se emanado nos foi algo qualquer de qualquer ser, inaugurado foi, e haverá diante dessa nova gênese a idéia de que esteja certa ou errada, de que exista ou não. Mas sendo idéia que apreendemos do feito, passaram a haver diante de nossas razões sencientes seja para viver ou para morrer entre as demais criações do desalinho. Isso nos torna deuses apócrifos, em que nos tornamos despercebidamente.
Por outro lado, se no valsar concreto das coisas que há, adquirimos, em algum momento, a condição de nada mais emitir, criar ou expurgar com nossos lumes (ao que chamo: "apagamento"), abnômalos somos e, por essa condição nata, condenados a apenas ter idéias próprias das coisas (ao que chamo: "estar na ponte" ou "na grande barreira"), sem que elas sejam como a idealizamos, e sem que deixem de existir concretamente, ausentes nossas ideias do que sejam. E aí se configura a abnormidade singular da existência.
P.S. Assim seja diante de minha ideia do não possa ser, além da grande barreira, objeto de estudo dos abnormais citados e de tantos outros.
157
AMANHÃ, VESTIR-ME-ÃO COM AS CINZAS DA NOITE
... lembro-me
de quanto era criança,
despetalava
as flores brincando
e fazendo-as
morrer,
os pássaros
que eu pegavam morriam
ao meu bodoque ou
ao meu prazer,
as masturbações
corriam tenramente sem
a menor culpa
ou pudor:
hoje,
para se vingarem,
as flores se foram a outros
jardins,
os pássaros
fugiram a outros céus
e, por bater punheta, carrego
o peso de ser um puto
pecador!
178
À ESPERA DE UMA MANHÃ DE SOL
... não há
mais fonte,
o voo foi
amputado em pleno
ar,
o rio secou
em seu leito breu,
planto
estranhos versos
nesse recanto,
como se
isso pudesse me tirar
o veneno das veias:
mas uma Brisa
me sopra do infinito,
dando-me ainda alguma
esperança
de que
se cicatrizem as feridas
das vésperas e ressurja
um novo sonho!
133
EM CERTAS NOITES
Em certas noites, ela chegava tentando esboçar um sorriso amarelo como quem tenta levantar mil toneladas,
acomodava-se em silêncio e, de repente, começava a manusear o verbo volátil como um hábil malabarista de adagas afiadas;
e eu, espremido entre a tentativa de manutenção da calma e a entenebrecida vontade de reagir com o ego em chamas.
Sim, em certas noites - prolíficas em chuvas e sombras - não parecia ser ela que estava ali na minha frente, com o siso do ego inflamado.
Nestas noites, dava para perceber a dolorosa confusão que lhe havia entre paradoxais labirintos da mente,
como que perdida entre sinuosas trilhas de lava-pés tendo que decidir, sufocada e angustiadamente, que caminho tomar com relação a nós dois, que nos pendulávamos incautos entre o voo e a queda, o amor e a cólera, a loucura e a sanidade, a vida e a morte, enfim.
Sim, dava até para sentir os gritos de dor como que a pedir socorro, ao grande sonho de nuvens brancas que se iam tingindo de sombras nossas.
152
SEM A PAZ, CHEGOU A DEFINITIVA MORTE
Nuvem que carrega esplendores e tempestades, não sei exatamente quando perdi minha paz ilhada,
mas ainda me lembro de quando caminhava por uma estrada sinuosa e esburacada, e você chegou sem hesitar, toda alvissarada.
Ainda não tinhas a adaga nem o verbo afiado - eras só flores e sonhos esplendorosamente anuviados, que me davas com gosto declarado -,
isso veio depois, bem depois de andarmos por serras e montes elevados; e eu nem me lembro mais de quando nos caímos pela primeira vez, mas a terra tremeu sob meus pés e as sombras balouçaram às minhas madrugadas.
Até tentei fugir do iminente naufrágio, mas todas as portas e janelas já estavam fechadas, e a bela luz da morte de não sentir, de não querer, de não amar já havia inexoravelmente me abandonado;
hoje tomo meu café, fumo meu cigarro de palha enrolado e ando pelas avenidas dos vivos e dos mortos, com o pouco que de mim haja restado,
que todo o mais a ti também fora com mesmo gosto ofertado sob sóis e chuvas, às noites e às noites ausentes, entre as brisas e as tempestades ferventes neste incomensurável, mas ébrio amor degenerado.
118
IMANENTEMENTE FIRME
Sei que corro sério risco de vêreis egocentrismo no que vou dizer - e nem me nego tal imanência -, entretanto não mais me permito medos nesta breve jornada;
muito pelo contrário habituei-me a transitar entre a solidão, com meus fantasmas bastardos e com minhas imanentes sombras, como há tanto tempo tenho feito:
Raro me é tolerar, por muito tempo, alguém próximo sem que o chateie com meus fétidos suores e meus avessos reflexos;
e quando me perco a olhar rostos, pernas, peitos, vulvas e contos de fadas regozijados por anjos e demônios,
é prenúncio de naufrágio, não da humaníssima relação em si, mas do que de melhor se costuma perder quando também se perde a cegueira.
Antes seja, portanto, a inalcançável pureza dos sem-limites do que os escândalos e as quedas ao fim dos encharcados crepúsculos.
179
AS LUZES E SOMBRAS NOSSAS
Acaso a luz pode adentrar as profundezas côncavas de vossas sombras, para que continueis vos achando assim tão inocentes,
enquanto mal conseguis intransitivar o verbo às elucubrações e julgos proferidos aos dissidentes semelhantes?
Acaso já destes mais que um paus e uns trocados às putas em seus leitos mordacentos,
enquanto vos derramas em amores, lavores e sublimes ensinamentos junto a vossos amigos, esposas e famílias?
Acaso já vivenciastes de modo pleno, alguma vez que seja, o vasto limite das purezas divinas que vós mesmos inventastes
- e das quais tanto vos regozijais -,
enquanto vos escorres dissimuladamente com mãos, sexos, fantasias, insânias e verbos por recantos escondidos de graciosas obscuridades?
Ora, caríssimos menestréis e doutos formados em luzes artificiais; se já, então podeis atirar a este cão as piores pedras.
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*