Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
Preciso deixar claro que sou um cavalheiro quando abraço-se ao ritmo da valsa e sutilmente beijo-te a boca,
sim, sou um cavalheiro quando sussurro aos teus ouvidos palavras de amor,
e quando desnudo-te o segredo guardado entre as coxas, com a clara intenção de te levar ao êxtase e ao gozo.
Não obstante, quando chegam as chuvas, eu me declaro culpado de esquecer-me do singelo amor, das noites de fulgor e dos sonhos à nuvem;
e de carregar-te comigo, como um enegrecido anjo da morte, à beira de abismo profundos e vazios.
102
CAUSAS
Em bocas fechadas não entram moscas e marimbondos, nem saem palavras em turvas enxurradas;
em olhos fechados não entram fluorescências artificiais, nem se proliferam imagens retinadas;
às almas cuidadas, não entram pensamentos vagos, nem os cheiros de asas queimadas.
157
OS FILHOS DE DEUS!
Dizei-me padres, pastores e demais apóstolos da Palavra, vós que dizeis seguir aos ensinamentos de vosso deus,
e que tanto vos rejubilais de serem dele filhos à imagem e semelhança, pregando sublimes ensinamentos e angelicais posturas por aí;
qual seria a desnecessidade do mal, se isso implicaria, por inexorável consequência a morte de tudo contra o qual lutais com vossos discursos voláteis,
como também do próprio deus que fabricais como lixão para vos aliviarem de vossas espúrias e imanentes chagas?
169
INSPIRAÇÃO!
Andei refletindo e, realmente, não sei o que mais me inspirou a poesia emperdenida:
se tua alva difusa, regozijada a quatro ventos e mais outros, com teu ego espúrio;
ou se tuas sombras - que tanto lutas para manter omissas - a se escorrerem por cômodos secretos
e por varais onde pousam arcanjos inocentes e pássaros de paus duros.
115
ANJO MASCARADO!
Ela se esticava toda tentando definir o que era o amor só para que eu a cresse,
ou, quem sabe, com o intento de me fazer andar em linha reta ao exíguo sonho horizontal que imaginava;
enquanto eu tentava explicar a ela que o amor, caso exista assim tão sublimemente como dizia,
almeja o topo, mas mantém os pés ao chão rejubila com a luz, mas não nega as imanentes sombras, voa com a imaginação, mas resiste às recorrentes quedas;
ao que ela, irredutivelmente, não concordava porque queria amar - sendo como eu: humana - era a um anjo.
127
VIL EXISTÊNCIA!
Certamente que podes ter de tudo quanto queirais nesta vã e vil existência
- inclusive jogares tuas culpas e pesos às incautas costas dos outros -;
afinal de contas, é tua a particular senciência para criares e para lidares, a teus modos
e por tuas escolhas, com tudo que - aprazendo-te ou não - ao ego te sirva:
ora amando anjos, pássaros e sapiens puristas em paraísos figurados,
ora debatendo-se com demônios, vermes e ratos aos chãos enlameados,
ora abrindo-te as asas e as pernas para que qualquer um deles te coma a vulva extasiada!
183
NUVEM BRANCA!
Porque não nos é possível estarmos sempre na mesma nuvem branca,
porque não nos é possível bebermos sempre no mesmo cântaro de vinho,
porque não nos é possível andarmos sempre na mesma estrada pavimentada,
porque não nos é possível sequer nos tropeçarmos nas mesmas pedras afiadas,
é que precisaríamos nos amar sem elucubrações nem porquês, para que não nos percamos as asas.
154
CERCADO PELO DESERTO!
O deserto me cerca de todos os lados, corroendo-me com ferrugens
de vazios e nadas; quase que se me apagando, inclusive, o pouco que sobrou
dos pueris dezembros e natais, em minha perdida infância passados.
168
ILUSÕES
Por que ainda haveria de lhe dizer
ou de nos conjecturar juntos em algo,
se tudo está construído, inexoravelmente,
sobre uma tênue ponte de alicerces falsos?
179
TARDE MONÓTONA
Cheguei a casa aporrinhado naquela tarde, empalideci de imediato seu sorriso, fechando-lhe as portas e as janelas;
dirigi-me a meu pequeno quarto, onde havia livros, um som, uma cama e quase mais nada;
mas havia, dentro dos livros, estórias de mundos, e havia a música que se derramava em tudo, sem ocupar espaço;
e eu ali tentando me salvar de todas as coisas e de tudo que semeavam fora os grandes sapiens sencientes;
e o pior, tentando me evitar também o iminente naufrágio de todas as coisas e de tudo que se me confundia dentro.
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*