pontopidan

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Escrevo poemas e prosa. Advogado e Coronel da reserva da PMPE. Moro em Recife.

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A ÚLTIMA HORA

A ÚLTIMA HORA

Vai,

levanta a folha do vento

e confere os trilhos da tua existência,

não te espantes se vires brotar

leite de velhas mamas

e sangue nas pontas dos dedos.

Vai,

porque é chegada a hora

da última estrela morrer

em prol de uma nova galáxia.

Antes que faraó se arrependa

e mande soltar os cavalos,

antes que a noite petrifique as sombras,

antes que as crianças pereçam no mar da fome,

vai, vai, vai...

Talvez exista uma mulher

esperando pelos teus beijos,

talvez encontres um corpo sequioso,

ou mesmo um amigo pra trocar confidências,

Vai.

Não te importes com a chuva

nem com os cães que ladram nas esquinas,

segue em frente,

esqueletos de vidro não podem jogar pedras.

Aviso que os teus pés pisaram em brasas,

tuas mãos pegarão serpentes,

servir-te-ão pratos cheios de micróbios

e insetos crocantes,

mas afinal haverás de chegar a terra que te foi prometida

quando ainda não se ouvia o ar saindo dos teus pulmões.

Vai,

ergue o cobertor e contempla

os corpos dos homens retalhados por chicotes do poder,

contempla a imensidão de excluídos

caminhando a beira da estrada,

na espera de comida cair do céu.

E num ímpeto toda volúpia,

toda força,

todo querer,

todo ódio convergirá para um só ponto,

nascendo então a estrela

que brilhará mais do que o sol,

porque iluminará a alma dos viventes,

revelando para todos os pensamentos mais íntimos.

E a noite se fará dia,

os segredos serão desvendados,

o leão dormirá com a ovelha,

e o velho deus acabará seus dias

numa ilha ,

sozinho como um Robinson

que não é.

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Poemas

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POEMA EM CONSTRUÇÃO

POEMA EM CONSTRUÇÃO

Quando os teus olhos eu vejo

Desejo

Morrer nos teus braços morenos.

Ao menos

Terei um final para dar-te:

Amar-te...

E a minha história em parte

Contar-se-á junto a tua

Nós dois unidos, sob a lua,

Desejo ao menos, amar-te.

Quem pode desfazer o amor?

A dor.

Quem é capaz de guardar segredo?

O medo.

Quem entre vivos é mais forte?

A morte.

Por isso apelarei para a sorte

No lugar certo, na certa hora,

Mandarei para sempre embora

A dor, o medo, a morte.

Como se dará então o fim?

Quem sabe.

Resta apenas viver o momento.

O vento

Levará para longe o sonho

Tristonho,

E em meio ao pesadelo medonho

Nada será como antes,

Pois virá segredar aos amantes

Quem sabe o vento tristonho.

218

A ÚLTIMA HORA

A ÚLTIMA HORA

Vai,

levanta a folha do vento

e confere os trilhos da tua existência,

não te espantes se vires brotar

leite de velhas mamas

e sangue nas pontas dos dedos.

Vai,

porque é chegada a hora

da última estrela morrer

em prol de uma nova galáxia.

Antes que faraó se arrependa

e mande soltar os cavalos,

antes que a noite petrifique as sombras,

antes que as crianças pereçam no mar da fome,

vai, vai, vai...

Talvez exista uma mulher

esperando pelos teus beijos,

talvez encontres um corpo sequioso,

ou mesmo um amigo pra trocar confidências,

Vai.

Não te importes com a chuva

nem com os cães que ladram nas esquinas,

segue em frente,

esqueletos de vidro não podem jogar pedras.

Aviso que os teus pés pisaram em brasas,

tuas mãos pegarão serpentes,

servir-te-ão pratos cheios de micróbios

e insetos crocantes,

mas afinal haverás de chegar a terra que te foi prometida

quando ainda não se ouvia o ar saindo dos teus pulmões.

Vai,

ergue o cobertor e contempla

os corpos dos homens retalhados por chicotes do poder,

contempla a imensidão de excluídos

caminhando a beira da estrada,

na espera de comida cair do céu.

E num ímpeto toda volúpia,

toda força,

todo querer,

todo ódio convergirá para um só ponto,

nascendo então a estrela

que brilhará mais do que o sol,

porque iluminará a alma dos viventes,

revelando para todos os pensamentos mais íntimos.

E a noite se fará dia,

os segredos serão desvendados,

o leão dormirá com a ovelha,

e o velho deus acabará seus dias

numa ilha ,

sozinho como um Robinson

que não é.

218

BONANÇA

BONANÇA

Em meio à tempestade eis que surge

Das profundezas d'alma um tímido verso

De mãos dadas com a musa que refulge

Disposta a transformar todo universo.

Aos poucos sua voz de aço estruge,

O mar então se rende ao seu amplexo.

O sol recolhe seus raios; eis que urge

Navegar ao som de um tom diverso.

E se faz de ouro as vagas inquietas,

Pululam as borboletas, boquiabertas,

Ante o encanto de um canto mavioso.

E assim encontra o barco o ancoradouro,

Onde enfim descarrega o seu tesouro

O poeta e o seu verso poderoso.

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OFERTÓRIO

OFERTÓRIO

Venho te ofertar tudo de mim

Como prova de um amor insano,

Chego pleno, ousado e assim

Não digas amor que sou leviano.

Comigo trago uma rosa carmim,

Roubei-a de alguém num ato profano

Se estou louco não importa, enfim

O que vale é o meu amor soberano.

Cuja história se ouvirá muito tempo depois,

Sã ou insano, tanto faz; amada, pois,

Venho te ofertar tudo aquilo que me resta:

Uma ser que ainda chora, geme, e grita

Um coração transido que se agita

Um peito ardente e a alma em festa.

223

TELA NÚMERO UM

TELA NÚMERO UM

Na terra dos homens clonados
vi o avesso de um sorriso escorregar
para dentro de uma flor.
Havia tanques de aço esmagando
ossos ensangüentados de crianças famintas
e capitalistas queimando dinheiro na chama de suas paixões.

Vi um deus chorando a falta de adoradores
enquanto uma miríade de anjos rastejava
sobre um chão negro e duro como pedra.
Eles tinham as asas cortadas
e de seus lábios escorriam lavas incandescentes
que se transformavam em minúsculos diamantes
que os homens clonados jogavam no mar
para alimentar peixes de madeira

O avesso de mim elevou-se à altura dos meus ombros
e projetou na parede de um velho templo
as coisas que foram imaginadas sem nunca
terem vindo à existência.
Quis fugir mais os homens clonados não deixaram.
Do que tens medo?
Perguntaram ao mesmo tempo.
Quis falar, mas minha voz escorregou por dentro de mim
e fez explodir no peito uma sensação de impotência e temor.
Não tenha medo.
Agora eu ouvia a voz dos anjos de asas cortadas
que haviam parado de soprar diamantes.

As cenas na parede do templo eram invertidas
como o canto que saia da boca de meu avesso.
Lentamente, meu corpo envelhecido se rejuvenescia,
pois o tempo andava para trás.
A multidão de homens clonados estava sentada atrás de mim.
Parecia um bando de crianças a primeira vez em um cinema.

Em preto e branco voltei ao passado
até penetrar em uma noite chuvosa,
a beira de uma cabana onde habitava
uma morena de longos cabelos negros
que morria de saudade do amante
que havia partido
para colher pérolas no fundo do mar do Caribe.
A noite tomou a forma do espaço à sua volta
e as lágrimas da morena caíram no chão negro
da terra dos homens clonados,
formando um lençol prateado
que iluminou todo o ambiente.

Como em um sonho dantesco
vi os mortos queridos ressuscitarem um a um:
meu avô, meu pai, minha mãe, minhas tias e duas irmãs.
Meu avô mascava fumo
e tinha as unhas pretas da cor do fumo que mascava.
Minha tia Penha tocava acordeom
minha prima Rúbia cantava
Pra não dizer que não falei das flores.

O homem que mergulhava
no mar do Caribe chegou de repente na cabana
e abraçou a morena de cabelos longos.
A chuva aumentou e um forte vento arrastou
a noite para dentro de um tanque de aço.

Meus parentes se misturaram com os homens clonados,
exceto minha prima que, ao terminar a canção de Vandré,
começou a distribuir entre eles os fuzis
que os capitalistas haviam abandonado sobre o chão negro.
Então perguntei às minhas irmãs
porque meu pai e minha mãe não vieram
com eles do outro lado da parede do velho templo.
Os dois resolveram dar inicio
à outra geração depois que descobriram
que os novos filhos seriam nossos clones.

Fiquei triste com saudade deles,
mas não tive temo de chorar.
Viva a Revolução!
Viva a Revolução!
Gritavam os homens clonados dando tiros para o ar.
E marcharam sobre os tanques de aço
que se transformaram em poças de sangue.


O deus que chorava por falta de adoradores
era agora um simples militante
do exército dos homens clonados,
todos eles liderado por um homem de barba grande
e vestido com um uniforme de guerrilheiro.

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