Raimundo Candido

Raimundo Candido

n. 1957 BR BR

n. 1957-12-15, Crateús

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BODEGA

Às vezes, no rústico balcão

de velha tábua enegrecida

o tempo parava...

Às vezes, o vento passava

e o papel de embrulho acenava

convidando o cliente

a absorver o aroma

pungente de couro curtido

que se irradiava no ar...

Só a velha balança parada

com os pratos vazios

ponderava o que havia

de sabor no denso langor

de algo invisível a indicar

que a tarde se dissipava

pesarosa a chorar...

E quando vinha freguês

antonio, maria ou joão

de caderneta na mão

fiava o açúcar, a farinha,

num embrulho feito com arte

com dedos magros da mão

de um bodegueiro artesão!

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Poemas

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FASTIO

Ultimamente,

tenho carregado demasiado peso:

ausências indefinidas,

presenças indesejadas

e saudade de um doce sal

que jamais provei!

A vontade de conter o mundo

me franze as sobrancelhas

neste nevoeiro denso

a me reter num abraço.

Necessito verter um vômito

inorgânico que se acumulou

em minhas prateleiras:

aclamações induzidas,

anulações forçadas

e as crenças ilusórias

que retraíram meu ser!

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LENITIVO

Já viu... a sede no mar

e na fartura a fome?

Já viu... no claro dia um olhar

tateando sem luz?

Já viu... um sangue pulsar

fermentando saudade?

Já viu... uma alma gritar

implorando por ti?

Se não, olhe aqui:

– a minha fome...

– a minha sede...

– o meu vago dia

diluído em lágrimas

em desespero

suplicando lenitivo

a tua lembrança...

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