Ramon Carlos

Ramon Carlos

Ramon Carlos é coautor do livro estrAbismo. Escreve no site: www.estrAbismo.net. Tem materiais diversos espalhados em revistas.

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Perfil
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Hábitos

Acordar sobre pedras deslizantes
Trabalhar colares de dados no pescoço
Beber água de cirurgia
Adoçar o café dos cães
Descascar cebolas com tesoura de cabeleireiro
Palitar os dentes com uma foto de feto
Quando a morte chega, a vida não passou de um susto
Hábitos
Confeccionar fogueiras de laranjas
Violar molduras em quadros brancos
Soletrar canções indigentes
Exibir medalhas de chumbo em colares de dados
Esculpir um mudo na Torre de Babel
Quando a morte chega, a vida não passou de um susto
Habito hábitos
Tragar
Estragar
Crivar a noite de insanidade embutida
Poetizar a incoerência de um pardal na poeira
Fiscalizar o estado do gelo
Espantar um espantalho com espelho
Óbito
Quando a morte chega, a vida não passou de um hábito

Mais em: www.estrAbismo.net
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Biografia
Ramon Carlos é coautor do livro estrAbismo (Editora Viseu, 2018). Escreve no site: www.estrAbismo.net. Tem materiais diversos espalhados em revistas como: Mallarmargens, Amaité Poesias & Cia, InComunidade, LiteraLivre, Subversa, Philos, Escambau, Bacanal, Ruído Manifesto, Literatura & Fechadura, Jornal Plástico Bolha e Cidadão Cultura.

Poemas

14

libélula

a libélula de uma cor estranha
batendo asas de olhos fechados
eu falhei em contemplar tanta beleza
mas ela continua
está tão perto
que me espanta pensar em respirar
e espantá-la
não estamos conectados
estamos frios
dançando um tango estático
suas asas aceleradas fazem um som ininterrupto
vupt, vupt, vupt, vupt, vupt
rápida como o laser da animosidade
vácuo vago
chacina empírica
vivemos na velocidade da vida
mas fomos ultrapassados pela morte
respiro fundo e a libélula não se move
nosso quadro sem pintor
cuspiram nosso momento íntimo
ela mantêm-se em equilíbrio com o ar
eu vendi o futuro de três pessoas
vupt, vupt, vupt, vupt, vupt
minimizo os detalhes
agonizo nas possibilidades
demarquei um território inóspito
onde sangue é ingrediente para o alivio
esse inseto rodeia plantas verdes em formato de coração
talvez queira um daquele tamanho
talvez encare aquilo como bundas em pé
vendi o futuro de três pessoas e não ganhei nada
pelo contrário, pago até hoje
minha libélula não sabe disso
desconfia
mas sou tão grato pelos momentos
que me recuso tentar cortar suas asas
então de olhos fechados
nos despedimos
e voamos baixo, unidos
pra lugar nenhum
227

Metástase

A carta na manga
Com o assovio desfalcado
Dilacerando os espaços dos dentes
Assim se curva o desprovido confete mercúrio
Ao se deparar com Críton sonâmbulo
Ajustando a ferradura da fuga
No cachorro Bartolomeu
A carta na manga
Como uma imensa lamúria aos pés de Péricles
O choro que o mar despertou e jorrou
Por entre as antigas cantigas de ninar
Que assustaram primos, ao ponto de vê-los estáticos
Nos seios fartos da tia Melinda
A carta, a manga
A fivela e o coração de vaca
Aspirante ao título de jovem audaz no cemitério voador
Aspirado pelo prepúcio de Zeus
Tornando-se gêmeo siamês do Holocaustrofóbico
Caem paródias, caem sonetos, caem morcegos
Miro a recém formada imagem do cabeça de porco
Vou até Boccaccio, sucumbo à peste 
Me vejo dentro da marmita do besouro
É feijão, arroz, carne e alface
O sabor é delirante se não mastigado
Está calor, úmido, e a rua parece investigar seu passado
Empresto uma nota de dez
Durmo duas horas
Descongelo a geladeira
Estendo as roupas
Prescrevo meu dia
Como sempre,
Pela última vez
241

Miríade

Quietos
Recebo uma baforada de cigarro na cara
E logo após, uma risada branca, iluminada
“Hahahaha, vi Oz!”
Não reajo
Não tiro os olhos da sombra
Na parede
Os botões secos dos lírios mortos
Criam essa face
Soprando um apito
“Vi Oz! Tenho um pedido!”
O vento balança o pote cheio de terra
Os lírios estão mortos mas dançam
O apito cai da boca
Volta pro nariz
A sombra jorra um líquido
O homem é banguela
E careca
Mesmo assim canta
Sem encostar a língua no céu da boca
“Tem o quê?!” Pergunto
“Tenho um pedido Oz”
Quietos
As roupas estáticas no varal
Trégua
O apito na boca
“Qual pedido?”
“Quero que mate uma barata”
No outro dia
Enquanto meus cabelos caíam
No chão do banheiro
E uma barata era velada
Dentro do lixo
Enrolada num papel higiênico
Eu lembrava daquela face
Apitando conforme o vento
E cantando sem tocar a língua no céu da boca:
“Os navios partiram deixando as âncoras
Somente quando quiserem atracar
Saberemos o peso delas”
277

Poemarcenaria

Quando as veias apertam
O martelo bate o sino
E o sol nasce
Gracioso 
Como borboletas no sal grosso
Quando as veias rasgam
O escárnio é doce
Como um favo leproso
E o sol se põe
Entre mercadorias baratas
Sócrates suicidou-se por acreditar na justiça
Jesus pensou tanto crucificado 
Que coagulou sangue na boca
Vestígios nos sons do telhado
Morte lenta a criar raízes
Nas marmitas do absurdo
Teatro de uma cena congelada
Piada contada em bocejos
A lua nasce dentro de um chupão
Navega nas cerâmicas do peixe
E ri nos relâmpagos de um vulcão
A pena
Há pena
Apenas
Casacos cheios de furos dos cigarros
Consórcios
Com sócios
Labaredas do suicídio coletivo
O papagaio grita:
“Existe vida na gaiola, existe vida na gaiola, existe vida na gaiola”
Novamente o despertador é programado
E se acorda um minuto antes
Do poema

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243

vivendo em vórtex

um muro
pula
se pendura com as pontas dos dedos
ergue-se com dificuldade
espia
sacode as pernas até subir
olha o horizonte
com pose de estátua
salta
corre segurando a chave no bolso
tilim tilim tilim
tem moedas na carteira
outro muro
acende um cigarro
repete o feito do muro anterior
outra estátua cinco minutos mais velha
olha embaixo dos pés
tem um curativo ortopédico grudado no sapato
retira, gruda as moedas e a chave 
para cessar o barulho
salta 
corre piscando um olho só
outro muro
outra estátua 
outro cisco
outro oponente de mesmo nome
pergunta
por acaso não nos vimos já no décimo primeiro muro?
que muro?
ultrapassa 
sabe onde quer chegar
corre, corre, corre…e espia
pensa
se Deus existe é problema dele

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260

Sobre nada

Mesmo que o grão disseminado 
Conteste a singularidade do plantio
E a terra em desuso 
Combata o florescer obscuro 
Delírios ácidos acentuarão
Debalde, a irrigação nos poros
Latentes em cada movimento 
Mesmo que imortalizar os vícios
Signifique simpatizar a paranoia
Ramas plácidas infinitas
Ainda codificarão o instinto
E os pressupostos doutrinarão a culpa
Se os sapos tivessem asas
Não bateriam com o traseiro no chão
Sempre que pulam 
Mesmo que as pupilas dilacerem o razoável
E as bigornas sirvam de peso para papel
Alguma coerência ainda restará
E vibrará como uma víbora
No forno aceso
Jogar fora a própria vida 
Significa usá-la da melhor forma
Mesmo que confrontar medo com medo
Seja um blefe da consciência
A confusão enrijece o apetite
Por tudo que se ganha sem razão
Admita que sempre foi hipócrita!
Sendo hipócrita, como posso admitir?
Ousar ou usar
Se em qualquer momento da minha vida 
Eu depositar toda minha esperança em alguém
Então podem ter certeza
De que perdi a esperança
Mesmo que nada seja atributo de tudo
Tudo que se escreve sobre nada
Sobretudo
Sobre nada, esse poema
Não quer dizer tudo
Um peixe de sobretudo
Nada nada
Em seu aquário

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260

Trapaça

O tempo perdido, uma prostituta de fundo falso
Lowell, como um gambá, traçou minha garota
Mordeu minhas costas, roubou meus poemas
Fugiu acenando e confessou-se
Numa tribo que comia minhocas
Essa vizinha nova insiste em desligar meu ventilador
Enquanto durmo ao lado das latas de tinta
Ela diz que se quisesse ouvir um vento artificial
Teria sopro no coração ou uma buzina nos mamilos
Com um tiro de sinalizador dentro da boca
Reivindico o direito de ficar calado
Até que a sorte nos separe
O rabo do lagarto
Contorce-se mais solto
Do que unido
A sobrevivência preserva a toca
O rabo do lagarto
É um batom vermelho na ponta do alfinete
O rabo do lagarto
É a segunda descarga no banheiro público
Poeira e carvão no marfim inalado
Eu estive longe nessa semana longa
Absorvi o mínimo do ópio
Que as vozes viciam
Minhas cinzas grudaram nos dejetos
O  tomate pela metade
Atirei nas costas do gato
Que cagava na sacada
Agora me faz falta


Poema encontrado no livro "estrAbismo" (Editora Viseu)
https://www.eviseu.com/pt/livros/622/estrabismo
261

Homeoprático testamento do voyeur analítico dos ecos urbanos

Já assisti, ao lado da margem
Onde aves de grande porte
Bicos compridos e negros
Pernas altas e secas
Observam os jacarés das costas reluzentes
Com pingos de amarelo
Boiarem na exatidão do tempo
Como se o homem fosse, enfim
A trégua do caos
Com máscaras de carne
Eu vi, eu vi
Peixe enroscado na rede do pescador
A terra molhada tem outro sabor
O coldre do vento chamou-me
Olhei para trás
E a avenida que liga duas ilhas
Caiu sob meus pés
Todo seu ouro fermentado nos relevos da subordinação
Abutres no campo de centeio
Sentei-o
Meu desprazer em forma de mácula
Homeoprata
Que palavras foram aquelas?
Que gritadas diminuíram o corredor da morte
Muros desabados e pedras marcadas pela água
A sereia ceifoi-se
Deixando uma trilha imaginária
A quem não lhe pertencia
Fez sol hoje
E a caricatura de Deus sorriu
Eu vi, eu vi
A cortina balança
Ergo a cabeça
Tem dois olhos ali
Um gato preto sentado na minha janela
O que ele quer?
Entrar aqui?
Há tantos lugares melhores para estar
Ameaçadoramente estático, menos o rabo
Dou de ombros à sua presença
Acendo mais um cigarro
Sigo o ventilador por duas voltas
Com o pescoço meio pendido para à esquerda
Vou até a sacada e sento no chão
Horário de verão
Claridade 20:00
Têm dois olhos ali, ali, ali e ali
E aqui
Observando observado
Ecos urbanos
Os jacarés deram sua sentença
259

Ritmo sincronizado

Continuo sendo essa equação de solidão
Que soterra paladinos
Em puro ostracismo vulgar
Para além das manias pueris
O preço dos meus dentes está caindo
Correspondências sem meu nome entopem a caixa
Tem Teresa, Rogério, Camilo e Adriano
Com intimidades bancárias
Paulo Roberto assinou TV a cabo
Regina lembrou-se de Alceu
Impossível esquecê-lo
É o imbecil que emprestou-me a chave de fenda
Alceu recebe cartas de Regina e tem uma chave de fenda minúscula
Já daria um ótimo marido de aluguel
Orgulharia o presidente
Não a mãe
Nem minha namorada, Gilmar é seu marido às vezes
Ele sim tem uma bela chave de fenda
Aliás, tem um jogo inteiro delas
A carne e o detergente estão em promoção nos panfletos
Retiro somente um da caixa do correio
Não tem meu nome, mas também não tem nenhum outro
Por Deus, a única coisa realmente útil que tenho na pia do banheiro
É uma loção para hemorroidas, e nem ao menos posso usar
Porque não incharam ainda
Nem caíram pra fora de mim
Penduradas, sabe
Talvez eu devesse doar para o carteiro
Já que nem um cachorro tenho pra ele
O fogo que era azul agora derrete minhas panelas
Insisto em observá-las pingando
Só assim me interesso por química
Parece besteira, mas decorei a tabuada
Quem sabia podia sair da escola antes
Capitais nunca soube
Sempre um dos últimos a sair da aula de geografia
Minha professora de ciências tinha um belo rabo
Como não consigo lembrar seu nome?
E por que não esqueço o nome da professora do pré?
Alice, meu primeiro corpo impossível
Bobagem, não era carnal, era amor
Afinal, toda criança de seis anos era capaz de amá-la
Obrigada a amar aqueles cabelos lisos e sua pele lívida
Que sorriso, que voz, que cheiro absurdo
Será que ela me amou tanto como eu a amei?
Possivelmente, meus seis anos foram meu auge
Tolerância
Tolerar
Ser tolo
Arder em areia fina
Marchar na poeira molhada
Dormir em um copo
Acordar em um corpo
Singelamente possível


Poema encontrado no livro "estrAbismo" (Editora Viseu)
https://www.eviseu.com/pt/livros/622/estrabismo
253

Zoometarquia

Chinelos vermelhos
Tramas na geladeira
Quinta da carne
Terça das verduras
Papai e mamãe perderam a posição
Há sangue nas gavetas
Quarta do frango
Sexta da cerveja
Há umbigos roçando desonestos
Cristina chora no quarto escuro
Ao lado da goteira, afirmando:
“O mundo perdeu-se por andar em círculos”
Domingo teatro
Segunda folga
Feriados, sacolas cheias de água
Chico empresta dinheiro para a esposa
Com juros abusivos
Há um frasco de remédio vazio
Pendurado como um guarda-chuva
Na hélice do helicóptero
Urubus são anjos que deram certo
Sábado
A colheita, a colheita, a colheita
Dias, sabores
Quinta da carne
Terça das verduras
Kama sutra além do livro de receitas para colorir
Ingredientes sem giz de cera
Carnes, verduras
Tramas na geladeira
Chinelos vermelhos
O palhaço do semáforo
Após deixar seu nariz de plástico cair
Embute:
“Contudo,
Com nada
Se perde tudo”
Eu deixei as moedas em casa hoje


Poema encontrado no livro "estrAbismo" (Editora Viseu)
https://www.eviseu.com/pt/livros/622/estrabismo
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Comentários (1)

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Anderson Piva

Muito bom.