rubenpais

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Poema em Branco

Há dias sem memória.
Flutuam sorrateiros no calendário,
esses dias brancos como o algodão amargo,
brancos como o sal e com um travo salino, também.
São como um coágulo na artéria da vida,
sim!, um fio de algodão coagulado em novelo
na manta quase confortável que nos envolve,
um pouco quente de mais e áspera no pescoço, esta manta da vida.
AH, TIREM-ME ESTA COMICHÃO!
Quem nunca teve esta sensação de comichão incontrolável
que parece escapulir-se por todas as frinchas do corpo,
escondendo-se até quase a esquecermos e, quando a olvidamos,
lá está ela altiva, arrogante, presunçosa.
Aquela comichão incontrolável que parece vir de um certo foco,
mas quando coçamos nesse ponto percebemos
que não era ali a origem
e temos de coçar o corpo todo até perceber
de onde vem aquela cócega, e há ainda
uma unha mal limada que insiste em dilacerar a carne
e raspa, coça, coça, raspa, coça, coça, coça
e a carne é já carne-viva
e a pele é comichão-vida.
Dizem-me os meus avós e os meus tios que não se deve coçar,
mas há dias tão comichosos e salgados
que eu, como um bacalhau estendido,
fico o mais parado e rígido possível.
Assim, a comichão não se sente, mas
basta um pequeno gesto ou movimento,
basta ouvir o zumbido de uma pequena abelha,
basta ver um pássaro voando alto no ar
- um condor, ou um com comichão -
para a MALDITA SENSAÇÃO RETORNAR.
Tivesse eu sempre quem me coçasse as costas gentilmente,
com unhas de seda maravilhosamente aparadas e polidas
e bem-cheirosas e sensuais...
Quem sabe, até onde me coçariam?
Até onde se atreveriam a chegar?
E valerá a pena o risco?
Há gente com unhas tão mal-tratadas.
Unhas podres, acabadas e bolorentas.
Unhas feitas de velcro, da parte mais rija,
aquela onde colamos a parte fofa.
E, mesmo que as unhas sejam suaves,
se eu tiver no comichão no rabo
quem é que ma vai coçar?
O melhor mesmo é deixar passar os dias brancos, lentos...
Talvez um dia me atreva a pegar numa caneta
e a esboçar a preto um rabisco, ou umas palavras,
neste dia branco, folha de papel.
Talvez esse dia seja hoje.
Aqui me quedo, inconsolável, incoçável.
Neve, nuvem, dente-de-leão,
espuma do mar, pomba, pus,
cal, vestido de noiva,
osso, sémen
folha de papel virgem.
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Poemas

4

Pedra basilar

Perdi a peça
do canto do puzzle.

Costumo começar sempre
pelos quatro cantos,
depois as bordas todas,
até que estas se encontrem,
peça a peça...
peça a peça...
primeiro dois a dois,
depois os quatro, entre si.

Por vezes apercebo-me
que a distância que previ
entre cada um dos cantos
era absurda e comicamente
errada.
O puzzle só expande
quando começa a ser construído,
vai expandindo, dilatando,
até que as peças de encontrem
como membros apartados
de uma grande família.

Perdi o canto inferior esquerdo.
De todos os cantos, é logo o mais importante.
Diria até que é a peça mais importante,
pelo menos no início,
porque no fim,
a faltar uma peça,
não importa muito qual.

Perdi dias de sono
até me conformar,
e então,
com toda a coragem reunida,
com o coração cheio de garra,
construí o resto do puzzle,
peça a peça...
peça a peça...
até faltar apenas aquela.

Não sei se pendure um puzzle
com uma peça a menos
na parede da sala,
se pinte em papel o que ali falta,
se o tape com um candeeiro de pé alto
para ninguém se aperceber da falha,
ou se o defaça
e volte a arrumar na caixa.

É.
Talvez seja melhor arrumar.
Sinto-me triste...

Triste pelo tempo que perdi
a construir o puzzle,
que podia ter sido melhor aproveitado...

Triste pela pessoa que me ofereceu o puzzle,
que nunca o verá concluído quando me visitar
e pensará que não gostei da prenda
ou que não gosto de puzzles...

Triste pela minha gata a quem neguei colo,
que fechei noutro compartimento
com medo que me engolisse uma peça
ou a enfiasse por baixo de um dos móveis...

Triste pelos meus pais que fizeram um filho
tão desastrado
que é incapaz de guardar um puzzle com cuidado...

Triste pelo mundo, pela condição humana,
que leva gente como nós a morrer de fome
do outro lado do mundo
ou na rua que evitamos atravessar
todos os dias
e mulheres e negros a ser tratados
abaixo de homens e brancos
e destina poetas
a falhar na vida
e que leva meninos bons
a virar homens maus
e homens bons a fazer actos maus
e incompetentes como eu
a perder a peça mais importante
do seu puzzle...

Triste pelos filhos que irei ter um dia,
que irão viver num mundo
tão cruel,
tão austero,
que se sujeitarão eles próprios
a perder a peça do seu puzzle.

Peça a peça...
peça a peça...
até a pedia, se soubesse a quem.
256

Herbanário

Dizem-me:
Não pises a relva!
E eu não piso.
Não por me importar
com os sentimentos
de quem a plantou,
nem sequer com os
de quem dela trata
e muito menos com
aquilo que pensam de mim.
Não piso a relva
porque me importo
com a relva.
233

Folhas cadentes

E finalmente, por esta manhã, talvez todas as folhas tenham regressado às suas árvores.
Talvez os ventos soprem amenos e a chuva já nem molhe
e a urze resplandeça nas encostas da loucura
enraizando-a na esperança que um dia o sonho a tolhe.

E amanhã, por esta hora, ainda o solo seja um deserto
que perdeu a aridez e o ardor
e do qual cada grão de areia
seja uma ideia,
um rumor.
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Amor de escola

Amor de escola,
amor de verão.
Sejam férias eternas,
não deixo escapar
o aperto da tua mão.

Amor de escola,
amor eterno.
Os teus lábios doces
não parecem gretar
nem no mais frio inverno.

Amor de escola,
amor-perfeito.
Não descanso os olhos
senão quando encosto
a nuca ao teu peito

Amor de escola,
amor daninho.
Cresceste-me discreta,
fermentaste-me na alma
e agora és o meu vinho.
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