sakutchatcha

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Escritor, Investigador, Conferencista e professor.

Perfil
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NOSSOS MORTOS

Os mortos que matastes são nossos
Deiam-nos a nós, por favor moços!
Tragam-nos, embora apenas ossos
Não os façam viver mais alvoroços
Sob degolação de seus pescoços
Pois é a morte o último dos troços

Queremos enterrar nós os nossos mortos
Estaremos deles a espera nos aeroportos
Para recebê-los sãos com digna dignidade
Em vez de vós profanando nossos filhos
Sacrílegos e donos de toda crua maldade
Pois de vez vedastes seus futuros trilhos

Tragam os nossos mortos mortos agora
Emporcalharemos nós as mãos com terra
Bastou nos dizimarem nesta vossa guerra
E para nós está sim na derradeira hora
De para eles erguermos a digna sepultura
Segundo nosso costume, nossa cultura

Basta de prender sem fé vozes caladas
Seu silêncio não chia, nem mesmo na aurora
Porque por mais que sejam tanto guardadas
Suas almas perderam significado e honra
Rompestes vós de súbito seu vital império
E tragam seus corpos já não há mistério

Onde então pusestes os nossos mortos?
Atirados ao mar a partir dos vossos portos?
Incinerados corpos e profanadas suas almas?
Como nos pedem ter paz e bater pra vós palmas
Se o assassino foi legalmente amnistiado
Sem algum dia para nós se ter desculpado?

Nós temos mortos que a nós pertencem
E esses mortos só a nós mesmo interessam
E estes mortos em nós não nunca perecem
Pelos nossos mortos as lágrimas não cessam
Até que se cumpra o nosso mais desejo
Que tudo termina após o fúnebre cortejo

Nossos mortos não vos darão sono
Suas almas são agressivas como colono
Profetizo: credes, por nós jamais dormireis
Porque em cada noite pesadelos tereis
Até recebermos os nossos magnos mortos
Quer em dia ou noite, eles rectos ou tortos

Estamos a espera fiéis e resistentemente
Para gritar-vos sem parar diariamente
Até vós nos cederdes as suas ossadas
Pois que as carnes já andam todas devoradas
Pela vossa maldade, vossa crueldade e teimosia
De quem com eles nada guardando-os fazia

Enviem os nossos mortos agora por favor
Não preguem unidade sob a nossa infinda dor
E nem nos apraz saber onde vive a reconciliação
Com nossos mortos postos ainda em prisão
Sem pequena gota de humana sensibilidade
Quando algures exortais tolerãncia na maldade

Nunca tocamos os mortos vossos
Mas vós privastes-nos dos nossos
Será tanta a vossa maldade
Que supera a vossa vácua idade?
Todos aguardamos os nosso mortos de vós
E após recebermos calaremos a nossa voz

Entreguem-nos os nossos mortos!

In "Silêncio Forjado"
Ler poema completo
Biografia
BIOGRAFIA DE FELISBERTO NDUNDUMA SAKUTCHATCHA

Felisberto Ndunduma Sakutchatcha, popularmente conhecido por Mestre Duya, nasceu a 7 de Junho de 1986 em Ganda, Município da Ganda, Província de Benguela, de nacionalidade angolana. Foi neste mesmo ano, em Outubro que foi baptizado na Igreja Católica, na Paróquia S. João Baptista da Ganda.
Aos 5 anos de idade, isto é, em 1991, foi levado das terras de Epale (Ganda) onde morava com os pais para o município do Cubal a fim de morar com o irmão mais novo do pai e por sinal  seu chará, mas sem inserção na vida escolar. Passados poucos meses no Cubal  foi internado no Hospital da Nossa Senhora da Paz (Chambungo)  onde foi diagnosticado com a enfermidade de sarampo. Após o tratamento retornou com os pais à Ganda, que vinham para o Cubal simplesmente para o seu acompanhamento durante o internamento na citada unidade hospitalar.
Continuando a morar com os pais na aldeia de Epale na Ganda, após as primeiras eleições angolanas de 1992 mudou-se para a aldeia de Kavili, povoação de Cacombo, comuna da Babaera, município da Ganda, isto é, em 1993.
Foi inserido no ambiente escolar aos 9 anos tendo frequentado a iniciação em 1995 e consecutivamente a 1ª classe em 1996, pelo que, após o reacender dos conflitos armados o qual afectou intensamente a zona em que residia, foi assim que em 1998 foi forçado a migrar para a sede municipal da Ganda a procura de segurança e melhores condições de vida junto dos pais.
Em Fevereiro de 1998 já se encontrando na Ganda com os pais deslocou-se para o Cubal a fim de residir novamente com seu chará e prosseguir com os estudos, tendo sido matriculado na Escola Primária 10 de Dezembro, sita no Bairro Casseque.
Em 2000 quando estava a frequentar a 5ª Classe, por motivos de conflitos familiares dentro do casal com que morava no Cubal, o que originou mesmo uma separação vi-se abandonado numa casa sozinho e escreveu uma carta para seu pai na Ganda, pelo que em resposta, o pai solicitou ao irmão (seu chará) a sua transferência para a Ganda. Foi assim que no dia 14 de Abril de 2000 viajou à pé do Cubal à Ganda sob tutela de sua irmã mais velha, já que a guerra impedia a movimentação de carros na estrada. Sem quaisquer prejuízos, continuou seus estudos na escola do II Nível 14 de Abril da Ganda, tendo assim concluído esse nível de ensino em 2001.
Em 2002 iniciou por frequentar a 7ª Classe na escola do III Nível Major Saidy Vieira Mingas da Ganda, a qual não chegou de concluir por novos conflitos familiares na Ganda, em que seus pais ficaram envolvidos como vítimas de uma perseguição supersticiosa, sendo que os mesmos conflitos lhe obrigaram a migrar outra vez para o Cubal. Só em 2003 retomou os estudos, mas já na Escola do II e III Níveis Ilídio Machado – Cubal. Assim, em 2004 concluiu a 8ª classe na mesma escola.
Sem apoio familiar e morando sozinho, não pude ingressar no Ensino Médio por falta de meios económico-financeiros que pudessem permitir a continuação da formação e pôs-se a frequentar cursos e aprender profissões, tais como: Mecânica de motos, literatura, jornalismo, entre outras áreas informais. Aos 22 de Agosto de 2006 mudou-se para o município de Caimbambo a convite de um empreendedor que lhe contratara para balconista de sua cantina, onde presteou serviços até 21 de Novembro de 2006. Após a rescisão do contrato por encerramento da empresa criou a sua micro-oficina de motorizadas e geradores eléctricos na qual passou a trabalhar até a primeira metade de 2009.
Em 2008 após a abertura das turmas anexas da Escola do II ciclo de Formação Geral de Benguela no Caimbambo, iniciou por frequentar a formação média, tendo como opção a área das Ciências Físicas e Biológicas. Um ano mais tarde (2009) abandonou os trabalhos de mecânica e criou um investimento com que abriu um pequeno estúdio denominando ETC Produções.
Em 2010 ingressou na função pública, especificamente na carreira docente no município de Caimbambo como professor das disciplinas de inglês e Literatura, apesar de ter passado primeiramente como funcionário da Repartição Municipal de Educação, Ciência e Tecnologia (2010-2013), depois na Escola do Ensino Primário da Missão Católica (2013-2015), seguindo-se em 2015 a Escola do II Ciclo do Ensino Secundário BG8100 de Formação Geral de Caimbambo, onde frequentara o ensino médio.
Em 2011 concluiu o Ensino Médio e no ano seguinte (2012) ingressou no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED) da Universidade Katyavala Bwila em Benguela, especializando-se em Ensino de Língua Inglesa e tendo assim concluído o plano curricular ano em 2015.
É actualmente dedicado à docência, investigação científica, oratória e artes (literatura e cenografia). Estão em carteira várias obras em diversas categorias literárias bem como trabalhos de carácter científico.

Resiode actualmente na cidade de Benguela com sua família.

Poemas

3

TODOS SABEM DELA

Ela tem somente seios delas
Usa também luz branca de velas
Sofre tormentos pagando o fruto
E também dela se empossa o luto

Ela anda descalça nas colinas
A empregar no rosto as lágrimas
Que os olhos doridos despejam
Sem encontrar o que desejam

Ela tem também coração de nós
Ergue também a sua humilde voz
Quando a natureza lhe pede
E se for um amor último, ela cede

Ela é somente uma mulher
Que tudo possível sabe fazer
Doa vida, amor, e sua integridade
Dá tudo até a sua personalidade

Mesmo assim, mas mesmo assim
Ela tem sim, um grande futuro ruim
O passado das coisas determinou
Seu fim, que hoje alto a humilhou

É somente mãe que tem o filho
Agarrado nas algemas do pó
Enterrado em alma, e o trilho
Em que passava ficou só, só, só!

Ela hoje anda toda desgraçada
Velha no pensamento sequioso
Ouve apenas as vossas gargalhadas
E lastima segundo o vosso gozo

Assume ela de coração o escárnio
Que seu filho recebe dos ídolos
E assiste com seu coração singelo
A todo meu irrecuperável encómio

Mas não deixou de ser a mulher
Que para todos vós bem quer
Ela transpira amor e jorra carinho
Extraindo o mal do vosso caminho

Porque ela sente sentimentos
Que vossas mães sentiram no dia
Em que se fez em somente alegria
O vosso inopinado aparecimento

Mas ela hoje deplora, deplora mesmo
É o que ela sente por vós no seu imo,
Mas sabe que seu filho vai regressar
Ao mundo que o viu feliz a chegar

Ela planta montante de alegria de dia
E colhe negrura logo quase tardia
De sua alma pendurada no terreiro
Onde jaz a minha felicidade, seu viveiro.

In "QUANDO NUNCA AMANHECE A GENTE PERECE"
112

FOI AQUI

Foi aqui onde vi o abraço da paz
Erguido no orbe do povo que jaz
Na orquestra da sua alma serena

Aqui nasceu o abraço humano sagaz
Que desabrochou a saudade amena
Nesta cidade nada grande, pequena

Foi aqui que revimos o olhar antigo
Desde aquela nossa luta de libertação
Aqui é onde cada um se fez novo amigo

Nasceu de novo aquele abraço e canção
Que nos livrou de todo mortal perigo
Que acabara por dizimar a nossa nação

Foi aqui que a paz ergueu sua antena
Foi aqui sim, aqui mesmo no Luena



In "SONETOS 100 MORADIA"
126

NOSSOS MORTOS

Os mortos que matastes são nossos
Deiam-nos a nós, por favor moços!
Tragam-nos, embora apenas ossos
Não os façam viver mais alvoroços
Sob degolação de seus pescoços
Pois é a morte o último dos troços

Queremos enterrar nós os nossos mortos
Estaremos deles a espera nos aeroportos
Para recebê-los sãos com digna dignidade
Em vez de vós profanando nossos filhos
Sacrílegos e donos de toda crua maldade
Pois de vez vedastes seus futuros trilhos

Tragam os nossos mortos mortos agora
Emporcalharemos nós as mãos com terra
Bastou nos dizimarem nesta vossa guerra
E para nós está sim na derradeira hora
De para eles erguermos a digna sepultura
Segundo nosso costume, nossa cultura

Basta de prender sem fé vozes caladas
Seu silêncio não chia, nem mesmo na aurora
Porque por mais que sejam tanto guardadas
Suas almas perderam significado e honra
Rompestes vós de súbito seu vital império
E tragam seus corpos já não há mistério

Onde então pusestes os nossos mortos?
Atirados ao mar a partir dos vossos portos?
Incinerados corpos e profanadas suas almas?
Como nos pedem ter paz e bater pra vós palmas
Se o assassino foi legalmente amnistiado
Sem algum dia para nós se ter desculpado?

Nós temos mortos que a nós pertencem
E esses mortos só a nós mesmo interessam
E estes mortos em nós não nunca perecem
Pelos nossos mortos as lágrimas não cessam
Até que se cumpra o nosso mais desejo
Que tudo termina após o fúnebre cortejo

Nossos mortos não vos darão sono
Suas almas são agressivas como colono
Profetizo: credes, por nós jamais dormireis
Porque em cada noite pesadelos tereis
Até recebermos os nossos magnos mortos
Quer em dia ou noite, eles rectos ou tortos

Estamos a espera fiéis e resistentemente
Para gritar-vos sem parar diariamente
Até vós nos cederdes as suas ossadas
Pois que as carnes já andam todas devoradas
Pela vossa maldade, vossa crueldade e teimosia
De quem com eles nada guardando-os fazia

Enviem os nossos mortos agora por favor
Não preguem unidade sob a nossa infinda dor
E nem nos apraz saber onde vive a reconciliação
Com nossos mortos postos ainda em prisão
Sem pequena gota de humana sensibilidade
Quando algures exortais tolerãncia na maldade

Nunca tocamos os mortos vossos
Mas vós privastes-nos dos nossos
Será tanta a vossa maldade
Que supera a vossa vácua idade?
Todos aguardamos os nosso mortos de vós
E após recebermos calaremos a nossa voz

Entreguem-nos os nossos mortos!

In "Silêncio Forjado"
191

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