Ouço sobre conquistas, independência, empoderamento, autossuficiência,
Respeito todas essas coisas, fruto do trabalho notável de grandes pessoas,
Vejo também como constatação cruel de que o sustento único, não basta,
Hoje o casal precisa abrir mão da proximidade dos filhos para alimentá-los.
Enquanto fala em liberdade, providenciei asas para os seus próximos vôos,
Apesar de não precisar, peço licença para cuidar como uma criança frágil,
Acho notável a coragem para fazer mil coisas ao mesmo tempo, namorar,
Dizer que não precisa de ninguém, por já ser feliz, pequena alma inocente.
A vida deixa as pessoas tão duras, quando percebem, já perderam o brilho,
Gastam os melhores anos atrás do mesmo conforto que sufoca suas almas,
A maternidade, colocam no armário enquanto a carreira decola, esquecem
Que esse tempo é um ciclo que não volta, perdê-lo é morrer bem devagar.
A mulher não depende mais do homem, parece com ele, no melhor e pior,
O homem se permite a cuidados que não tinha, sensibilidade incorporada,
Entre tantas mudanças, apaixonam-se por quem as entende, às vezes elas,
Quero dizer com a maior sinceridade possível, vou cuidar tão bem de você!
289
QUINTA-FEIRA
Meus olhos choram o mar quando penso que ele já levou muitas vidas,
Quem sonhou águas tranquilas e se deparou com ondas intimidadoras,
Não sabe ainda, mandar que elas obedeçam aos sinais, dores e medos.
Sempre guardei segredo, temendo que ele ouvisse, que se aproveitasse
De qualquer fraqueza, qualquer insegurança, desta criança livre e pura,
Que estendeu as mãos, que trouxe o verão, que ofereceu sua amizade.
Já é quinta-feira e o barco partiu como proposto, com gosto de navegar,
O vento se engraçou pela vela, bela, envolta apenas nela e dela quis mais,
Acariciá-la por vezes, agitá-la demais, fazê-la seguir para onde se recusara.
E veio a aurora, quando a noite selou a tarde e sem alarde te avistou feliz,
Não era a sua primeira vez, mas, era como se fosse, tamanha a descoberta,
Tamanha a oferta de gemidos e sussurros, de gritos que já não eram de dor.
Foi quando se deu conta que era hora de voltar, de aceitar que acabou,
De contabilizar o que restou depois de tantos naufrágios e presságios,
Era só você, a porta destrancada e um frio gostoso na pele e na alma.
361
O AMOR POR UM TRIZ
Acordo cedo, procuro a foto, será que ela parece com o sonho?
Quando penso em carinho, sinto meus pés deslizando na areia,
Minhas mãos tocando o rosto, bagunçando o cabelo, movendo,
São impulsos que fariam um moinho girar, alguém ressuscitar.
Penso em um lugar, cachoeira, lareira ou esteira, é muito mais,
Uma jóia rara, uma boa companhia, quem diria, o dia chegaria,
Cerveja ou vinho, um apartamento novinho, tudo é aconchego,
É deixar o medo do lado de fora da porta e crer no tempo certo.
Olha o livro aberto, o rio que passa perto e que sabe até cantar,
O pomar que ficou mais cheio de fruta, a gruta que vi se erguer
Entre girassóis e camélias, entre idéias que passam como avião,
Como embrião de um relacionamento que já existe aqui dentro.
De tanto armazenar amor, os celeiros estão cheios, como seios,
Recreios onde se pode amamentar um pequeno pedaço de ser,
Eu me sinto privilegiado, alguém abençoado, a vida quer sorrir,
Mostrar os dentes mais brancos, pelos flancos, um beijo surgir.
292
O VENTO NÃO PERCEBE A BRISA
No começo tudo era lindo, o seu pai na calçada
O muro ruindo a três quadras da minha casa
O ônibus subindo e eu sempre atrasado
Quanto entrei afobado, meu mundo parou
E dando tudo certo, eu sempre quis você na minha vida
E ela aturdida te acenou na multidão
Quem sabe você me dê alguma pista
E encha então de paz o meu coração
No domingo sessão de cinema, eu sentado ao seu lado
A pipoca caindo, me deixando encabulado
Num gesto inusitado, apoiei o dedo em sua mão
Ela aninhou-se por baixo e um beijo selou
A herança que eu trago desse dia são duas maravilhas
É por elas que eu vou atravessar o turbilhão
Foi duro ter que abrir a porta da saída
Agora vou seguir sem direção
E se tudo der errado, saiba o vento não percebe a brisa
E ela, por sua vez, vencida, se perde no furacão
Quem sabe ainda exista uma fagulha viva
Mas, sei, choveu demais neste verão
275
INTUMESCIMENTO
Sinto a eletricidade, sangue novo nas veias, as meias foram costuradas,
O pé já reconhece o chão, o pão já chega ao estômago e os olhos riem,
Estamos prontos e excitados para a aventura, de ternura nos vestimos,
Sentimos que é o momento exato de romper o hiato que nos paralisou.
Somos a criança, o adolescente, o jovem expoente de seu tempo, tudo,
Menos cadeira de balanço, porque ganso é que costuma ficar sentado,
O dia deve ser regado a vinho, rostos rubros externam seus excessos,
Que às vezes são convenientes, sob medida, cabem doses de loucura.
Você queria companhia, agora tem, valentia e coragem só fazem bem,
Quem nunca precisou devia conhecer a adrenalina de estar sem freios,
Sem rodeios me beijou e a mágica aconteceu, que venha o jantar farto,
O quarto mal pode esperar, o lençol mais afoito, resolveu se desnudar.
A água morna do banho não relaxa se encaixa a vida, o sonho, o gozo,
Mas, é gostoso vê-la escorrer, satisfazer este instinto natural, profano,
Engano acreditar que arrefeceu os anseios com os seios intumescidos,
Os tecidos já não cabem mais nos corpos que se descobriram quentes.
286
DOMADOR DE LEÕES
Você desperta a paixão, enquanto eu domo os leões em mim,
Porque os dias são maus, porque as naus devem partir enfim,
É o que dizem os astros, mastros a postos, rumo aos confins,
Território de ninguém, esta terra de águas, dos claros marfins
Saqueados à luz do dia, não corroborando à divina harmonia.
Apresento o santuário dos medos, dedos entrelaçados a orar,
Súplica que atravessa o ar e que o céu pode alcançar e ecoar
No ouvido da Divina Providência, como um salmo ou antifonia,
Como o canto, misto de lamento e encantamento, pode gritar
Até que o semblante inabalável repouse sutilmente neste olhar.
Indelével sentimento quer torturar quem aceite, se deixe levar
Por esta nuvem que precede o atoleiro, o timoneiro a titubear,
Sina onde administro o caos, degraus que me obriguei a subir,
Mas, pude avistar um diamante gigante, bem ao lado, um rubi,
Coração enorme que não dorme sem antes, cada dor subtrair,
A paz, o último estandarte do mártir, com seu sangue a esvair.
355
DESPRETENSÃO
Sinto o sol bater na janela enquanto o seu contato aquece tudo por dentro,
Com esse jeito meio desbocado, infantil, sempre querendo me fazer sorrir,
Produzir tenros frutos que a amizade gera, qual a mãe, deveras cuidadosa.
Não importa se pela voz, perfume, presença, pelo roçar do cabelo de anjo,
Esbanjo a alegria que vem desse amor, desse abraço que aperta e estala,
Feito pipoca na panela, feito a alma leve que resvala no chão e repica alto.
Seguimos por caminhos separados, mas, que se esbarram com frequência,
Mesmo em dias de indolência, quando o frio deveria frustrar idas ao parque,
Fazemos desembarque na Praça dos Porquinhos, é próximo ao portão seis.
Gosto dessa gente feliz que transita entre jardins, bicicletas, patins e skates,
Que abre a toalha, faz piquenique, adora pegar um instrumento e sair por aí
Empunhando o sax, o violino, violão, um playback, soltando a voz para valer.
Este circuito, que nem imaginava percorrer toda a semana, veio para encher
A vida com as cores que saltam da tela, com o pé que erra, se suja na terra,
Com este beijo despretensioso, que você ainda não sabe se recusa ou pega.
334
CORDÃO UMBILICAL
Eu carrego uma dor que é feito terra arrasada, vida abreviada,
Cordão umbilical que se corta e é como se estivesse grudado,
Chuva que o vento leva, mas, tanto insiste, termina por voltar.
Tenho rios que não param de correr porque olham para você,
Um mundo cheio de cores, mas, que ainda não conhece o sol,
Um velotrol empoeirado como os porões, salões, minha alma.
Para que buscar razões, a vida é tão insana, só falta de grana
Não justificaria a inquietação, tudo é tão louco, já estou rouco
De tanto explicar, mostrar que não há motivo para separação.
Decisões assim são traumáticas, lunáticas como as emoções,
Quero mais é sair do atoleiro, cruzar o canteiro, livre ser feliz,
Como é bom dar o primeiro choro de vida e conseguir respirar.
Quero mais é tirar dos peitos o alimento, todo o meu sustento,
Aninhar-me neste colo enquanto amolo, quero tanto continuar,
Quem sabe depois de um sono, finalmente viveremos em paz.
378
BOM-BOCADO
Seu carinho é manhã que nasce e clareia tudo, quero acordar com ela, contigo, Viver o risco de acostumar com o doce antes do salgado, gostoso bom–bocado, Que não enjoa, coisa boa que só me faz bem, aglutina almas, me faz seu refém Com ar de desdém, de quem já sabe que rege tudo ao redor neste ritmo próprio. Óbvio que não será fácil, melodias complexas requerem mais suor na execução, Misto de técnica e paixão, paciência, aderência a coexistências mais singulares, Perdidas entre olhares que se buscam em todos os lugares e alheias ao mundo, Transformando medos em cortinas de fumaça frente à iminência de um furacão. Veja o tempo implacável, irredutível com seus muros de proteção, toda arguição Desmentida pelo beijo sorrateiro, desejado, sem rumo, agora visitante costumaz, Que de tanto fez como tanto faz, quis ser mais que uma simples, bela divagação, Repousou no coração, tão acostumado a viver com o pouco que lhe destinavam. Redesenhado o viver enlouquece, se esquece que acumulará mil compromissos, Ri do novo início, homéricas confusões, corridas de bastões que vivem no chão, Aos que já tenham passado por isso, desatino juvenil, bagunçado e pueril, sorry, O cabeça de vento quer consertar mas, segue amando a causadora de tudo isto.
314
BEATRIZ
Esse sorriso preguiçoso fica ainda mais gostoso se perto quer chegar, Já sabe que não precisa de convite, a minha porta fica sempre aberta, Na certa, você já percebeu o quanto é aguardada, basta aqui chegar. Fiz malabarismos, contorcionismos, paguei micos, por sorte sobrevivi Ao silêncio cortante dos dias, madrugadas frias a espera de um sinal, Afinal, toda resistência encontra sua motivação, essência para seguir. Alimentado por acenos da musa, reclusa em sua rede, parede digital, Mero mortal aprendendo a navegar no mundo louco, peno um pouco, Até desvendar as senhas, criptografias, fotografias tão lindas do perfil. Não posso falar mal de aplicativos e julgá-los nocivos, até superficiais, São atalhos sensacionais para quem aceita exposição e sair do porão, Aventurar-se neste mar de pessoas sem par, só um antídoto à solidão. Quem sabe se desfaça da distância, haja consonância durante o jantar Para lembrar, ao olhar da pessoa à minha frente, o que ele bem sabe, Que pode se tornar freqüente, presente que me permita desembrulhar.
Ania, querida! Muito obrigado pelos carinhosos elogios, apesar do tanto que me falta melhorar e que sigo em busca. Tenhas dias lindos e inspirados!
ania
Poeta, bom dia! Obrigada pelo carinhoso comentário ue me ensejou teus versos ler. Li alguns, e todos a alma me tocaram pelo lirismo, pela sensibilidade, parabéns! abraços, ania..