Esse sorriso preguiçoso fica ainda mais gostoso se perto quer chegar, Já sabe que não precisa de convite, a minha porta fica sempre aberta, Na certa, você já percebeu o quanto é aguardada, basta aqui chegar. Fiz malabarismos, contorcionismos, paguei micos, por sorte sobrevivi Ao silêncio cortante dos dias, madrugadas frias a espera de um sinal, Afinal, toda resistência encontra sua motivação, essência para seguir. Alimentado por acenos da musa, reclusa em sua rede, parede digital, Mero mortal aprendendo a navegar no mundo louco, peno um pouco, Até desvendar as senhas, criptografias, fotografias tão lindas do perfil. Não posso falar mal de aplicativos e julgá-los nocivos, até superficiais, São atalhos sensacionais para quem aceita exposição e sair do porão, Aventurar-se neste mar de pessoas sem par, só um antídoto à solidão. Quem sabe se desfaça da distância, haja consonância durante o jantar Para lembrar, ao olhar da pessoa à minha frente, o que ele bem sabe, Que pode se tornar freqüente, presente que me permita desembrulhar.
285
AURORA
Que graça maior pode existir além desta simples oferta de amor, Onde o nascer do sol não finda, onde linda, divide o seu melhor, Entre atropelos, excesso de zelos, novelos desta vida atribulada, Que se embaraçam, aquecem, como seus braços entre os meus. A frágil presença, feito a formiguinha carregando folhas gigantes, Ombros que suportam este mundo, respiram fundo e caminham, Porque o inverno promete ser mais rigoroso, não há maior gozo Do que um cantinho acolhedor para guardar e proteger os seus. Agora livres do perigo, da desconfiança que balança a sua lança Mas, não fere, apenas confere, livre acesso a quem ousou e deu Um largo sorriso, aquele que transpareceu, quando chovia forte, Quando o único norte era contemplar solitárias rosas de inverno. Num impulso quando o pulso não se conteve, viu um céu aberto, Viu que estava perto o que buscara entre nuvens tão carregadas, Tão propensas a raios, soslaios que a sua timidez adiou de vez, Ao menos era isto que pensara até que pressentiu a primavera.
288
A FESTA
Eu sei que é por demais estranho, um absurdo sem tamanho, mas, Não sei desligar, não consigo parar de pensar, de sentir e de sorrir, Como quem viu passarinho verde, como quem joga a rede e pesca. A conquista mexe com o ego, bagunça tudo, rejuvenesce, cria clima, Enquanto a alma esquece, o tempo tece seu melhor momento, favor Que merece mais que gratidão, retribuição, bom uso e compreensão. A distância permite que eu segure a sua mão, concede uma canção, Nossos corpos percebem como são, não escondem, apenas gostam, Fazem das fotos, estradas, dos vídeos, pousadas e se deitam a sós. Nossos versos se misturam e a sopa de letrinhas mexeu bem pouco, Louco foi o querer desses seres, que sem juízo subiram além da lua, Conclua o que quiser e, salve-se quem puder, o assunto é se divertir. O amor da adolescência vira a cama do agora e, sem demora, aflora, A flor do jardim vira jasmim, realça o carmim da boca e, quer seduzir, Agora, ouça a festa pela fresta que resta, que hoje, ninguém dormirá.
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LIMÃO AZEDO
Olhei mais de mil vezes a folha em branco, depois que vi e também ouvi Cada frase sua musicada no ouvido, o som preferido de agora em diante, O sorriso dominante e o último retrato, para o caso de você querer postar, Ali perto da cama, antes de dormir, rezar, talvez, é incerto, me acomodar. Tenho respirado muito ar puro, além desse muro, é tanto pó, é tanto mal Que a alma não merece, esquece não de me ver, torço para não chover, Só não pode querer mais que eu, já me convenceu, talvez, queira adotar, Qualquer cantinho serve, a minha verve voltou, dela não lembrava mais, Deixa eu mexer no cabelo, fazer um apelo para que vivamos dias de paz, Que sejam águas tranquilas, que sejam vilas com famílias todas do bem, Quem sabe eu seja o trilho para você correr sem medo, um limão azedo, Que você adoçou, remoçou, já não tem perigo, só um amigo ao seu lado. Peguei toalhas para o banho, se quiser companhia, não tenha vergonha, Tá todo mundo dormindo, eu nem estou pedindo, mas, adoraria o convite, Agora não tem pé descalço e não tem percalço que não se possa reparar, Que não falte pão na mesa e, que a certeza do perdão nos ensine a amar.
375
LAMPEJO
Quando a dor aperta no peito, você chama de saudade eu de lampejo, Quando cede um beijo, cede ao desejo que não foi capaz de controlar, Se falam que é química, digo que é mímica, balé que sabemos dançar, Tecnicamente é sexo, mas, acho mais complexo, um convite para ficar. Se comentam que estou pegando, vou retrucando, digo que é a paixão, Sussurraram que estamos de quatro, mas de quatro é só uma variação, Perguntam se não estou mais saindo, é que esta fluindo a empolgação, E querem saber se isso passa, digo passa, só esperar uma encarnação. Foi meio um acaso, destino, o acidente de percurso, um último recurso, A cantada efêmera que soou legal, um pega geral que grudou, não saiu, Não acredito em sorte, mas, a morte deve ser não rezar para acontecer, Já decorei seu telefone, todo seu nome, seu corpo, antes que o retome. Agora que o papo ficou sério, ando meio aéreo e pulo sem paraquedas, São essas coisas de perder o medo, de jurar segredo, não se aguentar, Quem sabe seja a fórmula duradoura, manjedoura salvadora, é só amor Da forma mais simples, sem requintes e, como ele se apresenta melhor.
313
BAILARINA
Era só um passeio despretensioso, como os que visam gastar o tempo,
Em um momento qualquer, como que saltando aos olhos, estava você,
Na ponta dos pés, de vermelho, curvada para trás, obstinada, que linda.
Ah, essas fotos falam de lua de mel, eu nem sei distinguir jazz de tango,
Ledo engano eu imaginar que os braços que te sustentam são os meus,
A dança que aconteceu aqui dentro de mim, não consegue transparecer.
O que sinto em cada passo leve, em cada breve expressão do seu corpo
É que todas as artes se unem, celebram a vida com os seus movimentos.
O escultor nasce de cada coreografia e o ator se apossa dos seus gestos,
O músico pulsa e marca o ritmo, enquanto o poeta já escancara sua alma.
Somente o pintor enxergou a pose, a musa, o fotógrafo capturou seu vôo,
O cineasta resumiu longos ensaios celebrando o sonho que você não viu.
Nós estamos aqui, depois dos aplausos e percalços, depois do pano subir,
Entre suores, dores e flores, restam a admiração do fã e a luz da bailarina.
346
AMARRAS
Nunca desejei mal a ninguém e não seria agora que o faria,
Sei que já existe alguém, se me visse lá fora, será que viria?
Persigo idéias, você bromélias, camélias, as cores do jardim,
Gosto do ar, do pomar, até de invariavelmente estar contigo,
Faz tempo, um carinho, vinho, o imponderável, inimaginável,
Ficou pelo caminho, no Minho, está lá no quintal de Portugal.
Já estive melhor, estou acometido por lembranças e danças,
Típicas e regionais, do gosto das uvas, conheci o lado frugal.
Uma viagem é realmente uma imersão na cultura, a procura
Às vezes vem acompanhada de surpresas, cravas e presas,
Fica tudo tridimensional, visceral, seria só o último encontro,
Mas, a partir deste ponto, eu não conto com a menor lucidez.
Olhares no saguão miraram direções, as nossas são opostas,
Não há mais perguntas, nem respostas, só fraturas expostas
E vida que segue, só regue se quiser ver florescer, conhecer,
Quem sabe da próxima vez, eu encontre a porta destrancada.
388
ALGODÃO DOCE
Quando risos se mostram e encostam em bocas felizes, poderíamos definir como êxtase?
Quem sabe seja apenas um ponto de vista, uma pista do quanto tem sido bom o convívio,
De como é possível deixar coisas para trás, consentir em que o novo estabeleça seu lugar,
Já passei do tempo de ter pressa, essa coisa de olhar eu deixo ganhar corpo naturalmente.
Agora que bateu fundo, não posso negar, já presto atenção, acompanho cada movimento,
Seguro a excitação e aguardo correspondência, uma freqüência agradável, a sintonia fina,
Aquela coisa divina que surpreende os sentidos, que torna as nuvens familiares, os bares
Já não se resumem aos copos cheios, sua companhia ilumina tudo, tão bom te encontrar.
Percebo o barulho da chuva no asfalto, o seu salto pode escorregar e, talvez seja a deixa
Para um abraço mais demorado, para ver incinerado esse cuidado, vejo as asas baterem,
As roseiras tremerem enquanto seguimos à fronteira e você diz quem terá o passe livre,
Quem beberá a cuba libre, gim, uísque, tanto faz, solta a música que o show será nosso.
Sempre acordo cedo e, mesmo com tudo revirado, a sensação é da mais perfeita ordem,
Os cães fingem que mordem, eu finjo que doi, você respira tranquila, sua cara é de paz,
Dá tempo de preparar um café, de repassar a vida, constatar que a espera foi justificada
Por este rosto dão doce, meu algodão doce, pode levantar, já aprendi a sonhar acordado.
323
MMA
Nesta guerra de provocações, convido para que escolha as armas,
Quem sabe as marcas se tornem medalhas e somente sobreviver
Não signifique necessariamente a vitória, motivo de estupefação,
Há quem morra de prazer com sorriso nos lábios, sábios negarão.
No underground, apenas um round na base do ground and pound,
Próxima técnica será surpresa, cartas na mesa, veja a esperteza,
O aparente domínio não significa extermínio, exerce um fascínio,
A montada é gigante, tipo de elefante, bastará enxergar adiante.
Na situação adversa, quem tira um coelho da cartola, faz escola,
Se não pede esmola, ficará na sarjeta, escapou feito um cometa,
Segure essa treta, abriu a gaveta, agora é salve-se quem puder,
Se queria uma colher, ganhou o prato cheio, é só partir ao meio.
Se tem pegada mais forte, posicione o quadril, derrube o arredio,
Caindo com a guarda passada, é só evitar a raspada com o suor,
Trabalho incessante, é deixar o adversário inoperante, só faturar,
Mesmo o bicho mais bravo, engole o travo e dará os três tapinhas.
301
MORTE ANUNCIADA
Um dia eu vou morrer de tanto pensar, de tanto escrever,
Até dei de tocar, cismei de cantar e não consigo entender,
Se está tudo bem, sem mais, porém, ponho tudo a perder,
São ciclos disformes, vazios enormes, começou a chover.
É tanta inundação, tanta embarcação cortando as ondas,
Por onde andas, meu bem, meu amém termina em você,
Minha linda, a dinda que todo mundo sonhou, aí fechou,
Só dá um alô, que eu passo um café, venha hoje, se der.
Uma noite irei ressuscitar, por cansar de morrer e sofrer,
Até levantar uns trocados, assustar no halloween, enfim,
Está tudo bem, vamos pegar o trem e pedir uma cerveja,
Chame o garçom, mande encher a mesa, bora lá beber.
Quando cansar de loucuras, vamos falar bem mais sério,
Moramos no mesmo hemisfério, hora do namoro render,
Quero tanto ser pai, gêmeos, mesmo boêmios, pode ser?
Fica assim não, vai dar tudo certo, já podemos começar?
Ania, querida! Muito obrigado pelos carinhosos elogios, apesar do tanto que me falta melhorar e que sigo em busca. Tenhas dias lindos e inspirados!
ania
Poeta, bom dia! Obrigada pelo carinhoso comentário ue me ensejou teus versos ler. Li alguns, e todos a alma me tocaram pelo lirismo, pela sensibilidade, parabéns! abraços, ania..