Sheila Gomes de Assis

Sheila Gomes de Assis

n. 1977 BR BR

n. 1977-01-18, Santos

Perfil
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D OUTRA VIDA

Guardas em minh'alma o sentir de outra vida
O 'deitar e o despir' como último suspiro;
Ressurreição desencontrada e homicida
Embarga o amor a quem respiro

Guardas em minh'alma, a 'intacta conhecida'
E o amor inebriante a qual refiro
Grandeza e certeza possuída
Dos poemas escritos em papiro

Guardas em minh'alma, a nunca despedida
E a dor de sabê-lo... como um tiro
O elo quebrado e a saída...

Guardas em minh'alma - eu confiro
Memórias, sonhos d'outra vida
Segredos de amor em vão retiro...

Guardas em minh'alma, a dor já esquecida
Juras de eternidade em suspiro
E a missão de continuar em vã partida.
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Poemas

16

Quando houver uma fada em meu rosto e uma fantasma em minh alma

Ah... Quando a minha vida se amputar
E no corar a clorofila da partida vier sem luvas...
O adeus de cavar areias e fazer castelos será eterno...
Ah... Quando o canário cantar
O amarelo desespero de suas penas o deixará calvo
E o céu cairá sobre o mundo...
Ah... Quando minhas mãos se entrelaçarem
E os meus olhos fecharem...
Um corvo voará sobre o féretro
E gritará uma dor embutida
Sobre os relâmpagos que restarem...
Uma roda de anjos que me rodearem
Lutarão com os gigantes escritores
Que vencerão - e colocarão meu coração em moldura
Ah... Quando o perfume das flores
Invadirem a lua cheia de soluços
Luzes multicoloridas dançarão em tudo
E as ondas dos mares causarão dilúvios...
Ah... Quando o tule branco cobrir o meu corpo
Se alguém tocar com sublimidade o meu rosto
Uma lágrima deslizará sobre a minha face
Ah... Quando o portal do além se abrir entre fumaças
Tom Jobim tocará uma bela canção no piano
E uma poeta anônima de cabelos longos e vestido vermelho
Desfilará no coquetel das celebridades, entre anjos, santos e diabos...
Ah... Quando este dia chegar...
Haverá uma fada em meu rosto
E um fantasma em minháalma.
609

PECADO SANTO

Não enxergas as pegadas de sangue
Nem sentes o ardor d'entre as artérias
Clamores e vozes soluçadas
[minha reza]
Choros minguados ao pé da cama
[é o meu pranto]

Não vês o amor sacrossanto
Que trago como quimera
Imaculado pecado santo
Enlevo de primavera
Arfado no teu encanto
550

MAGO

Decifrastes meus enigmas
Cantastes minhas partituras
Quebrastes meus paradigmas
Enxergastes minhas canduras
Curastes meus estigmas

Adentrastes eloqüentemente
no físico, químico e biológico
Sem bater na porta

Experimentastes meu corpo como alquimia
Vivestes em mim faminto e naufrago
Eternizastes em sêmen sagrado aprazia
Transcendentestes a amplitude do âmago

Espectros siameses homogêneos
Simbiose de corpos ardentes
Osmose de vísceras inteiras
Enlace de espírito & alma

605

VULGÍVAGA

Quão ares e cárceres de vida amputada
Do corpo humano de alma enterrada
Se asas enfermas tão cheias de nada
Já implumes rastreiam a nevada

Quão semi nua no frio das noitadas
Enquanto as mademoiselles já deitadas
Temem pela perfídia; lasciva chegada
De o cônjuge reclamar a labuta cansada

Sonhas fosses tu, donzela encantada
Conflitando masmorra a alma alada
Consideras enriquecer e romper empreitada
Quiçá um salvador da vida bastarda...

Por onde cessarás tua empáfia jornada
Despejada indigente na gélida calçada
Morta em submundo em qualquer madrugada
Sem ninguém para chorar o teu fútil nada.

(Trabalho escolar do Ensino Médio - Redação ou Poesia.
Tema "Prostituição", após leitura de Lucíola de José de Alencar
Autora: Sheila Gomes de Assis - 1998.)
643

PÉRFIDO

Eclode-me a blasfêmia enraizada
D'alma perfura-me as vísceras
Como chaga latejante
De sangue mórbido borbulhante
Sobre o véu do purgatório

Rogai-me complacente e sacrossanta
D'outro amor em luxúria mundana
Corrompido amor pudico idolatrado
Dos castelos intrínsecos de cristais
Que lascivo, quebrados por ti

Olhai-me suscetível a rubéola
Aos males metafóricos do eczema
Pérfido usurpado do sempiterno
Dissoluto das dores cancerígenas
Que morfina (perdão) não alivia

Perdoai se o esquecimento não impera
Se vaidade aleijada e ira cega
Não calam o grito mudo que esperneia

O coração não comissura dor imensa
O sangue lúdico é sorvido pingo a pingo
E, o amor interciso agoniza em despedida
623

PARAMNNÉSIAS

Delongas vetoriais trajam cambraia
Enquanto dedilham meus fracassos no porta-retrato
Com suas unhas de porcelana francesa
E enxerga-me como andrajo de redoma
Letárgica, insuficiente e amargurada!
Os cavaleiros do destino debocham-me
Fadários de seus faetontes e faz de conta
Renitentes senhores do apocalipse
Brincam de malmequer com meus cabelos
Sonâmbula demência em demasia!
Energia cósmica contentada
Inimiga conducente imaginária
Sou nada, nada, nada - confessada
Carne, ossos, sonhos e preguiça


615

SOLITUDE

Acalenta o gélido vento
Embevecido de cinza
Que amordaça o tempo
Em depoência ranzinza
E deplora o tormento.

Rega minha sorte ao sol
Na sequidão das manhãs
Em que acordo tão só...
Orfã de mim...

Toma minha existência fria
Veemência vazia
(Sem sul e sem norte)
D'um vil abandono
Absorto do meu próprio eu.
558

O ÚLTIMO VÉU

Quando o destino tirou o véu do encantamento
Nos teus olhos o viço perdeu vida...
Desci dos teus altares e fui me abrigar no contentamento
Com a alma exilada e condoída.

Desnuda do sonho, desejo e pensamento
Vaguei pelo umbral de musas esquecidas
Consumidas dia-a-dia com o tormento
Suspirando a dor da despedida.
881

A SENHORA E O SACERDOTE

Diz-me senhor que sou fruto proibido
Purgatório, arritmia e conflito
Que rasga-se, por tão comedido
E transforma prece em mito
***
Diz-me senhor que clama o meu ouvido
Para oferecer-me voz em delito
Com juras de amor e gemido
Depois, arrepender-se aflito
***
Não me diz senhor ensandecido
Que só meu corpo tem o dígito
Do código morse condoído
Nas entrelinhas do teu espírito
***
Não me diz senhor, pecado bendito
Santa heresia ou sonho atrevido
Sacerdote e querubim decaído
Mulher alheia (infiel) ao marido
***
Diz-me senhor, sonho esquecido
Pudor santo descorrompido
D' um suposto amor descabido
Dá-me o adeus em gemido
939

TU POEMA

Tu-Poema, de papel macio
Com letras pingando cacau
Enamoro-te ao ler em arrepio
À deriva/mercê como nau
Tu-poema...!

Tu-Poema, correnteza de rio
Com águas de puro sarau
Leio-te hebráico, francês e latim
Nas entrelinhas deste calhau
Ah... Tu-poema!

Tu-Poema, beleza e brio
Nas águas d'um vendaval
Ancora teu verso-navio
No estrofe do temporal
Que a entrelinha no cio
Reluz impressão digital

Tu-Poema com frio
Tu-Poema castiçal
547

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