Poemas
122Meu Mundo
Meu mundo era indescritível, quando te
vi.
Tinha estrelas, mares, florestas e
vento.
Meu mundo tinha até sincronia com o
tempo.
Meu mundo era enorme, quando te conheci.
Tinha gente, ruas, prédios, arranha-céus
Tinha um rio que nascia no meio da
montanha.
Meu mundo tinha esperança tamanha.
Meu mundo era grande, quando te vi sob o
véu.
Era um quarteirão. Tinha campo. Tinha
savana.
Meu mundo tinha um riacho
Tinha casa; um fogão, com um fogo
laracho.
Meu mundo era tal, quando te vi nua,
insana.
Meu mundo tinha paredes, tinha janelas.
Tinha vidraças. Meu mundo não era lama.
Tinha piso, tapetes. No fogão, panelas.
Quando te senti, meu mundo era uma cama.
Tinha uma camisa, uma calça, com cinta
sem fivela.
Quando acordei, meu mundo não tinha mais
um rio.
Ele tinha uma cor fria, um cheiro ocre,
todo calado.
Meu mundo tinha meu tamanho. Meio
apertado e frio
Quando te perdi, meu mundo tinha tampa e
alças dos lados.
Acreditar
Tenho fé,
No que faço,
Mas não acredito
No que penso.
Se acredito,
No que faço,
Penso que
não tenho fé
Se no que penso,
Tenho fé e acredito,
No que faço
Faço nada.
Se penso que
Tenho fé.
No que faço
Eu acredito.
Mas, se faço nada
E tenho fé.
No que penso,
Não acredito.
Não acredito
Que tenho fé...
Se no que penso,
Não faço.
Não tenho fé.
Não acredito.
Não faço nada.
Não penso.
Mundo Criança
O mundo criança é tão lento...
Nos permite viver pra viver.
O mundo adulto é tão rápido
Que pra viver se permite sofrer.
O mundo criança é límpido,
Inocente, decente, puro!
Ao passo que o adulto, corrompido
Se mostra apático, imaturo!
O mundo criança é sincero.
A verdade começa sorrindo.
O mundo adulto é austero
E a verdade abafa, mentindo!
O mundo criança tem cores
E aprazível se mostra fantástico!
Quanto ao adulto, envolto em dores
Remedia; se sustenta apático.
O mundo criança semeia
Com olhos fixos adiante,
Mas o mundo adulto tateia
E, cego, não colhe o que plantara antes.
O mundo criança quando apanha,
Devia sorrir por tamanha sorte!
Pois o mundo adulto, sem manha,
Nos leva ao ápice: a morte.
É por isso que a previno, minha flor,
Que o mundo que à porta avança,
Será o mundo adulto, de pavor,
Não mais o mundo criança.
Todos somos Cúmplices
Todos somos cúmplices
De um crime hediondo
Somos herdeiros de uma dor
Que de longe é incurável.
Um crime que fechamos os olhos,
Que calamos ao invés de falar,
Que desvencilhamos ao invés de nos
envolver
Que faz a dor ser inquebrantável!
Somos parceiros da mediocridade
Andamos lada a lado com o repulsivo
Alimentamos na boca, o imoral
E dizemos não, ao que é perdoável!
Se parássemos pra pensar,
Ou se pensássemos em parar...
E ouvir o que o silêncio nos diz
No seu ponto de vista tão louvável,
Daríamos valor ao próximo
Não seríamos condenados pelo descaso
E tudo ao nosso redor teria mais valor
Se nos tornássemos, cada um, mais
amável.
Sem Tema
Singelo, forte e que me fizesse renascer
Ah, um soneto? Pode sim, fazer reviver,
quem lhe cante ou declame sem medo.
Um soneto... que tema escolher?
Que fale de amor, traição, felicidade imerecida?
Não vem-me à mente um tema sequer.
Talvez precise tomar um drinque, uma bebida...
Me lembro que isto me perturba a mente.
Faz renascer cicatriz já tão esquecida...
Um livro ou uma notícia que se torne semente
E que possa me inspirar um tema,
mas nada me atiça a escrever livremente.
Decido escolher: vou ler um poema.
O Que é o Feio ?
Se o que questiono tem fundamento
E, num lapso de memória, por um momento
Coisas estranhas vou me perguntando:
- Por que o que é bonito é desejado,
E por que o desejo procura forma?
Se pra amar não se tem uma norma,
Mas o diferente é desprezado?
Fico assim pensando...
Sem nada entender e a mente perturbada
Se a coisa só é diferente quando com outra comparada(...)
Mas nada se compara, quando se está amando
O bonito e o feio são pontos de vista numa estrada
E enquanto caminho, vou vivendo e questionando...
A Caneta
De sua tinta faz mistério...
E o que escreve parece tão sério
Que não existem dúvidas que minta
Se as palavras que transcreve
São sinceras e latentes
Não pode ferir tanta gente
Que sonha, labuta, se atreve.
Porém, não tem vida própria;
Não pensa, não anda, nem atura
Tampouco compaixão e ternura
Quem lhe manipula textos e torturas
E a faz transmitir covardia
Quem, senão, a mão que a segura!
Chora Maria
Quando o marido sai.
Chora Maria,
quando o marido vem...
chora Maria,
quando a criança chora
pelo leite que não tem!
Chora Maria,
quando a paz lhe falta.
Chora Maria,
pelo seu vintém.
Chora Maria,
pela sua dor
e tudo que lhe convém!
Chora Maria,
chora pela seca
que lhe esturrica as lágrimas...
chora com a alma,
chora com o coração!
Chora Maria,
Pelo filho que lhe beija a face!
Chora Maria,
Pelo gado, pelo cão!
Chora Maria,
Pela fraqueza dos braços,
Pelos calos na mão...
Chora Maria,
Pelo pé que lhe dói agora...
Chora, Maria, CHORA!
O Que Pensa a Mente?
Quero suscitar uma dúvida
Quero te fazer pensar, pensar, pensar...
Se ela é: profunda, reveladora ou estúpida!
Quero te fazer buscar a resposta
Que seja correta, que seja convincente!
Quero te fazer do seu íntimo externar:
— O que achas, o que pensas sobre a mente?
Tudo o que se queira fazer,
Como o correr, o dormir, o edificar
Ela comanda, ela retrai ou incita.
Quando usada, para o bem, ensina amar
Quando erra, deixa dúvidas, não se explica.
A resposta que se quer para meditar
Que minha mente tem agido sem razão,
É: Se quando não se pode, nos faz apaixonar,
Por que então ela não comanda o coração?
Carta Branca
Verás que cada peça, no mundo, nosso cenáculo,
São pedaços separados
Mas que juntos formam o espetáculo!
Pessoas arduamente trabalhando,
No afã de algo produzir
E deixar um legado para que seus sucessores
Possam dele, usufruir.
Pessoas se preocupando com as outras;
Médicos curando doenças
Sacerdotes procurando introduzir
Mesmo que nem acreditem em sua crença.
Pessoas plantando o alimento,
Soldados defendendo sua pátria.
Um músico afinando o instrumento
Para encenar a sua ária.
Homem edificando ou destruindo-se.
Tudo se pode fazer, temos carta branca
Mas não se pode esquecer
Que se colhe tudo que planta.
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