DELÍRIO INCONSCIENTE
Como num delírio fico eu a imaginar-te
Junto a mim, de mãos dadas caminhando...
Frente ao mar, admirando as ondas que vão...
que vêm... levando todos os preconceitos
Os desencontros da alma que vive em nós...
Na procura incansável de tantos desejos!
Na areia alva banhada por lágrimas frias
São nossas pegadas presas aos sentimentos
São nossos pensamentos, equivocados anseios...
Que vagueiam sôfregos na imensidão do mar
Carregados por trôpegos lamentos adormecidos
Onde a força da natureza vibra por nós!
Eu escuto o murmúrio da tua voz suavemente
Aos meus ouvidos enclausurados de ternura
Na cega fobia que segreda dos pântanos...
No alvorecer da luz que ilumina teus olhos
Domina inteiramente meu ser condenado
A te amar incondicionalmente, e tanto!
Como uma sombra tu me persegues...
De tempo em tempo como um amuleto poderoso
Que ora me protege das más inclinações...
Que ora me possui com afabilidade
Que me conforta, me conduz ao precipício,
Onde o corpo tremula, a alma cintila e desce...
Elevando-me ao encontro de mim mesma
Como num delírio eu fico a imaginar-te!
REVELAÇÃO
Tua foto... procurei entre os meus guardados
Por mais que me esforçasse não encontrei...
Se estava invisível aos meus olhos, eu não vi!
Se estava oculta na imaginação, eu não sei!
Onde tua imagem permanece intocável
A se projetar no espelho dessa alma minha!
Tua foto... imagino-te numa bela miragem
Sob uma moldura doirada retangular
Os traços delicados, face pálida de veludo
Teu olhar iluminado como raios de sol
Continha uma expressão sublimada
Dos anjos celestiais que habita a imensidão!
Tua foto... onde hei de encontrá-la? Onde está?
Se entre os meus guardados, os meus segredos
Não a descobri, nem sei se existe...
Se tu já me negaste quantas vezes?
Quantas outras hei de insistir se já não és...
Tua foto... há de ficar retratada nos meus sonhos
Mesmo que não saibas, ainda que não queiras,
Estarás eternamente ao meu lado, no coração...
Hei de contemplar-te todos os dias, horas sem fim!
Perpetuar nossos momentos de cumplicidade
Onde o silêncio diz tudo que os olhos revelam
Quando a emoção confidencia nossos sentimentos
Não importa que estejas ausente de todas as formas
Estarás sempre presente como uma foto dentro de mim!
CANTO AO POETA MAIOR!
O poeta se nutre da inspiração inesperada
Dos sentimentos que rege a humanidade
Alimenta-se do pão sagrado dos sonhos
Sacia sua fome na avidez do encanto
Mata sua sede na extensão da dor!
O poeta se expõe entre lágrimas e risos
Viaja em órbita na criação do universo
Vaga alucinado entre devaneios absurdos
Transformando em flores os desprazeres
Captando emoções perdidas no tempo!
O poeta se dilata entre a razão e a utopia
Flutua em ondas submersas, insinuantes...
Estende-se na sombra das ilusões esparsas
Adormece nas noites sonâmbulas...
Entre a fantasia e o receio do despertar!
Eu sou tua poetisa: O’ sol dos meus dias!
Tu és a correnteza que desliza mansamente
Na tempestade dos meus ais decadentes
Trazendo-me de volta a realeza dos sonhos
Coroando com rosas os meus desejos!
Tu és minha inspiração sublimada e pueril
Se sorrires, eu componho tua nobre beleza!
Se chorares, eu desnudo minh’Alma em prantos...
Se partires, eu seguirei tão só meu caminho...
Entre abrolhos a soluçar meus poemas!
GENTE DE FATO
São pessoas que se cruzam
Pelas ruas não se olham
Não se tocam nem se falam
Só se calam...
São pessoas iguais a mim
Iguais a você também
Que sonha com o impossível
Que tentam ser mais livres
Mas continuam a ser
Apenas boas atrizes!
São pessoas de todo tipo
Raça, classes diferentes,
Umas moram em mansões,
Em edifícios gigantes...
Outras apenas se escondem
Em pequenos horizontes
Com a marca da solidão
Estampadas no coração!
São pessoas que passam
Umas pelas outras, num vai
E vem que não tem fim...
Num diálogo quase mudo
No corre-corre da vida
Não tem tempo para pensar
Se dividir, se entregar!
São pessoas que passam
Pela vida sem conhecer
O universo do outro
Preso a um mundo só seu
Do egoísmo que assusta
Muitas pessoas nem tentam
Ser mais gente, ser mais justa...
Morrem em completo anonimato
Sem ter vivido ainda
Sem ter nascido de novo
Sem ter sido apenas
Gente de fato!
CANTO DA MONOTONIA
Segue-me por toda parte
Essa dor maldita
Geme o coração reparte
Meu peito grita...
Canto a minha arte
A vida imita!
Reprimo o pensamento
Cada agonia...
Íntimo isolamento
De monotonia
Dentre os fragmentos
Dessa poesia!
Passo dias após dias
Me consumindo...
Breves serão os anos
Me redimindo...
Virão depois os séculos
Estarei dormindo!
Essa sentença eterna
Jamais se acabe
Essa lágrima materna
Em mim desabe...
Dentro dessa caverna
Nunca se sabe!
De todos esses momentos
Que vivo agora...
Árduos sofrimentos
Da última hora
Conflitos, padecimentos,
Em mim aflora!
Deus! Olhai os pobres,
Iguais a mim...
Com vosso manto cobre
Meu rosto assim...
Com vosso Espírito Nobre
Apressa o fim!
AUTORETRATO
Pintei o meu rosto
Com todas as tintas
Vi nele o desgosto
Não há quem não sinta
Na face estampada
Vida estagnada
Monótona e sucinta!
Desenhei meu retrato
Com traços marcados
Vi nele o relato
Sombrio do passado
No contorno que existe
Parece tão triste
Martírio dobrado!
Tentei tudo enfim,
Mostrar como eu sou
Um pouco de mim
Desde que começou...
Memórias da infância
No peito a ânsia
Que nunca acabou!
Fiz de cada poesia
Uma razão bem maior
Sonhos e fantasias
O perfume da flor
Nas tardes vazias
Nas noites sombrias
Buscava o amor!
Mas nunca o tivera
De mim se escondeu
E na primavera
Com ela morreu
Deixou-me tão só...
Desconsolo sem dó
Partiu, não viveu!
SER MULHER!
Eu sou uma mulher, apenas mulher,
simplesmente...
Tenho os sonhos mais loucos, de tudo um pouco,
somente,
Desse mundo o segredo, no peito esse medo,
em morrer de repente,
No coração a saudade, entre o peso da idade,
já se faz presente!
Ser mulher na verdade, é sofrer, é sorrir,
com simplicidade,
É amar com pureza, ter uma única certeza,
dessa realidade,
É viver vãos momentos , ser mais leve que o vento,
num voo à eternidade,
É cantar com emoção, dar adeus: Solidão!
com serenidade!
Ser mulher nessa vida, é ter méritos e poder,
uma forma divina ...
É ter uma força grandiosa , o perfume da rosa,
que a faz feminina ...
É no tédio e na dor, ter a fórmula indolor,
duma eterna heroína ...
Ter nas mãos a carícia, no abraço a malícia,
duma flor matutina!
Ser mulher é privilégio, de acordar nas manhãs,
de alma nova, reluzente,
É ser uma criança, ter na mente a lembrança,
duma infância inocente ...
É colher em novelos a neblina, que se faz cristalina,
na vidraça transparente,
É ver tudo azul ou lilás , é sentir-se capaz,
de ser bem diferente,
É conter sensações nunca tidas , ter razões
de ser independente!
Ser mulher é não ter receios do escuro
na noite ofegante,
É caminhar com leveza, confiança e beleza,
com passos elegantes,
É correr descalça, é dançar uma valsa,
com olhar penetrante,
É abraçar a ilusão, sem nenhuma intenção,
de ser tão é inconstante!
Ser mulher é fazer-se amada e amante
correr riscos sonhando,
Contemplar a natureza, ser a mãe da pobreza,
cada filho embalando,
É ver na caridade o Dom da bondade
de entregar-se doando,
É banhar-se de fé e amor, ter no Cristo o louvor,
do seu olhar nos guiando,
É na Virgem Maria, imitar-lhe a alegria,
aos céus murmurando,
Se és frágil mulher, num poema hás de ser,
as mãos de Deus rezando!
QUADRAS DE LAMENTO IX
Não sei se lembras ainda
Do nosso encontro primeiro
Quando fomos apresentados
Por vias de um mensageiro...
Surgiu uma simples amizade
Como se fosse um arreio
Ficamos tão empolgados
Que foi preciso ter um freio...
Entre palavras de arminho
Ainda que fosse enleio
Ficamos a querer muito mais...
Que um olhar, num meneio...
O tempo com asas gigantes
Tratou de nos confortar...
Deu-nos dúzias de flores
Ficamos a nos consolar...
Entre tantos risos e prantos
Poemas, contos e prosas...
Num jardim todo florido
Como se fôssemos rosas
Fomos nos descobrindo...
Num mar de sonhos avulsos
Às vezes, nós nos amamos,
Às vezes, éramos confusos...
Esse sentimento instigante
Que nos tornava quase Real
Às vezes, nos fazia bem...
Às vezes, nos fazia mal...
E quando tudo passava
Ficávamos a rir ou chorar
Não sei se é uma loucura
Essa maneira de amar!
QUADRAS DE LAMENTO V
Ontem a noite eu sonhei
Que tu estavas voltando
Como uma bela imagem
Aos meus pés se ajoelhando
E como quem não entende
Essa tua aparição...
Tão deslumbrada eu fiquei
Que te peguei pela mão...
Caminhamos lado a lado
Como se fôssemos irmãos
Alma gêmea do passado
Amantes em tempos vãos...
Entre as flores do jardim
Juras de amor nós trocamos
Vemos fagulhas acesas...
Nos olhos de quem amamos
E nessa troca de olhares
Nos doamos ternamente
Um ao outro confessamos
O nosso amor como um crente
Embaixo da laranjeira
Nós ficamos abraçados
E quantos beijos nós damos
Como se fosse um pecado...
Os versos que tu me deste
Como se fossem violetas
Eu os guardei junto a mim
Tua inspiração de poeta!
Quando eu quis ser só tua
Num arfar eu suspirei...
Como num conto de fadas
Desse meu sonho acordei!
AMOR, NOVO AMOR!
De onde vem esse amor que me abraça?
Aos poucos me envolvendo serenamente
Como um manto celestial és Dom divino
Que me acolhe em teus braços angelicais
Que me embala num cântico harmonioso
Que me convida a sorrir, sonhar, viver!
De onde vem esse amor que me tonteia?
Que me desperta após a longa tempestade
Que me conforta o coração na ansiedade
Que me alimenta de esperança eternizada
Que me suporta nas horas vãs de revelia
Que me ouve os lamentos, todos os ais!
De onde vem esse amor que me surpreende?
Que alivia a minha dor e se apieda...
Que massageia o meu ego em pleno dia
Que satisfaz a natureza dos meus afagos
Que entorpece em beijos a minha Alma
Que acalma com carícias meu corpo inteiro!
De onde vem esse amor brando e ordeiro?
Se não te vejo, sinto de mim se aproximando...
Lentamente como quem vai invadindo...
Ao mesmo tempo o coração, o corpo, a alma,
E se agiganta em torno das minhas ilusões
Criando forma universal no espaço de mim
Vem em silêncio como a brisa mansamente
É tua, minha coroa de espinhos em botão!