DUELO DE SENTIMENTOS
Eu, dar amor, já não dou. Mas, ele existe.
Pois, que em mim ainda não chegou...
Revesti-o de paisagens tristes
Que eu, dar amor, já não dou.
Eu, cantar, já não canto. Mas, o cantar é belo!
Eleva a alma – suave acalanto
Quisera estar contigo – sempre e anelo
Que eu, cantar, já não canto.
Eu, outonos e primaveras – solitários
Reprimo no abandono meu vazio
Corro ao sol – vejo outro cenário
Que jamais terei – morro de frio...
Eu, agosto, já não tenho. Mas, tu agosto
Vens com tuas mãos agourentas...
Prostrar meu olhar – só de desgosto
Que eu, agosto – visto essa cor cinzenta...
Que eu, amor já não dou...
Cantar, já não canto...
Ter a primavera – ser como as flores
Mas, se não amo – me desencanto
Como hei de viver sem as dores?
Num paraíso de amor, sem nenhum pranto!
ANDORINHAS MORTAS
O meu sonho a evocar-se altivo e forte
Em coroas de ouro a palpitar delírios
Poentes de novembro, doces martírios
Ao pó do esquecimento até a morte!
Nesse horizonte de bruma opalizado
Onde mergulho a alma lírica e pagã
Falenas entontecidas, flor da manhã,
Rosais celestes em canteiros sagrados!
Pus-me a fitar o efêmero, o nada,
Em ritmos fleumáticos, extasiada,
A miragem fugidia do meu jardim;
Mísero pungir dessa chaga aberta,
As andorinhas mortas, a vida incerta,
A esvair-se em sangue dentro de mim!
AMOR ILUMINADO
Quisera que esse amor iluminado
Como estrelas a cintilar lá no espaço
Se fizesse luz do sol no teu abraço
Se transformasse num beijo delicado!
Fosse o ar puro de todas as manhãs
O orvalho a banhar risos e flores
Entre os canteiros da alma em cores
A bailar em claras luas como irmãs!
Devaneios que suspiro vez em quando,
Traz até aqui se estás me amando...
Como um sopro cálido da aurora;
Pus-me a olhar-te no espelho da saudade,
Enquanto a morte não me levar à eternidade,
Hei de buscar-te em mim de hora em hora!
AMA-ME MUITO!
Ama-me meu amor, e por que não?
Fúlgidos rubis entontecidos...
São os meus nos teus lábios unidos
Meu coração dentro do teu coração!
É uma febre-terçã que de mansinho
Toma todo nosso corpo, a Alma...
Aos poucos se esvai e se acalma
A febre, o rubor devagarzinho...
Amemos meu amor, que tudo passa,
Célere como o dia, vens, me abrasa!
Deixa-me presa aos sonhos teus...!
Amemos meu amor, que o mundo é vão,
Beija-me! A fumaça é a ilusão...
A saudade tua, os devaneios meus!
A LOUCURA
Meu olhar se desprende num minuto
A mente chamuscada em brasa...
Voa o pensamento e cria asas...!
No íntimo: solidão, saudade e luto!!
Corro numa derrocada louca!
Como se os dias não tivessem fim...
As noites vazias calam em mim
O último beijo teu na minha boca!
Quisera eternizar essa loucura
Numa torre nebulosa e escura
Nesse meu castelo de rainha;
Sem mais coroas, reis nem tronos,
Sem o desconsolo, esse abandono,
A sorrir todas as almas com a minha!
ALMA SOTURNA
O sol se debruçou sobre meu rosto
Um brasido a crepitar em chamas
Refulgentes horas de desgosto
No coração chagado que te ama!
Alma Soturna... divinamente pura!
Abra-se em flores de míseras vaidades
Tateio sombras em cinzas de amargura
No pátio alucinante da imortalidade!
A espalhar-se em pétalas de luzes
Esses espinhos a enfeitar as cruzes
São asas paradas do meu desejo;
Desvairada e tonta ando a vagar...
Leves passos em nuvens a flutuar...
Quimera d’Alma em sangrentos beijos!
ROSA AZUL
Eu queria...
Ter uma ideia original
Criar o belo irreal...
Plantar uma rosa azul
De perfume quase natural
Que colhi em órbita
No fundo do meu quintal!
Eu queria...
Olhar esse trânsito meio louco
Ver todo mundo parar um pouco
Pra pensar na guerra mundial
Pra pedir a paz do mundo inteiro!
Pra sonhar com o bem puro e verdadeiro
Pra tirar o véu do rosto sério...
Pra aparecer na penumbra sem escudos
Pra sentir a pele nas mãos negras de veludo!
Eu queria...
Deixar uma mensagem de fé
Falar do amor incomum...
Que unem um homem, uma mulher!
Cantar uma canção proibida
Saber que pra tudo tem saída
Levar a rosa azul com vida...
Plantar de novo outra semente
No jardim do coração que se fez gente!
AGONIAS D'ALMA
Irei te decantar em prantos e versos
Que essa inspiração puder me dar...
Em vasos de cristais quero te amar
Em rosas de florais todo universo!
Irei te decantar sonhos em plumas
Canções a versejar belos poemas
A declarar-te assim o meu dilema
Nas ondas do mar cheio d’espumas!
Se essas rosas falassem o que eu penso,
Poderiam perfumar esse amor intenso...
Que vivo a recolher na triste poesia;
Se tu soubesses o quanto te desejo!
Muito mais que o sabor desse teu beijo
A me tocar por dentro essa agonia!
A CHUVA
Se chover, que a chuva caia assim:
Gotejando em rendas na vidraça
Chuva fina, anda, me abraça...
Tempestade, cai dentro de mim!
As nuvens chocam-se, relampeja,
Ecoam os gritos do meu pranto...
Desaba um temporal, ermo acalanto,
Afaga o coração, frêmito me beija!
Se toda essa chuva desabasse
Sobre minha alma, ela banhasse
Essa correnteza que me invade;
Tens piedade! O’ Chuva... passa!
Traz o meu amor, ele me abraça,
E beija-me por toda eternidade...
SE EU MORRER AMANHÃ...
Se eu morrer amanhã
Ninguém irá se lembrar
Nada de mim irá restar
Nem a caridade cristã!
Irão todos festejar...
Ao lado do meu caixão
Num festim quase malsão
Irão sequer lamentar!
E, num acre deletério,
Levar-me-á ao cemitério,
Para o corpo enterrar;
Numa cova funda e fria,
Qual funerária sombria,
Para sempre irei ficar!
II
Até que se complete inteira
Degeneração putrefata
O verme psicopata
Dessa terra carniceira...
Mastiga, engole, come,
Com apetite voraz...
Roendo os ossos, quer mais!
Mata a sede e a fome...
Na sombra dessa ossatura,
Jaz a treva mais escura,
Permanece a agonia;
Embora com a alma liberta,
Com a sepultura aberta,
Abraço a monotonia!