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Nunes Claro

Nunes Claro

1878–1948 · viveu 70 anos PT PT

n. 1878, Lisboa · m. 1948, Sintra

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Biografia
Mal saía da adolescência quando começou a chamar a atenção por versos dispersos, nomeadamente na revista D. Quixote, animada por Leal da Câmara. É certo que não revelavam ainda grande qualidade; mas eram primícias que dissentiam dos esteticismos desse fim de século, subvertiam por vezes a enfática figuração convencional do Poeta e, um tanto à maneira de Raul Brandão, estendiam a ironia ao próprio auto-retrato clownesco; por outro lado, descomediam-se na indignação perante a morte de Maceo, herói da independência cubana. O livro Charcos, então anunciado, nunca chegou a sair. Mas, no início do século XX, Nunes Claro dava sequência às promessas juvenis, tornando-se figura de proa da corrente vitalista e Jacobina então hegemónica no neo-romantismo: colabora na Revista Nova (1901- 1902), na Arte & Vida (1904- 1905) e noutros periódicos afins; anima na sua casa da Rua de S. Marçal o cenáculo «Clárea», onde se reúnem nomes proeminentes daquela corrente (João de Barros, Sílvio Rebelo, Mayer Garção, Ernesto da Silva, etc.); tipifica a reacção dessa facção à evolução de Junqueiro, replicando à Oração ao Pão com o poemeto Oração da Fome (1902), que se serve dos recursos prosódicos e retóricos consagrados por Junqueiro para contrapor à pacificação cúmplice do canto deísta a pugnacidade de um canto que é protesto contra a condição penosa do homem secularmente esbulhado dos frutos do seu trabalho e, ao mesmo tempo, é exaltação generosa da bondade prometeica desse trabalho em uníssono com a próvida Natureza. Nunes Claro representava então para os seus companheiros a própria personificação esplendorosa do ideal de poeta-cidadão, de lírico sensível e fogoso, fiel aos ditames da mãe-Natureza e aos deveres de emancipação sociocultural. Intrigantemente, Nunes Claro ia rareando a publicação de textos. Em 1908, ainda o chefe de fila, João de Barros, num balanço da vida mental portuguesa para La Revue, de Paris, o proclamava o «espírito mais poético das novas gerações». No entanto, Nunes Claro cada vez mais se apagava na cena literária. Se F. Pessoa o considera ainda, em 1913, um dos três melhores representanttes da referida corrente literária (cf. Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias), é excepcional a sua presença no segundo decénio, como ocorre na revista Atlântida. O mesmo acontece nos anos 20, em que vive retirado para Sintra, entregue ao exercício da medicina e aos afectos familiares; em 1924, já Mayer Garção o evocava entre Os Esquecidos... Enfim, em 1928, Nunes Claro publicava uma apreciável colectânea, sugestivamente intitulada A Cinza das Horas. Depois é o refluxo ao mesmo silêncio entrecortado pela resposta ao apelo de um ou outro periódico (como a revista Descobrimento, em 1932). Os sonetos de A Cinza das Horas evitam com destreza a impressão de monotonia e cantam, num registo delicado, a dinâmica voluntarista, a euforia vital, a lição naturista e a erótica hedonista próprias do seu posicionamento neo-romântico; remetem para nível secundário a militância nacionalisto-jacobina; assimilam rasgos do imaginário franciscanista; deixam-se penetrar, de acordo com o título do livro, pelo sentimento melancólico da usura do tempo e da fugacidade do amor.

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