Paul Celan

Paul Celan

1920–1970 · viveu 49 anos DE DE

Paul Celan foi um poeta de língua alemã, de origem judaica, cujas obras exploram as profundezas da dor, da memória e da esperança num mundo marcado pelo trauma do Holocausto. A sua poesia é conhecida pela sua linguagem fragmentada, pela intensidade lírica e pela busca incessante por um discurso autêntico após a catástrofe. Celan abordou temas como a perda, o exílio, a culpa e a possibilidade de um novo começo, utilizando metáforas poderosas e um estilo que desafia as convenções. A sua obra é um testemunho da resiliência do espírito humano e da capacidade da linguagem de expressar o inexprimível, tornando-se uma das vozes mais importantes da poesia do século XX.

n. 1920-11-23, Chernivtsi · m. 1970-04-20, Paris

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Fuga da Morte

Leite negro da aurora bebemo-lo ao anoitecer
bebemo-lo ao meio-dia e de manhã bebemo-lo à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma sepultura nos ares aonde o espaço não falta
um homem vive em casa brinca com serpentes escreve
escreve quando a noite cai na Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida
escreve e sai de casa e brilham as estrelas e chama os cães de caça aqui aqui
apita aos seus judeus venham cá cavem uma sepultura na terra
manda que toquemos para a dança

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te pela manhã e ao meio-dia bebemos-te ao anoitecer
bebemos e bebemos
um homem vive em casa brinca com serpentes escreve
escreve quando a noite cai na Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida
o teu cabelo de cinza Sulamita cavamos uma sepultura nos ares aonde o espaço não falta
Ele grita cavem na terra bem fundo vocês aí vocês outros cantem e toquem
agarra no cano de aço à cinta e brande-o como são azuis os seus olhos
enterrem mais fundo a pá vocês aí vocês toquem para a dança

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te ao meio-dia e de manhã bebemos-te ao anoitecer
bebemos e bebemos
um homem vive em casa o teu cabelo de oiro Margarida
o teu cabelo de cinza Sulamita ele brinca com serpentes

Grita toquem mais doce a Dança da Morte ela é um Senhor de Alemanha
grita toquem mais sombriamente os violinos depois hão-de subir em fumo nos ares
depois haveis de ter uma sepultura nas nuvens onde o espaço não falta

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te ao meio-dia a morte é um Senhor de Alemanha
bebemos-te ao anoitecer e pela manhã bebemos e bebemos
a Morte é um Senhor de Alemanha como são azuis os seus olhos
há-de abater-te com uma chumbada abater-te com pontaria
um homem vive em casa o teu cabelo de oiro Margarida
açula contra nós os lebréus magros dá-nos sepultura nos ares
brinca com serpentes e sonha a morte é um Senhor de Alemanha
o teu cabelo de oiro Margarida
o teu cabelo de cinza Sulamita.


trad. Jorge de Sena
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Biografia

Identificação e contexto básico

Paul Celan, nascido Paul Antschel, foi um poeta de língua alemã, considerado uma das figuras mais importantes da poesia do século XX. Nasceu a 23 de novembro de 1920 em Czernowitz, Bucovina, então parte do Reino da Romênia (hoje Chernivtsi, Ucrânia), e faleceu a 20 de abril de 1970 em Paris, França. Usou o pseudónimo "Celan", um anagrama do seu apelido Antschel. Era de origem judaica, numa região multicultural, e a sua língua materna era o alemão. O contexto histórico em que viveu foi profundamente marcado pela Segunda Guerra Mundial, o Holocausto e a Guerra Fria.

Infância e formação

Celan cresceu em Czernowitz, uma cidade cosmopolita com uma forte comunidade judaica e influências romenas e alemãs. Aprendeu alemão com a sua mãe e o hebraico na escola. Frequentou o liceu e, mais tarde, estudou medicina em Viena e filologia românica em Chernivtsi. A sua juventude foi abruptamente interrompida pela ocupação soviética e, posteriormente, pela ocupação nazista da Romênia, que levaram à perseguição e ao extermínio da comunidade judaica, incluindo os seus pais. Celan sobreviveu a campos de trabalho forçado. Essa experiência traumática marcou indelevelmente a sua vida e a sua obra.

Percurso literário

O início da escrita de Celan remonta à sua juventude, mas a sua obra ganhou projeção após a guerra. O seu primeiro livro publicado, "Der Sand der Uhren" (A Areia dos Relógios), apareceu em 1948, mas foi "Mohn und Gedächtnis" (Papoula e Memória), de 1952, que o estabeleceu como uma voz poética importante. A sua obra evoluiu através de fases distintas, caracterizadas por uma crescente complexidade e densidade lírica. Celan publicou em diversas revistas e antologias, e a sua obra foi traduzida para várias línguas. Foi também um tradutor de poesia notável, vertendo para o alemão obras de poetas como Shakespeare, Emily Dickinson, Arthur Rimbaud e Guillaume Apollinaire.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Paul Celan incluem "Mohn und Gedächtnis" (1952), "Von Schwelle zu Schwelle" (1955), "Sprachgitter" (1959), "Fadensonnen" (1968) e "Lichtzwang" (1970). Os temas centrais na sua poesia são a memória do Holocausto, a culpa, o luto, a perda, a diáspora, o exílio, a incomunicabilidade, a busca por um nome, e a resistência da linguagem perante o silêncio e o aniquilamento. O seu estilo é marcado por uma linguagem fragmentada, densa, cheia de neologismos, alusões e jogos de palavras. A sua poesia é muitas vezes hermética, exigindo um leitor atento e disposto a desvendar as camadas de significado. Utiliza o verso livre, mas com uma musicalidade interna e um ritmo singular. A voz poética é multifacetada, oscilando entre o confessionismo, a universalidade e a interrogação. Celan procurou criar uma nova linguagem poética, capaz de expressar o horror e a experiência do inominável, após a destruição da cultura judaica na Europa. A sua relação com a tradição é complexa, revisitando e subvertendo referências bíblicas, literárias e históricas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Celan viveu imerso nas consequências do Holocausto e na divisão da Europa. O seu testemunho poético é um dos mais poderosos sobre a Shoah. Pertenceu a uma geração de escritores que enfrentaram o desafio de escrever em alemão após Auschwitz, uma língua que se tornou cúmplice do extermínio. A sua obra dialoga com outros sobreviventes e pensadores que refletiram sobre a catástrofe, mas mantém uma singularidade intransigente. As suas posições políticas eram de profunda aversão ao nacionalismo e ao totalitarismo, e de solidariedade com os oprimidos.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Celan foi marcada por profundas crises existenciais e psicológicas, decorrentes do trauma da guerra e da perda dos pais. As suas relações afetivas foram complexas, incluindo o casamento com Gisèle Lestrange e a paternidade. As suas amizades literárias, por vezes tensas, com figuras como Nelly Sachs e Hans Magnus Enzensberger, revelam as dificuldades de comunicação e partilha de experiências pós-traumáticas. A sua profissão de tradutor permitiu-lhe sobreviver e manter um contacto íntimo com a literatura e a linguagem.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Paul Celan foi tardio, mas avassalador. Inicialmente, a sua poesia hermética foi recebida com ceticismo por alguns, mas gradualmente impôs-se como uma obra fundamental. Recebeu importantes prémios literários, como o Prémio Georg Büchner em 1960. A sua obra é hoje considerada um dos pilares da literatura moderna, influenciando poetas, filósofos e artistas em todo o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Celan foi influenciado pela poesia alemã (Hölderlin, Rilke), pela mística judaica e pela poesia francesa (Baudelaire, Rimbaud). Por sua vez, o seu legado é imenso, tendo influenciado profundamente a poesia contemporânea, a filosofia e os estudos sobre a memória e o trauma. A sua obra é um modelo de como a linguagem pode ser forjada para dar conta do inominável e da experiência extrema. A sua entrada no cânone literário é incontestável, e a sua obra é amplamente estudada e traduzida.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Celan tem sido objeto de intensos debates e análises. A interpretação da sua poesia centra-se frequentemente na sua relação com o Holocausto, na sua busca por uma "poesia após Auschwitz", e na sua exploração da linguagem como um espaço de resistência e de fé em última instância. A sua ligação com a filosofia (Heidegger, Derrida) é um tema recorrente na crítica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Celan era conhecido pelo seu perfeccionismo na escrita, revisando os seus poemas inúmeras vezes. Tinha um fascínio por pedras, cristais e pela natureza, elementos que frequentemente aparecem na sua poesia. A sua correspondência, especialmente com Gisèle Lestrange, revela a profundidade da sua luta interior e da sua paixão pela linguagem.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Paul Celan cometeu suicídio em Paris, em 1970, desaparecendo no Rio Sena. A sua morte foi vista como o trágico culminar de uma vida marcada pela dor e pela luta. As suas obras completas e correspondências continuam a ser publicadas e a ser objeto de estudo, mantendo viva a sua memória e a importância inestimável da sua poesia para a compreensão da condição humana no século XX e para lá dele.

Poemas

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Fuga da Morte

Leite negro da aurora bebemo-lo ao anoitecer
bebemo-lo ao meio-dia e de manhã bebemo-lo à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma sepultura nos ares aonde o espaço não falta
um homem vive em casa brinca com serpentes escreve
escreve quando a noite cai na Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida
escreve e sai de casa e brilham as estrelas e chama os cães de caça aqui aqui
apita aos seus judeus venham cá cavem uma sepultura na terra
manda que toquemos para a dança

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te pela manhã e ao meio-dia bebemos-te ao anoitecer
bebemos e bebemos
um homem vive em casa brinca com serpentes escreve
escreve quando a noite cai na Alemanha o teu cabelo de oiro Margarida
o teu cabelo de cinza Sulamita cavamos uma sepultura nos ares aonde o espaço não falta
Ele grita cavem na terra bem fundo vocês aí vocês outros cantem e toquem
agarra no cano de aço à cinta e brande-o como são azuis os seus olhos
enterrem mais fundo a pá vocês aí vocês toquem para a dança

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te ao meio-dia e de manhã bebemos-te ao anoitecer
bebemos e bebemos
um homem vive em casa o teu cabelo de oiro Margarida
o teu cabelo de cinza Sulamita ele brinca com serpentes

Grita toquem mais doce a Dança da Morte ela é um Senhor de Alemanha
grita toquem mais sombriamente os violinos depois hão-de subir em fumo nos ares
depois haveis de ter uma sepultura nas nuvens onde o espaço não falta

Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te ao meio-dia a morte é um Senhor de Alemanha
bebemos-te ao anoitecer e pela manhã bebemos e bebemos
a Morte é um Senhor de Alemanha como são azuis os seus olhos
há-de abater-te com uma chumbada abater-te com pontaria
um homem vive em casa o teu cabelo de oiro Margarida
açula contra nós os lebréus magros dá-nos sepultura nos ares
brinca com serpentes e sonha a morte é um Senhor de Alemanha
o teu cabelo de oiro Margarida
o teu cabelo de cinza Sulamita.


trad. Jorge de Sena
5 723

Cristal

Cristal
Não busques nos meus lábios a tua boca,
nem diante do portão o forasteiro,
nem no olho a lágrima.

Sete noites mais alto muda o vermelho para vermelho,
sete corações mais fundo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.

2 712

Elogio

da distância
Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.

Aqui,coração
que andou entre os homens,arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:

Mais negro no negro,estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.

Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.

Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.

Na fonte dos teus olhos
um enforcado estragula o baraço.

1 148

DO AZUL

DO AZUL,que ainda busca o seu olho,bebo eu em primeiro lugar.
Da marca do teu pé bebo eu e vejo:
rolas-me entre os dedos,pérola,e cresces!
Cresces como todos os que foram esquecidos.
Rolas:o granizo preto da melancolia
cai num lenço,todo branco de dizer adeus.

(tradução
de João Barrento e y.k.Centeno)

1 218

ESTOU SOZINHO,coloco a flor de cinza

no corpo cheio de negrume amadurecido.Boca de irmã,
tu dizes uma palavra que sobrevive diante das janelas,
e sem ruído trepa,o que eu sonhei,por mim acima.

Estou de pé na profusão das horas murchas
e poupo uma resina para um pássaro tardio:
ele traz o floco de neve nas penas vermelho-vivo;
com o grão de gelo no bico,atravessa o verão.

1 172

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