Citações
Citações para inspirar e refletir
Um agitador toma a palavra. O artista é tomado por ela.
76
Quando lemos um dos seus ensaios mitológico-políticos aprendemos a odiar a cultura mais do que o absolutamente necessário.
73
O propósito do jovem Jean Paul era “escrever livros para poder comprar livros”. O propósito dos nossos jovens escritores é ganhar livros de presente para poder escrever livros.
89
O jogo de palavras, desprezível como fim em si mesmo, pode ser o recurso mais nobre de uma intenção artística na medida em que serve para abreviar uma intuição espirituosa. Ele pode ser um epigrama de crítica social.
108
Um escritor que eterniza um facto quotidiano compromete apenas a atualidade. Porém, quem jornaliza a eternidade tem perspetiva de ser reconhecido nas altas rodas.
93
A ironia sentimental é um cão que ladra para a Lua enquanto mija sobre sepulturas.
65
Não domino a língua, mas a língua me domina completamente. Ela não é a criada dos meus pensamentos. Vivo numa relação com ela em que concebo pensamentos, e ela pode fazer de mim o que bem quiser. Eu obedeço-lhe à letra. Pois das letras salta o jovem pensamento ao meu encontro e dá forma retroativa à língua que o criou. Semelhante graça de gestar pensamentos obriga-me a ficar de joelhos e transforma todo dispêndio de cuidado trémulo em dever. A língua é uma senhora dos pensamentos; ela pode ser útil na casa de quem consegue inverter essa relação, mas fecha-lhe o útero.
93
A linguagem é o material do artista literário; porém, ela não pertence só a ele, enquanto a cor pertence exclusivamente ao pintor. Por essa razão, as pessoas deveriam ser proibidas de falar. A linguagem de sinais basta perfeitamente para os pensamentos que têm para comunicar entre si. É permitido lambuzar as nossas roupas sem cessar com tinta a óleo?
68
O leitor admite de bom grado que o autor o deixe confuso com a sua cultura geral. Qualquer pessoa fica impressionada porque não sabia como a ilha de Corfu se chama em albanês. Pois a partir de então ela sabe, e pode brilhar diante dos outros que ainda não sabem. A cultura geral é a única premissa que o público não leva a mal, e um autor que humilha o leitor nesse ponto tem a sua fama presente garantida. Mas ai daquele que pressupõe faculdades que não possam ser recuperadas ou cuja aplicação esteja ligada a incomodidades! Tudo bem que o autor saiba mais que o leitor; mas que ele tenha pensado mais não lhe será perdoado tão facilmente. O público não pode ser mais tolo. Ele é inclusive mais inteligente do que o autor culto, pois fica sabendo através da sua revista como a ilha de Corfu se chama em albanês, enquanto aquele teve de consultar uma enciclopédia primeiro.
88
Devemos escrever sempre como se escrevêssemos pela primeira e pela última vez. Dizer tanto como se fosse uma despedida, e tão bem como se estivéssemos a estrear.
78
Será a literatura nada mais do que a habilidade de apresentar ao público uma opinião com palavras? Então a pintura seria a arte de expressar uma opinião em cores. No entanto, os jornalistas da pintura são os pintores de paredes. E eu acredito que um escritor é aquele que diz ao público uma obra de arte. A maior honra que já recebi foi-me prestada quando um leitor me confessou embaraçado que só conseguia entender os meus textos na segunda leitura. Hesitou em me dizer isso, teve dificuldades em falar a minha língua. Esse era um entendido e não sabia. O elogio ao meu estilo deixa-me indiferente, mas as críticas que lhe fazem logo me deixarão orgulhoso. Durante muito tempo tive receio de que as pessoas tivessem prazer com os meus textos já na primeira leitura. Como? Uma frase deveria servir para o público enxaguar a boca com ela? Os folhetinistas que escrevem em alemão possuem uma considerável vantagem em relação aos escritores que escrevem a partir do alemão. Ganham à primeira vista e desiludem à segunda: é como se de repente estivéssemos nos bastidores e víssemos que tudo é de cartão. No caso dos outros, porém, é como se um véu cobrisse a cena. Quem já deveria aplaudir? Vão-se embora antes que a cena se torne visível. Assim se comporta a maioria; não têm tempo. E não têm tempo apenas para as obras da linguagem. No caso das pinturas, admitem que não devam representar apenas um processo apreendido pelo primeiro olhar: obrigam-se a dar um segundo olhar para chegar a perceber alguma coisa da arte das cores. Mas uma arte da construção de frases? Se lhes dissermos que isso existe, pensam na obediência às leis da gramática.
73
Um bom autor sempre receará que o público perceba quais foram os pensamentos que lhe ocorreram tarde demais. Mas quanto a isso, o público é muito mais indulgente do que se acredita, e também não percebe os pensamentos que aí estão.
96
Estou sempre disposto a publicar aquilo que contei a um amigo sob o selo do mais profundo sigilo. Mas ele não o deve espalhar.
65
Por que muitos escrevem? Porque não têm caráter suficiente para não escrever.
128
A beleza imerecida dessa cidade! Mas aqueles que a animam à chamada seriedade do trabalho são tão tolos quanto seus bajuladores e folhetinistas. Não é lamentável que seus habitantes não trabalhem, mas que não pensem. Chega a ser meritório contar com o facto de que o céu é azul e o prado é verde. Quem diz que não se pode viver disso é um filisteu. Mas quem diz que é triste viver disso quando não se é um artista, diz a verdade.
79
Uma verdade desprovida de arte acerca de um mal é um mal. Ela deve ser valiosa por si mesma. Assim ela reconcilia com o mal e com a dor de que haja males.
67
Nem de longe um bom escritor recebe tantas cartas anónimas ofensivas quanto normalmente se supõe. De cem asnos, nem dez admitem sê-lo, e no máximo um coloca isso por escrito.
56
É uma injustiça sempre criticar Viena pelos seus defeitos, visto que as suas qualidades também merecem censura. No entanto, o livro de B. chega a criticar Viena por defeitos que são apenas qualidades que lhe faltam. Como esse autor eleva o nível cultural dos vienenses para atacá-lo! É lastimável essa falsa óptica de uma crítica que primeiro precisa inventar as qualidades de um povo para depois levá-las a mal. O autor descobriu no povo austríaco uma concepção ilusória da vida, e culpa uma dinastia, que sem dúvida é a mais fiel guardiã das realidades, pelo facto de o vienense viver num mundo irreal. A história “quis experimentar se o espírito podia governar sozinho”, e instituiu os Habsburgos. Eles criaram o mundo a partir do seu espírito. E semelhante panegírico ao mais sublime senso artístico foi considerado desleal! Eu, no entanto, não tolero a concepção errónea de uma essência popular que se esgota exclusivamente em pequenas autenticidades. Pois o mundo vienense não foi criado a partir do espírito, e sim a partir da carne de gado. Perante essa solidez que se mede em quilos, toda a imaginação capaz de criar um mundo qualquer é arruinada. O espírito criativo da irrealidade, descoberto pelo autor, interveio na história austríaca visivelmente apenas uma vez. Foi durante a construção da Linha Ferroviária Sul, entre Viena e Baden, quando se constatou que não havia montanha à disposição para construir o túnel que uma Alteza desejava — e o túnel foi construído.
95
Devemos ler todos os escritores duas vezes, os bons e os maus. Uns serão reconhecidos, e os outros, desmascarados.
90
Primeiro o cão fareja, depois levanta a perna. Contra essa falta de originalidade compreensivelmente não se pode objetar nada. Mas o facto de o literato ler antes de escrever é desolador.
60
Espeto minha pena no cadáver da Áustria porque ainda acredito que ele viva.
80
Que a palavra mais velha seja desconhecida nas redondezas, recém-nascida e inspire dúvidas sobre se vai viver. Então ela viverá. Ouvimos o coração da língua a bater.
73
Num domingo de inverno à tarde, num café de Viena, encurralados entre pais que jogam cartas, mulheres que berram e crianças que leem revistas humorísticas, podemos ser tomados por tal sentimento de solidão que ansiamos pela vida agitada que deve reinar por essa hora na Baía do Advento.
58
Escrever um romance pode ser puro deleite. Viver um romance já apresenta as suas dificuldades. Porém ler um romance é algo que evito tanto quanto posso.
71
Ficar triste da vida por haver encontrado no seu trabalho um erro que ninguém vê; apenas se tranquilizar depois de encontrar um segundo, pois então a mancha na honra é coberta pelo conhecimento da imperfeição dos esforços humanos: parece-me que é esse talento para a tortura o que distingue a arte do artesanato. Cabeças rasas poderiam tomar esse traço por pedantismo, mas elas não suspeitam de que liberdade nasceu essa coerção e a que facilidade de produção conduzem semelhantes dificuldades infligidas a si próprio. Nada seria mais tolo do que falar de niquice formal onde a forma não é a roupagem do pensamento, mas a sua carne. Essa caçada às últimas possibilidades de expressão conduz até às entranhas da linguagem. É aí que se cria esse entrelaçamento no qual os limites entre o que e como não são mais distinguíveis, e no qual, frequentemente, a expressão antecede o pensamento até ao instante em que ele dá a sua centelha sob a lima. Os diletantes trabalham seguros e vivem satisfeitos. Por causa de uma palavra recusada pela balança de precisão da minha sensibilidade estilística, muitas vezes já detive a máquina de impressão e mandei destruir o que tinha sido impresso. A máquina violenta o espírito em vez de o servir: assim pretende mostrar quem manda. Quando é que acabo, visto que a publicação por fim não pode mais ser impedida e não traz a ansiada cesura da criação? Ah, eu só termino um trabalho quando começo outro; esse é o tempo que dura a minha “correção de autor”. Esse também é o tempo que dura a louvável loucura de acreditar que o leitor notará a ausência de um pensamento que nasceu depois da hora. E comparada a uma escrita que se arrepende de maneira tão sanguinolenta das suas imperfeições, esse leitor considera que a sua faculdade de ler, deturpada pelo jornalismo, é perfeita. Por alguns vinténs, ele comprou um direito à superficialidade: será que ficaria satisfeito se tivesse de se lançar ao trabalho? Talvez as coisas estivessem melhores se os escritores alemães aplicassem aos seus manuscritos a décima parte do cuidado que dedico aos meus textos depois de impressos. Um amigo que me socorre com frequência fazendo as vezes de parteira, ficou admirado com a facilidade dos meus partos e a dificuldade do meu puerpério. Para os outros as coisas vão bem. Eles trabalham à escrivaninha e divertem-se na sociedade. Eu divirto-me à escrivaninha e trabalho na sociedade. Por isso evito a sociedade. No máximo, eu poderia perguntar às pessoas se esta ou aquela palavra lhes agrada mais. E isso elas não sabem.
62
Ele domina a língua alemã — isso vale para o caixeiro. O artista é um criado da palavra.
71
Temas jornalísticos: não importa o tamanho do alvo, mas a distância.
83
Muitas vezes é difícil escrever um aforismo quando se é capaz de o fazer. Muito mais fácil é escrever um aforismo quando não se é capaz de o fazer.
79
As camas de Hamburgo têm bordas altas. Estamos seguros de que não cairemos quando o mar estiver agitado. Um uso sem sentido, com o qual o povo conserva a tradição do camarote. O enjoo do mar reproduz-se em terra firme por gerações de marceneiros, e nada é mais doloroso ao acordar do que a recordação de que os hamburgueses são um povo de navegadores.
77
Há verdades cuja descoberta pode demonstrar que não se tem espírito.
79
Tal como sempre surgem rostos novos, embora o conteúdo das pessoas pouco se distinga, assim deve haver sempre frases novas para o mesmo material intelectual. Isso dependerá do criador que tiver a capacidade de exprimir a mais ligeira nuance.
75
São raros os livros antigos que, entre coisas incompreensíveis e óbvias, conservaram um conteúdo vivo.
82
Empregar palavras incomuns é um vício literário. Devemos colocar apenas dificuldades de pensamento no caminho do público.
74
Não falemos publicamente sobre os problemas da vida sexual. Que a vivamos e lhe demos forma, mas nos calemos a respeito. Para resguardar a verdade é lícito ser hipócrita.
94
Os meus trabalhos devem ser lidos duas vezes para serem bem compreendidos. Mas tampouco me oponho a que sejam lidos três vezes. Prefiro, porém, que não sejam lidos do que o sejam apenas uma vez. Não pretendo responsabilizar-me pelas congestões de um imbecil que não tem tempo.
64
Contar a piada inventada por uma pessoa engenhosa é o mesmo que apanhar uma seta do chão. A citação não diz como foi disparada.
83
Lichtenberg cava mais fundo do que qualquer outro, mas não volta à superfície. Fala sob a terra. Só o escuta quem também cava fundo.
85
Se eu perguntasse ao porteiro de um restaurante berlinense qual o significado dos relevos e frisos da escadaria, ele poderia responder: “Isto serve para ter em conta o senso de beleza”. Se eu perguntasse a um catador de papéis quem é representado num monumento, ele poderia responder: “O homem fez algo pela educação”. Certo, isto são abominações da civilização. Mas com o tempo também ficámos fartos das vantagens dela que gozamos em Viena quando a estas perguntas recebemos sempre a mesma resposta: “Que te importam os frisos, seu fedelho imbecil!”.
88
Na cidade de Echternach, no Luxemburgo, ainda hoje ocorrem as chamadas procissões saltitantes. Pelo facto de no passado os animais terem sido acometidos de tarantulismo, os camponeses locais fizeram o voto de saltar em honra de São Willibrord em lugar dos animais. Hoje, nem as pessoas nem o gado conhecem mais a origem da singular cerimónia, mas aquelas mantêm-se-lhe fiéis, e se a força do hábito continuar a afirmar-se entre os habitantes de Echternach, talvez chegue novamente o dia em que o gado salte em honra de São Willibrord. Por ocasião do Pentecostes, ainda hoje cerca de 15 mil pessoas dão “três pulos para a frente e dois para trás”. O clero não salta junto, mas assiste. O espetáculo não o agrada inteiramente; ele preferiria que fossem dois pulos para a frente e três para trás.
89
Não se deveria abolir a vara, e sim o professor que a emprega mal. A reforma ginasial, como todo remendo humanitário, é uma vitória sobre a imaginação. Os mesmos professores que até então não eram capazes de chegar a um juízo com a ajuda do catálogo, agora terão de mergulhar carinhosamente na individualidade do estudante. O humanitarismo eliminou o pesadelo do medo de ser “chamado à frente”, mas a vida estudantil sem perigos será mais insuportável do que a perigosa. Entre “excelente” e “absolutamente insatisfatório” havia um espaço para experiências românticas. Eu não gostaria de secar de minha memória o suor pelos troféus da infância. Juntamente com o aguilhão, também desaparece o estímulo. O ginasiano vive sem ambição como um filósofo sorridente e entra despreparado no arrivismo da vida que no passado o seu caráter antecipava inofensivamente como o corpo vacinado antecipava a varíola. Ele experimentava todos os perigos da vida, chegando à beira do suicídio. Em vez de banir os professores que fazem a brincadeira dos perigos transformar-se em coisa séria, prescreve-se a seriedade da vida sossegada. Antes os alunos vivenciavam a escola, agora devem deixar-se formar por ela. A beleza é banida juntamente com os arrepios, e o espírito jovem encontra-se diante da parede caiada de um céu protestante. Os suicídios de estudantes motivados pela estupidez de pais e professores irão cessar, e como motivo legítimo restará o tédio.
74
Uma formação universal é uma farmácia bem provida, porém não há qualquer garantia de que não venda cianureto de potássio para tratar um resfriado.
79
O naturalismo do cenário faz relógios de verdade baterem as horas. É por isso que temos a impressão de que o tempo passa tão devagar.
84
O político está metido na vida, não se sabe onde. O esteta foge da vida, não se sabe para onde.
83
A natureza adverte para refletirmos sobre uma vida que se apoia sobre trivialidades. Uma insatisfação cósmica manifesta-se por toda a parte; neves estivais e calores invernais protestam contra o materialismo que transforma a existência num leito de Procusto, trata doenças psíquicas como se fossem dores de barriga e gostaria de desfigurar a face da natureza onde quer que perceba as suas feições: na natureza, na mulher e no artista. Um mundo que suportaria o seu ocaso desde que não fosse impedido de ver a sua exibição cinematográfica não pode ser atemorizado com o incompreensível. Eu, porém, tomo facilmente um terramoto como protesto contra as conquistas do progresso e não duvido por um instante da possibilidade de que um excesso de estupidez humana possa indignar os elementos.
60
Quando se pensa que a mesma conquista técnica serviu à Crítica da razão pura e a uma reportagem sobre a viagem da Sociedade Vienense de Canto Coral, toda discórdia abandona nosso peito e louvamos a onipotência do Criador.
77
Que é a Nona Sinfonia comparada a uma canção popular tocada por um realejo e por uma lembrança?
87
As revistas de humor são uma prova de que o filisteu não tem sentido de humor. Elas fazem parte da seriedade da vida como a bebida faz parte da refeição. “Dê-me todas as revistas de humor!”, ordena um idiota cheio de preocupações ao empregado de mesa, e atormenta-se para que um sorriso apareça no seu rosto. O humor que ele não tem deve chegar-lhe de todos os cantos da vida quotidiana, e ele desdenharia inclusive a caixa de fósforos que não trouxesse uma piada no seu rótulo. Li numa delas: “Aprendiz de ofício (que comprou uma linguiça casualmente enrolada num poema): Muito bem! Primeiro vou comer a linguiça para alimentar o corpo e depois leio o poema para alimentar o espírito!”. Coisas assim alegram o filisteu, e ele nem sequer percebe o método do aprendiz de ofício como uma indireta.
64
As opiniões reproduzem-se por divisão; os pensamentos, por brotação.
86