Um arraial português e uma elegia para João Aguardela
Escrito a partir de canções da chamada "música pimba", este surpreendente livro de Rui Lage não deixará os críticos indiferentes. Com a mestria de quem sabe a cadência de cada sílaba, lemos e ouvimos desde o "São lágrimas" até ao "Vou levar-te comigo" e "A musa do baile". Críticas de imprensa «Inevitavelmente, há aqui um efeito de estranheza, porque se a “paisagem aturdida” desta poesia é a da estética pimba — bailaricos e casamentos, foguetes no ar, motorizadas e megawatts, luzes que piscam, desacatos, muito pó —, a escrita está no exacto oposto da vulgaridade berrante que descreve. Repare-se na adjectivação inventiva (“beijo tangencial”, “combustíveis raparigas”, “varandas penitentes”, “muro cabisbaixo”), no rigor da construção estrófica (“Nas escadas alinhados / quais peças de artilharia, / um por degrau refulgem, / entre os vasos, / os instrumentos da filarmónica”) ou no modo como em apenas dois versos se fixa uma antinomia, uma atmosfera (“Pairam abelhas sobre dálias / e cravos de plástico”). O olhar de Lage é por vezes irónico, mas nunca depreciativo. O que ele procura são as sombras que se escondem sob a euforia kitsch. No seu tom de fanfarra melancólica, este livro é o belíssimo retrato (sem filtros) da nossa ruralidade, emboscada pelas silvas do abandono.» José Mário Silva, Expresso