Desobediência

Desobediência

2011

Um livro que reúne poemas de Eduardo Pitta escritos entre 1971 e 1996. É uma edição definitiva da sua obra poética, quer em termos de fixação de texto quer pela exclusão de alguns poemas que o autor decidiu retirar da sua obra. Um livro que, conforme diz o escritor Nuno Júdice no prefácio, confere «à poesia de Eduardo Pitta um lugar próprio na literatura contemporânea na nossa língua portuguesa.» Críticas de imprensa «[…] Pitta não é um prosélito, mas antes um polemista, sem ser panfletário, o que mais lhe importa é uma perceção das coisas que conduzam o sujeito a um conhecimento do íntimo e da intimidade. O seu dialogismo, bebido em Larkin ou talvez em Dunn, reforça a construção de um mundo pessoal marcado pelo espanto do corpo e pela não menos espantosa efemeridade da beleza desse corpo amado. A rigorosa construção de uma ironia – jamais exasperada e sempre contida – vem de par com uma sageza do erótico e da palavra que fazem de Eduardo Pitta um construtor de um léxico mínimo, depurado e ao mesmo tempo – porque há imagens fortes, intensas – deflagrador de múltiplos sentidos, como se as palavras produzissem, no ato da leitura um efeito expressivo que deriva daquele expressionismo de que fala Graça Moura, mas que é, quanto a nós, sinal de uma revolta íntima: contra as instituições e contra a Cultura, que se opõe a uma procura da Natureza livre.» António Carlos Cortez, JL

Está um rapaz a arder

Está um rapaz a arder
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.
Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
 Nunca ninguém apagou esse lume.

Nada de muito óbvio

Nada de muito óbvio mas havia
qualquer coisa de refractário
no seu nomadismo.
Alguém um dia referiu

episódios escabrosos de antiquíssima
factura.
Sempre a espessura de um canalha
haverá de misturar urzes

com o delito oculto de algumas
quimeras. Vivia em paz quando
a desordem chegou
mas o plot mudara a personagem.

Toda a noite a luz multiplicou

Toda a noite a luz multiplicou
o instantâneo de um rosto intraduzível.
Esquiva, a tua morte não escapou
à ladainha de regra.

Correu uma versão torpe quando
te viram a sorrir
uma ironia de druida clandestino,
indiferente à voragem dos bárbaros.
Desobediência · Eduardo Pitta · 2011
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