Está um rapaz a arder
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.
Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
Nunca ninguém apagou esse lume.
Um livro que reúne poemas de Eduardo Pitta escritos entre 1971 e 1996. É uma edição definitiva da sua obra poética, quer em termos de fixação de texto quer pela exclusão de alguns poemas que o autor decidiu retirar da sua obra. Um livro que, conforme diz o escritor Nuno Júdice no prefácio, confere «à poesia de Eduardo Pitta um lugar próprio na literatura contemporânea na nossa língua portuguesa.» Críticas de imprensa «[…] Pitta não é um prosélito, mas antes um polemista, sem ser panfletário, o que mais lhe importa é uma perceção das coisas que conduzam o sujeito a um conhecimento do íntimo e da intimidade. O seu dialogismo, bebido em Larkin ou talvez em Dunn, reforça a construção de um mundo pessoal marcado pelo espanto do corpo e pela não menos espantosa efemeridade da beleza desse corpo amado. A rigorosa construção de uma ironia – jamais exasperada e sempre contida – vem de par com uma sageza do erótico e da palavra que fazem de Eduardo Pitta um construtor de um léxico mínimo, depurado e ao mesmo tempo – porque há imagens fortes, intensas – deflagrador de múltiplos sentidos, como se as palavras produzissem, no ato da leitura um efeito expressivo que deriva daquele expressionismo de que fala Graça Moura, mas que é, quanto a nós, sinal de uma revolta íntima: contra as instituições e contra a Cultura, que se opõe a uma procura da Natureza livre.» António Carlos Cortez, JL