Monstros antigos
Escrever poesia é uma necessidade quando o dia do cão negro espreita, quando se desequilibra a única aresta do tempo onde passados e futuros se encontram. O que é difícil, em tempos difíceis, é não meter os poemas em trincheiras. Temos de evitar a todo o custo que os poemas se metam em trincheiras. As trincheiras, mesmo que se destinem a ser sepulturas, são cómodas: dizem-nos de que lado estamos, quem supostamente são os nossos e quem supostamente são os outros, para que lado disparar. Só que uma poesia de urgência não pode entrincheirar-se. Pelo contrário, tem de encontrar os caminhos para se chegar ao sítio onde sempre se esteve e que continuam a parecer pátrias estrangeiras. Porque só o estranho pode tornar-se uma pátria. Nota do autor “Não passo a ser poeta por escrever um livro de poesia. Podia, pois, hesitar em publicar. Só que não há tempo para burilar justificações: esta é uma poesia da urgência, uma poesia necessária, algo que poderia adiar em tempos de lassidão – mas não hoje. É duro afastar o nevoeiro com as mãos nuas, mas é preciso tentar. Quem diz com as mãos, diz com palavras.” O Autor