Meia-Noite e um Quarto

Meia-Noite e um Quarto

1987

a gente é meio on the road

a gente é meio on the road
só que muito mais moderno
adoro estar com ele e esse amor é único
e insiste
sobrevive em nós um sonho torto
a gente se permite cafonices
e se finge de casal
mata o tempo na tevê e quando vê somos
lençóis
morremos de saudade que não dói
ele dança na minha frente
e me atrai essa falta de jeito pra me amar
quando beija a boca me enlouquece
não posso recusar tanta meiguice
superfino bagaceiro engraçadíssimo
máximo de luxo me cobre de promessas
champanhe em Mônaco banho nus
Mediterrâneo
instantâneo ele me pede em casamento
e eu aceito

a juíza das minhas loucuras

a juíza das minhas loucuras
é severa demais pra me inocentar


não cobra depoimentos
nem sopra os ferimentos da tortura


simplesmente decreta pra minha culpa
prisão domiciliar

à noite

à noite
todos os gatos são pardos
e raros
perdida na noite procuro
leopardos
esses homens secretos que fogem
no escuro

bem que podia ser diferente

bem que podia ser diferente
mas não foi e eu fiquei assim
pareço estranha mas comum demais
tão óbvia que surpreende a todos
puríssima que embriaga a voz
distante que se sente a pele
tão boa que nem satisfaz
gritona que se pede bis
voraz que se apaixona fácil
mentira que não engana mais
sei lá o que foi que eu fiz

de um rali que escapei

de um rali que escapei
quase ilesa
um pouco de lama na alma
e olho injetado de dor
descobri novas marchas
copilota de planos que não tinha
tirei meu nome do mapa
e segui a trilha sozinha

donzelas medievais

donzelas medievais
não existem mais
hoje só existe a mulher
castidade e magia
cambraia, cetim
hoje
vou fazer o retrato falado de mim


primeiro salto
oito e meio
vestido pérola
e qualquer coisa enrolada no pescoço


choque e contraste
segredos mal guardados
tramas de inverno
manhas bem cedo
naquela época
eu tinha uma saia acima do joelho


e manias
convém selecionar certas regalias
adoro que me imitem


postura fashion
e transparências
invisíveis à noite
impossíveis de dia


uma mulher são várias
e uma só
mantenho um certo ar psicodélico
só uso batom e cajal
preto quando estou de preto
azul quando estou de mal


levo pouca coisa na bolsa
e levo sustos
quando me olho no espelho


uma mulher é uma só
mas são tantas


faço tudo o que todo mundo faz
ultrachique
só mudo os horários
vario os personagens
me divirto demais
ninguém percebe
alguém me cobre de flores
e redescubro a criança que está por trás
leio em francês
mal penteio os cabelos
e pago caro por tudo
caso contrário
faria tudo o que todo mundo faz
uma mulher
é muito mais do que ela sabe ser


e o resto são fantoches
broches na camisa
um clima dark
temperatura amena<

ele corre

ele corre
e abre a grande angular


eu foco a fantasia
e a gente ri que dói


ele Fórmula 1
eu capa da Playboy

em Paris

em Paris
encontrei o homem da minha vida
nem me olhou


Jeu de Paume seis da tarde
se não fosse Degas Monet Toulouse Lautrec
ele me olhava

eu passei por poucas e boas

eu passei por poucas e boas
ele por maus momentos


eu soube de sofrimento
ele quis relaxar e gozar


eu tentei novos caminhos
ele preferiu ficar sozinho


eu quase não via
ele pura alegria e descoberta


eu certa de que tudo daria certo
ele incerto e cuidadoso


até a hora que nos conhecemos
e tentamos uma coisa que só nós dois sabemos

feroz

feroz
minha voz te perturbou
dentro de ti ecoou
um aninal acuado
a angústia de um longo
ramal ocupado

foi então que ela viu no calendário

foi então que ela viu no calendário
um sofrimento diário
uma dor que tinha número
e uma aflição já havia um mês


foi então que resolveu queimá-lo
e trocá-lo por uma ampulheta
que baixa a dor mais rápido
e mata o amor de vez

Marcelo é lindo

Marcelo é lindo
e não é porque tem olhos azuis ou um
jeito doce de ser


Marcelo é lindo porque é muito mais
porque sabe demais sobre coisas nebulosas
e enganos que a gente comete contra si
Marcelo é lindo porque tem menos
idade que eu
sabe tudo de música, utopia e solidão
e sempre fica envergonhado se não gosta
de alguém


Marcelo é lindo porque tem o nome que tem
tem o cabelo, a boca e o sorriso dos marcelos
um céu por cima, um menino por baixo,
um ermitão


Marcelo é daqueles que ninguém conhece
e ninguém sabe disso nem mesmo
uma mulher


Marcelo é daqueles que nos deixa sem jeito
de tanto ser o que a gente é

me visto de vermelho

me visto de vermelho
a raiva tem essa cor


uma lança na mão
uma mancha no lençol


São Jorge
um dragão
um sonho solto


estou pronta para enfrentar
meu inferno zodiacal

minh’alma portuguesa

minh’alma portuguesa
pois pois
não tem nada de Portugal
sou Inglaterra descarada
seca e civilizada
performance o dia inteiro
no peito
um coração underground

Miró me viu

Miró me viu
gostou


recomendou Pueblo Español
artificial


ao Bairro Gótico preferi
Gaudí


no El Corte Inglês
comprei bobagens


do museu Picasso
El Viejo Guitarrista me contempla


que nome lindo
Barcelona

na vertical

na vertical
sou uma mulher de classe
na horizontal
a mulher de alguém
palavra cruzada
sem resposta na última página

Nem Velas Nem Molho Branco

nem velas nem molho branco
hoje nosso jantar
acontece por baixo da mesa


desfias minhas pernas de seda
teu beijo promete mais tarde


jogo a toalha de renda no chão
me rendo

odeio

odeio
a ignorância dessa aldeia


escapo pelas frestas
embarco em outros voos


já tenho minhas passagens
secretas

para encontrar as origens do meu rosto

para encontrar as origens do meu rosto
muçulmano
revistei-me em aeroportos nebulosos
rasguei o véu que me encobria
descobri bombas e granadas no meu peito
tentei lentes azuis e corante no cabelo
nada feito explodi no bar da esquina

parece que foi ontem

parece que foi ontem
que você me convidou para sumir
morar numa cabana e viver de amor
sem freezer, forno de micro-ondas,
videocassete, teatro
restaurantes, butiques, viagens, aeroportos,
microfones
toca-fitas, disco-laser, piscinas, boates,
camarões
hidromassagem, aeróbica, vernissages,
freeshop, rock’n’roll


parece que não fui

pisei no palco

pisei no palco
pela primeira vez


pisquei pra alguém
na primeira fila


interpretei você
na primeira noite

Quando Chegar Aos 30

quando chegar aos 30
serei uma mulher de verdade
nem Amélia nem ninguém
um belo futuro pela frente
e um pouco mais de calma talvez


e quando chegar aos 50
serei livre, linda e forte
terei gente boa do lado
saberei um pouco mais do amor
e da vida quem sabe


e quando chegar aos 90
já sem força, sem futuro, sem idade
vou fazer uma festa de prazer
convidar todos que amei
registrar tudo que sei
e morrer de saudade

quero morar

quero morar
no teu lugar comum
fazer previsões
improvisadas
crises pré-datadas
e ser dois em um
bem clichê
batom no copo
lingerie e Sinatra
bem eu e você


kitch por uma noite
adoraria

são tantos os canais do coração

são tantos os canais do coração
que chegando em Veneza fiquei nua
descobri segredos que escondia de mim mesma
encontrei a saída dos meus becos disfarçados
chorei ouvindo jazz na Praça de São Marcos

se eu quisesse

se eu quisesse
sairia da cidade
moraria onde pudesse
deixaria saudade
partiria quando desse
não interessa a idade


andaria a esmo
descobriria ruas
iria sozinha
pediria abrigo
trabalharia à noite
viveria de dia
ouviria música
saberia línguas
pediria arrego
trocaria o nome
mandaria cartas
choraria às vezes
não envelheceria
perderia o rumo
cometeria erros
distribuiria beijos
arruinaria casamentos
visitaria museus
deixaria o cabelo crescer
sorriria diferente
montaria uma casa
viajaria em cargueiro


faria tudo isso
se eu quisesse mesmo

seria ótimo

seria ótimo
se você baixasse o som e desligasse
esse canal
me tocasse como um disco importado
medo de quebrar
serve um pouco mais de vinho e vem deitar

sou uma mulher esguia

sou uma mulher esguia
pareço chinesa dobrando as esquinas
quando seguida
sumo na multidão


às vezes um pouco nervosa
não sei o que fazer com as mãos


levanto suspeitas no ar
carrego um revólver na bolsa
e um disparo no coração

sou uma mulher mais ou menos

sou uma mulher mais ou menos
abandonada
um pouco me dou o direito
um pouco aconteceu assim
às vezes cansa ser independente
hoje me sustente não me deixe me alimente
quero alguém para pentear meus cabelos


sou uma mulher mais ou menos maltratada
um pouco por descuido
um pouco por querer
gosto da impressão esfomeada
às vezes cansa ser milionária
quero sair das páginas dos jornais
hoje me adote me faça um carinho deboche
me ponha no colo e abotoe minha blusa
me faça dormir e sonhar com o mocinho


sou uma mulher mais ou menos alucinada
um pouco foi o acaso
um pouco é exagero
hoje me expulse se irrite me bata
diga abracadabra e me faça sumir
às vezes cansa ser louca demais
mas gosto do medo que sentem
de se envolver com uma mulher assim
hoje quero alguém mais ou menos
apaixonado por mim

taça de champanhe

taça de champanhe
um disco rodando sempre o mesmo lado
crise
um telefone ao alcance da mão
um número decorado na cabeça
e uma aflição no coração


é aí que mora o perigo

uma nissei não sabe

uma nissei não sabe
tudo que sei
meus olhos arregalados
não piscam pra qualquer um
nem fecham pra qualquer medo
uma nissei
não sabe todo o segredo
periga guardar bilhetes
mas quieta comete enganos
decifra letras do mal
mal sabe meus vinte anos


uma nissei dança muito bem
mas sei que ela dorme cedo

way out

way out
saída de metrô
South Kensington Station
você na cabeça
minha mente voou
um museu, um punk
uma saudade
falo inglês pensando em português
eu amo você
como você mudou
Meia-Noite e um Quarto · Martha Medeiros · 1987
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