Depois de Dezembro

Depois de Dezembro

2010

Críticas de imprensa «Sujeita à erosão provocada pela “água do tempo”, a biografia só pode ser inventada”, e o poema passa a ser o lugar da “solidão implacável”, em que a realidade se reduz à “arte torpe das palavras”, feita sob uma luz “enganadora”. Há como que um paradoxo: por muito que o poeta use uma “lente de aumentar” (a poesia), “a imagem diminui/agora o mundo”. O gradual fechamento não impede, ainda assim, a circulação de certas imagens e temas: a ideia de regresso, o espaço da casa, o amor, o vento, a perda, o rio, a memória.» José Mário Silva, Expresso «A propensão que há nesta poesia para a subjectividade é de certo modo posta em suspenso, como se obedecesse à “lição do olhar” a que o autor se refere num soneto que se transcreve aqui parcialmente: “Cesário Verde deu-nos esta lição/ do olhar mesmo se a noite resiste// Arde o coração quando se escreve/ sobre os dias cansados ou as pessoas/ que foram partilhando connosco a vida// Abrir o olhar ao que nos deve/ conduzir nesta floresta de símbolos/ vendo de novo a eterna criança.”» Fernando Guimarães, JL Excertos "Não foi há muito tempo e todavia tens a impressão de ter sido longínquo o teu passado intenso nas fotografias um outro rosto ileso era o teu e vias - não estava preso contraído ou gasto de tudo esse mar de lava do mundo vasto dia noite e nova madrugada"

Resposta a Drummond

É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada

No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta

e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito

e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal

se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito

e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro

onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida

a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale

e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos

para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos

esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero

este ódio ao mundo que é amor eterno
Depois de Dezembro · António Carlos Cortez · 2010
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