Declives

Declives

1980

A Mão Baixa

A mão baixa

aranha de ar

rápida     intranquila

as armas que respiram

o desejo                     e a surpresa

A Onda

A onda

como se a onda

o ar sem nome

detenho o pulso

sem a palavra

Entre Dois Espaços Duas Sombras Altas

Entre dois espaços        duas sombras         altas

o movimento da montanha        o vazio

nos passos

talvez o texto da terra         talvez a terra         e a mão

antes das pálpebras no ar

Caminho não de lábios mas de sombras

sobre a raiz do lápis sobre o pulso

caminho ou não

no círculo

dos passos

e esta é a frase do caminho

ou a lucidez do braço

Movo-Me Sobre a Montanha

Movo-me sobre a montanha

entre as pálpebras do caminho

A fragilidade da frase

na marcha

sob a cinza

do sol

o eco detém-se à altura da garganta

aridez da água     aridez     uma parede

que ascende     o papel da sombra

Não É Um Texto:

Não é um texto:

é um movimento da sombra

o pulso dos passos:     pedra     A mão

traça

o caminho     separa as sombras

no desejo de ervas claras     de ervas vivas

e só as pálpebras

pesam

sobre o texto

sem árvores

o braço oscila na montanha

O Anel do Insecto Luxúria Mínima

O anel do insecto     luxúria mínima

do poema     os dentes descerrados à frescura do vento

a figura viva     em fragmentos     na fragrância verde

as sílabas     o sol das sílabas sob as sílabas

a pedra escrita

entre a pedra e o silêncio

do nascimento

último

água     ó minha mão na terra

O Ar

O ar

um sulco

os dedos

o círculo de água     ou cal

O Ar Passa

O ar                 passa

a t r a v é s d a s p a l a v r a s

O Que Permanece Ainda Enterrado Pobre

O que permanece ainda enterrado     pobre

no vazio nocturno

minha terra latente

no tempo sem sinais em que os sinais prolongam

os sulcos de uma sombra maquinal e branca

e o meu desejo é uma imagem

minúscula

uma pobre frase com duas árvores nuas

Progridem Os Silêncios

Progridem os silêncios

— tudo é oco ou opaco?

a pressão do tempo cai sobre a nuca negra

o mundo da língua é o murmúrio de um barco

e um ritmo subsiste     um perfume de pedra

uma laranja     um copo     um fragmento        a folha

a gravidade cálida nos elementos livres

o negro

transmite

o branco     a intensidade silenciosa

Quase

Quase

a garganta forte     a respiração do tronco

obsessão branca

a casa do nome

com o vento das ervas

e o fogo sem o nome

Que Importam Estas Pálpebras Na Cerração

Que importam estas pálpebras na cerração

da terra

um olho dilacerado vê     a nudez de um corpo

obstinada desordem dos membros dissolvidos

o latejante trajecto da obscura mão

atinge o vazio de um centro                     o limite vivo

boca na árvore

iluminado seio     caminho

do pulso

Sob a Palha do Sol As Sílabas

Sob a palha do sol as sílabas

soçobravam

intensidade próxima da cegueira

no cérebro da terra as fissuras abriam-se

e a boca sem caminho o seio sem o outro seio

nas lajes sem contacto à superfície nua

no obscuro deserto

de basalto

Um Mar Furtivo Entre Dois Ventos

Um mar furtivo entre dois ventos

no limite

das árvores         as vagas

no papel áridas asas

uma cabeça oca     branca entre algas     dedos

transparência da luz alta

sobre as pálpebras

ávida morte         nua lápide da sombra

Uma Falha Entre

Uma falha entre

duas pedras

a folhagem entre     as pálpebras acesas

a moeda de fogo        música de dedos sóbrios

o caminho     mas

sem caminho:     círculo de lâmpadas

o texto     o texto único        raiz

do pulso

lápis de sombra

raiz do lápis na montanha
Declives · António Ramos Rosa · 1980
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