Vinte poemas para Albano Martins

Vinte poemas para Albano Martins

1986

Agora o Fulgor Reúne o Movimento Dos Lábios

Agora o fulgor reúne o movimento dos lábios
e os flancos fortes e os ombros sem vestígios.
As portas estão abertas sobre as veias do solo.
Pronuncia-se o sal sobre as arestas da terra.
Os joelhos atravessam as sombras e as corolas.
A espuma inunda os frutos e a ferida dos sentidos.

Dissipam-Se As Minhas Pétalas

Dissipam-se as minhas pétalas
entre formigas e sombras.
Tudo o que me dilacera
está perto do que é minúsculo.
Pequenos fósseis brancos
dizem tudo quanto sou
no desejo de ser pedra
ou uma parede com fendas.

Enquanto Estamos Vivos

Enquanto estamos vivos
procuramos saber e, mais do que saber,
o sabor que dilata espesso e fúlgido
e que queima como uma axila ou como um púbis
e é nostalgia, paixão, ignorância,
vazio vibrante
e a delícia sem máscaras em que o ar resplandece.

Não Fosforesce Essa Mão Que Mal Se Move

Não fosforesce essa mão que mal se move
e quase não palpita sob a escura abóbada.
Estreitam-se os dedos de madeira transparente
e sobre o papel volante ainda acendem uma lua
que ascende vacilante sobre a cabeça trémula.

No Cimo da Diagonal

No cimo da diagonal
em que se levanta a torre oblíqua
sobre um jardim
de claridades verdes
a realidade é o espaço
em que o abandono fulgura como um centro.

Nunca Será Música, Nunca Será Bosque

Nunca será música, nunca será bosque
nem o torso de uma pomba
nem a pedra rutilante
nem uma garganta do mar.
Não, não quero mais do que a saliva do vento
e o rumor dos abismos.
Nenhuma mensagem, nenhum voo.
Apenas os inviolados signos de um fundo mágico.

Ó Forma da Minha Forma

Ó forma da minha forma
ilumina estes flancos frios, esta mão crispada.
Que eu respire, túmulo, mas vivo.
Tanta espera vã,
tantos espelhos de máscaras.
Eis-me desconhecido e nu
para receber por rosto um sopro.

O Reino Está Aqui

O reino está aqui
no seu rumor de oceano
no seu horizonte fundo
na sua redondez cintilante.
Mas nós perdemos as leves
sandálias do vento
já não conhecemos o gozo
vegetal
de uma nua eternidade.

Sim, Digamos Sim Sem o Dizer

Sim, digamos sim sem o dizer
por todos os poros,
sim, este fulgor, este sopro, este jardim
que é como um barco ou um pássaro silencioso,
sim, esta única carícia sobre um corpo que flui infinitamente.
Vinte poemas para Albano Martins · António Ramos Rosa · 1986
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