Lista de Poemas
Explore os poemas da nossa coleção
Ruínas
Por onde quer que tenha começado,
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como num sono agitado interrompido. O …
Revolução
Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interi…
Regresso
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coi…
Escrito de memória
1. Um pequeno depósito de incredulidade
no fundo dos teus olhos.
2. Um breve estremecimento no movimento
do coração (do meu coração).
3. A impres…
Manhã
Estar contigo ao acordar, ver como
se abrem as tuas pálpebras, cortinas
corridas sobre o sonho, sacudir dos
teus lábios o silêncio da noite para
que um prime…
Já não é possível
Já tudo é tudo. A perfeição dos
deuses digere o próprio estômago.
O rio da morte corre para a nascente.
O que é feito das palavras senão as palavras?
Relatório
É um mundo pequeno,
habitado por animais pequenos
- a dúvida, a possibilidade da morte -
e iluminado pela luz hesitante de
pequenos astros - o rumor do…
Epidauro 62
Oiço a voz subir os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha
É apenas um pouco tarde
Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 7 (…
Variação celeste
Colhi a flor de um relâmpago
de entre os teus seios juntos, e quando
estremeceste foi como se uma estrela
tivesse vacilado nos ombros
da manhã.
Pu…
Não é um Poema
Os rostos são os mesmos,
os corpos são os mesmos,
as palavras voam para o desluzido,
as ideias de cadáver antigo.
Isto não é um poema:
é um ataque de ra…
Trapézio
subir por aquele rapaz acima
e chamar deus à vontade
de subir
Sei Que Estou Só E Gelo Entre As Folhagens
Sei que estou só e gelo entre as folhagens
Nenhuma gruta me pode proteger
Como um laço deslaça-se o meu ser
E nos meus olhos morrem as paisagens.
Desl…
Os olhos
O rosto que olha para trás,
o lado de fora do visível
existe este rosto ou é apenas,
diante da infância, o olhar que se contempla?
Em ti, noite,
r…
Sede
Sei que tua sede se estendeu
para além do mais distante fio d"água:
tua é a sede dos verões,
a que habita na garganta do meio-dia.
Faz muito tempo que o sal<…
Caminhos
Cegueira do gesto
quando em vão se agarra
ao muro espesso dos feitos consumados.
Densa guitarra de sangue
acompanhando a canção
noturna e subterrânea.
Na biblioteca
O que não pode ser dito
guarda um silêncio feito
de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiado tarde,
quando já a incerteza
e …
Madrugada
Um leve tremor precede a madrugada
Quando mar e céu na mesma cor se azulam
E são mais claras as luzes dos barcos pescadores
E para além de insânias e rumores
Ladrões de Bicicletas — Vittorio de Sica (1948)
Mil quilómetros por dia pedalava meu pai, desde
a cama junto ao Douro até à próspera Cerâmica
de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta ini…
Nuno Júdice espera do leitor
Espero do leitor que abra um livro de poesia como se abre uma caixa de fósforos: fazendo a cada poema o que se faz quando se risca um fósforo, para que ele se acenda e o seu fog…
Correspondência
Vejo as nuvens que avançam do Atlântico para o continente. E, por trás delas, como um pastor
exigente, o vento que as empurra. Depois,
as nuvens passam e volta o sol…
Canto de ausência
O amor é esse gato abstracto que emerge
de um rumor de lençóis para se converter na esfinge
do teu corpo, quando te voltas e me entregas
a península do teu dorso.…
Chegar antes de ti
Como gosto, meu amor, de chegar antes de ti para te ver chegar: com a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. a…
Sonhei contigo
Sonhei
contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes, tu a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra…