Lista de Poemas
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4I
O canteiro cheira à pedra. Da rosa cavada nela cheirará,
por dedos e pensamento,
à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se
na sua teia de água. Com tantos martelos…
Viajando
Para Antonio Miranda,
ao ler “Despertar das Águas”
Sol entre nuvens
Bom tempo para navegantes.
Vou pela areia
Chego ao laguinho
Esqueci…
ALEGRIA
Que improvável trazer
o dom da alegria.
Que clandestino trago
de vinho saboreio
na tarde que germina
– dulcíssimo perfume –
duras ervas daninhas
SABER ESCAVAR
Havia terra neles, e
escavavam.
Paul Celan
Saber escavar, escavar sempre
a terra podre e depois escavar
a sombra espessa. Respirar fundo
O MEU LUGAR NO ESTADO DAS COISAS
Conheço o meu lugar no estado das coisas
e não ouso dizer o sentimento do mundo.
O jardim renovado, os hibiscos em flor
não são o planeta inteiro e tampouco
…
5A
Gárgula.
Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.
Esse an…
4C
Que ofício debruçado: polir a jóia extenuante,
multiplicar o mundo face
mais face.
Fazer da imagem uma consciência vária.
O fogo dessa pedra cada vez mais<…
4R
Dálias cerebrais de repente. Artesianas, irrigadas
pela infiltração
alimentar do sono. Álcoois,
minérios, drogas. Curvam a luz onde se apoiam.
Autónomas
3M
Dias esquecidos um a um, inventa-os a memória.
Profundamente se levanta uma bilha vazia.
Nem o peso nem a leveza nos embriaga.
O perfume a vinho, sim, uma
…
POEMA PARA O FILHO QUE SE CASA
Que este sonho inaugurado
Em tua carne, em teus atos,
Não se dissolva, abstrato,
Ao contacto dos cactos.
Que este intervalo de orvalho
Em seu sorr…
4L
O espaço do leopardo, enche-o com a magnificência.
Com a insónia alumiada enche
o espaço da pérola. E há o espaço da boca para encher
com a diástole salgada
Meteorito
O meu cérebro é um meteorito.
Vejo-o a cair do
C éu
como se tivesse sido talhado
pela imaginação mas não.
4M
Entre varais de sal, no fundo, onde se fica cego.
O coração é uma bolha,
a boca é uma bolha de oxigénio rude.
E brilha o corpo inteiro na espuma esbracejada
Lisboa micro-lugar
Em torno de Lisboa um círculo com desejo
de outro círculo, debaixo-dentro de outro
círculo: um O. Basta ler o mapa e observar
o tremor-temor desta cidade dentro d…
4B
Aguas espasmódicas, luas repetidas nas águas.
Ninguém sabe se as luas vistas pulsam da pulsação
das águas, ou se as águas pulsam
pela força das luas
exalta…
ENTRE O SONHO E O NOJO
Nenhum panorama
Além desta tarde
De cimento e lama
Nenhum desafogo
No jogo incansável
Entre o sonho e o nojo.
Nenhuma surpresa
No …
4P
Mergulhador na radiografia de brancura escarpada.
Arboreamente explosiva.
Busca na constelação salina a flor
que traga na boca
de bailarino. Uma bolha árdu…
4Q
Levanto as mãos e o vento levanta-se nelas.
Rosas ascendem do coração trançado
das madeiras.
As caudas dos pavões como uma obra astronómica.
E o quarto alag…
Assunção
Não há ciência para nós, nem o corpo é semente dispersa
de uma memória exacta. Somos tu e eu, elevados da terra
a um círculo de luz, espessa música. Descansa em minha<…
UMA TERRA COMO ESSA
Não chamo deserto uma terra como essa.
Sob o sol que brilha como calcário
não vislumbro os ferozes e magros
homens cobertos de negro, abutres
que caminham e …
5B
As varas frias que batem nos meus lugares levantam
os dias de espuma, as varas cor de malva
nos lugares altos
levantam o enxofre na treva.
Ei-la, a crianç…
4S
Ninguém tem mais peso que o seu canto.
Alua agarra-o pela raiz,
arranca-o.
Deixa um grito que embriaga,
deixa sangue na boca.
Que seja a demonia: — a …
[poema sem título]
O corpo sobe e desce
embalado de encontro
à gelatina (gordura)
do líquido até se dissolver
na onda de partículas
– a cintilação sem brilho
(glauca)…
Chá vermelho-ferro
Fosse teu corpo um bule, exuberante
e esguio, de rosto oculto e mãos
como hastes a vermelho-ferro,
e de tua boca se soltasse um vento
sem tecto que de fumo d…