Citações neste tema
Emoções e Sentimentos
Karl Kraus
Megalomania não é considerarmos-nos mais do que somos, mas considerarmos-nos aquilo que somos.
68
Karl Kraus
Os psicólogos modernos que ampliam os limites da irresponsabilidade ocupam um vasto lugar nela.
93
Karl Kraus
Comparada ao sabe-tudo, a enciclopédia tem uma vantagem: o orgulho. Ela comporta-se com reserva, fica à espera e nunca dá mais do que se quer. Ela contenta-se em responder quando Amenófis nasceu. O sabe-tudo folheia a si mesmo e logo informa também sobre as amebas, sobre o amperímetro, os anfictiões, a anfoterodiplopia, a amrita, que é a bebida dos deuses da doutrina hindu, os amschaspands, que são os sete espíritos de luz supremos da religião persa, o amschir, que como se sabe é o sexto mês do calendário turco, sobre o amuleto (do árabe hamala), sobre a amigdalina, a peculiar substância encontrada nas amêndoas amargas, que, misturada em solução aquosa com a emulsina (cf.), fornece ácido cianídrico, essência de amêndoas amargas e açúcar, e sobre a conhecida vela de acetato de amila, e é capaz de se interromper quando chega a Anaxágoras, justamente onde as coisas se tornam mais interessantes. E então ficamos insatisfeitos.
66
Karl Kraus
Durante a semana, conseguimo-nos fechar para o mundo. Mas há um sentimento dominical penetrante do qual não conseguimos escapar nem mesmo num porão, no topo de uma montanha ou dentro de um elevador.
88
Karl Kraus
Posso imaginar que uma mulher feia se veja ao espelho e se convença de que a imagem refletida é feia, e não ela própria. É dessa forma que a sociedade vê a sua baixeza num espelho e acredita, por idiotice, que sou eu o sujeito baixo.
90
Karl Kraus
O mundo das relações, no qual um cumprimento é mais forte do que uma crença e no qual as pessoas se asseguram do inimigo quando agarram a sua mão, considera como cálculo a renúncia ao seu sistema, e ainda que não chegue a detestar Hércules por dificultar a sua própria vida e a de três mil bois, ele sonda os seus motivos e pergunta: “O que o senhor tem contra Áugias?”.
80
Karl Kraus
Um empregado de mesa é uma pessoa que usa um fraque sem que o percebamos. Em contrapartida, há pessoas que tomamos por empregados de mesa assim que vestem um fraque. Logo, o fraque não tem valor em nenhum dos casos.
93
Karl Kraus
Por que a eternidade não abortou esta época aberrante? Sua marca de nascença é um carimbo de jornal, seu mecónio, tinta de impressão, e nas suas veias corre tinta de escrever.
75
Karl Kraus
O que faz de mim a maldição da sociedade à margem da qual vivo é o modo súbito como renomes, caracteres e cérebros se revelam perante mim sem que eu precise desmascará-los. Alguém carrega a sua importância por anos a fio até que eu o alivie desse peso num momento imprevisto. Deixo-me enganar pelo tempo que quiser. Não é assunto meu “penetrar as intenções” das pessoas, e de modo algum me preparo para isso. Mas certo dia o meu vizinho coloca a mão na testa, sabe quem é e odeia-me. A fraqueza foge de mim e diz que sou inconstante. Tolero o comodismo porque não me pode fazer mal; certo dia, quando se tratar de um sim ou de um não, ele morrerá espontaneamente. Basta que alguma vez eu esteja certo em fazer algo que tenha cheiro de carácter ou que de algum modo me torne suspeito: a mentalidade revela-se automaticamente. Se for verdade que maus exemplos arruínam bons costumes, isso é válido em medida ainda maior para os bons exemplos. Qualquer um que tenha a força de ser um exemplo deforma o seu ambiente, e os bons costumes, que são o conteúdo da vida da má sociedade, correm sempre o risco de serem corrompidos. A insipidez tolera o meu comportamento enquanto ele se mantém em limites académicos; se o demonstro numa acção, porém, ela assusta-se e foge. Aguento o tédio por muito mais tempo do que ele a mim. Dizem que sou intolerante. O contrário é verdadeiro. Posso relacionar-me com as pessoas mais tediosas sem o notar. Estou tão ocupado comigo mesmo a cada momento que nenhuma conversa me pode fazer mal. Para a maioria, a vida social é um banho de imersão em que se submerge a cabeça; a mim, ela mal me umedece os pés. Nenhuma anedota, nenhuma recordação de viagem, nenhuma dádiva do cofre do conhecimento, numa palavra, aquilo que as pessoas consideram ser o suprassumo da conversação, é capaz de deter a minha actividade interior. Em todas as épocas, a força criadora causou maior mal-estar à impotência do que esta a ela. A partir disso se explica porque a minha companhia se torna insuportável a tanta gente e que perseverem ao meu lado apenas em razão de uma cortesia despropositada. Seria coisa fácil para mim ir ao encontro daqueles que sempre precisam de ser estimulados durante uma conversa. Por mais inculto que eu seja e por mais que eu entenda menos de astronomia, contraponto e budismo do que um recém-nascido, eu por certo seria capaz, mediante a habilidosa intercalação de perguntas, de simular um interesse e de demonstrar um conhecimento superficial que daria mais alegrias a um sabe-tudo do que um conhecimento especializado que o poderia envergonhar. Mas eu, que em toda a minha vida ainda não dei um passo ao encontro de necessidades que não reconheci como estimuladoras do espírito, mostro ser um completo malcriado nessas situações. E não, talvez, um malcriado que boceja — isso seria humano —, não, mas um malcriado que pensa! Ao mesmo tempo, desdenho comunicar os meus próprios dons ao indigente que padece suplícios de Tântalo diante dos seus conhecimentos adquiridos pela leitura e que precisa passar fome nos celeiros egípcios do conhecimento. Com um coração endurecido ao ponto da petrificação, chego a fazer piadas piores do que aquelas que me ocorrem, e não revelo nada daquilo que escrevo no meu bloco de notas entre dois goles de café. No dia em que, num momento de descuido, não me ocorrer nenhuma ideia e existir o risco de que a vida social penetre no meu cérebro, dou um tiro em mim.
97
Karl Kraus
O que faz de mim a maldição da sociedade à margem da qual vivo é o modo súbito como renomes, caracteres e cérebros se revelam perante mim sem que eu precise desmascará-los. Alguém carrega a sua importância por anos a fio até que eu o alivie desse peso num momento imprevisto. Deixo-me enganar pelo tempo que quiser. Não é assunto meu “penetrar as intenções” das pessoas, e de modo algum me preparo para isso. Mas certo dia o meu vizinho coloca a mão na testa, sabe quem é e odeia-me. A fraqueza foge de mim e diz que sou inconstante. Tolero o comodismo porque não me pode fazer mal; certo dia, quando se tratar de um sim ou de um não, ele morrerá espontaneamente. Basta que alguma vez eu esteja certo em fazer algo que tenha cheiro de carácter ou que de algum modo me torne suspeito: a mentalidade revela-se automaticamente. Se for verdade que maus exemplos arruínam bons costumes, isso é válido em medida ainda maior para os bons exemplos. Qualquer um que tenha a força de ser um exemplo deforma o seu ambiente, e os bons costumes, que são o conteúdo da vida da má sociedade, correm sempre o risco de serem corrompidos. A insipidez tolera o meu comportamento enquanto ele se mantém em limites académicos; se o demonstro numa acção, porém, ela assusta-se e foge. Aguento o tédio por muito mais tempo do que ele a mim. Dizem que sou intolerante. O contrário é verdadeiro. Posso relacionar-me com as pessoas mais tediosas sem o notar. Estou tão ocupado comigo mesmo a cada momento que nenhuma conversa me pode fazer mal. Para a maioria, a vida social é um banho de imersão em que se submerge a cabeça; a mim, ela mal me umedece os pés. Nenhuma anedota, nenhuma recordação de viagem, nenhuma dádiva do cofre do conhecimento, numa palavra, aquilo que as pessoas consideram ser o suprassumo da conversação, é capaz de deter a minha actividade interior. Em todas as épocas, a força criadora causou maior mal-estar à impotência do que esta a ela. A partir disso se explica porque a minha companhia se torna insuportável a tanta gente e que perseverem ao meu lado apenas em razão de uma cortesia despropositada. Seria coisa fácil para mim ir ao encontro daqueles que sempre precisam de ser estimulados durante uma conversa. Por mais inculto que eu seja e por mais que eu entenda menos de astronomia, contraponto e budismo do que um recém-nascido, eu por certo seria capaz, mediante a habilidosa intercalação de perguntas, de simular um interesse e de demonstrar um conhecimento superficial que daria mais alegrias a um sabe-tudo do que um conhecimento especializado que o poderia envergonhar. Mas eu, que em toda a minha vida ainda não dei um passo ao encontro de necessidades que não reconheci como estimuladoras do espírito, mostro ser um completo malcriado nessas situações. E não, talvez, um malcriado que boceja — isso seria humano —, não, mas um malcriado que pensa! Ao mesmo tempo, desdenho comunicar os meus próprios dons ao indigente que padece suplícios de Tântalo diante dos seus conhecimentos adquiridos pela leitura e que precisa passar fome nos celeiros egípcios do conhecimento. Com um coração endurecido ao ponto da petrificação, chego a fazer piadas piores do que aquelas que me ocorrem, e não revelo nada daquilo que escrevo no meu bloco de notas entre dois goles de café. No dia em que, num momento de descuido, não me ocorrer nenhuma ideia e existir o risco de que a vida social penetre no meu cérebro, dou um tiro em mim.
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Karl Kraus
Os jornalistas escrevem porque não têm nada a dizer, e têm algo a dizer porque escrevem.
84
Karl Kraus
Antes alguém te perdoar pela baixeza que cometeu contra ti do que pelo favor que de ti recebeu.
60
Karl Kraus
Talvez as coisas andassem melhor se os homens recebessem focinheiras e os cães, leis; se os homens fossem conduzidos pela coleira e os cães pela religião. A hidrofobia poderia diminuir na mesma proporção da política.
76
Karl Kraus
Em algum lugar, encontrei a seguinte inscrição: “Pede-se deixar o lugar assim como se deseja encontrá-lo”. Se os educadores da vida falassem às pessoas com a metade da ênfase dos donos de hotéis!
87
Karl Kraus
Que tormento é esta vida em sociedade! Muitas vezes alguém é tão amável em me oferecer fogo que preciso procurar um cigarro no bolso para ser amável com ele.
79
Karl Kraus
Que tormento é esta vida em sociedade! Muitas vezes alguém é tão amável em me oferecer fogo que preciso procurar um cigarro no bolso para ser amável com ele.
79
Karl Kraus
Divido as pessoas que não cumprimento em quatro grupos. Há aquelas que não cumprimento para não me comprometer. Esse é o caso mais simples. Há aquelas que não cumprimento para não as comprometer. Isso já exige uma certa atenção. Mas então há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto delas. Com estas é ainda mais difícil de lidar. E, por fim, há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto de mim mesmo. Isso exige um cuidado especial. No entanto, já tenho uma rotina razoavelmente estabelecida e, pela maneira como não cumprimento, sei expressar de tal modo cada uma destas nuanças que não sou injusto com ninguém.
73
Karl Kraus
Divido as pessoas que não cumprimento em quatro grupos. Há aquelas que não cumprimento para não me comprometer. Esse é o caso mais simples. Há aquelas que não cumprimento para não as comprometer. Isso já exige uma certa atenção. Mas então há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto delas. Com estas é ainda mais difícil de lidar. E, por fim, há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto de mim mesmo. Isso exige um cuidado especial. No entanto, já tenho uma rotina razoavelmente estabelecida e, pela maneira como não cumprimento, sei expressar de tal modo cada uma destas nuanças que não sou injusto com ninguém.
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