Citações neste tema
Emoções e Sentimentos
Karl Kraus
Não há volúpia que se aproxime da euforia da criação intelectual, e não há tristeza que se compare ao estado em que o artista mergulha depois de concluída a obra. A segurança da inconsciência cria sempre a sua primeira obra e, por isso, sempre a melhor. Uma vez consumada, a insegurança da consciência vê que é a última e, por isso, a pior. Qualquer crítica leviana impressiona semelhante desânimo. Um juízo capaz de acompanhar a criação artística apenas na sobriedade e não no gozo é uma verdadeira maldição. Nada sabem da volúpia aqueles que apenas sabem que ela precede a tristeza.
86
Karl Kraus
Antes os cenários eram de cartão e os atores eram de verdade. Agora os cenários são completamente convincentes, e os atores, de cartão.
74
Karl Kraus
A ideia de que uma obra de arte possa ser alimento para o apetite do filisteu enche-me de pavor. Recuso-me a ser digerido pelo burguês. Mas ficar no seu estômago também não é tentador. O melhor, talvez, seja não se lhe servir de forma alguma.
77
Karl Kraus
O valor da formação revela-se da maneira mais nítida quando as pessoas cultas tomam a palavra para falar de um problema que se encontra fora do campo da sua formação.
68
Karl Kraus
Não confio na máquina de impressão quando lhe entrego os meus manuscritos. Como pode um dramaturgo fiar-se na boca de um ator?
63
Karl Kraus
Para que um artista deveria compreender o outro? O Vesúvio aprecia o Etna? No máximo, poderia estabelecer-se uma relação feminina de comparação invejosa: quem cospe melhor?
88
Karl Kraus
Um bom estilista deve sentir o prazer de um Narciso durante o seu trabalho. Deve ser capaz de objetivar a sua obra de tal maneira que se surpreenda com um sentimento de inveja e somente pela memória se aperceba que ele próprio é o criador. Em suma, deve dar provas daquela objetividade suprema que o mundo chama de vaidade.
75
Karl Kraus
É provável que o riacho de Grinzing tenha estimulado Beethoven a compor a Sinfonia Pastoral. Mas isso não prova nada a favor do riacho de Grinzing e tudo a favor de Beethoven. Quanto menor a paisagem, tanto maior pode ser a obra de arte, e vice-versa. É tolice, porém, dizer que a atmosfera que o riacho transmite a um caminhante qualquer é a mesma recebida pelo ouvinte da sinfonia. Caso contrário, também poderíamos dizer que o cheiro de maçãs podres nos dá o Wallenstein de Schiller.
94
Karl Kraus
Os neurologistas que patologizam o génio merecem que lhes partamos o crânio com as suas Obras Completas. Não devemos agir de forma diferente com os defensores da humanidade que deploram a vivissecção em cobaias e permitem a utilização de obras de arte para fins experimentais. Sempre que consigamos agarrá-los, chutemos a cara de todos os que se dispõem a provar que a imortalidade deve ser atribuída à paranoia, de todos os ajudantes racionalistas da humanidade normal que a tranquilizam por não ter inclinações para obras do engenho e da imaginação. Shakespeare louco? Então a humanidade ajoelha-se e, com medo da sua saúde, implora ao Criador por mais loucura!
82
Karl Kraus
Rir da vaidade dos atores, da sua necessidade de aplausos e afins é ridículo. As pessoas de teatro precisam do aplauso para representar melhor; e para isso, também basta o aplauso fingido. O sentimento de felicidade que alguns atores mostram quando são aplaudidos por aqueles que pagaram para o fazer é uma prova do seu génio artístico. Dificilmente alguém teria-se tornado um grande ator se o público tivesse vindo ao mundo sem mãos.
76
Karl Kraus
Como? A humanidade imbeciliza-se em favor do progresso maquinal e nem sequer deveríamos fazer uso dele? Deveríamos manter diálogos com a estupidez quando podemos escapar dela num automóvel?
75
Karl Kraus
Se o convite de um cocheiro para andar em seu coche apenas se chocasse com o nosso desejo de não andar com ele, a vida seria fácil. Mas às vezes ele se choca com pensamentos melhores, e os destrói. Quem, afinal, pensa sempre em não andar de coche?
70
Karl Kraus
Crianças brincam de soldado. Isto é razoável. Mas por que brincam os soldados de criança?
82
Karl Kraus
Em qualquer caso, o não reconhecimento de uma vida mental é uma condição social. O homem fica satisfeito por ver respeitada a sua pele e atrás dela a chamada honra e a chamada moralidade. O olho e o ouvido não devem ser ofendidos, apenas as exigências que os mesmos fazem. O nariz precisa perceber cheiros que detesta, e quando o paladar se preparou para uma refeição, o empregado de mesa vem dez minutos depois e lamenta não poder mais servir. Qualquer imbecil pode encará-lo com os olhos arregalados, tu precisas tolerar o incómodo de qualquer palerma quando ele perguntou se não estás a incomodar, e exatamente quando corres até à secretária para anotar que vives na companhia de pessoas que se julgam eticistas por não te puxarem a carteira do bolso em plena rua, alguém certamente cruzará o teu caminho a pedir lume. O facto de a civilização se orgulhar da cortesia neste ponto, o facto de nenhum fumador ousar responder ao pedido indesejado com um brusco não — nada é capaz de desnudar melhor a estupidez da convenção que estabelecemos entre nós. Prometeu foi buscar o fogo aos céus. Mas, em razão disso, até ele foi acorrentado por ordem de Júpiter a um rochedo do Cáucaso onde um abutre lhe come o fígado.
85
Karl Kraus
A nossa cultura consiste em três gavetas, das quais duas se fecham quando uma está aberta: trabalho, diversão e instrução. Os malabaristas chineses dominam a vida toda com um só dedo. As coisas serão fáceis para eles, portanto. A esperança amarela!
83
Karl Kraus
Mas que amigo da vida em sociedade era aquele rei bávaro que se sentava sozinho no teatro! Quanto a mim, também atuaria.
71
Karl Kraus
Mas que amigo da vida em sociedade era aquele rei bávaro que se sentava sozinho no teatro! Quanto a mim, também atuaria.
71
Karl Kraus
Olho por uma janela e o horizonte é obstruído por uma cara de basbaque. Isto é trágico. Nada tenho contra o facto de existirem caras repugnantes. Mas por que a óptica dispôs as coisas de tal modo que uma pessoa possa encobrir um bosque? Podemos, por certo, encobrir a pessoa com um porrete. Mas, em todo o caso, saímos prejudicados com a ilusão de óptica. E assim os raios luminosos servem para aumentar a misantropia.
69
Karl Kraus
Olho por uma janela e o horizonte é obstruído por uma cara de basbaque. Isto é trágico. Nada tenho contra o facto de existirem caras repugnantes. Mas por que a óptica dispôs as coisas de tal modo que uma pessoa possa encobrir um bosque? Podemos, por certo, encobrir a pessoa com um porrete. Mas, em todo o caso, saímos prejudicados com a ilusão de óptica. E assim os raios luminosos servem para aumentar a misantropia.
69
Karl Kraus
Considero a política uma maneira pelo menos tão excelente de liquidar a seriedade da vida quanto o jogo de cartas, e visto que há homens que vivem de jogar cartas, o político profissional é um fenómeno perfeitamente compreensível. Tanto mais que ele ganha sempre à custa daqueles que não tomam parte no jogo. Mas está correto que o apostador político pague as contas, já que a observação paciente constitui o conteúdo da sua vida. Se não houvesse política, o cidadão teria apenas a sua vida interior, ou seja, nada que o pudesse ocupar.
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Karl Kraus
Para se orientar em questões de política, bastam lembranças de opereta. Aquilo que pode ser dito contra a forma de governo absolutista, por exemplo, foi-nos ensinado pelas figuras de um rei Bobèche, de um príncipe herdeiro Kasimir ou de um general Kantschukoff. Se a exigência dos frasistas de que a arte se ocupe dos assuntos públicos possui mesmo um sentido, então ela só pode estar a referir-se à produção de operetas. Esta é criticada com razão por negligenciar há décadas os únicos assuntos humanos que não cabe levar a sério, ou seja, os assuntos públicos. Pois a forma artística da opereta é adaptada à essência de todos os desdobramentos políticos por conceder à estupidez uma improbabilidade redentora. Exigir que a criação artística se lance sobre os acontecimentos recém-saídos do forno é uma tolice; mesmo a sátira os desdenha, pois ainda que seja capaz de apreender os ridículos da política, estes ocorrem abaixo do nível de uma observação espirituosa de sentido superior.
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