Citações neste tema
Sociedade e Mundo
Karl Kraus
O público não tolera qualquer coisa. Ele repele com indignação uma obra imoral quando percebe as suas intenções culturais.
70
Karl Kraus
Prússia: liberdade de ir e vir usando focinheira. Áustria: solitária com permissão para gritar.
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Karl Kraus
É uma injustiça sempre criticar Viena pelos seus defeitos, visto que as suas qualidades também merecem censura. No entanto, o livro de B. chega a criticar Viena por defeitos que são apenas qualidades que lhe faltam. Como esse autor eleva o nível cultural dos vienenses para atacá-lo! É lastimável essa falsa óptica de uma crítica que primeiro precisa inventar as qualidades de um povo para depois levá-las a mal. O autor descobriu no povo austríaco uma concepção ilusória da vida, e culpa uma dinastia, que sem dúvida é a mais fiel guardiã das realidades, pelo facto de o vienense viver num mundo irreal. A história “quis experimentar se o espírito podia governar sozinho”, e instituiu os Habsburgos. Eles criaram o mundo a partir do seu espírito. E semelhante panegírico ao mais sublime senso artístico foi considerado desleal! Eu, no entanto, não tolero a concepção errónea de uma essência popular que se esgota exclusivamente em pequenas autenticidades. Pois o mundo vienense não foi criado a partir do espírito, e sim a partir da carne de gado. Perante essa solidez que se mede em quilos, toda a imaginação capaz de criar um mundo qualquer é arruinada. O espírito criativo da irrealidade, descoberto pelo autor, interveio na história austríaca visivelmente apenas uma vez. Foi durante a construção da Linha Ferroviária Sul, entre Viena e Baden, quando se constatou que não havia montanha à disposição para construir o túnel que uma Alteza desejava — e o túnel foi construído.
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Karl Kraus
É uma injustiça sempre criticar Viena pelos seus defeitos, visto que as suas qualidades também merecem censura. No entanto, o livro de B. chega a criticar Viena por defeitos que são apenas qualidades que lhe faltam. Como esse autor eleva o nível cultural dos vienenses para atacá-lo! É lastimável essa falsa óptica de uma crítica que primeiro precisa inventar as qualidades de um povo para depois levá-las a mal. O autor descobriu no povo austríaco uma concepção ilusória da vida, e culpa uma dinastia, que sem dúvida é a mais fiel guardiã das realidades, pelo facto de o vienense viver num mundo irreal. A história “quis experimentar se o espírito podia governar sozinho”, e instituiu os Habsburgos. Eles criaram o mundo a partir do seu espírito. E semelhante panegírico ao mais sublime senso artístico foi considerado desleal! Eu, no entanto, não tolero a concepção errónea de uma essência popular que se esgota exclusivamente em pequenas autenticidades. Pois o mundo vienense não foi criado a partir do espírito, e sim a partir da carne de gado. Perante essa solidez que se mede em quilos, toda a imaginação capaz de criar um mundo qualquer é arruinada. O espírito criativo da irrealidade, descoberto pelo autor, interveio na história austríaca visivelmente apenas uma vez. Foi durante a construção da Linha Ferroviária Sul, entre Viena e Baden, quando se constatou que não havia montanha à disposição para construir o túnel que uma Alteza desejava — e o túnel foi construído.
97
Karl Kraus
Se eu perguntasse ao porteiro de um restaurante berlinense qual o significado dos relevos e frisos da escadaria, ele poderia responder: “Isto serve para ter em conta o senso de beleza”. Se eu perguntasse a um catador de papéis quem é representado num monumento, ele poderia responder: “O homem fez algo pela educação”. Certo, isto são abominações da civilização. Mas com o tempo também ficámos fartos das vantagens dela que gozamos em Viena quando a estas perguntas recebemos sempre a mesma resposta: “Que te importam os frisos, seu fedelho imbecil!”.
88
Karl Kraus
Se eu perguntasse ao porteiro de um restaurante berlinense qual o significado dos relevos e frisos da escadaria, ele poderia responder: “Isto serve para ter em conta o senso de beleza”. Se eu perguntasse a um catador de papéis quem é representado num monumento, ele poderia responder: “O homem fez algo pela educação”. Certo, isto são abominações da civilização. Mas com o tempo também ficámos fartos das vantagens dela que gozamos em Viena quando a estas perguntas recebemos sempre a mesma resposta: “Que te importam os frisos, seu fedelho imbecil!”.
88
Karl Kraus
O valor da formação revela-se da maneira mais nítida quando as pessoas cultas tomam a palavra para falar de um problema que se encontra fora do campo da sua formação.
68
Karl Kraus
O gosto moderno necessita das complicações mais rebuscadas para finalmente descobrir que a melhor forma para um copo de água é a redonda. Ele chega ao conveniente pelo caminho das incomodidades. Ele trabalha no suor do seu rosto para reconhecer que a Terra não é um cubo, mas uma esfera. Esse assombro indígena da civilização perante as conquistas da natureza tem algo tocante.
83
Karl Kraus
Quem emite opiniões não se pode deixar apanhar em contradição. Quem tem pensamentos também pensa entre as contradições.
91
Karl Kraus
Não falemos publicamente sobre os problemas da vida sexual. Que a vivamos e lhe demos forma, mas nos calemos a respeito. Para resguardar a verdade é lícito ser hipócrita.
94
Karl Kraus
Não há, então, nada a fazer contra o erro de impressão que sempre transforma uma erudição estúpida em estupenda?
72
Karl Kraus
O esteta não vive tão longe do político quanto se pensa. Para aquele, a vida reduz-se a uma linha; para este, a uma superfície. O jogo frívolo que ambos praticam deixa-os igualmente distantes do espírito, num lugar em que absolutamente não entram mais em consideração. É trágico ser reclamado por aquele partido quando não se quer saber nada deste, e ter de pertencer a este porque se detesta aquele. Porém, da altura da verdadeira intelectualidade, vê-se a política apenas como uma futilidade estética e a orquídea como uma flor partidária. É a mesma falta de personalidade que leva uns a buscar a vida no conteúdo e outros a buscá-la na forma. Eles nada querem saber um do outro; ambos, contudo, fazem parte do mesmo esfoladouro.
63
Karl Kraus
Não se deveria abolir a vara, e sim o professor que a emprega mal. A reforma ginasial, como todo remendo humanitário, é uma vitória sobre a imaginação. Os mesmos professores que até então não eram capazes de chegar a um juízo com a ajuda do catálogo, agora terão de mergulhar carinhosamente na individualidade do estudante. O humanitarismo eliminou o pesadelo do medo de ser “chamado à frente”, mas a vida estudantil sem perigos será mais insuportável do que a perigosa. Entre “excelente” e “absolutamente insatisfatório” havia um espaço para experiências românticas. Eu não gostaria de secar de minha memória o suor pelos troféus da infância. Juntamente com o aguilhão, também desaparece o estímulo. O ginasiano vive sem ambição como um filósofo sorridente e entra despreparado no arrivismo da vida que no passado o seu caráter antecipava inofensivamente como o corpo vacinado antecipava a varíola. Ele experimentava todos os perigos da vida, chegando à beira do suicídio. Em vez de banir os professores que fazem a brincadeira dos perigos transformar-se em coisa séria, prescreve-se a seriedade da vida sossegada. Antes os alunos vivenciavam a escola, agora devem deixar-se formar por ela. A beleza é banida juntamente com os arrepios, e o espírito jovem encontra-se diante da parede caiada de um céu protestante. Os suicídios de estudantes motivados pela estupidez de pais e professores irão cessar, e como motivo legítimo restará o tédio.
75
Karl Kraus
A natureza adverte para refletirmos sobre uma vida que se apoia sobre trivialidades. Uma insatisfação cósmica manifesta-se por toda a parte; neves estivais e calores invernais protestam contra o materialismo que transforma a existência num leito de Procusto, trata doenças psíquicas como se fossem dores de barriga e gostaria de desfigurar a face da natureza onde quer que perceba as suas feições: na natureza, na mulher e no artista. Um mundo que suportaria o seu ocaso desde que não fosse impedido de ver a sua exibição cinematográfica não pode ser atemorizado com o incompreensível. Eu, porém, tomo facilmente um terramoto como protesto contra as conquistas do progresso e não duvido por um instante da possibilidade de que um excesso de estupidez humana possa indignar os elementos.
64
Karl Kraus
Uma formação universal é uma farmácia bem provida, porém não há qualquer garantia de que não venda cianureto de potássio para tratar um resfriado.
79
Karl Kraus
Que a palavra escrita seja a corporificação naturalmente necessária de um pensamento, e não o invólucro socialmente aceitável de uma opinião.
84
Karl Kraus
Quando a estupidez se manifesta numa cidade, deve-se declará-la contaminada. E nenhum caso deve ser ocultado. Com que facilidade pode acontecer que um imbecil frequente uma casa em que haja crianças! Nessas épocas, recomenda-se o encerramento das escolas e não, como se poderia pensar, a sua abertura.
83
Karl Kraus
O político está metido na vida, não se sabe onde. O esteta foge da vida, não se sabe para onde.
87
Karl Kraus
Gostaria muito de requerer a concessão para a operação manual de uma guilhotina. Mas o imposto sobre o lucro que eu teria de pagar!
61
Karl Kraus
Na cidade de Echternach, no Luxemburgo, ainda hoje ocorrem as chamadas procissões saltitantes. Pelo facto de no passado os animais terem sido acometidos de tarantulismo, os camponeses locais fizeram o voto de saltar em honra de São Willibrord em lugar dos animais. Hoje, nem as pessoas nem o gado conhecem mais a origem da singular cerimónia, mas aquelas mantêm-se-lhe fiéis, e se a força do hábito continuar a afirmar-se entre os habitantes de Echternach, talvez chegue novamente o dia em que o gado salte em honra de São Willibrord. Por ocasião do Pentecostes, ainda hoje cerca de 15 mil pessoas dão “três pulos para a frente e dois para trás”. O clero não salta junto, mas assiste. O espetáculo não o agrada inteiramente; ele preferiria que fossem dois pulos para a frente e três para trás.
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