Citações neste tema
Humor e Ironia
Karl Kraus
É melhor que não nos roubem nada. Assim pelo menos não teremos problemas com a polícia.
71
Karl Kraus
Os meus leitores acreditam que escrevo para o dia por escrever a partir dele. Assim, preciso esperar até que os meus escritos envelheçam. Então possivelmente adquirirão atualidade.
79
Karl Kraus
Desde que maçãs podres serviram certa vez de estímulo no drama alemão, o público receia usá-las como meio de intimidação.
82
Karl Kraus
Quando lemos um dos seus ensaios mitológico-políticos aprendemos a odiar a cultura mais do que o absolutamente necessário.
73
Karl Kraus
Literatos alemães: os louros com que um sonha não deixam o outro dormir. Outro, por sua vez, sonha que os seus louros não deixam um outro dormir, e este não dorme porque o outro sonha com louros.
83
Karl Kraus
Contar a piada inventada por uma pessoa engenhosa é o mesmo que apanhar uma seta do chão. A citação não diz como foi disparada.
83
Karl Kraus
Empregar palavras incomuns é um vício literário. Devemos colocar apenas dificuldades de pensamento no caminho do público.
74
Karl Kraus
O leitor admite de bom grado que o autor o deixe confuso com a sua cultura geral. Qualquer pessoa fica impressionada porque não sabia como a ilha de Corfu se chama em albanês. Pois a partir de então ela sabe, e pode brilhar diante dos outros que ainda não sabem. A cultura geral é a única premissa que o público não leva a mal, e um autor que humilha o leitor nesse ponto tem a sua fama presente garantida. Mas ai daquele que pressupõe faculdades que não possam ser recuperadas ou cuja aplicação esteja ligada a incomodidades! Tudo bem que o autor saiba mais que o leitor; mas que ele tenha pensado mais não lhe será perdoado tão facilmente. O público não pode ser mais tolo. Ele é inclusive mais inteligente do que o autor culto, pois fica sabendo através da sua revista como a ilha de Corfu se chama em albanês, enquanto aquele teve de consultar uma enciclopédia primeiro.
88
Karl Kraus
Nem de longe um bom escritor recebe tantas cartas anónimas ofensivas quanto normalmente se supõe. De cem asnos, nem dez admitem sê-lo, e no máximo um coloca isso por escrito.
56
Karl Kraus
Não confio na máquina de impressão quando lhe entrego os meus manuscritos. Como pode um dramaturgo fiar-se na boca de um ator?
63
Karl Kraus
A natureza adverte para refletirmos sobre uma vida que se apoia sobre trivialidades. Uma insatisfação cósmica manifesta-se por toda a parte; neves estivais e calores invernais protestam contra o materialismo que transforma a existência num leito de Procusto, trata doenças psíquicas como se fossem dores de barriga e gostaria de desfigurar a face da natureza onde quer que perceba as suas feições: na natureza, na mulher e no artista. Um mundo que suportaria o seu ocaso desde que não fosse impedido de ver a sua exibição cinematográfica não pode ser atemorizado com o incompreensível. Eu, porém, tomo facilmente um terramoto como protesto contra as conquistas do progresso e não duvido por um instante da possibilidade de que um excesso de estupidez humana possa indignar os elementos.
62
Karl Kraus
Não se deveria abolir a vara, e sim o professor que a emprega mal. A reforma ginasial, como todo remendo humanitário, é uma vitória sobre a imaginação. Os mesmos professores que até então não eram capazes de chegar a um juízo com a ajuda do catálogo, agora terão de mergulhar carinhosamente na individualidade do estudante. O humanitarismo eliminou o pesadelo do medo de ser “chamado à frente”, mas a vida estudantil sem perigos será mais insuportável do que a perigosa. Entre “excelente” e “absolutamente insatisfatório” havia um espaço para experiências românticas. Eu não gostaria de secar de minha memória o suor pelos troféus da infância. Juntamente com o aguilhão, também desaparece o estímulo. O ginasiano vive sem ambição como um filósofo sorridente e entra despreparado no arrivismo da vida que no passado o seu caráter antecipava inofensivamente como o corpo vacinado antecipava a varíola. Ele experimentava todos os perigos da vida, chegando à beira do suicídio. Em vez de banir os professores que fazem a brincadeira dos perigos transformar-se em coisa séria, prescreve-se a seriedade da vida sossegada. Antes os alunos vivenciavam a escola, agora devem deixar-se formar por ela. A beleza é banida juntamente com os arrepios, e o espírito jovem encontra-se diante da parede caiada de um céu protestante. Os suicídios de estudantes motivados pela estupidez de pais e professores irão cessar, e como motivo legítimo restará o tédio.
74
Karl Kraus
Os neurologistas que patologizam o génio merecem que lhes partamos o crânio com as suas Obras Completas. Não devemos agir de forma diferente com os defensores da humanidade que deploram a vivissecção em cobaias e permitem a utilização de obras de arte para fins experimentais. Sempre que consigamos agarrá-los, chutemos a cara de todos os que se dispõem a provar que a imortalidade deve ser atribuída à paranoia, de todos os ajudantes racionalistas da humanidade normal que a tranquilizam por não ter inclinações para obras do engenho e da imaginação. Shakespeare louco? Então a humanidade ajoelha-se e, com medo da sua saúde, implora ao Criador por mais loucura!
81
Karl Kraus
A ideia de que uma obra de arte possa ser alimento para o apetite do filisteu enche-me de pavor. Recuso-me a ser digerido pelo burguês. Mas ficar no seu estômago também não é tentador. O melhor, talvez, seja não se lhe servir de forma alguma.
77
Karl Kraus
As revistas de humor são uma prova de que o filisteu não tem sentido de humor. Elas fazem parte da seriedade da vida como a bebida faz parte da refeição. “Dê-me todas as revistas de humor!”, ordena um idiota cheio de preocupações ao empregado de mesa, e atormenta-se para que um sorriso apareça no seu rosto. O humor que ele não tem deve chegar-lhe de todos os cantos da vida quotidiana, e ele desdenharia inclusive a caixa de fósforos que não trouxesse uma piada no seu rótulo. Li numa delas: “Aprendiz de ofício (que comprou uma linguiça casualmente enrolada num poema): Muito bem! Primeiro vou comer a linguiça para alimentar o corpo e depois leio o poema para alimentar o espírito!”. Coisas assim alegram o filisteu, e ele nem sequer percebe o método do aprendiz de ofício como uma indireta.
64
Karl Kraus
É provável que o riacho de Grinzing tenha estimulado Beethoven a compor a Sinfonia Pastoral. Mas isso não prova nada a favor do riacho de Grinzing e tudo a favor de Beethoven. Quanto menor a paisagem, tanto maior pode ser a obra de arte, e vice-versa. É tolice, porém, dizer que a atmosfera que o riacho transmite a um caminhante qualquer é a mesma recebida pelo ouvinte da sinfonia. Caso contrário, também poderíamos dizer que o cheiro de maçãs podres nos dá o Wallenstein de Schiller.
93
Karl Kraus
Um bom estilista deve sentir o prazer de um Narciso durante o seu trabalho. Deve ser capaz de objetivar a sua obra de tal maneira que se surpreenda com um sentimento de inveja e somente pela memória se aperceba que ele próprio é o criador. Em suma, deve dar provas daquela objetividade suprema que o mundo chama de vaidade.
73