Citações neste tema
Criatividade e Inspiração
Karl Kraus
O pensamento é algo que se encontra, que se reencontra. E quem o procura é um encontrador honesto; ele é seu, mesmo que outro também já o tenha encontrado antes dele.
79
Karl Kraus
Há uma originalidade que provém da carência, que não é capaz de se elevar até à banalidade.
65
Karl Kraus
A arte do escritor não o deixa balançar sobre a corda bamba de um período bem esticado, mas transforma-lhe um ponto final num problema. Ele pode atrever-se ao insólito; cada regra, porém, dissolve-se para ele num caos de dúvidas.
77
Karl Kraus
Quando Deus viu que era bom, a crença humana sem dúvida lhe atribuiu a vaidade, mas não a insegurança do criador.
59
Karl Kraus
Há uma dúvida produtiva que vai além de um ultimato morto. Eu poderia encher cadernos inteiros com os pensamentos que pensei até chegar a um pensamento, e volumes inteiros com aqueles que pensei depois.
69
Karl Kraus
Há imitadores de originais. Quando dois têm um pensamento, ele não pertence àquele que o teve antes, mas àquele que o tem melhor.
78
Karl Kraus
Quando um pensador erige um ideal, todos gostam de se sentir tocados. Eu descrevi o sub-homem — quem deveria me seguir?
83
Karl Kraus
O bom senso diz que “ainda acompanha” um artista até determinado ponto. O artista deveria recusar a companhia mesmo até aí.
83
Karl Kraus
Um cérebro criativo também diz por conta própria aquilo que outro disse antes dele. Em compensação, outro pode imitar pensamentos que apenas mais tarde ocorrerão a um cérebro criativo.
81
Karl Kraus
Um bom autor sempre receará que o público perceba quais foram os pensamentos que lhe ocorreram tarde demais. Mas quanto a isso, o público é muito mais indulgente do que se acredita, e também não percebe os pensamentos que aí estão.
92
Karl Kraus
Quem quiser praticar ginástica cerebral, que procure reconstruir tão rápido quanto possível a conversa de um grupo quando, em dado momento, chamar a sua atenção o quanto essa conversa se afastou do tema original. Ele folheará essa enciclopédia e verá um caminho em ziguezague em cujas extremidades se encontram assuntos que fazem lembrar a divertida falta de relação dos títulos: De calefação a gótico e De Newton a pacífico.
68
Karl Kraus
Tal como sempre surgem rostos novos, embora o conteúdo das pessoas pouco se distinga, assim deve haver sempre frases novas para o mesmo material intelectual. Isso dependerá do criador que tiver a capacidade de exprimir a mais ligeira nuance.
73
Karl Kraus
Muitas vezes é difícil escrever um aforismo quando se é capaz de o fazer. Muito mais fácil é escrever um aforismo quando não se é capaz de o fazer.
70
Karl Kraus
Oh deleite das experiências da língua, devorador da medula! O perigo da palavra é o prazer do pensamento. O que foi que dobrou a esquina ali adiante? Ainda não divisada e já amada! Lança-me nessa aventura.
74
Karl Kraus
Devemos escrever sempre como se escrevêssemos pela primeira e pela última vez. Dizer tanto como se fosse uma despedida, e tão bem como se estivéssemos a estrear.
73
Karl Kraus
Ficar triste da vida por haver encontrado no seu trabalho um erro que ninguém vê; apenas se tranquilizar depois de encontrar um segundo, pois então a mancha na honra é coberta pelo conhecimento da imperfeição dos esforços humanos: parece-me que é esse talento para a tortura o que distingue a arte do artesanato. Cabeças rasas poderiam tomar esse traço por pedantismo, mas elas não suspeitam de que liberdade nasceu essa coerção e a que facilidade de produção conduzem semelhantes dificuldades infligidas a si próprio. Nada seria mais tolo do que falar de niquice formal onde a forma não é a roupagem do pensamento, mas a sua carne. Essa caçada às últimas possibilidades de expressão conduz até às entranhas da linguagem. É aí que se cria esse entrelaçamento no qual os limites entre o que e como não são mais distinguíveis, e no qual, frequentemente, a expressão antecede o pensamento até ao instante em que ele dá a sua centelha sob a lima. Os diletantes trabalham seguros e vivem satisfeitos. Por causa de uma palavra recusada pela balança de precisão da minha sensibilidade estilística, muitas vezes já detive a máquina de impressão e mandei destruir o que tinha sido impresso. A máquina violenta o espírito em vez de o servir: assim pretende mostrar quem manda. Quando é que acabo, visto que a publicação por fim não pode mais ser impedida e não traz a ansiada cesura da criação? Ah, eu só termino um trabalho quando começo outro; esse é o tempo que dura a minha “correção de autor”. Esse também é o tempo que dura a louvável loucura de acreditar que o leitor notará a ausência de um pensamento que nasceu depois da hora. E comparada a uma escrita que se arrepende de maneira tão sanguinolenta das suas imperfeições, esse leitor considera que a sua faculdade de ler, deturpada pelo jornalismo, é perfeita. Por alguns vinténs, ele comprou um direito à superficialidade: será que ficaria satisfeito se tivesse de se lançar ao trabalho? Talvez as coisas estivessem melhores se os escritores alemães aplicassem aos seus manuscritos a décima parte do cuidado que dedico aos meus textos depois de impressos. Um amigo que me socorre com frequência fazendo as vezes de parteira, ficou admirado com a facilidade dos meus partos e a dificuldade do meu puerpério. Para os outros as coisas vão bem. Eles trabalham à escrivaninha e divertem-se na sociedade. Eu divirto-me à escrivaninha e trabalho na sociedade. Por isso evito a sociedade. No máximo, eu poderia perguntar às pessoas se esta ou aquela palavra lhes agrada mais. E isso elas não sabem.
55
Karl Kraus
Que a palavra mais velha seja desconhecida nas redondezas, recém-nascida e inspire dúvidas sobre se vai viver. Então ela viverá. Ouvimos o coração da língua a bater.
67
Karl Kraus
Não domino a língua, mas a língua me domina completamente. Ela não é a criada dos meus pensamentos. Vivo numa relação com ela em que concebo pensamentos, e ela pode fazer de mim o que bem quiser. Eu obedeço-lhe à letra. Pois das letras salta o jovem pensamento ao meu encontro e dá forma retroativa à língua que o criou. Semelhante graça de gestar pensamentos obriga-me a ficar de joelhos e transforma todo dispêndio de cuidado trémulo em dever. A língua é uma senhora dos pensamentos; ela pode ser útil na casa de quem consegue inverter essa relação, mas fecha-lhe o útero.
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