Poemas neste tema
Relações e Família
Charles Bukowski
Meu Amigão
para um garoto de 21 anos em Nova Orleans eu não valia grande
coisa: eu tinha um quartinho escuro que cheirava a
mijo e morte
no entanto eu só queria permanecer ali, e havia
duas garotas animadas no fim do corredor que
ficavam batendo na minha porta e gritando “Levante!
Há coisas boas lá fora!”
“Vão embora”, eu lhes dizia, mas isso só as incentivava
mais ainda, elas deixavam bilhetes embaixo da minha porta e
fixavam flores com fita adesiva na
maçaneta.
eu vivia à base de vinho barato e cerveja verde e
demência...
eu acabei conhecendo um velho do quarto
ao lado, de algum modo eu me sentia velho como
ele; ele tinha os pés e os tornozelos inchados e não conseguia
amarrar seus sapatos.
todo dia por volta da uma da tarde nós saíamos juntos para
dar uma caminhada e era uma caminhada muito
lenta: cada passo era doloroso para
ele.
quando chegávamos ao meio-fio eu o ajudava
a subir e descer
agarrando um ombro
e a parte de trás do
cinto, nós conseguíamos.
eu gostava dele: ele nunca me questionava sobre
o que eu estava ou não estava
fazendo.
ele deveria ter sido meu pai, e eu gostava
muitíssimo do que ele dizia o tempo
todo: “Nada vale a
pena”.
ele era um
sábio.
aquelas mocinhas deveriam ter
deixado para ele
os bilhetes e as
flores.
coisa: eu tinha um quartinho escuro que cheirava a
mijo e morte
no entanto eu só queria permanecer ali, e havia
duas garotas animadas no fim do corredor que
ficavam batendo na minha porta e gritando “Levante!
Há coisas boas lá fora!”
“Vão embora”, eu lhes dizia, mas isso só as incentivava
mais ainda, elas deixavam bilhetes embaixo da minha porta e
fixavam flores com fita adesiva na
maçaneta.
eu vivia à base de vinho barato e cerveja verde e
demência...
eu acabei conhecendo um velho do quarto
ao lado, de algum modo eu me sentia velho como
ele; ele tinha os pés e os tornozelos inchados e não conseguia
amarrar seus sapatos.
todo dia por volta da uma da tarde nós saíamos juntos para
dar uma caminhada e era uma caminhada muito
lenta: cada passo era doloroso para
ele.
quando chegávamos ao meio-fio eu o ajudava
a subir e descer
agarrando um ombro
e a parte de trás do
cinto, nós conseguíamos.
eu gostava dele: ele nunca me questionava sobre
o que eu estava ou não estava
fazendo.
ele deveria ter sido meu pai, e eu gostava
muitíssimo do que ele dizia o tempo
todo: “Nada vale a
pena”.
ele era um
sábio.
aquelas mocinhas deveriam ter
deixado para ele
os bilhetes e as
flores.
1 128
Charles Bukowski
Prática
naquela vizinhança da depressão eu tinha dois amigões
Eugene e Frank
e eu trocava violentos socos com um e
outro
uma ou duas vezes por semana.
as lutas duravam 3 ou 4 horas e nós acabávamos
com
narizes esmagados, lábios inchados, olhos roxos, pulsos
torcidos, nós dos dedos machucados, vergões
escuros.
nossos pais não diziam nada, nos deixavam brigar sem
parar
observando desinteressadamente e
por fim voltando para seus jornais
ou seus rádios ou suas frustradas vidas sexuais,
eles só ficavam irritados quando nós rasgávamos ou estragávamos as nossas
roupas, por isso e somente por isso.
mas Eugene e Frank e eu
nós fazíamos uns bons exercícios
nós rolávamos pelas noitinhas, irrompendo por
cercas-vivas, lutando ao longo do asfalto, sobre os
meios-fios e adentrando estranhos pátios e quintais em
casas desconhecidas, os cães latindo, as pessoas gritando
conosco.
nós éramos
maníacos, nunca desistíamos até o chamado da janta
que nenhum de nós podia se dar ao luxo de
perder.
de todo modo, Eugene virou capitão da
Marinha e Frank virou juiz da Suprema Corte do Estado da
Califórnia e eu mexi com o
poema.
Eugene e Frank
e eu trocava violentos socos com um e
outro
uma ou duas vezes por semana.
as lutas duravam 3 ou 4 horas e nós acabávamos
com
narizes esmagados, lábios inchados, olhos roxos, pulsos
torcidos, nós dos dedos machucados, vergões
escuros.
nossos pais não diziam nada, nos deixavam brigar sem
parar
observando desinteressadamente e
por fim voltando para seus jornais
ou seus rádios ou suas frustradas vidas sexuais,
eles só ficavam irritados quando nós rasgávamos ou estragávamos as nossas
roupas, por isso e somente por isso.
mas Eugene e Frank e eu
nós fazíamos uns bons exercícios
nós rolávamos pelas noitinhas, irrompendo por
cercas-vivas, lutando ao longo do asfalto, sobre os
meios-fios e adentrando estranhos pátios e quintais em
casas desconhecidas, os cães latindo, as pessoas gritando
conosco.
nós éramos
maníacos, nunca desistíamos até o chamado da janta
que nenhum de nós podia se dar ao luxo de
perder.
de todo modo, Eugene virou capitão da
Marinha e Frank virou juiz da Suprema Corte do Estado da
Califórnia e eu mexi com o
poema.
1 036
Charles Bukowski
Máquina Mágica
eu gostava dos discos velhos que
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
1 164
Charles Bukowski
Diversão Das 3 da Manhã:
a pior coisa é
estar bêbado
todos os isqueiros sem
faísca
cartelas de fósforos
vazias
tocos de cigarros e charutos
por todos os lados
você encontra uma pequena embalagem de
fósforos
com 3 fósforos
de papelão
mas os fósforos raspam
moles contra o gasto fósforo da
caixa
merda:
bebida sem fumo é como
pau sem
boceta
você bebe um pouco
mais
procura em volta
encontra um fósforo de papelão
de pura felicidade
cuidadosamente o raspa
contra a menos gasta
das embalagens
vazias
ele chameja!
você pode
fumar!
você acende
o fumo
você lança o fósforo
num piparote rumo a um
cinzeiro
você erra a mira
e
do nada...
sobe uma chama
tudo está QUEIMANDO
afinal!
: um recibo da
American Express
: algumas das embalagens de fósforos
vazias
: até mesmo um dos isqueiros
mortos
a chama rodopia e
salta
então todo o cinzeiro de
tocos de cigarro e charuto
começa a produzir fumaça
como se bocas os estivessem
tragando
você combate as chamas com
vários e sortidos objetos
incluindo suas
mãos
até que finalmente a chama se
vai e não há nada senão
fumaça
e outra vez lhe vem aquele
pensamento recorrente: só posso estar
louco.
você ouve a voz da sua
esposa:
“Hank, você está
bem?”
ela está no outro lado da
parede no
quarto
“ah, estou ótimo...”
“tem cheiro de fumaça... a casa está pegando
fogo?”
“foi só um foguinho, Linda... eu
apaguei... dorme...”
foi ela que comprou pra você
a lixeira de aço
depois de uma ocorrência
similar
logo ela está dormindo
de novo
e você está procurando
mais
fósforos.
estar bêbado
todos os isqueiros sem
faísca
cartelas de fósforos
vazias
tocos de cigarros e charutos
por todos os lados
você encontra uma pequena embalagem de
fósforos
com 3 fósforos
de papelão
mas os fósforos raspam
moles contra o gasto fósforo da
caixa
merda:
bebida sem fumo é como
pau sem
boceta
você bebe um pouco
mais
procura em volta
encontra um fósforo de papelão
de pura felicidade
cuidadosamente o raspa
contra a menos gasta
das embalagens
vazias
ele chameja!
você pode
fumar!
você acende
o fumo
você lança o fósforo
num piparote rumo a um
cinzeiro
você erra a mira
e
do nada...
sobe uma chama
tudo está QUEIMANDO
afinal!
: um recibo da
American Express
: algumas das embalagens de fósforos
vazias
: até mesmo um dos isqueiros
mortos
a chama rodopia e
salta
então todo o cinzeiro de
tocos de cigarro e charuto
começa a produzir fumaça
como se bocas os estivessem
tragando
você combate as chamas com
vários e sortidos objetos
incluindo suas
mãos
até que finalmente a chama se
vai e não há nada senão
fumaça
e outra vez lhe vem aquele
pensamento recorrente: só posso estar
louco.
você ouve a voz da sua
esposa:
“Hank, você está
bem?”
ela está no outro lado da
parede no
quarto
“ah, estou ótimo...”
“tem cheiro de fumaça... a casa está pegando
fogo?”
“foi só um foguinho, Linda... eu
apaguei... dorme...”
foi ela que comprou pra você
a lixeira de aço
depois de uma ocorrência
similar
logo ela está dormindo
de novo
e você está procurando
mais
fósforos.
983
Charles Bukowski
A Ilha Que Vai Encolhendo
estou trabalhando nele com
o amanhecer se curvando na minha direção...
quase acertei a mão às 3:34 mas ele
me escapou dos dedos
com a feitiçaria de um
peixinho prateado...
agora
com a meia-luz se movendo na minha direção
como a morte filha da mãe
eu desisto da batalha
me levanto
ando em direção ao banheiro
bato de cara
numa parede
solto uma deplorável risada
miante...
ligo a luz e
começo a mijar, sim, no
lugar certo
e
depois de puxar a descarga
penso: mais uma noite
que se foi.
bem, nós lhe demos um pouco de
gritaria
de todo modo.
lavamos nossas
garras...
desligamos a
luz
andamos na direção do
quarto onde a
esposa
desperta o bastante
para dizer: “não pisa
no gato!”
o que nos traz de volta
às
reais
questões
enquanto encontramos a cama
nos enfiamos nas cobertas
rosto para o teto: um
homem
aterrado
bêbado
gordo
e velho.
o amanhecer se curvando na minha direção...
quase acertei a mão às 3:34 mas ele
me escapou dos dedos
com a feitiçaria de um
peixinho prateado...
agora
com a meia-luz se movendo na minha direção
como a morte filha da mãe
eu desisto da batalha
me levanto
ando em direção ao banheiro
bato de cara
numa parede
solto uma deplorável risada
miante...
ligo a luz e
começo a mijar, sim, no
lugar certo
e
depois de puxar a descarga
penso: mais uma noite
que se foi.
bem, nós lhe demos um pouco de
gritaria
de todo modo.
lavamos nossas
garras...
desligamos a
luz
andamos na direção do
quarto onde a
esposa
desperta o bastante
para dizer: “não pisa
no gato!”
o que nos traz de volta
às
reais
questões
enquanto encontramos a cama
nos enfiamos nas cobertas
rosto para o teto: um
homem
aterrado
bêbado
gordo
e velho.
1 297
Charles Bukowski
A Dama do Castelo
ela morava numa casa
que parecia um
castelo
e quando você entrava
os tetos eram tão absolutamente
altos
e eu era pobre
e aquilo tudo
me fascinava
bastante.
ela
já não era
jovem
mas tinha
volumosos
cabelos
que praticamente
desciam até os
tornozelos
e
eu pensava em
como seria
estranho
transar
em meio a todo aquele
cabelo.
fui até lá
diversas vezes
no meu velho
carro
e ela tinha refinadas
bebidas para
servir
e ficávamos sentados
mas eu nunca
conseguia chegar efetivamente
perto dela
e embora eu não
forçasse
nada
algo na ideia de
não
nos conectarmos
de fato machucava o meu
ego
pois por mais feio que eu fosse
eu sempre havia
tido sorte com as
mulheres.
isso me confundia
e creio que
eu precisava
daquilo.
ela gostava de
falar sobre
as artes e
sobre
criação cinematográfica
e ouvir
tudo aquilo
só me fazia
beber
mais.
por fim
eu
simplesmente
desisti
dela
e um bom ano
ou algo assim
havia passado
quando
certa noite
o telefone
tocou: era a
dama.
“eu quero ir aí ver
você”, ela disse.
“estou escrevendo agora, pegando
fogo... não posso receber
ninguém...”
“eu só quero fazer uma
visita, não vou incomodar você,
vou só ficar no sofá,
vou dormir no sofá,
não vou incomodar você...”
“NÃO! MEU DEUS DO CÉU,
NÃO POSSO RECEBER NINGUÉM!”
eu desliguei.
a dama que estava efetivamente
no sofá
disse “ah, você está todo
MOLE agora!”
“é.”
“vem aqui...”
ela envolveu meu pênis
com a mão
botou a língua
para fora
e aí
parou.
“o que você está escrevendo?”
“nada... estou com bloqueio de
escritor...”
“só podia... seus canos estão
entupidos... você precisa de uma
esvaziada...”
então ela botou meu pau na
boca
e aí o telefone tocou
de novo...
furioso
eu corri até o
telefone
e
atendi.
era a dama do
castelo:
“escuta, não vou incomodar você,
você nem vai notar a minha
presença...”
“SUA PUTA, EU TÔ GANHANDO UM
BOQUETE!”
eu desliguei e
voltei.
a outra dama estava indo
em direção à
porta.
“qual é o problema?”, eu
perguntei.
“eu DETESTO essa
palavra!”
“que palavra?”
“BOQUETE!”, ela
gritou.
ela bateu a porta e
foi embora...
eu fui até onde estava
a máquina de escrever
coloquei uma folha nova
no rolo.
era uma
da manhã.
fiquei ali sentado e
bebi scotch e
cerveja pra tirar o gosto
fumei charutos
baratos.
3:15 da manhã
ainda estava sentado
ali
reacendendo velhos
tocos de charuto e
bebendo ale.
a folha
nova continuava
em branco.
eu desliguei as
luzes
me arrastei na direção
do quarto
tratei de me atirar na
cama
roupas ainda
no corpo
dava para ouvir a água da privada
correndo
mas eu não conseguia me levantar
para fechar a alavanca
e dar fim àquele
som
meus malditos canos estavam
entupidos.
que parecia um
castelo
e quando você entrava
os tetos eram tão absolutamente
altos
e eu era pobre
e aquilo tudo
me fascinava
bastante.
ela
já não era
jovem
mas tinha
volumosos
cabelos
que praticamente
desciam até os
tornozelos
e
eu pensava em
como seria
estranho
transar
em meio a todo aquele
cabelo.
fui até lá
diversas vezes
no meu velho
carro
e ela tinha refinadas
bebidas para
servir
e ficávamos sentados
mas eu nunca
conseguia chegar efetivamente
perto dela
e embora eu não
forçasse
nada
algo na ideia de
não
nos conectarmos
de fato machucava o meu
ego
pois por mais feio que eu fosse
eu sempre havia
tido sorte com as
mulheres.
isso me confundia
e creio que
eu precisava
daquilo.
ela gostava de
falar sobre
as artes e
sobre
criação cinematográfica
e ouvir
tudo aquilo
só me fazia
beber
mais.
por fim
eu
simplesmente
desisti
dela
e um bom ano
ou algo assim
havia passado
quando
certa noite
o telefone
tocou: era a
dama.
“eu quero ir aí ver
você”, ela disse.
“estou escrevendo agora, pegando
fogo... não posso receber
ninguém...”
“eu só quero fazer uma
visita, não vou incomodar você,
vou só ficar no sofá,
vou dormir no sofá,
não vou incomodar você...”
“NÃO! MEU DEUS DO CÉU,
NÃO POSSO RECEBER NINGUÉM!”
eu desliguei.
a dama que estava efetivamente
no sofá
disse “ah, você está todo
MOLE agora!”
“é.”
“vem aqui...”
ela envolveu meu pênis
com a mão
botou a língua
para fora
e aí
parou.
“o que você está escrevendo?”
“nada... estou com bloqueio de
escritor...”
“só podia... seus canos estão
entupidos... você precisa de uma
esvaziada...”
então ela botou meu pau na
boca
e aí o telefone tocou
de novo...
furioso
eu corri até o
telefone
e
atendi.
era a dama do
castelo:
“escuta, não vou incomodar você,
você nem vai notar a minha
presença...”
“SUA PUTA, EU TÔ GANHANDO UM
BOQUETE!”
eu desliguei e
voltei.
a outra dama estava indo
em direção à
porta.
“qual é o problema?”, eu
perguntei.
“eu DETESTO essa
palavra!”
“que palavra?”
“BOQUETE!”, ela
gritou.
ela bateu a porta e
foi embora...
eu fui até onde estava
a máquina de escrever
coloquei uma folha nova
no rolo.
era uma
da manhã.
fiquei ali sentado e
bebi scotch e
cerveja pra tirar o gosto
fumei charutos
baratos.
3:15 da manhã
ainda estava sentado
ali
reacendendo velhos
tocos de charuto e
bebendo ale.
a folha
nova continuava
em branco.
eu desliguei as
luzes
me arrastei na direção
do quarto
tratei de me atirar na
cama
roupas ainda
no corpo
dava para ouvir a água da privada
correndo
mas eu não conseguia me levantar
para fechar a alavanca
e dar fim àquele
som
meus malditos canos estavam
entupidos.
1 363
Charles Bukowski
A Belíssima Editora
ela era uma mulher belíssima, eu costumava ver fotografias
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
1 178
Charles Bukowski
Um Poema Ordinário
já que vocês sempre quiseram
saber vou admitir que nunca gostei de Shakespeare, Browning, das
irmãs Brontë,
de Tolstói, beisebol, verões no litoral, queda
de braço, hóquei, Thomas Mann, Vivaldi, Winston Churchill, Dudley
Moore, verso livre,
pizza, boliche, os Jogos Olímpicos, os Três Patetas, os Irmãos
Marx, Ives, Al Jolson, Bob Hope, Frank Sinatra, Mickey
Mouse, basquete,
pais, mães, primos, esposas, morar junto (embora preferível à
opção anterior),
e não gosto da Suíte do Quebra-Nozes, da entrega do Oscar, de Hawthorne,
Melville, torta de abóbora, véspera de Ano-Novo, Natal, Dia do Trabalho,
Quatro de Julho, Ação de Graças, Sexta-feira Santa, The Who,
Bacon, Dr. Spock, Blackstone e Berlioz, Franz
Liszt, meia-calça,
piolhos, pulgas, peixe-dourado, caranguejos, aranhas, guerra
heróis, voos espaciais, camelos (não confio em camelos) ou da
Bíblia,
Updike, Erica Jong, Corso, bartenders, moscas-das-frutas, Jane
Fonda,
igrejas, casamentos, nascimentos, noticiários, cães
de guarda, rifles .22, Henry
Fonda
e todas as mulheres que deveriam ter me amado mas
não amaram e
o primeiro dia da primavera e o
último
e o primeiro verso deste poema
e este aqui
que você está lendo
agora.
saber vou admitir que nunca gostei de Shakespeare, Browning, das
irmãs Brontë,
de Tolstói, beisebol, verões no litoral, queda
de braço, hóquei, Thomas Mann, Vivaldi, Winston Churchill, Dudley
Moore, verso livre,
pizza, boliche, os Jogos Olímpicos, os Três Patetas, os Irmãos
Marx, Ives, Al Jolson, Bob Hope, Frank Sinatra, Mickey
Mouse, basquete,
pais, mães, primos, esposas, morar junto (embora preferível à
opção anterior),
e não gosto da Suíte do Quebra-Nozes, da entrega do Oscar, de Hawthorne,
Melville, torta de abóbora, véspera de Ano-Novo, Natal, Dia do Trabalho,
Quatro de Julho, Ação de Graças, Sexta-feira Santa, The Who,
Bacon, Dr. Spock, Blackstone e Berlioz, Franz
Liszt, meia-calça,
piolhos, pulgas, peixe-dourado, caranguejos, aranhas, guerra
heróis, voos espaciais, camelos (não confio em camelos) ou da
Bíblia,
Updike, Erica Jong, Corso, bartenders, moscas-das-frutas, Jane
Fonda,
igrejas, casamentos, nascimentos, noticiários, cães
de guarda, rifles .22, Henry
Fonda
e todas as mulheres que deveriam ter me amado mas
não amaram e
o primeiro dia da primavera e o
último
e o primeiro verso deste poema
e este aqui
que você está lendo
agora.
1 143
Charles Bukowski
Canção
Julio apareceu com seu violão e cantou sua
canção mais recente.
Julio era famoso, ele escrevia canções e também
publicava livros com pequenos desenhos e
poemas.
eles eram muito
bons.
Julio cantou uma canção sobre seu mais recente caso
amoroso.
ele cantou que
o começo foi maravilhoso
e o final foi
horroroso.
não foram essas as palavras exatamente
mas era o que as palavras queriam
dizer.
Julio terminou de
cantar.
então ele disse “eu ainda gosto
dela, não consigo tirá-la da minha
cabeça”.
“o que vou fazer?”, Julio
perguntou.
“beba”, Henry disse,
servindo a bebida.
Julio apenas olhou para seu
copo:
“o que será que ela está fazendo
agora?”
“provavelmente está no meio de uma cópula
oral”, Henry
sugeriu.
Julio colocou o violão de volta no
estojo e
foi até a
porta.
Henry acompanhou Julio até o carro que
estava estacionado na
entrada da garagem.
era uma bela noite
enluarada.
enquanto Julio ligava o motor e
dava ré na entrada
Henry lhe acenou um
adeus.
então ele entrou
se
sentou.
ele terminou a bebida intocada
de Julio
e então
ligou
para ela.
“ele acabou de sair daqui”, Henry disse
a ela, “ele está muito
mal...”
“você precisa me desculpar”,
ela disse, “mas estou ocupada neste
momento.”
ela
desligou.
e Henry serviu bebida em seu
próprio copo
enquanto lá fora os grilos cantavam
sua própria
canção.
canção mais recente.
Julio era famoso, ele escrevia canções e também
publicava livros com pequenos desenhos e
poemas.
eles eram muito
bons.
Julio cantou uma canção sobre seu mais recente caso
amoroso.
ele cantou que
o começo foi maravilhoso
e o final foi
horroroso.
não foram essas as palavras exatamente
mas era o que as palavras queriam
dizer.
Julio terminou de
cantar.
então ele disse “eu ainda gosto
dela, não consigo tirá-la da minha
cabeça”.
“o que vou fazer?”, Julio
perguntou.
“beba”, Henry disse,
servindo a bebida.
Julio apenas olhou para seu
copo:
“o que será que ela está fazendo
agora?”
“provavelmente está no meio de uma cópula
oral”, Henry
sugeriu.
Julio colocou o violão de volta no
estojo e
foi até a
porta.
Henry acompanhou Julio até o carro que
estava estacionado na
entrada da garagem.
era uma bela noite
enluarada.
enquanto Julio ligava o motor e
dava ré na entrada
Henry lhe acenou um
adeus.
então ele entrou
se
sentou.
ele terminou a bebida intocada
de Julio
e então
ligou
para ela.
“ele acabou de sair daqui”, Henry disse
a ela, “ele está muito
mal...”
“você precisa me desculpar”,
ela disse, “mas estou ocupada neste
momento.”
ela
desligou.
e Henry serviu bebida em seu
próprio copo
enquanto lá fora os grilos cantavam
sua própria
canção.
1 150
Charles Bukowski
Canção
Julio apareceu com seu violão e cantou sua
canção mais recente.
Julio era famoso, ele escrevia canções e também
publicava livros com pequenos desenhos e
poemas.
eles eram muito
bons.
Julio cantou uma canção sobre seu mais recente caso
amoroso.
ele cantou que
o começo foi maravilhoso
e o final foi
horroroso.
não foram essas as palavras exatamente
mas era o que as palavras queriam
dizer.
Julio terminou de
cantar.
então ele disse “eu ainda gosto
dela, não consigo tirá-la da minha
cabeça”.
“o que vou fazer?”, Julio
perguntou.
“beba”, Henry disse,
servindo a bebida.
Julio apenas olhou para seu
copo:
“o que será que ela está fazendo
agora?”
“provavelmente está no meio de uma cópula
oral”, Henry
sugeriu.
Julio colocou o violão de volta no
estojo e
foi até a
porta.
Henry acompanhou Julio até o carro que
estava estacionado na
entrada da garagem.
era uma bela noite
enluarada.
enquanto Julio ligava o motor e
dava ré na entrada
Henry lhe acenou um
adeus.
então ele entrou
se
sentou.
ele terminou a bebida intocada
de Julio
e então
ligou
para ela.
“ele acabou de sair daqui”, Henry disse
a ela, “ele está muito
mal...”
“você precisa me desculpar”,
ela disse, “mas estou ocupada neste
momento.”
ela
desligou.
e Henry serviu bebida em seu
próprio copo
enquanto lá fora os grilos cantavam
sua própria
canção.
canção mais recente.
Julio era famoso, ele escrevia canções e também
publicava livros com pequenos desenhos e
poemas.
eles eram muito
bons.
Julio cantou uma canção sobre seu mais recente caso
amoroso.
ele cantou que
o começo foi maravilhoso
e o final foi
horroroso.
não foram essas as palavras exatamente
mas era o que as palavras queriam
dizer.
Julio terminou de
cantar.
então ele disse “eu ainda gosto
dela, não consigo tirá-la da minha
cabeça”.
“o que vou fazer?”, Julio
perguntou.
“beba”, Henry disse,
servindo a bebida.
Julio apenas olhou para seu
copo:
“o que será que ela está fazendo
agora?”
“provavelmente está no meio de uma cópula
oral”, Henry
sugeriu.
Julio colocou o violão de volta no
estojo e
foi até a
porta.
Henry acompanhou Julio até o carro que
estava estacionado na
entrada da garagem.
era uma bela noite
enluarada.
enquanto Julio ligava o motor e
dava ré na entrada
Henry lhe acenou um
adeus.
então ele entrou
se
sentou.
ele terminou a bebida intocada
de Julio
e então
ligou
para ela.
“ele acabou de sair daqui”, Henry disse
a ela, “ele está muito
mal...”
“você precisa me desculpar”,
ela disse, “mas estou ocupada neste
momento.”
ela
desligou.
e Henry serviu bebida em seu
próprio copo
enquanto lá fora os grilos cantavam
sua própria
canção.
1 150
Charles Bukowski
Fissura
“não posso mais viver com você”,
ela disse,
“olha só você!”
“hã?”, eu
perguntei.
“olha só você!
sentado nessa
maldita
cadeira!
a barriga despontando da
sua
roupa de baixo,
você queimou furos
de cigarro em todas as suas
camisas!
tudo que você faz é sugar
essa maldita
cerveja,
garrafa após garrafa,
o que é que você ganha com
isso?”
“o estrago está
feito”, eu disse
a ela.
“do que é que você está
falando?”
“nada importa e
nós sabemos que nada importa
e isso
importa...”
“você está bêbado!”
“ora, gatinha, vamos ficar
numa boa, é
fácil...”
“não pra mim!”, ela gritou,
“não pra
mim!”
ela entrou correndo no banheiro
para se
maquiar.
eu me levantei atrás de outra
cerveja.
sentei de volta
mal tinha encostado a nova garrafa
na boca
quando ela saiu do
banheiro.
“puta merda!”, ela exclamou,
“você é
nojento!”
eu ri direto no gargalo
da garrafa, me engasguei, cuspi um gole de
cerveja ao longo da minha
camiseta.
“meu deus!”, ela
disse.
ela bateu a porta e
se foi.
eu olhei a porta fechada
e a maçaneta
e estranhamente
não me senti
sozinho.
ela disse,
“olha só você!”
“hã?”, eu
perguntei.
“olha só você!
sentado nessa
maldita
cadeira!
a barriga despontando da
sua
roupa de baixo,
você queimou furos
de cigarro em todas as suas
camisas!
tudo que você faz é sugar
essa maldita
cerveja,
garrafa após garrafa,
o que é que você ganha com
isso?”
“o estrago está
feito”, eu disse
a ela.
“do que é que você está
falando?”
“nada importa e
nós sabemos que nada importa
e isso
importa...”
“você está bêbado!”
“ora, gatinha, vamos ficar
numa boa, é
fácil...”
“não pra mim!”, ela gritou,
“não pra
mim!”
ela entrou correndo no banheiro
para se
maquiar.
eu me levantei atrás de outra
cerveja.
sentei de volta
mal tinha encostado a nova garrafa
na boca
quando ela saiu do
banheiro.
“puta merda!”, ela exclamou,
“você é
nojento!”
eu ri direto no gargalo
da garrafa, me engasguei, cuspi um gole de
cerveja ao longo da minha
camiseta.
“meu deus!”, ela
disse.
ela bateu a porta e
se foi.
eu olhei a porta fechada
e a maçaneta
e estranhamente
não me senti
sozinho.
1 625
Charles Bukowski
Fissura
“não posso mais viver com você”,
ela disse,
“olha só você!”
“hã?”, eu
perguntei.
“olha só você!
sentado nessa
maldita
cadeira!
a barriga despontando da
sua
roupa de baixo,
você queimou furos
de cigarro em todas as suas
camisas!
tudo que você faz é sugar
essa maldita
cerveja,
garrafa após garrafa,
o que é que você ganha com
isso?”
“o estrago está
feito”, eu disse
a ela.
“do que é que você está
falando?”
“nada importa e
nós sabemos que nada importa
e isso
importa...”
“você está bêbado!”
“ora, gatinha, vamos ficar
numa boa, é
fácil...”
“não pra mim!”, ela gritou,
“não pra
mim!”
ela entrou correndo no banheiro
para se
maquiar.
eu me levantei atrás de outra
cerveja.
sentei de volta
mal tinha encostado a nova garrafa
na boca
quando ela saiu do
banheiro.
“puta merda!”, ela exclamou,
“você é
nojento!”
eu ri direto no gargalo
da garrafa, me engasguei, cuspi um gole de
cerveja ao longo da minha
camiseta.
“meu deus!”, ela
disse.
ela bateu a porta e
se foi.
eu olhei a porta fechada
e a maçaneta
e estranhamente
não me senti
sozinho.
ela disse,
“olha só você!”
“hã?”, eu
perguntei.
“olha só você!
sentado nessa
maldita
cadeira!
a barriga despontando da
sua
roupa de baixo,
você queimou furos
de cigarro em todas as suas
camisas!
tudo que você faz é sugar
essa maldita
cerveja,
garrafa após garrafa,
o que é que você ganha com
isso?”
“o estrago está
feito”, eu disse
a ela.
“do que é que você está
falando?”
“nada importa e
nós sabemos que nada importa
e isso
importa...”
“você está bêbado!”
“ora, gatinha, vamos ficar
numa boa, é
fácil...”
“não pra mim!”, ela gritou,
“não pra
mim!”
ela entrou correndo no banheiro
para se
maquiar.
eu me levantei atrás de outra
cerveja.
sentei de volta
mal tinha encostado a nova garrafa
na boca
quando ela saiu do
banheiro.
“puta merda!”, ela exclamou,
“você é
nojento!”
eu ri direto no gargalo
da garrafa, me engasguei, cuspi um gole de
cerveja ao longo da minha
camiseta.
“meu deus!”, ela
disse.
ela bateu a porta e
se foi.
eu olhei a porta fechada
e a maçaneta
e estranhamente
não me senti
sozinho.
1 625
Charles Bukowski
Fissura
“não posso mais viver com você”,
ela disse,
“olha só você!”
“hã?”, eu
perguntei.
“olha só você!
sentado nessa
maldita
cadeira!
a barriga despontando da
sua
roupa de baixo,
você queimou furos
de cigarro em todas as suas
camisas!
tudo que você faz é sugar
essa maldita
cerveja,
garrafa após garrafa,
o que é que você ganha com
isso?”
“o estrago está
feito”, eu disse
a ela.
“do que é que você está
falando?”
“nada importa e
nós sabemos que nada importa
e isso
importa...”
“você está bêbado!”
“ora, gatinha, vamos ficar
numa boa, é
fácil...”
“não pra mim!”, ela gritou,
“não pra
mim!”
ela entrou correndo no banheiro
para se
maquiar.
eu me levantei atrás de outra
cerveja.
sentei de volta
mal tinha encostado a nova garrafa
na boca
quando ela saiu do
banheiro.
“puta merda!”, ela exclamou,
“você é
nojento!”
eu ri direto no gargalo
da garrafa, me engasguei, cuspi um gole de
cerveja ao longo da minha
camiseta.
“meu deus!”, ela
disse.
ela bateu a porta e
se foi.
eu olhei a porta fechada
e a maçaneta
e estranhamente
não me senti
sozinho.
ela disse,
“olha só você!”
“hã?”, eu
perguntei.
“olha só você!
sentado nessa
maldita
cadeira!
a barriga despontando da
sua
roupa de baixo,
você queimou furos
de cigarro em todas as suas
camisas!
tudo que você faz é sugar
essa maldita
cerveja,
garrafa após garrafa,
o que é que você ganha com
isso?”
“o estrago está
feito”, eu disse
a ela.
“do que é que você está
falando?”
“nada importa e
nós sabemos que nada importa
e isso
importa...”
“você está bêbado!”
“ora, gatinha, vamos ficar
numa boa, é
fácil...”
“não pra mim!”, ela gritou,
“não pra
mim!”
ela entrou correndo no banheiro
para se
maquiar.
eu me levantei atrás de outra
cerveja.
sentei de volta
mal tinha encostado a nova garrafa
na boca
quando ela saiu do
banheiro.
“puta merda!”, ela exclamou,
“você é
nojento!”
eu ri direto no gargalo
da garrafa, me engasguei, cuspi um gole de
cerveja ao longo da minha
camiseta.
“meu deus!”, ela
disse.
ela bateu a porta e
se foi.
eu olhei a porta fechada
e a maçaneta
e estranhamente
não me senti
sozinho.
1 625
Charles Bukowski
Invasão
eu não sabia que
havia algo
no closet
embora em certas noites
meu sono fosse
interrompido por estranhos
sons retumbantes
mas
sempre achei
que fossem
leves
terremotos.
o closet era
o que ficava
no fim do corredor
e
raramente era
usado.
o curioso
para mim
era que
os gatos
(eu tinha
4)
pareciam estar
deixando
enormes
excrementos
pela casa
(e eles eram
domesticados).
então
os gatos
desapareceram
um por
um
mas os excrementos
frescos
continuaram
aparecendo.
foi certa noite
enquanto eu
lia as
cotações
da bolsa de valores
que eu
ergui a cabeça
e
lá estava
o
leão
no vão da porta
do quarto.
eu estava
na cama
acomodado
em
alguns
travesseiros
e bebendo um
chocolate
quente.
ora
ninguém
acreditaria
num leão
em um
quarto –
pelo menos
não
numa cidade
de algum
tamanho.
portanto
fiquei apenas
olhando para o
leão
sem
acreditar
muito.
então
ele se virou e
desceu a
escada.
eu
o segui –
uns bons
cinco metros
atrás –
segurando firme meu
taco de beisebol
numa
das mãos
e minha
faca de lâmina curta
na
outra.
observei o
leão descendo a
escada
e depois
atravessando a sala
da frente
ele parou
diante das grandes
portas
deslizantes
de vidro recozido
que davam para o
pátio e a
rua.
elas estavam
fechadas.
o leão
emitiu um
rosnado
impaciente
e
saltou através do
vidro
estilhaçando a porta
para entrar na
noite.
eu me sentei
no sofá
no
escuro
ainda incapaz
de acreditar
naquilo
que eu
vira.
então
escutei
um grito
de tão extremo
sofrimento e
terror
que
por um
momento
não consegui
nem
ver
nem respirar nem
compreender.
eu me levantei,
voltei para
me entrincheirar
no
quarto
e o que vi foram
3 pequenos
filhotes de leão
tropeçando
escada
abaixo –
felinos
fofos
e diabólicos.
enquanto a
mãe
retornava
pela
noite e pela
porta de vidro
estilhaçada
meio arrastando
meio carregando
um homem
ensanguentado
ao longo do
tapete
deixando um
rastro
vermelho
os filhotes
se precipitaram
em frente
e a
lua
entrou na casa
para iluminar
o
turbilhonante
banquete.
havia algo
no closet
embora em certas noites
meu sono fosse
interrompido por estranhos
sons retumbantes
mas
sempre achei
que fossem
leves
terremotos.
o closet era
o que ficava
no fim do corredor
e
raramente era
usado.
o curioso
para mim
era que
os gatos
(eu tinha
4)
pareciam estar
deixando
enormes
excrementos
pela casa
(e eles eram
domesticados).
então
os gatos
desapareceram
um por
um
mas os excrementos
frescos
continuaram
aparecendo.
foi certa noite
enquanto eu
lia as
cotações
da bolsa de valores
que eu
ergui a cabeça
e
lá estava
o
leão
no vão da porta
do quarto.
eu estava
na cama
acomodado
em
alguns
travesseiros
e bebendo um
chocolate
quente.
ora
ninguém
acreditaria
num leão
em um
quarto –
pelo menos
não
numa cidade
de algum
tamanho.
portanto
fiquei apenas
olhando para o
leão
sem
acreditar
muito.
então
ele se virou e
desceu a
escada.
eu
o segui –
uns bons
cinco metros
atrás –
segurando firme meu
taco de beisebol
numa
das mãos
e minha
faca de lâmina curta
na
outra.
observei o
leão descendo a
escada
e depois
atravessando a sala
da frente
ele parou
diante das grandes
portas
deslizantes
de vidro recozido
que davam para o
pátio e a
rua.
elas estavam
fechadas.
o leão
emitiu um
rosnado
impaciente
e
saltou através do
vidro
estilhaçando a porta
para entrar na
noite.
eu me sentei
no sofá
no
escuro
ainda incapaz
de acreditar
naquilo
que eu
vira.
então
escutei
um grito
de tão extremo
sofrimento e
terror
que
por um
momento
não consegui
nem
ver
nem respirar nem
compreender.
eu me levantei,
voltei para
me entrincheirar
no
quarto
e o que vi foram
3 pequenos
filhotes de leão
tropeçando
escada
abaixo –
felinos
fofos
e diabólicos.
enquanto a
mãe
retornava
pela
noite e pela
porta de vidro
estilhaçada
meio arrastando
meio carregando
um homem
ensanguentado
ao longo do
tapete
deixando um
rastro
vermelho
os filhotes
se precipitaram
em frente
e a
lua
entrou na casa
para iluminar
o
turbilhonante
banquete.
1 288
Charles Bukowski
Meu Primeiro Caso Com Aquela Mulher Mais Velha
quando penso agora
no abuso que sofri nas mãos
dela
sinto vergonha por ter sido tão
inocente,
mas devo dizer
que ela bebia comigo de igual para
igual,
e eu percebi que sua vida e
seus sentimentos pelas coisas
tinham sido arruinados
ao longo do caminho
e que eu não passava de uma
companhia
temporária;
ela era dez anos mais velha
e ferida de morte pelo passado
e pelo presente;
ela me tratava mal:
abandono, outros
homens;
ela me causava imensa
dor,
continuamente;
ela mentia, roubava;
houve abandono,
outros homens,
mas tivemos bons momentos; e
a nossa novelinha terminou
com ela em coma
no hospital,
e eu me sentei junto ao leito
por horas
conversando com ela,
e aí ela abriu os olhos
e me viu:
“eu sabia que seria você”,
ela disse,
então fechou seus
olhos.
no dia seguinte ela estava
morta.
eu bebi sozinho
por dois anos
depois disso.
no abuso que sofri nas mãos
dela
sinto vergonha por ter sido tão
inocente,
mas devo dizer
que ela bebia comigo de igual para
igual,
e eu percebi que sua vida e
seus sentimentos pelas coisas
tinham sido arruinados
ao longo do caminho
e que eu não passava de uma
companhia
temporária;
ela era dez anos mais velha
e ferida de morte pelo passado
e pelo presente;
ela me tratava mal:
abandono, outros
homens;
ela me causava imensa
dor,
continuamente;
ela mentia, roubava;
houve abandono,
outros homens,
mas tivemos bons momentos; e
a nossa novelinha terminou
com ela em coma
no hospital,
e eu me sentei junto ao leito
por horas
conversando com ela,
e aí ela abriu os olhos
e me viu:
“eu sabia que seria você”,
ela disse,
então fechou seus
olhos.
no dia seguinte ela estava
morta.
eu bebi sozinho
por dois anos
depois disso.
1 620
Charles Bukowski
Meu Primeiro Caso Com Aquela Mulher Mais Velha
quando penso agora
no abuso que sofri nas mãos
dela
sinto vergonha por ter sido tão
inocente,
mas devo dizer
que ela bebia comigo de igual para
igual,
e eu percebi que sua vida e
seus sentimentos pelas coisas
tinham sido arruinados
ao longo do caminho
e que eu não passava de uma
companhia
temporária;
ela era dez anos mais velha
e ferida de morte pelo passado
e pelo presente;
ela me tratava mal:
abandono, outros
homens;
ela me causava imensa
dor,
continuamente;
ela mentia, roubava;
houve abandono,
outros homens,
mas tivemos bons momentos; e
a nossa novelinha terminou
com ela em coma
no hospital,
e eu me sentei junto ao leito
por horas
conversando com ela,
e aí ela abriu os olhos
e me viu:
“eu sabia que seria você”,
ela disse,
então fechou seus
olhos.
no dia seguinte ela estava
morta.
eu bebi sozinho
por dois anos
depois disso.
no abuso que sofri nas mãos
dela
sinto vergonha por ter sido tão
inocente,
mas devo dizer
que ela bebia comigo de igual para
igual,
e eu percebi que sua vida e
seus sentimentos pelas coisas
tinham sido arruinados
ao longo do caminho
e que eu não passava de uma
companhia
temporária;
ela era dez anos mais velha
e ferida de morte pelo passado
e pelo presente;
ela me tratava mal:
abandono, outros
homens;
ela me causava imensa
dor,
continuamente;
ela mentia, roubava;
houve abandono,
outros homens,
mas tivemos bons momentos; e
a nossa novelinha terminou
com ela em coma
no hospital,
e eu me sentei junto ao leito
por horas
conversando com ela,
e aí ela abriu os olhos
e me viu:
“eu sabia que seria você”,
ela disse,
então fechou seus
olhos.
no dia seguinte ela estava
morta.
eu bebi sozinho
por dois anos
depois disso.
1 620
Charles Bukowski
Diversão
veja bem, ela disse, estirada na cama, eu não quero nada
pessoal, vamos só transar, eu não quero me envolver,
sacou?
ela chutou pra longe os sapatos de salto alto...
claro, ele disse, de pé ali, vamos só fingir que
já transamos, não existe nada menos envolvido do que isso,
existe?
que diabos você quer dizer?, ela perguntou.
quero dizer, ele disse, que prefiro beber
de qualquer maneira.
e ele se serviu de bebida.
era uma noite péssima em Vegas e ele foi até a janela e
olhou as luzes estúpidas lá fora.
você é bicha? ela perguntou, você é bicha, seu
desgraçado?
não, ele disse.
você não precisa agir como um bosta, ela disse, só porque perdeu nas
mesas – dirigimos todo esse caminho até aqui em busca de diversão e
agora olha só você: sugando esse trago, cê podia tê feito isso em
L.A.!
certo, ele disse, se tem uma coisa com a qual eu gosto de me envolver é a
maldita garrafa.
eu quero que você me leve pra casa, ela disse.
com todo prazer, ele disse, vamos
nessa.
foi uma dessas ocasiões em que nada se perdeu porque nada
tinha sido encontrado e enquanto ela se vestia foi triste para
ele
não por causa dele e da mulher mas por causa de todos os milhões como ele e a mulher
enquanto as luzes piscavam lá fora, tudo tão facilmente falso.
ela se aprontou depressa: vamos dar o fora daqui, ela
disse.
certo, ele disse, e os dois saíram pela porta juntos.
pessoal, vamos só transar, eu não quero me envolver,
sacou?
ela chutou pra longe os sapatos de salto alto...
claro, ele disse, de pé ali, vamos só fingir que
já transamos, não existe nada menos envolvido do que isso,
existe?
que diabos você quer dizer?, ela perguntou.
quero dizer, ele disse, que prefiro beber
de qualquer maneira.
e ele se serviu de bebida.
era uma noite péssima em Vegas e ele foi até a janela e
olhou as luzes estúpidas lá fora.
você é bicha? ela perguntou, você é bicha, seu
desgraçado?
não, ele disse.
você não precisa agir como um bosta, ela disse, só porque perdeu nas
mesas – dirigimos todo esse caminho até aqui em busca de diversão e
agora olha só você: sugando esse trago, cê podia tê feito isso em
L.A.!
certo, ele disse, se tem uma coisa com a qual eu gosto de me envolver é a
maldita garrafa.
eu quero que você me leve pra casa, ela disse.
com todo prazer, ele disse, vamos
nessa.
foi uma dessas ocasiões em que nada se perdeu porque nada
tinha sido encontrado e enquanto ela se vestia foi triste para
ele
não por causa dele e da mulher mas por causa de todos os milhões como ele e a mulher
enquanto as luzes piscavam lá fora, tudo tão facilmente falso.
ela se aprontou depressa: vamos dar o fora daqui, ela
disse.
certo, ele disse, e os dois saíram pela porta juntos.
1 219
Charles Bukowski
A Química Das Coisas
sempre achei que Mary Lou era magrinha e
estava longe de ser um colírio para os olhos
ao passo que quase todos os outros caras
achavam Mary Lou uma
gostosa.
talvez tenha sido por isso que ela ficou comigo
na escola intermediária.
minha indiferença foi decerto
um atrativo.
eu era frio e mau naquele tempo
e quando os caras me perguntavam
“você já comeu a Mary Lou?”
eu respondia com a
verdade: “ela
me dá tédio”.
tinha um cara
que dava aula de química.
Sr. Humm. Humm usava uma pequena
gravata-borboleta e um terno preto, um
troço barato e amassado, ele
era supostamente um
crânio
e um dia Mary Lou veio falar
comigo
e disse que Humm a tinha mantido na sala
depois da aula
e a tinha levado para o
cubículo e
a tinha beijado e
apalpado sua
calcinha.
ela chorava: “o que é que eu vou
fazer?”
“esquece”, eu disse,
“as substâncias químicas ferraram
o cérebro dele. nós temos uma professora de inglês
que fica levantando a saia em volta das
coxas todos os dias e quer ir pra cama com
todos os caras da turma. nós gostamos dela mas
não estamos nem aí.”
“por que você não dá uma surra no Sr. Humm?”,
ela me perguntou.
“eu poderia, mas acabariam me transferindo pro
Stuart Hall.”
no Stuart Hall eles cagavam os alunos
de tanto pau
e ignoravam matemática, inglês,
música, eles só prendiam os alunos numa
oficina
onde você ficava consertando carros velhos
que eles revendiam com grandes
lucros.
“eu achava que você gostava de mim”, disse Mary
Lou, “você não entende que ele
me beijou, enfiou a língua na minha
garganta e passou a mão no meu
traseiro?”
“bem”, eu disse, “nós vimos a boceta
da sra. Lattimore outro dia, na aula de inglês.”
Mary Lou foi embora
chorando...
bem, ela contou à
mãe dela e Humm se lascou, ele
teve que
pedir demissão, o pobre filho da
puta.
depois os caras me perguntaram
“ei, o que você acha do Humm
metendo a mão na bunda da sua
garota?”
“só mais um cara sem bom
gosto”, eu respondi.
eu era frio e mau
naquele tempo e passei à
escola secundária, a mesma
que Mary Lou frequentava
onde ela se casou
secretamente
durante seu último ano
com um cara
que eu conhecia, um cara que eu
deixei pra trás na bebida e caguei de tanto pau
algumas
vezes.
o cara achava que tinha
algo especial.
ele quis que eu fosse
padrinho de casamento.
eu disse não, obrigado, e muita
sorte.
nunca consegui entender
o que viam na
Mary Lou.
e o pobre Humm: que
velhote solitário e
doente.
de todo modo, depois entrei na
faculdade
onde o único abuso que
cheguei a ver acontecendo
era o que eles cometiam com a nossa
mente.
estava longe de ser um colírio para os olhos
ao passo que quase todos os outros caras
achavam Mary Lou uma
gostosa.
talvez tenha sido por isso que ela ficou comigo
na escola intermediária.
minha indiferença foi decerto
um atrativo.
eu era frio e mau naquele tempo
e quando os caras me perguntavam
“você já comeu a Mary Lou?”
eu respondia com a
verdade: “ela
me dá tédio”.
tinha um cara
que dava aula de química.
Sr. Humm. Humm usava uma pequena
gravata-borboleta e um terno preto, um
troço barato e amassado, ele
era supostamente um
crânio
e um dia Mary Lou veio falar
comigo
e disse que Humm a tinha mantido na sala
depois da aula
e a tinha levado para o
cubículo e
a tinha beijado e
apalpado sua
calcinha.
ela chorava: “o que é que eu vou
fazer?”
“esquece”, eu disse,
“as substâncias químicas ferraram
o cérebro dele. nós temos uma professora de inglês
que fica levantando a saia em volta das
coxas todos os dias e quer ir pra cama com
todos os caras da turma. nós gostamos dela mas
não estamos nem aí.”
“por que você não dá uma surra no Sr. Humm?”,
ela me perguntou.
“eu poderia, mas acabariam me transferindo pro
Stuart Hall.”
no Stuart Hall eles cagavam os alunos
de tanto pau
e ignoravam matemática, inglês,
música, eles só prendiam os alunos numa
oficina
onde você ficava consertando carros velhos
que eles revendiam com grandes
lucros.
“eu achava que você gostava de mim”, disse Mary
Lou, “você não entende que ele
me beijou, enfiou a língua na minha
garganta e passou a mão no meu
traseiro?”
“bem”, eu disse, “nós vimos a boceta
da sra. Lattimore outro dia, na aula de inglês.”
Mary Lou foi embora
chorando...
bem, ela contou à
mãe dela e Humm se lascou, ele
teve que
pedir demissão, o pobre filho da
puta.
depois os caras me perguntaram
“ei, o que você acha do Humm
metendo a mão na bunda da sua
garota?”
“só mais um cara sem bom
gosto”, eu respondi.
eu era frio e mau
naquele tempo e passei à
escola secundária, a mesma
que Mary Lou frequentava
onde ela se casou
secretamente
durante seu último ano
com um cara
que eu conhecia, um cara que eu
deixei pra trás na bebida e caguei de tanto pau
algumas
vezes.
o cara achava que tinha
algo especial.
ele quis que eu fosse
padrinho de casamento.
eu disse não, obrigado, e muita
sorte.
nunca consegui entender
o que viam na
Mary Lou.
e o pobre Humm: que
velhote solitário e
doente.
de todo modo, depois entrei na
faculdade
onde o único abuso que
cheguei a ver acontecendo
era o que eles cometiam com a nossa
mente.
1 128
Charles Bukowski
O Trapézio Imóvel
Saroyan disse para sua esposa: “eu preciso
apostar para poder
escrever”. ela lhe disse para
ir em frente.
ele perdeu $350.000
quase tudo no hipódromo
mas mesmo assim não conseguiu escrever ou
pagar seus impostos.
ele fugiu do governo e se exilou
em Paris.
mais tarde voltou, se virou
como pôde
endividado até o
pescoço –
direitos autorais
definhando.
mesmo assim não conseguia escrever ou
o que escrevia não
funcionava porque o tremendo
e bravo otimismo
que tanto animou
todo mundo
durante a depressão
simplesmente virou
água com açúcar
durante
os bons tempos.
ele morreu
na condição de lenda minguante
com um vasto bigode
em forma de guidão
igualzinho ao que o pai dele
costumava usar
no velho estilo
armênio de Fresno
num mundo que já não podia
usar
Wiliam.
apostar para poder
escrever”. ela lhe disse para
ir em frente.
ele perdeu $350.000
quase tudo no hipódromo
mas mesmo assim não conseguiu escrever ou
pagar seus impostos.
ele fugiu do governo e se exilou
em Paris.
mais tarde voltou, se virou
como pôde
endividado até o
pescoço –
direitos autorais
definhando.
mesmo assim não conseguia escrever ou
o que escrevia não
funcionava porque o tremendo
e bravo otimismo
que tanto animou
todo mundo
durante a depressão
simplesmente virou
água com açúcar
durante
os bons tempos.
ele morreu
na condição de lenda minguante
com um vasto bigode
em forma de guidão
igualzinho ao que o pai dele
costumava usar
no velho estilo
armênio de Fresno
num mundo que já não podia
usar
Wiliam.
1 136
Charles Bukowski
Pobre Al
não sei como ele consegue
mas toda mulher que ele conhece é
louca.
ele até pode se livrar de uma
mulher louca
mas nunca obtém o menor
descanso –
outra louca vem morar com ele
na mesma hora.
é só quando já estão na casa
e começam a se comportar
de um jeito mais do que estranho
que elas admitem para ele
que já passaram por
hospício
ou que suas famílias têm
um longo histórico de doença
mental.
a última louca
ele mandava para o psiquiatra
uma vez por semana:
$75 por 45 minutos.
depois de 7 meses
ela abandonou o
psiquiatra
e disse para o Al
“aquele maldito veado não sabe de
nada”.
não sei como todas elas acham
o Al.
segundo ele não dá pra dizer à primeira
vista
elas ficam resguardadas
mas depois de 2 ou 3 meses o
resguardo cai
e lá está o Al com
outra louca.
chegou a tal ponto que Al pensou
ser ele
o problema
então procurou um psiquiatra
e perguntou
e o psiquiatra disse
“você é um dos homens mais sãos
que eu já conheci”.
pobre Al.
com isso ele ficou se sentindo
pior
do que nunca.
mas toda mulher que ele conhece é
louca.
ele até pode se livrar de uma
mulher louca
mas nunca obtém o menor
descanso –
outra louca vem morar com ele
na mesma hora.
é só quando já estão na casa
e começam a se comportar
de um jeito mais do que estranho
que elas admitem para ele
que já passaram por
hospício
ou que suas famílias têm
um longo histórico de doença
mental.
a última louca
ele mandava para o psiquiatra
uma vez por semana:
$75 por 45 minutos.
depois de 7 meses
ela abandonou o
psiquiatra
e disse para o Al
“aquele maldito veado não sabe de
nada”.
não sei como todas elas acham
o Al.
segundo ele não dá pra dizer à primeira
vista
elas ficam resguardadas
mas depois de 2 ou 3 meses o
resguardo cai
e lá está o Al com
outra louca.
chegou a tal ponto que Al pensou
ser ele
o problema
então procurou um psiquiatra
e perguntou
e o psiquiatra disse
“você é um dos homens mais sãos
que eu já conheci”.
pobre Al.
com isso ele ficou se sentindo
pior
do que nunca.
1 400
Charles Bukowski
Pobre Al
não sei como ele consegue
mas toda mulher que ele conhece é
louca.
ele até pode se livrar de uma
mulher louca
mas nunca obtém o menor
descanso –
outra louca vem morar com ele
na mesma hora.
é só quando já estão na casa
e começam a se comportar
de um jeito mais do que estranho
que elas admitem para ele
que já passaram por
hospício
ou que suas famílias têm
um longo histórico de doença
mental.
a última louca
ele mandava para o psiquiatra
uma vez por semana:
$75 por 45 minutos.
depois de 7 meses
ela abandonou o
psiquiatra
e disse para o Al
“aquele maldito veado não sabe de
nada”.
não sei como todas elas acham
o Al.
segundo ele não dá pra dizer à primeira
vista
elas ficam resguardadas
mas depois de 2 ou 3 meses o
resguardo cai
e lá está o Al com
outra louca.
chegou a tal ponto que Al pensou
ser ele
o problema
então procurou um psiquiatra
e perguntou
e o psiquiatra disse
“você é um dos homens mais sãos
que eu já conheci”.
pobre Al.
com isso ele ficou se sentindo
pior
do que nunca.
mas toda mulher que ele conhece é
louca.
ele até pode se livrar de uma
mulher louca
mas nunca obtém o menor
descanso –
outra louca vem morar com ele
na mesma hora.
é só quando já estão na casa
e começam a se comportar
de um jeito mais do que estranho
que elas admitem para ele
que já passaram por
hospício
ou que suas famílias têm
um longo histórico de doença
mental.
a última louca
ele mandava para o psiquiatra
uma vez por semana:
$75 por 45 minutos.
depois de 7 meses
ela abandonou o
psiquiatra
e disse para o Al
“aquele maldito veado não sabe de
nada”.
não sei como todas elas acham
o Al.
segundo ele não dá pra dizer à primeira
vista
elas ficam resguardadas
mas depois de 2 ou 3 meses o
resguardo cai
e lá está o Al com
outra louca.
chegou a tal ponto que Al pensou
ser ele
o problema
então procurou um psiquiatra
e perguntou
e o psiquiatra disse
“você é um dos homens mais sãos
que eu já conheci”.
pobre Al.
com isso ele ficou se sentindo
pior
do que nunca.
1 400
Charles Bukowski
Educação
naquela pequena mesa com tinteiro embutido
eu quebrava minha cabeça com as palavras
sing e sign.*
não sei por que
mas
sing e sign:
elas
me
incomodavam.
os outros prosseguiram e aprenderam
coisas novas
mas eu fiquei ali sentado
pensando sobre
sing e sign.
havia algo ali
que eu não conseguia
superar.
o que aquilo me deu foi uma
dor de barriga enquanto
eu olhava as nucas de todas aquelas
cabeças.
a professora tinha um
rosto muito feroz
ele convergia rispidamente até um
ponto
sob grossa camada de pó
branco.
certa tarde
ela pediu à minha mãe para vir
conversar
e eu me sentei com elas
na sala de aula
enquanto elas
conversavam.
“ele não está aprendendo
nada”, a professora
disse à minha
mãe.
“por favor dê uma chance
a ele, sra. Sims!”
“ele não está se esforçando, sra.
Chinaski!”
minha mãe começou a
chorar.
a sra. Sims ficou imóvel
encarando
a minha mãe.
aquilo durou alguns
minutos.
então a sra. Sims disse:
“bem, veremos o que
podemos fazer...”
depois eu estava andando com
a minha mãe
estávamos andando na
frente da escola,
havia bastante grama verde
e depois a
calçada.
“ah, Henry”, minha mãe disse,
“seu pai está tão desapontado com
você, eu não sei o que vamos
fazer!”
pai, minha mente dizia,
pai e pai e
pai.
palavras assim.
decidi não aprender nada
naquela
escola.
minha mãe caminhava
ao meu lado.
ela não era nada em
absoluto.
e eu tinha uma dor de barriga
e até mesmo as árvores sob as quais
caminhávamos
pareciam não ser exatamente
árvores
mas antes qualquer outra
coisa.
* Respectivamente “cantar” e “assinar”. (N.T.)
eu quebrava minha cabeça com as palavras
sing e sign.*
não sei por que
mas
sing e sign:
elas
me
incomodavam.
os outros prosseguiram e aprenderam
coisas novas
mas eu fiquei ali sentado
pensando sobre
sing e sign.
havia algo ali
que eu não conseguia
superar.
o que aquilo me deu foi uma
dor de barriga enquanto
eu olhava as nucas de todas aquelas
cabeças.
a professora tinha um
rosto muito feroz
ele convergia rispidamente até um
ponto
sob grossa camada de pó
branco.
certa tarde
ela pediu à minha mãe para vir
conversar
e eu me sentei com elas
na sala de aula
enquanto elas
conversavam.
“ele não está aprendendo
nada”, a professora
disse à minha
mãe.
“por favor dê uma chance
a ele, sra. Sims!”
“ele não está se esforçando, sra.
Chinaski!”
minha mãe começou a
chorar.
a sra. Sims ficou imóvel
encarando
a minha mãe.
aquilo durou alguns
minutos.
então a sra. Sims disse:
“bem, veremos o que
podemos fazer...”
depois eu estava andando com
a minha mãe
estávamos andando na
frente da escola,
havia bastante grama verde
e depois a
calçada.
“ah, Henry”, minha mãe disse,
“seu pai está tão desapontado com
você, eu não sei o que vamos
fazer!”
pai, minha mente dizia,
pai e pai e
pai.
palavras assim.
decidi não aprender nada
naquela
escola.
minha mãe caminhava
ao meu lado.
ela não era nada em
absoluto.
e eu tinha uma dor de barriga
e até mesmo as árvores sob as quais
caminhávamos
pareciam não ser exatamente
árvores
mas antes qualquer outra
coisa.
* Respectivamente “cantar” e “assinar”. (N.T.)
1 380
Charles Bukowski
Eu Tenho Um Quarto
eu tenho um quarto aqui em cima onde me sento sozinho e é bem
parecido com meus quartos do passado – garrafas e papéis, livros,
cintos, pentes, jornais velhos, lixo de todo tipo espalhado.
minha desordem jamais foi escolha, ela apenas chegou e
permaneceu.
no tempo de cada um não há nunca tempo suficiente para deixar
tudo arrumado – há sempre colapso, perda, a
dura matemática da
confusão e
do cansaço.
somos arengados por imensas e triviais tarefas
e chegam os momentos de estoicismo ou de horror quando fica
impossível pagar uma conta de gás ou até responder à ameaça da
Receita Federal ou de cupins ou da condenação papal de entregar
a alma para autovigilância.
tenho um quarto aqui em cima e é bem o mesmo de sempre:
o fracasso de viver grandiosamente com a mulher ou com o
universo, fica tão abafado, tudo em carne viva com auto-
acusação, atrito, re-
prises.
tenho um quarto aqui em cima e já tive este mesmo quarto em
tantas cidades – os anos subitamente remotos, sigo
sentado e o sentimento é igual ao da minha juventude.
o quarto sempre foi – ainda é – melhor à noite –
o amarelo da luz elétrica enquanto bebo
sentado – tudo de que precisamos era um pequeno retiro
de todo o irritante absurdo:
sempre poderíamos aguentar o pior se nos fosse permitido
às vezes o mais ínfimo despertar do pesadelo,
e os deuses, até aqui, nos permitiram
isso.
tenho um quarto aqui em cima e me sento sozinho nos extremos
flutuantes, batentes, loucos, e sou preguiçoso nestes campos da dor
e as minhas amigas, as paredes, apoiam essa aposta-única –
meu coração não consegue rir mas às vezes sorri
na luz elétrica amarela: ter chegado tão longe para
sentar sozinho
de novo
neste quarto aqui em cima.
parecido com meus quartos do passado – garrafas e papéis, livros,
cintos, pentes, jornais velhos, lixo de todo tipo espalhado.
minha desordem jamais foi escolha, ela apenas chegou e
permaneceu.
no tempo de cada um não há nunca tempo suficiente para deixar
tudo arrumado – há sempre colapso, perda, a
dura matemática da
confusão e
do cansaço.
somos arengados por imensas e triviais tarefas
e chegam os momentos de estoicismo ou de horror quando fica
impossível pagar uma conta de gás ou até responder à ameaça da
Receita Federal ou de cupins ou da condenação papal de entregar
a alma para autovigilância.
tenho um quarto aqui em cima e é bem o mesmo de sempre:
o fracasso de viver grandiosamente com a mulher ou com o
universo, fica tão abafado, tudo em carne viva com auto-
acusação, atrito, re-
prises.
tenho um quarto aqui em cima e já tive este mesmo quarto em
tantas cidades – os anos subitamente remotos, sigo
sentado e o sentimento é igual ao da minha juventude.
o quarto sempre foi – ainda é – melhor à noite –
o amarelo da luz elétrica enquanto bebo
sentado – tudo de que precisamos era um pequeno retiro
de todo o irritante absurdo:
sempre poderíamos aguentar o pior se nos fosse permitido
às vezes o mais ínfimo despertar do pesadelo,
e os deuses, até aqui, nos permitiram
isso.
tenho um quarto aqui em cima e me sento sozinho nos extremos
flutuantes, batentes, loucos, e sou preguiçoso nestes campos da dor
e as minhas amigas, as paredes, apoiam essa aposta-única –
meu coração não consegue rir mas às vezes sorri
na luz elétrica amarela: ter chegado tão longe para
sentar sozinho
de novo
neste quarto aqui em cima.
1 065
Charles Bukowski
Querido Papai
uma das coisas mais venturosas
que me aconteceram
foi ter um pai cruel e
sádico.
depois dele
as piores coisas que as Moiras
lançaram sobre mim
nem de longe pareceram tão
terríveis –
coisas que a outros homens
causariam
raiva, desespero, desgosto,
loucura, pensamentos suicidas
e
assim por diante
tiveram efeitos irrelevantes
sobre mim
graças à minha
criação:
depois do meu pai
praticamente tudo parecia
bom.
eu deveria realmente ser
grato àquele
velho de merda
morto há tanto tempo
agora
ele me preparou
para todos os numerosos
infernos
me levando lá
bem antes
do tempo
através dos inescapáveis
anos.
que me aconteceram
foi ter um pai cruel e
sádico.
depois dele
as piores coisas que as Moiras
lançaram sobre mim
nem de longe pareceram tão
terríveis –
coisas que a outros homens
causariam
raiva, desespero, desgosto,
loucura, pensamentos suicidas
e
assim por diante
tiveram efeitos irrelevantes
sobre mim
graças à minha
criação:
depois do meu pai
praticamente tudo parecia
bom.
eu deveria realmente ser
grato àquele
velho de merda
morto há tanto tempo
agora
ele me preparou
para todos os numerosos
infernos
me levando lá
bem antes
do tempo
através dos inescapáveis
anos.
1 011