Poemas neste tema
Relações e Família
Charles Bukowski
A Deusa de Um Metro E Oitenta
sou grande
suponho que é por isso que minhas mulheres sempre
[parecem
pequenas
mas essa deusa de um metro e oitenta
que negocia imóveis
e arte
e que voa do Texas
para me ver
e eu voo ao Texas
para vê-la –
bem, há nela o suficiente para
ser agarrado
e eu me agarro todo
nela,
puxo-lhe a cabeça para trás pelos cabelos,
sou macho de verdade,
chupo-lhe o lábio superior
sua xoxota
sua alma
monto sobre ela e lhe digo,
“vou lançar suco quente e branco
dentro de você. não voei desde
Galveston para jogar
xadrez”.
depois nos deitamos enlaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo debaixo de seu travesseiro
meu braço direito sobre o lado de seu corpo
aferro-me às suas mãos,
e meu peito
barriga
bolas
pau
enroscam-se nela
e através de nós
no escuro
passam raios
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
até que eu desfaleça
e nós durmamos.
ela é selvagem
mas dócil
minha deusa de um metro e oitenta
faz-me rir
a risada do mutilado
que ainda precisa de
amor,
e seus olhos abençoados
fluem para o fundo de sua cabeça
como nascentes na montanha
ao longe
nascentes
frescas e boas.
ela me resguardou
de tudo o que não está
aqui.
suponho que é por isso que minhas mulheres sempre
[parecem
pequenas
mas essa deusa de um metro e oitenta
que negocia imóveis
e arte
e que voa do Texas
para me ver
e eu voo ao Texas
para vê-la –
bem, há nela o suficiente para
ser agarrado
e eu me agarro todo
nela,
puxo-lhe a cabeça para trás pelos cabelos,
sou macho de verdade,
chupo-lhe o lábio superior
sua xoxota
sua alma
monto sobre ela e lhe digo,
“vou lançar suco quente e branco
dentro de você. não voei desde
Galveston para jogar
xadrez”.
depois nos deitamos enlaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo debaixo de seu travesseiro
meu braço direito sobre o lado de seu corpo
aferro-me às suas mãos,
e meu peito
barriga
bolas
pau
enroscam-se nela
e através de nós
no escuro
passam raios
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
até que eu desfaleça
e nós durmamos.
ela é selvagem
mas dócil
minha deusa de um metro e oitenta
faz-me rir
a risada do mutilado
que ainda precisa de
amor,
e seus olhos abençoados
fluem para o fundo de sua cabeça
como nascentes na montanha
ao longe
nascentes
frescas e boas.
ela me resguardou
de tudo o que não está
aqui.
1 258
Charles Bukowski
A Deusa de Um Metro E Oitenta
sou grande
suponho que é por isso que minhas mulheres sempre
[parecem
pequenas
mas essa deusa de um metro e oitenta
que negocia imóveis
e arte
e que voa do Texas
para me ver
e eu voo ao Texas
para vê-la –
bem, há nela o suficiente para
ser agarrado
e eu me agarro todo
nela,
puxo-lhe a cabeça para trás pelos cabelos,
sou macho de verdade,
chupo-lhe o lábio superior
sua xoxota
sua alma
monto sobre ela e lhe digo,
“vou lançar suco quente e branco
dentro de você. não voei desde
Galveston para jogar
xadrez”.
depois nos deitamos enlaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo debaixo de seu travesseiro
meu braço direito sobre o lado de seu corpo
aferro-me às suas mãos,
e meu peito
barriga
bolas
pau
enroscam-se nela
e através de nós
no escuro
passam raios
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
até que eu desfaleça
e nós durmamos.
ela é selvagem
mas dócil
minha deusa de um metro e oitenta
faz-me rir
a risada do mutilado
que ainda precisa de
amor,
e seus olhos abençoados
fluem para o fundo de sua cabeça
como nascentes na montanha
ao longe
nascentes
frescas e boas.
ela me resguardou
de tudo o que não está
aqui.
suponho que é por isso que minhas mulheres sempre
[parecem
pequenas
mas essa deusa de um metro e oitenta
que negocia imóveis
e arte
e que voa do Texas
para me ver
e eu voo ao Texas
para vê-la –
bem, há nela o suficiente para
ser agarrado
e eu me agarro todo
nela,
puxo-lhe a cabeça para trás pelos cabelos,
sou macho de verdade,
chupo-lhe o lábio superior
sua xoxota
sua alma
monto sobre ela e lhe digo,
“vou lançar suco quente e branco
dentro de você. não voei desde
Galveston para jogar
xadrez”.
depois nos deitamos enlaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo debaixo de seu travesseiro
meu braço direito sobre o lado de seu corpo
aferro-me às suas mãos,
e meu peito
barriga
bolas
pau
enroscam-se nela
e através de nós
no escuro
passam raios
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
até que eu desfaleça
e nós durmamos.
ela é selvagem
mas dócil
minha deusa de um metro e oitenta
faz-me rir
a risada do mutilado
que ainda precisa de
amor,
e seus olhos abençoados
fluem para o fundo de sua cabeça
como nascentes na montanha
ao longe
nascentes
frescas e boas.
ela me resguardou
de tudo o que não está
aqui.
1 258
Charles Bukowski
Cinzas
peguei as cinzas dele, ela disse, e as lancei
ao mar e as espalhei e
elas nem sequer pareciam cinzas
e
o que dava peso à urna eram os
seixos verdes e azuis...
ele não lhe deixou nem um centavo de seus
milhões?
nada, ela disse.
mesmo depois de todos aqueles cafés da manhã
e almoços e jantares ao lado dele? depois
de ter escutado toda a merda que ele falava?
ele era um homem brilhante.
você sabe do que estou falando.
seja como for, eu fiquei com as cinzas. e você comeu
minhas irmãs.
nunca comi suas irmãs.
comeu sim.
comi uma delas.
qual?
a lésbica, respondi, ela me pagou o jantar e as bebidas,
não tive muita escolha.
estou indo, ela disse.
não se esqueça do frasco.
ela entrou para buscá-lo.
sobra tão pouco de você, ela disse, que quando você morre e eles te queimam precisam acrescentar uma porção de seixos verdes e azuis.
está bem, eu disse.
vejo você daqui a 6 meses! ela gritou e bateu a porta.
bem, pensei, creio que para me livrar dela terei que
comer a outra irmã. caminhei até o quarto e comecei a dar
uma olhada nos números de telefone. tudo o que eu
[lembrava
era que ela
vivia em San Mateo e tinha um ótimo
emprego.
ao mar e as espalhei e
elas nem sequer pareciam cinzas
e
o que dava peso à urna eram os
seixos verdes e azuis...
ele não lhe deixou nem um centavo de seus
milhões?
nada, ela disse.
mesmo depois de todos aqueles cafés da manhã
e almoços e jantares ao lado dele? depois
de ter escutado toda a merda que ele falava?
ele era um homem brilhante.
você sabe do que estou falando.
seja como for, eu fiquei com as cinzas. e você comeu
minhas irmãs.
nunca comi suas irmãs.
comeu sim.
comi uma delas.
qual?
a lésbica, respondi, ela me pagou o jantar e as bebidas,
não tive muita escolha.
estou indo, ela disse.
não se esqueça do frasco.
ela entrou para buscá-lo.
sobra tão pouco de você, ela disse, que quando você morre e eles te queimam precisam acrescentar uma porção de seixos verdes e azuis.
está bem, eu disse.
vejo você daqui a 6 meses! ela gritou e bateu a porta.
bem, pensei, creio que para me livrar dela terei que
comer a outra irmã. caminhei até o quarto e comecei a dar
uma olhada nos números de telefone. tudo o que eu
[lembrava
era que ela
vivia em San Mateo e tinha um ótimo
emprego.
1 169
Charles Bukowski
A Escapada
escapar de uma viúva negra
é um milagre tão grande quanto a própria arte.
que rede ela pode tecer
enquanto o arrasta vagarosamente em sua direção
ela irá abraçá-lo
depois, quando estiver satisfeita,
ela o matará
ainda no mesmo abraço
e lhe sugará todo o sangue.
escapei de minha viúva negra
porque ela possuía machos demais
em sua rede
e enquanto ela abraçava um deles
e depois o outro e então ainda
outro
me libertei
retornei
ao lugar onde estava anteriormente.
ela sentirá minha falta –
não de meu amor
mas do gosto do meu sangue,
mas ela é boa, ela encontrará outro
sangue;
ela é tão boa que quase sinto falta de minha morte,
mas não o suficiente;
escapei. eu vejo as outras
teias.
é um milagre tão grande quanto a própria arte.
que rede ela pode tecer
enquanto o arrasta vagarosamente em sua direção
ela irá abraçá-lo
depois, quando estiver satisfeita,
ela o matará
ainda no mesmo abraço
e lhe sugará todo o sangue.
escapei de minha viúva negra
porque ela possuía machos demais
em sua rede
e enquanto ela abraçava um deles
e depois o outro e então ainda
outro
me libertei
retornei
ao lugar onde estava anteriormente.
ela sentirá minha falta –
não de meu amor
mas do gosto do meu sangue,
mas ela é boa, ela encontrará outro
sangue;
ela é tão boa que quase sinto falta de minha morte,
mas não o suficiente;
escapei. eu vejo as outras
teias.
1 220
Charles Bukowski
A Escapada
escapar de uma viúva negra
é um milagre tão grande quanto a própria arte.
que rede ela pode tecer
enquanto o arrasta vagarosamente em sua direção
ela irá abraçá-lo
depois, quando estiver satisfeita,
ela o matará
ainda no mesmo abraço
e lhe sugará todo o sangue.
escapei de minha viúva negra
porque ela possuía machos demais
em sua rede
e enquanto ela abraçava um deles
e depois o outro e então ainda
outro
me libertei
retornei
ao lugar onde estava anteriormente.
ela sentirá minha falta –
não de meu amor
mas do gosto do meu sangue,
mas ela é boa, ela encontrará outro
sangue;
ela é tão boa que quase sinto falta de minha morte,
mas não o suficiente;
escapei. eu vejo as outras
teias.
é um milagre tão grande quanto a própria arte.
que rede ela pode tecer
enquanto o arrasta vagarosamente em sua direção
ela irá abraçá-lo
depois, quando estiver satisfeita,
ela o matará
ainda no mesmo abraço
e lhe sugará todo o sangue.
escapei de minha viúva negra
porque ela possuía machos demais
em sua rede
e enquanto ela abraçava um deles
e depois o outro e então ainda
outro
me libertei
retornei
ao lugar onde estava anteriormente.
ela sentirá minha falta –
não de meu amor
mas do gosto do meu sangue,
mas ela é boa, ela encontrará outro
sangue;
ela é tão boa que quase sinto falta de minha morte,
mas não o suficiente;
escapei. eu vejo as outras
teias.
1 220
Charles Bukowski
A Furadeira
nosso livro de casamento,
diz ali.
dou uma olhada.
eles duraram dez anos.
foram jovens uma vez.
agora eu durmo na cama dela.
ele telefona:
“quero minha furadeira de volta.
deixe-a separada.
pegarei as crianças às
dez.”
ao chegar ele espera do lado
de fora.
as crianças vão com
ele.
ela volta para a cama
e eu estico uma perna
encosto-a nela.
eu também tinha sido jovem.
as relações humanas simplesmente não são
duráveis.
pensei nas mulheres que passaram por
minha vida.
elas parecem inexistentes.
“ele levou a furadeira?” pergunto.
“sim, levou.”
me pergunto se um dia terei que voltar para
buscar minha bermuda
e meu disco com a gravação
da Academy of St. Martin in the Fields? suponho que
sim.
diz ali.
dou uma olhada.
eles duraram dez anos.
foram jovens uma vez.
agora eu durmo na cama dela.
ele telefona:
“quero minha furadeira de volta.
deixe-a separada.
pegarei as crianças às
dez.”
ao chegar ele espera do lado
de fora.
as crianças vão com
ele.
ela volta para a cama
e eu estico uma perna
encosto-a nela.
eu também tinha sido jovem.
as relações humanas simplesmente não são
duráveis.
pensei nas mulheres que passaram por
minha vida.
elas parecem inexistentes.
“ele levou a furadeira?” pergunto.
“sim, levou.”
me pergunto se um dia terei que voltar para
buscar minha bermuda
e meu disco com a gravação
da Academy of St. Martin in the Fields? suponho que
sim.
1 256
Charles Bukowski
A Furadeira
nosso livro de casamento,
diz ali.
dou uma olhada.
eles duraram dez anos.
foram jovens uma vez.
agora eu durmo na cama dela.
ele telefona:
“quero minha furadeira de volta.
deixe-a separada.
pegarei as crianças às
dez.”
ao chegar ele espera do lado
de fora.
as crianças vão com
ele.
ela volta para a cama
e eu estico uma perna
encosto-a nela.
eu também tinha sido jovem.
as relações humanas simplesmente não são
duráveis.
pensei nas mulheres que passaram por
minha vida.
elas parecem inexistentes.
“ele levou a furadeira?” pergunto.
“sim, levou.”
me pergunto se um dia terei que voltar para
buscar minha bermuda
e meu disco com a gravação
da Academy of St. Martin in the Fields? suponho que
sim.
diz ali.
dou uma olhada.
eles duraram dez anos.
foram jovens uma vez.
agora eu durmo na cama dela.
ele telefona:
“quero minha furadeira de volta.
deixe-a separada.
pegarei as crianças às
dez.”
ao chegar ele espera do lado
de fora.
as crianças vão com
ele.
ela volta para a cama
e eu estico uma perna
encosto-a nela.
eu também tinha sido jovem.
as relações humanas simplesmente não são
duráveis.
pensei nas mulheres que passaram por
minha vida.
elas parecem inexistentes.
“ele levou a furadeira?” pergunto.
“sim, levou.”
me pergunto se um dia terei que voltar para
buscar minha bermuda
e meu disco com a gravação
da Academy of St. Martin in the Fields? suponho que
sim.
1 256
Manuel Bandeira
Quando Perderes o Gosto Humilde da Tristeza...
Quando perderes o gosto humilde da tristeza,
Quando, nas horas melancólicas do dia,
Não ouvires mais os lábios da sombra
Murmurarem ao teu ouvido
As palavras de voluptuosa beleza
Ou de casta sabedoria;
Quando a tua tristeza não for mais que amargura,
Quando perderes todo estímulo e toda crença,
— A fé no bem e na virtude,
A confiança nos teus amigos e na tua amante,
Quando o próprio dia se te mudar em noite escura
De desconsolação e malquerença;
Quando, na agonia de tudo o que passa
Ante os olhos imóveis do infinito,
Na dor de ver murcharem as rosas,
E como as rosas tudo o que é belo e frágil,
Não sentires em teu ânimo aflito
Crescer a ânsia de vida como uma divina graça:
Quando tiveres inveja, quando o ciúme
Crestar os últimos lírios de tua alma desvirginada;
Quando em teus olhos áridos
Estancarem-se as fontes das suaves lágrimas
Em que se amorteceu o pecaminoso lume
De tua inquieta mocidade:
Então sorri pela última vez, tristemente,
À tudo o que outrora
Amaste. Sorri tristemente...
Sorri mansamente... em um sorriso pálido... pálido
Como o beijo religioso que puseste
Na fronte morta de tua mãe... sobre a sua fronte morta...
Quando, nas horas melancólicas do dia,
Não ouvires mais os lábios da sombra
Murmurarem ao teu ouvido
As palavras de voluptuosa beleza
Ou de casta sabedoria;
Quando a tua tristeza não for mais que amargura,
Quando perderes todo estímulo e toda crença,
— A fé no bem e na virtude,
A confiança nos teus amigos e na tua amante,
Quando o próprio dia se te mudar em noite escura
De desconsolação e malquerença;
Quando, na agonia de tudo o que passa
Ante os olhos imóveis do infinito,
Na dor de ver murcharem as rosas,
E como as rosas tudo o que é belo e frágil,
Não sentires em teu ânimo aflito
Crescer a ânsia de vida como uma divina graça:
Quando tiveres inveja, quando o ciúme
Crestar os últimos lírios de tua alma desvirginada;
Quando em teus olhos áridos
Estancarem-se as fontes das suaves lágrimas
Em que se amorteceu o pecaminoso lume
De tua inquieta mocidade:
Então sorri pela última vez, tristemente,
À tudo o que outrora
Amaste. Sorri tristemente...
Sorri mansamente... em um sorriso pálido... pálido
Como o beijo religioso que puseste
Na fronte morta de tua mãe... sobre a sua fronte morta...
1 454
Charles Bukowski
O Fim de Um Breve Caso
tentei fazer o negócio de pé
dessa vez.
normalmente não costuma
funcionar.
dessa vez parecia
que...
ela seguia dizendo
“ó, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
tudo estava bem
até que ela tirou os
pés do chão
e enroscou suas pernas
em volta dos meus quadris.
“ó, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
ela pesava cerca de 63
quilos e ficou ali presa enquanto eu
trabalhava.
foi só quando cheguei ao clímax
que senti a dor
correr espinha
acima.
deitei-a no sofá
e caminhei ao redor
da sala.
a dor continuava.
“olha só”, eu lhe disse,
“é melhor você ir. tenho
que revelar uns filmes
na minha câmara escura.”
ela se vestiu e se foi
e eu segui até a
cozinha para um copo
d’água. peguei um copo cheio
com a mão esquerda.
a dor correu para além de minhas
orelhas e
deixei cair o copo
que se espatifou no chão.
entrei numa banheira cheia de
água quente e sais Epsom.
recém tinha acabado de me esticar
quando o telefone tocou.
ao tentar endireitar
minhas costas
a dor se estendeu por
pescoço e braços.
caí pesadamente
me agarrei às bordas da banheira
consegui sair
com raios verdes e amarelos
e luzes vermelhas
lampejando em minha cabeça.
o telefone continuava tocando.
atendi.
“alô?”
“EU TE AMO!”, ela disse.
“obrigado”, eu disse.
“é tudo o que você tem
pra me dizer?”
“sim.”
“vá à merda!” ela disse e
desligou.
o amor se esgota, pensei
ao caminhar de volta ao
banheiro, mais rápido
do que um jato de esperma.
dessa vez.
normalmente não costuma
funcionar.
dessa vez parecia
que...
ela seguia dizendo
“ó, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
tudo estava bem
até que ela tirou os
pés do chão
e enroscou suas pernas
em volta dos meus quadris.
“ó, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
ela pesava cerca de 63
quilos e ficou ali presa enquanto eu
trabalhava.
foi só quando cheguei ao clímax
que senti a dor
correr espinha
acima.
deitei-a no sofá
e caminhei ao redor
da sala.
a dor continuava.
“olha só”, eu lhe disse,
“é melhor você ir. tenho
que revelar uns filmes
na minha câmara escura.”
ela se vestiu e se foi
e eu segui até a
cozinha para um copo
d’água. peguei um copo cheio
com a mão esquerda.
a dor correu para além de minhas
orelhas e
deixei cair o copo
que se espatifou no chão.
entrei numa banheira cheia de
água quente e sais Epsom.
recém tinha acabado de me esticar
quando o telefone tocou.
ao tentar endireitar
minhas costas
a dor se estendeu por
pescoço e braços.
caí pesadamente
me agarrei às bordas da banheira
consegui sair
com raios verdes e amarelos
e luzes vermelhas
lampejando em minha cabeça.
o telefone continuava tocando.
atendi.
“alô?”
“EU TE AMO!”, ela disse.
“obrigado”, eu disse.
“é tudo o que você tem
pra me dizer?”
“sim.”
“vá à merda!” ela disse e
desligou.
o amor se esgota, pensei
ao caminhar de volta ao
banheiro, mais rápido
do que um jato de esperma.
1 187
Charles Bukowski
Foda
ela tirou o vestido
por sobre a cabeça
e eu vi a calcinha
um tanto enterrada em suas
carnes.
é simplesmente humano.
agora teremos que fazê-lo.
eu terei que fazê-lo
depois de todo esse logro.
é como uma festa –
dois idiotas
numa cilada.
debaixo dos lençóis
depois que apaguei
as luzes
suas calcinhas ainda estavam
ali. ela esperava um
número introdutório.
eu não podia culpá-la. mas sim
me perguntar por que ela estava ali
comigo? onde estão os outros
caras? como você pode se julgar
sortudo tendo alguém que
outros abandonaram?
não precisávamos fazer aquilo
embora tivéssemos que fazê-lo
era algo como
renovar o crédito
com o homem do imposto de
renda. tirei a calcinha.
decidi não usar
a língua. ainda assim
pensava no momento
em que tudo estivesse terminado.
dormiremos juntos
esta noite
tentando nos acomodar
entre os papéis de parede.
tento, falho,
reparo no cabelo em sua
cabeça
mais do que tudo reparo no cabelo
em sua
cabeça
e de relance em
suas narinas
de porquinho
tento
novamente.
por sobre a cabeça
e eu vi a calcinha
um tanto enterrada em suas
carnes.
é simplesmente humano.
agora teremos que fazê-lo.
eu terei que fazê-lo
depois de todo esse logro.
é como uma festa –
dois idiotas
numa cilada.
debaixo dos lençóis
depois que apaguei
as luzes
suas calcinhas ainda estavam
ali. ela esperava um
número introdutório.
eu não podia culpá-la. mas sim
me perguntar por que ela estava ali
comigo? onde estão os outros
caras? como você pode se julgar
sortudo tendo alguém que
outros abandonaram?
não precisávamos fazer aquilo
embora tivéssemos que fazê-lo
era algo como
renovar o crédito
com o homem do imposto de
renda. tirei a calcinha.
decidi não usar
a língua. ainda assim
pensava no momento
em que tudo estivesse terminado.
dormiremos juntos
esta noite
tentando nos acomodar
entre os papéis de parede.
tento, falho,
reparo no cabelo em sua
cabeça
mais do que tudo reparo no cabelo
em sua
cabeça
e de relance em
suas narinas
de porquinho
tento
novamente.
1 165
Manuel Bandeira
Alegrias de Nossa Senhora
I
RECITANTE
O Anjo traz a mensagem,
Prostra-se perante a Virgem e anuncia:
ANJO
O Filho de Deus quer ser teu filho, Maria:
Porque és cheia de graça e bendita entre as mulheres.
RECITANTE
A donzela, em sua humildade, torna-se grande;
Eleva-se acima da condição humana;
Atinge os confins da divindade.
Ó Virgem, que vais responder?
Maria cruza as mãos sobre o peito,
Inclina-se reverente:
MARIA
Sou a escrava do Senhor:
Faça-se em mim segundo a sua palavra.
CORO
Ó santas alegrias, castíssimas delícias
Da maternidade virginal!
Maria já é mãe de Deus.
O filho é o mesmo Verbo Divino
Eternamente gerado pelo Pai.
Feliz a Virgem Maria, cujo seio contém o próprio Deus!
II
RECITANTE
Caminha a Virgem pelas montanhas de Judá.
Tudo respira serenidade.
O cabrito montês brinca nos cimos mais altos.
* Esta composição está inspirada no texto de oratório do poema de uma monja carmelita.
Maria vai visitar Isabel.
Troca-se em paraíso a casinha branca da montanha.
Isabel, ao ouvir a saudação de Maria, exclama, cheia do Espírito Santo:
ISABEL
Bendita tu entre as mulheres
E bendito o fruto de teu ventre!
RECITANTE
O menino salta no ventre da Mãe e Maria canta:
MARIA
Minh'alma engrandece ao Senhor.
Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador
Porque atentou na baixeza de sua serva.
Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
Grandes coisas me fez o Poderoso,
Grandes coisas faz o Poderoso:
Depõe dos tronos os soberbos
E eleva os humildes;
Enche de bens os famintos
E despede vazios os ricos.
Santo é o seu nome.
CORO
Aleluia! Aleluia! Aleluia!
III
RECITANTE
Noite feliz!
Começa em Belém a Missa da vida de Jesus.
Chegam os magos do Oriente, com as suas dádivas:
Ouro, incenso, mirra.
Pastores acorrem com as suas cornamusas, gaitas, flautas.
E cantam ao Messias recém-nascido:
CORO DE PASTORES
Glória a Deus nas alturas!
A Virgem-Mãe vela o seu menino.
Todo o que nele crer, não perecerá;
Todo o que nele crer, terá a vida eterna.
Glória a Deus nasalturas!
IV
RECITANTE
Crescia o menino e se fortalecia em espírito e sabedoria.
E a graça de Deus estava sobre ele,
Ora, todos os anos ia a Santa Família a Jerusalém, à festa da Páscoa.
De uma feita ficou o menino na cidade e não o souberam os pais.
Ao cabo de três dias o acharam no templo, sentado entre os doutores,
Que o ouviam, admirados de suas respostas.
Disse-lhe então Maria:
MARIA
Filho, por que fizeste assim para conosco?
Teu pai e eu, ansiosos, te buscávamos.
R RECITANTE
Ao que Jesus responde:
JESUS (menino de doze anos)
Por que me buscáveis?
Não sabeis que me convém tratar das coisas do Pai?
RECITANTE
E Maria:
MARIA
Achei aquele a quem minh'alma adora.
Recobrei-o e não o deixarei mais perder.
Meu espírito se alegra em meu Filho e Salvador.
CORO
Santo! Santo! Santo!
V
RECITANTE
A Hóstia Divina foi imolada no Calvário.
Ao terceiro dia foram as santas mulheres ao Sepulcro.
Estava a pedra removida e não acharam o corpo do Senhor Jesus.
Então dois varões de vestes resplandecentes falaram:
OS DOIS VARÕES
Por que buscais o vivente entre os mortos?
Não está aqui, já ressuscitou.
Lembrai-vos do que vos disse em Galiléia:
"Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos dos homens pecadores,
"E seja crucificado,
"E ao terceiro dia ressuscite."
CORO
Morte, onde está tua vitória?
Pela primeira vez foste vencida.
Maria, Mãe de Deus, alegra-te!
Teu filho ressurgiu, divino.
Hosana! Hosana! Hosana!
RECITANTE
O Anjo traz a mensagem,
Prostra-se perante a Virgem e anuncia:
ANJO
O Filho de Deus quer ser teu filho, Maria:
Porque és cheia de graça e bendita entre as mulheres.
RECITANTE
A donzela, em sua humildade, torna-se grande;
Eleva-se acima da condição humana;
Atinge os confins da divindade.
Ó Virgem, que vais responder?
Maria cruza as mãos sobre o peito,
Inclina-se reverente:
MARIA
Sou a escrava do Senhor:
Faça-se em mim segundo a sua palavra.
CORO
Ó santas alegrias, castíssimas delícias
Da maternidade virginal!
Maria já é mãe de Deus.
O filho é o mesmo Verbo Divino
Eternamente gerado pelo Pai.
Feliz a Virgem Maria, cujo seio contém o próprio Deus!
II
RECITANTE
Caminha a Virgem pelas montanhas de Judá.
Tudo respira serenidade.
O cabrito montês brinca nos cimos mais altos.
* Esta composição está inspirada no texto de oratório do poema de uma monja carmelita.
Maria vai visitar Isabel.
Troca-se em paraíso a casinha branca da montanha.
Isabel, ao ouvir a saudação de Maria, exclama, cheia do Espírito Santo:
ISABEL
Bendita tu entre as mulheres
E bendito o fruto de teu ventre!
RECITANTE
O menino salta no ventre da Mãe e Maria canta:
MARIA
Minh'alma engrandece ao Senhor.
Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador
Porque atentou na baixeza de sua serva.
Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
Grandes coisas me fez o Poderoso,
Grandes coisas faz o Poderoso:
Depõe dos tronos os soberbos
E eleva os humildes;
Enche de bens os famintos
E despede vazios os ricos.
Santo é o seu nome.
CORO
Aleluia! Aleluia! Aleluia!
III
RECITANTE
Noite feliz!
Começa em Belém a Missa da vida de Jesus.
Chegam os magos do Oriente, com as suas dádivas:
Ouro, incenso, mirra.
Pastores acorrem com as suas cornamusas, gaitas, flautas.
E cantam ao Messias recém-nascido:
CORO DE PASTORES
Glória a Deus nas alturas!
A Virgem-Mãe vela o seu menino.
Todo o que nele crer, não perecerá;
Todo o que nele crer, terá a vida eterna.
Glória a Deus nasalturas!
IV
RECITANTE
Crescia o menino e se fortalecia em espírito e sabedoria.
E a graça de Deus estava sobre ele,
Ora, todos os anos ia a Santa Família a Jerusalém, à festa da Páscoa.
De uma feita ficou o menino na cidade e não o souberam os pais.
Ao cabo de três dias o acharam no templo, sentado entre os doutores,
Que o ouviam, admirados de suas respostas.
Disse-lhe então Maria:
MARIA
Filho, por que fizeste assim para conosco?
Teu pai e eu, ansiosos, te buscávamos.
R RECITANTE
Ao que Jesus responde:
JESUS (menino de doze anos)
Por que me buscáveis?
Não sabeis que me convém tratar das coisas do Pai?
RECITANTE
E Maria:
MARIA
Achei aquele a quem minh'alma adora.
Recobrei-o e não o deixarei mais perder.
Meu espírito se alegra em meu Filho e Salvador.
CORO
Santo! Santo! Santo!
V
RECITANTE
A Hóstia Divina foi imolada no Calvário.
Ao terceiro dia foram as santas mulheres ao Sepulcro.
Estava a pedra removida e não acharam o corpo do Senhor Jesus.
Então dois varões de vestes resplandecentes falaram:
OS DOIS VARÕES
Por que buscais o vivente entre os mortos?
Não está aqui, já ressuscitou.
Lembrai-vos do que vos disse em Galiléia:
"Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos dos homens pecadores,
"E seja crucificado,
"E ao terceiro dia ressuscite."
CORO
Morte, onde está tua vitória?
Pela primeira vez foste vencida.
Maria, Mãe de Deus, alegra-te!
Teu filho ressurgiu, divino.
Hosana! Hosana! Hosana!
1 004
Manuel Bandeira
Alegrias de Nossa Senhora
I
RECITANTE
O Anjo traz a mensagem,
Prostra-se perante a Virgem e anuncia:
ANJO
O Filho de Deus quer ser teu filho, Maria:
Porque és cheia de graça e bendita entre as mulheres.
RECITANTE
A donzela, em sua humildade, torna-se grande;
Eleva-se acima da condição humana;
Atinge os confins da divindade.
Ó Virgem, que vais responder?
Maria cruza as mãos sobre o peito,
Inclina-se reverente:
MARIA
Sou a escrava do Senhor:
Faça-se em mim segundo a sua palavra.
CORO
Ó santas alegrias, castíssimas delícias
Da maternidade virginal!
Maria já é mãe de Deus.
O filho é o mesmo Verbo Divino
Eternamente gerado pelo Pai.
Feliz a Virgem Maria, cujo seio contém o próprio Deus!
II
RECITANTE
Caminha a Virgem pelas montanhas de Judá.
Tudo respira serenidade.
O cabrito montês brinca nos cimos mais altos.
* Esta composição está inspirada no texto de oratório do poema de uma monja carmelita.
Maria vai visitar Isabel.
Troca-se em paraíso a casinha branca da montanha.
Isabel, ao ouvir a saudação de Maria, exclama, cheia do Espírito Santo:
ISABEL
Bendita tu entre as mulheres
E bendito o fruto de teu ventre!
RECITANTE
O menino salta no ventre da Mãe e Maria canta:
MARIA
Minh'alma engrandece ao Senhor.
Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador
Porque atentou na baixeza de sua serva.
Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
Grandes coisas me fez o Poderoso,
Grandes coisas faz o Poderoso:
Depõe dos tronos os soberbos
E eleva os humildes;
Enche de bens os famintos
E despede vazios os ricos.
Santo é o seu nome.
CORO
Aleluia! Aleluia! Aleluia!
III
RECITANTE
Noite feliz!
Começa em Belém a Missa da vida de Jesus.
Chegam os magos do Oriente, com as suas dádivas:
Ouro, incenso, mirra.
Pastores acorrem com as suas cornamusas, gaitas, flautas.
E cantam ao Messias recém-nascido:
CORO DE PASTORES
Glória a Deus nas alturas!
A Virgem-Mãe vela o seu menino.
Todo o que nele crer, não perecerá;
Todo o que nele crer, terá a vida eterna.
Glória a Deus nasalturas!
IV
RECITANTE
Crescia o menino e se fortalecia em espírito e sabedoria.
E a graça de Deus estava sobre ele,
Ora, todos os anos ia a Santa Família a Jerusalém, à festa da Páscoa.
De uma feita ficou o menino na cidade e não o souberam os pais.
Ao cabo de três dias o acharam no templo, sentado entre os doutores,
Que o ouviam, admirados de suas respostas.
Disse-lhe então Maria:
MARIA
Filho, por que fizeste assim para conosco?
Teu pai e eu, ansiosos, te buscávamos.
R RECITANTE
Ao que Jesus responde:
JESUS (menino de doze anos)
Por que me buscáveis?
Não sabeis que me convém tratar das coisas do Pai?
RECITANTE
E Maria:
MARIA
Achei aquele a quem minh'alma adora.
Recobrei-o e não o deixarei mais perder.
Meu espírito se alegra em meu Filho e Salvador.
CORO
Santo! Santo! Santo!
V
RECITANTE
A Hóstia Divina foi imolada no Calvário.
Ao terceiro dia foram as santas mulheres ao Sepulcro.
Estava a pedra removida e não acharam o corpo do Senhor Jesus.
Então dois varões de vestes resplandecentes falaram:
OS DOIS VARÕES
Por que buscais o vivente entre os mortos?
Não está aqui, já ressuscitou.
Lembrai-vos do que vos disse em Galiléia:
"Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos dos homens pecadores,
"E seja crucificado,
"E ao terceiro dia ressuscite."
CORO
Morte, onde está tua vitória?
Pela primeira vez foste vencida.
Maria, Mãe de Deus, alegra-te!
Teu filho ressurgiu, divino.
Hosana! Hosana! Hosana!
RECITANTE
O Anjo traz a mensagem,
Prostra-se perante a Virgem e anuncia:
ANJO
O Filho de Deus quer ser teu filho, Maria:
Porque és cheia de graça e bendita entre as mulheres.
RECITANTE
A donzela, em sua humildade, torna-se grande;
Eleva-se acima da condição humana;
Atinge os confins da divindade.
Ó Virgem, que vais responder?
Maria cruza as mãos sobre o peito,
Inclina-se reverente:
MARIA
Sou a escrava do Senhor:
Faça-se em mim segundo a sua palavra.
CORO
Ó santas alegrias, castíssimas delícias
Da maternidade virginal!
Maria já é mãe de Deus.
O filho é o mesmo Verbo Divino
Eternamente gerado pelo Pai.
Feliz a Virgem Maria, cujo seio contém o próprio Deus!
II
RECITANTE
Caminha a Virgem pelas montanhas de Judá.
Tudo respira serenidade.
O cabrito montês brinca nos cimos mais altos.
* Esta composição está inspirada no texto de oratório do poema de uma monja carmelita.
Maria vai visitar Isabel.
Troca-se em paraíso a casinha branca da montanha.
Isabel, ao ouvir a saudação de Maria, exclama, cheia do Espírito Santo:
ISABEL
Bendita tu entre as mulheres
E bendito o fruto de teu ventre!
RECITANTE
O menino salta no ventre da Mãe e Maria canta:
MARIA
Minh'alma engrandece ao Senhor.
Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador
Porque atentou na baixeza de sua serva.
Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
Grandes coisas me fez o Poderoso,
Grandes coisas faz o Poderoso:
Depõe dos tronos os soberbos
E eleva os humildes;
Enche de bens os famintos
E despede vazios os ricos.
Santo é o seu nome.
CORO
Aleluia! Aleluia! Aleluia!
III
RECITANTE
Noite feliz!
Começa em Belém a Missa da vida de Jesus.
Chegam os magos do Oriente, com as suas dádivas:
Ouro, incenso, mirra.
Pastores acorrem com as suas cornamusas, gaitas, flautas.
E cantam ao Messias recém-nascido:
CORO DE PASTORES
Glória a Deus nas alturas!
A Virgem-Mãe vela o seu menino.
Todo o que nele crer, não perecerá;
Todo o que nele crer, terá a vida eterna.
Glória a Deus nasalturas!
IV
RECITANTE
Crescia o menino e se fortalecia em espírito e sabedoria.
E a graça de Deus estava sobre ele,
Ora, todos os anos ia a Santa Família a Jerusalém, à festa da Páscoa.
De uma feita ficou o menino na cidade e não o souberam os pais.
Ao cabo de três dias o acharam no templo, sentado entre os doutores,
Que o ouviam, admirados de suas respostas.
Disse-lhe então Maria:
MARIA
Filho, por que fizeste assim para conosco?
Teu pai e eu, ansiosos, te buscávamos.
R RECITANTE
Ao que Jesus responde:
JESUS (menino de doze anos)
Por que me buscáveis?
Não sabeis que me convém tratar das coisas do Pai?
RECITANTE
E Maria:
MARIA
Achei aquele a quem minh'alma adora.
Recobrei-o e não o deixarei mais perder.
Meu espírito se alegra em meu Filho e Salvador.
CORO
Santo! Santo! Santo!
V
RECITANTE
A Hóstia Divina foi imolada no Calvário.
Ao terceiro dia foram as santas mulheres ao Sepulcro.
Estava a pedra removida e não acharam o corpo do Senhor Jesus.
Então dois varões de vestes resplandecentes falaram:
OS DOIS VARÕES
Por que buscais o vivente entre os mortos?
Não está aqui, já ressuscitou.
Lembrai-vos do que vos disse em Galiléia:
"Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos dos homens pecadores,
"E seja crucificado,
"E ao terceiro dia ressuscite."
CORO
Morte, onde está tua vitória?
Pela primeira vez foste vencida.
Maria, Mãe de Deus, alegra-te!
Teu filho ressurgiu, divino.
Hosana! Hosana! Hosana!
1 004
Charles Bukowski
Já Vi Mendigos Demais Com Os Olhos Vidrados Bebendo Vinho Barato Debaixo da Ponte
você se senta comigo
no sofá
nesta noite
nova mulher.
você já viu os
documentários
sobre animais carnívoros?
eles mostram a morte.
e agora me pergunto
que animal entre
nós dois
devorará
primeiro o outro
física e
por fim
espiritualmente?
nós consumimos animais
e então um de nós
consome o outro,
meu amor.
enquanto isso
prefiro que você vá
primeiro e do primeiro jeito
se os gráficos de performance passadas
significarem alguma coisa
eu certamente irei
primeiro e do último
jeito.
no sofá
nesta noite
nova mulher.
você já viu os
documentários
sobre animais carnívoros?
eles mostram a morte.
e agora me pergunto
que animal entre
nós dois
devorará
primeiro o outro
física e
por fim
espiritualmente?
nós consumimos animais
e então um de nós
consome o outro,
meu amor.
enquanto isso
prefiro que você vá
primeiro e do primeiro jeito
se os gráficos de performance passadas
significarem alguma coisa
eu certamente irei
primeiro e do último
jeito.
1 423
Charles Bukowski
Problemas Relacionados À Outra Mulher
eu tinha lançado todo meu charme sobre ela
por algumas noites em um bar –
não que nosso caso fosse novo,
eu a amara por 16 meses
mas ela não queria ir até minha casa
“porque aquela outra mulher tem andado por lá”,
e eu disse, “tudo bem, tudo bem, o que vamos fazer?”
ela viera do norte e procurava por um
lugar para ficar
enquanto estava hospedada com sua amiga,
e foi até seu trailer alugado
e voltou com alguns cobertores e disse,
“vamos até o parque”.
eu lhe disse que ela estava louca
que os policiais iam nos pegar
mas ela respondeu “não, está agradável e enevoado”,
então fomos para o parque
espalhamos o equipamento e começamos a
trabalhar e então surgiram luzes de faróis –
uma radiopatrulha –
ela disse, “rápido, ponha suas calças! eu já estou com
as minhas!”
eu disse, “não posso. a minha está toda enrolada.”
e eles vieram com lanternas
e perguntaram o que estávamos fazendo e ela disse,
“beijando!” um dos policiais me olhou e
disse, “não posso culpá-lo”, e depois de alguma conversa
fiada eles nos deixaram em paz.
mas ainda assim ela não queria a cama onde aquela mulher
havia estado,
então acabamos num quarto escuro de motel
suando e beijando e trabalhando
mas fazendo a coisa direitinho; depois, claro,
de todo aquele sacrifício...
estávamos finalmente em minha casa
naquela tarde seguinte
fazendo a mesma coisa.
aqueles policiais não foram maus, apesar de tudo
naquela noite no parque –
e é a primeira vez que eu digo alguma coisa desse tipo
sobre policiais,
e,
espero,
que seja
a última.
por algumas noites em um bar –
não que nosso caso fosse novo,
eu a amara por 16 meses
mas ela não queria ir até minha casa
“porque aquela outra mulher tem andado por lá”,
e eu disse, “tudo bem, tudo bem, o que vamos fazer?”
ela viera do norte e procurava por um
lugar para ficar
enquanto estava hospedada com sua amiga,
e foi até seu trailer alugado
e voltou com alguns cobertores e disse,
“vamos até o parque”.
eu lhe disse que ela estava louca
que os policiais iam nos pegar
mas ela respondeu “não, está agradável e enevoado”,
então fomos para o parque
espalhamos o equipamento e começamos a
trabalhar e então surgiram luzes de faróis –
uma radiopatrulha –
ela disse, “rápido, ponha suas calças! eu já estou com
as minhas!”
eu disse, “não posso. a minha está toda enrolada.”
e eles vieram com lanternas
e perguntaram o que estávamos fazendo e ela disse,
“beijando!” um dos policiais me olhou e
disse, “não posso culpá-lo”, e depois de alguma conversa
fiada eles nos deixaram em paz.
mas ainda assim ela não queria a cama onde aquela mulher
havia estado,
então acabamos num quarto escuro de motel
suando e beijando e trabalhando
mas fazendo a coisa direitinho; depois, claro,
de todo aquele sacrifício...
estávamos finalmente em minha casa
naquela tarde seguinte
fazendo a mesma coisa.
aqueles policiais não foram maus, apesar de tudo
naquela noite no parque –
e é a primeira vez que eu digo alguma coisa desse tipo
sobre policiais,
e,
espero,
que seja
a última.
1 187
Charles Bukowski
Problemas Relacionados À Outra Mulher
eu tinha lançado todo meu charme sobre ela
por algumas noites em um bar –
não que nosso caso fosse novo,
eu a amara por 16 meses
mas ela não queria ir até minha casa
“porque aquela outra mulher tem andado por lá”,
e eu disse, “tudo bem, tudo bem, o que vamos fazer?”
ela viera do norte e procurava por um
lugar para ficar
enquanto estava hospedada com sua amiga,
e foi até seu trailer alugado
e voltou com alguns cobertores e disse,
“vamos até o parque”.
eu lhe disse que ela estava louca
que os policiais iam nos pegar
mas ela respondeu “não, está agradável e enevoado”,
então fomos para o parque
espalhamos o equipamento e começamos a
trabalhar e então surgiram luzes de faróis –
uma radiopatrulha –
ela disse, “rápido, ponha suas calças! eu já estou com
as minhas!”
eu disse, “não posso. a minha está toda enrolada.”
e eles vieram com lanternas
e perguntaram o que estávamos fazendo e ela disse,
“beijando!” um dos policiais me olhou e
disse, “não posso culpá-lo”, e depois de alguma conversa
fiada eles nos deixaram em paz.
mas ainda assim ela não queria a cama onde aquela mulher
havia estado,
então acabamos num quarto escuro de motel
suando e beijando e trabalhando
mas fazendo a coisa direitinho; depois, claro,
de todo aquele sacrifício...
estávamos finalmente em minha casa
naquela tarde seguinte
fazendo a mesma coisa.
aqueles policiais não foram maus, apesar de tudo
naquela noite no parque –
e é a primeira vez que eu digo alguma coisa desse tipo
sobre policiais,
e,
espero,
que seja
a última.
por algumas noites em um bar –
não que nosso caso fosse novo,
eu a amara por 16 meses
mas ela não queria ir até minha casa
“porque aquela outra mulher tem andado por lá”,
e eu disse, “tudo bem, tudo bem, o que vamos fazer?”
ela viera do norte e procurava por um
lugar para ficar
enquanto estava hospedada com sua amiga,
e foi até seu trailer alugado
e voltou com alguns cobertores e disse,
“vamos até o parque”.
eu lhe disse que ela estava louca
que os policiais iam nos pegar
mas ela respondeu “não, está agradável e enevoado”,
então fomos para o parque
espalhamos o equipamento e começamos a
trabalhar e então surgiram luzes de faróis –
uma radiopatrulha –
ela disse, “rápido, ponha suas calças! eu já estou com
as minhas!”
eu disse, “não posso. a minha está toda enrolada.”
e eles vieram com lanternas
e perguntaram o que estávamos fazendo e ela disse,
“beijando!” um dos policiais me olhou e
disse, “não posso culpá-lo”, e depois de alguma conversa
fiada eles nos deixaram em paz.
mas ainda assim ela não queria a cama onde aquela mulher
havia estado,
então acabamos num quarto escuro de motel
suando e beijando e trabalhando
mas fazendo a coisa direitinho; depois, claro,
de todo aquele sacrifício...
estávamos finalmente em minha casa
naquela tarde seguinte
fazendo a mesma coisa.
aqueles policiais não foram maus, apesar de tudo
naquela noite no parque –
e é a primeira vez que eu digo alguma coisa desse tipo
sobre policiais,
e,
espero,
que seja
a última.
1 187
Charles Bukowski
Texana
ela é do Texas e pesa
47 quilos
e para em frente ao
espelho penteando oceanos
de cabelos ruivos
que descem ao longo de todas
suas costas até a bunda.
o cabelo é mágico e lança
faíscas quando eu me deito na cama
e a vejo penteá-los.
ela parece uma criatura
saída de um filme mas está
aqui de fato. fazemos amor
pelo menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
sempre que deseja.
as mulheres do Texas são sempre
saudáveis, e além disso ela
limpa meu refrigerador, minha pia,
o banheiro, e faz comida e
e me serve alimentos saudáveis
e lava os pratos
também.
“Hank”, ela me disse,
segurando uma lata de suco de
uva, “este é o melhor de
todos”.
dizia na lata: suco natural de uva
ROSA do Texas.
ela se parece com a Katherine Hepburn
na época
do ensino médio, e vejo esses
47 quilos
penteando um metro
de cabelo ruivo
diante do espelho
e a sinto dentro de meus
pulsos e no fundo dos meus olhos,
e os dedos e as pernas e a barriga
a sentem, assim como
aquela outra parte,
e toda Los Angeles se desfaz
e chora de contentamento,
as paredes das alcovas tremem –
o oceano invade tudo e ela se vira
e me diz, “maldito cabelo!”
e eu digo,
“sim”.
47 quilos
e para em frente ao
espelho penteando oceanos
de cabelos ruivos
que descem ao longo de todas
suas costas até a bunda.
o cabelo é mágico e lança
faíscas quando eu me deito na cama
e a vejo penteá-los.
ela parece uma criatura
saída de um filme mas está
aqui de fato. fazemos amor
pelo menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
sempre que deseja.
as mulheres do Texas são sempre
saudáveis, e além disso ela
limpa meu refrigerador, minha pia,
o banheiro, e faz comida e
e me serve alimentos saudáveis
e lava os pratos
também.
“Hank”, ela me disse,
segurando uma lata de suco de
uva, “este é o melhor de
todos”.
dizia na lata: suco natural de uva
ROSA do Texas.
ela se parece com a Katherine Hepburn
na época
do ensino médio, e vejo esses
47 quilos
penteando um metro
de cabelo ruivo
diante do espelho
e a sinto dentro de meus
pulsos e no fundo dos meus olhos,
e os dedos e as pernas e a barriga
a sentem, assim como
aquela outra parte,
e toda Los Angeles se desfaz
e chora de contentamento,
as paredes das alcovas tremem –
o oceano invade tudo e ela se vira
e me diz, “maldito cabelo!”
e eu digo,
“sim”.
1 290
Charles Bukowski
Texana
ela é do Texas e pesa
47 quilos
e para em frente ao
espelho penteando oceanos
de cabelos ruivos
que descem ao longo de todas
suas costas até a bunda.
o cabelo é mágico e lança
faíscas quando eu me deito na cama
e a vejo penteá-los.
ela parece uma criatura
saída de um filme mas está
aqui de fato. fazemos amor
pelo menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
sempre que deseja.
as mulheres do Texas são sempre
saudáveis, e além disso ela
limpa meu refrigerador, minha pia,
o banheiro, e faz comida e
e me serve alimentos saudáveis
e lava os pratos
também.
“Hank”, ela me disse,
segurando uma lata de suco de
uva, “este é o melhor de
todos”.
dizia na lata: suco natural de uva
ROSA do Texas.
ela se parece com a Katherine Hepburn
na época
do ensino médio, e vejo esses
47 quilos
penteando um metro
de cabelo ruivo
diante do espelho
e a sinto dentro de meus
pulsos e no fundo dos meus olhos,
e os dedos e as pernas e a barriga
a sentem, assim como
aquela outra parte,
e toda Los Angeles se desfaz
e chora de contentamento,
as paredes das alcovas tremem –
o oceano invade tudo e ela se vira
e me diz, “maldito cabelo!”
e eu digo,
“sim”.
47 quilos
e para em frente ao
espelho penteando oceanos
de cabelos ruivos
que descem ao longo de todas
suas costas até a bunda.
o cabelo é mágico e lança
faíscas quando eu me deito na cama
e a vejo penteá-los.
ela parece uma criatura
saída de um filme mas está
aqui de fato. fazemos amor
pelo menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
sempre que deseja.
as mulheres do Texas são sempre
saudáveis, e além disso ela
limpa meu refrigerador, minha pia,
o banheiro, e faz comida e
e me serve alimentos saudáveis
e lava os pratos
também.
“Hank”, ela me disse,
segurando uma lata de suco de
uva, “este é o melhor de
todos”.
dizia na lata: suco natural de uva
ROSA do Texas.
ela se parece com a Katherine Hepburn
na época
do ensino médio, e vejo esses
47 quilos
penteando um metro
de cabelo ruivo
diante do espelho
e a sinto dentro de meus
pulsos e no fundo dos meus olhos,
e os dedos e as pernas e a barriga
a sentem, assim como
aquela outra parte,
e toda Los Angeles se desfaz
e chora de contentamento,
as paredes das alcovas tremem –
o oceano invade tudo e ela se vira
e me diz, “maldito cabelo!”
e eu digo,
“sim”.
1 290
Charles Bukowski
Esta Noite
“seus poemas sobre as garotas ainda estarão por aí
daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem ido”,
meu editor me telefona.
caro editor:
parece que as garotas já se
foram.
entendo o que o senhor diz
mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
cruzando o piso em minha direção
e o senhor pode ficar com todos os poemas
os bons
os maus
ou qualquer outro que eu venha a escrever
depois deste.
entendo o que o senhor diz.
O senhor entende o que eu digo?
daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem ido”,
meu editor me telefona.
caro editor:
parece que as garotas já se
foram.
entendo o que o senhor diz
mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
cruzando o piso em minha direção
e o senhor pode ficar com todos os poemas
os bons
os maus
ou qualquer outro que eu venha a escrever
depois deste.
entendo o que o senhor diz.
O senhor entende o que eu digo?
1 301
Manuel Bandeira
Imagens de Juiz de Fora
I
Vejo-a dançando tão leve e linda,
Tão linda e leve como nenhuma
Não dança, voa como uma pluma
Largada ao vento.
E quando passa, dançando ainda,
Leva consigo meu pensamento.
II
Entras, mimosa e cândida,
E enleado em teu perfume
Gagueja um poeta pálido:
Du bist wie eine Blume...
III
Soltos, desnastros,
Esvoaçantes,
Num fulgor de astros,
Quem dera vê-los,
Nas madrugadas,
Os teus cabelos,
Loucos, errantes,
Sobre as espáduas maravilhadas!...
IV
Qual o mistério de terdes
Uns olhos que tanto encantam?
Que sereias é que cantam
Na água desses olhos verdes?
V
Aparece... E uma luz irradia na sala
Como de uma primeira estrela em céu de opala.
Vejo-a dançando tão leve e linda,
Tão linda e leve como nenhuma
Não dança, voa como uma pluma
Largada ao vento.
E quando passa, dançando ainda,
Leva consigo meu pensamento.
II
Entras, mimosa e cândida,
E enleado em teu perfume
Gagueja um poeta pálido:
Du bist wie eine Blume...
III
Soltos, desnastros,
Esvoaçantes,
Num fulgor de astros,
Quem dera vê-los,
Nas madrugadas,
Os teus cabelos,
Loucos, errantes,
Sobre as espáduas maravilhadas!...
IV
Qual o mistério de terdes
Uns olhos que tanto encantam?
Que sereias é que cantam
Na água desses olhos verdes?
V
Aparece... E uma luz irradia na sala
Como de uma primeira estrela em céu de opala.
1 115
Manuel Bandeira
Imagens de Juiz de Fora
I
Vejo-a dançando tão leve e linda,
Tão linda e leve como nenhuma
Não dança, voa como uma pluma
Largada ao vento.
E quando passa, dançando ainda,
Leva consigo meu pensamento.
II
Entras, mimosa e cândida,
E enleado em teu perfume
Gagueja um poeta pálido:
Du bist wie eine Blume...
III
Soltos, desnastros,
Esvoaçantes,
Num fulgor de astros,
Quem dera vê-los,
Nas madrugadas,
Os teus cabelos,
Loucos, errantes,
Sobre as espáduas maravilhadas!...
IV
Qual o mistério de terdes
Uns olhos que tanto encantam?
Que sereias é que cantam
Na água desses olhos verdes?
V
Aparece... E uma luz irradia na sala
Como de uma primeira estrela em céu de opala.
Vejo-a dançando tão leve e linda,
Tão linda e leve como nenhuma
Não dança, voa como uma pluma
Largada ao vento.
E quando passa, dançando ainda,
Leva consigo meu pensamento.
II
Entras, mimosa e cândida,
E enleado em teu perfume
Gagueja um poeta pálido:
Du bist wie eine Blume...
III
Soltos, desnastros,
Esvoaçantes,
Num fulgor de astros,
Quem dera vê-los,
Nas madrugadas,
Os teus cabelos,
Loucos, errantes,
Sobre as espáduas maravilhadas!...
IV
Qual o mistério de terdes
Uns olhos que tanto encantam?
Que sereias é que cantam
Na água desses olhos verdes?
V
Aparece... E uma luz irradia na sala
Como de uma primeira estrela em céu de opala.
1 115
Manuel Bandeira
Raquel
Raquel, angélica flor
Do ramalhete de Clóvis.
(Amor, que os astros moves,
Dá-lhe o melhor amor.)
Do ramalhete de Clóvis.
(Amor, que os astros moves,
Dá-lhe o melhor amor.)
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Charles Bukowski
Sandra
é a alta e magra
donzela do quarto
de brincos
coberta por um longo
vestido
está sempre alta
em sapatos de salto
espírito
boletas
trago
Sandra se inclina
em sua cadeira
inclina-se em direção a
Glendale
aguardo que sua cabeça
bata na maçaneta
do guarda-roupa
enquanto ela tenta
acender
um novo cigarro num
outro já quase
consumido
aos 32 ela gosta de
jovens limpos
imaculados
com rostos semelhantes ao fundo
de pires recém-comprados
depois de se vangloriar
a não mais poder
acabou me trazendo seus prêmios
para que eu desse uma olhada:
garotos nulos, loiros e silenciosos
que
a) sentam
b) levantam
c) falam
ao seu comando
às vezes ela traz um
às vezes dois
às vezes três
para que eu os
veja
Sandra fica muito bem em
vestidos longos
Sandra pode partir provavelmente
o coração de um homem
espero que ela encontre
um.
donzela do quarto
de brincos
coberta por um longo
vestido
está sempre alta
em sapatos de salto
espírito
boletas
trago
Sandra se inclina
em sua cadeira
inclina-se em direção a
Glendale
aguardo que sua cabeça
bata na maçaneta
do guarda-roupa
enquanto ela tenta
acender
um novo cigarro num
outro já quase
consumido
aos 32 ela gosta de
jovens limpos
imaculados
com rostos semelhantes ao fundo
de pires recém-comprados
depois de se vangloriar
a não mais poder
acabou me trazendo seus prêmios
para que eu desse uma olhada:
garotos nulos, loiros e silenciosos
que
a) sentam
b) levantam
c) falam
ao seu comando
às vezes ela traz um
às vezes dois
às vezes três
para que eu os
veja
Sandra fica muito bem em
vestidos longos
Sandra pode partir provavelmente
o coração de um homem
espero que ela encontre
um.
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Manuel Bandeira
Uma Face na Escuridão
A vida ia tomando forma e cor, rompia...
Eu estava tão presa a ti, que não sabia
Onde acabava eu e começavas tu.
Mas ela mesma, a vida, a borbulhar selvagem
No uivo dos animais, no viço da folhagem
— Em tudo, no teu corpo e no meu corpo nu —
Ela mesma nos separou. As cordilheiras
Afundaram no oceano. As vozes derradeiras
Dos bichos que no abismo iam todos morrer,
Enchiam-me de assombro... E conheci na treva
A maior dor, a dor da força que me leva
Para longe de ti. Meu ser pelo teu ser
Clamou... Clamou debalde. Em mim subitamente
Tudo descorou, tudo envelheceu. Ao quente
Meu coração de outrora, hoje tarde reflui
Um sangue pobre em que já não palpita nada.
Como a planta sem ar, murchei. Branca e gelada,
Não sou mais do que uma lembrança do que fui.
Embora! Testemunhei eu só, aquela
Que trouxe a vida em si mais luminosa e bela
Do que nunca a sonhaste, a glória deste amor.
Terás em mim, a que foi tua, ora uma estranha,
A única face que te observa e té acompanha
Da funda escuridão cada dia maior...
* Poema desentranhado de uma página em prosa da escritora Dinah Silveira de Queiroz.
Eu estava tão presa a ti, que não sabia
Onde acabava eu e começavas tu.
Mas ela mesma, a vida, a borbulhar selvagem
No uivo dos animais, no viço da folhagem
— Em tudo, no teu corpo e no meu corpo nu —
Ela mesma nos separou. As cordilheiras
Afundaram no oceano. As vozes derradeiras
Dos bichos que no abismo iam todos morrer,
Enchiam-me de assombro... E conheci na treva
A maior dor, a dor da força que me leva
Para longe de ti. Meu ser pelo teu ser
Clamou... Clamou debalde. Em mim subitamente
Tudo descorou, tudo envelheceu. Ao quente
Meu coração de outrora, hoje tarde reflui
Um sangue pobre em que já não palpita nada.
Como a planta sem ar, murchei. Branca e gelada,
Não sou mais do que uma lembrança do que fui.
Embora! Testemunhei eu só, aquela
Que trouxe a vida em si mais luminosa e bela
Do que nunca a sonhaste, a glória deste amor.
Terás em mim, a que foi tua, ora uma estranha,
A única face que te observa e té acompanha
Da funda escuridão cada dia maior...
* Poema desentranhado de uma página em prosa da escritora Dinah Silveira de Queiroz.
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Charles Bukowski
Eu
mulheres não sabem como amar,
ela me disse.
você sabe como amar
mas mulheres só querem
parasitar.
sei disso porque sou
mulher.
hahaha, eu ri.
por isso não se preocupe por ter terminado
com Susan
porque ela apenas irá parasitar
outro homem.
falamos um pouco mais
então eu me despedi
desliguei o telefone
fui ao banheiro
e mandei uma boa merda de cerveja
basicamente pensando, bem,
continuo vivo
e tenho a capacidade de expelir
sobras do meu corpo.
e poemas.
e enquanto isso acontecer
serei capaz de lidar com
traição
solidão
unhas encravadas
gonorreia
e o boletim econômico do
caderno de finanças.
com isso
me levantei
me limpei
dei a descarga
e então pensei:
é verdade:
eu sei como
amar.
ergui minhas calças e caminhei
para a outra peça.
ela me disse.
você sabe como amar
mas mulheres só querem
parasitar.
sei disso porque sou
mulher.
hahaha, eu ri.
por isso não se preocupe por ter terminado
com Susan
porque ela apenas irá parasitar
outro homem.
falamos um pouco mais
então eu me despedi
desliguei o telefone
fui ao banheiro
e mandei uma boa merda de cerveja
basicamente pensando, bem,
continuo vivo
e tenho a capacidade de expelir
sobras do meu corpo.
e poemas.
e enquanto isso acontecer
serei capaz de lidar com
traição
solidão
unhas encravadas
gonorreia
e o boletim econômico do
caderno de finanças.
com isso
me levantei
me limpei
dei a descarga
e então pensei:
é verdade:
eu sei como
amar.
ergui minhas calças e caminhei
para a outra peça.
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