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Poemas neste tema

Relações e Família

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ode E Germinações

I

O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, meu fruto destes dias velozes,
diz-me, se sempre estiveram ao teu lado
durante anos e viagens e através de luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou se só agora, só
saem das tuas raízes
como à terra seca a água traz
um germinar que não conhecia,
ou aos lábios do cântaro esquecido
sobe na água o gosto da terra?

Não sei, não me digas nada, não o sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas quando aproximo os meus sentidos
da luz da tua pele, desapareces,
dissolves-te como o ácido
aroma de um fruto
e o calor de um caminho,
o odor do milho que se desfolha,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra empoeirada,
o perfume infinito da pátria:
magnólia e mato, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta da aldeia,
o pão recém-nascido:
ai toda a tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e de novo serei contigo
a terra que tu és:
és em mim profunda primavera:
em ti volto a saber como germino.


II


Esses teus anos que devia ter sentido
crescer perto de mim como cachos
até teres visto como o sol e a terra
te tinham feito para as minhas mãos de pedra,
até que uva a uva tivesses feito
cantar nas minhas veias o vinho.
O vento ou o cavalo
ao desviarem-se puderam
fazer com que eu tivesse passado pela tua infância,
viste o mesmo céu todos os dias,
o mesmo barro do inverno obscuro,
a ramagem sem fim das ameixieiras
e a sua doçura de cor arroxeada.
Apenas alguns quilómetros de noite,
as distâncias molhadas
da aurora campestre,
um punhado de terra nos separou, os muros
transparentes
que não atravessámos, para que a vida,
depois, pusesse todos
os mares e a terra
entre nós, e nos aproximássemos
não obstante o espaço,
passo a passo em busca um do outro,
de um oceano a outro,
até ver que o céu se incendiava
e voavam na luz os teus cabelos
e chegaste aos meus beijos com o fogo
de um meteoro desenfreado
e ao derreteres-te no meu sangue, recebi
na boca a doçura
da ameixa selvagem da nossa infância,
e abracei-te contra mim como
se readquirisse a terra e a vida.


III


Minha rapariga selvagem, tivemos
de recuperar o tempo
e andar para trás, na distância
das nossas vidas, beijo a beijo,
recolhendo de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que foi aproximando os teus pés dos meus,
e assim sob a minha boca
voltas a ver a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as suas raízes
até ao meu coração que te esperava.
E uma a uma as noites
entre as nossas cidades separadas
juntam-se à noite que nos une.
A luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
nos entregam, tirando-os do tempo,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz o nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor no nosso amor se encerra:
toda a sede termina no nosso abraço.
Aqui estamos por fim frente a frente,
encontrámo-nos,
nada perdemos.
Percorremo-nos lábio a lábio,
mil vezes trocámos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
como mortas medalhas
atirámo-lo para o fundo do mar,
tudo o que aprendemos
não nos serviu de nada:
começamos de novo,
terminamos de novo
morte e vida.
E aqui sobrevivemos,
puros, com a pureza que criamos,
mais vastos do que a terra que não nos pôde apartar,
eternos como o fogo que arderá
enquanto durar a vida.
1 520
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ode E Germinações

I

O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, meu fruto destes dias velozes,
diz-me, se sempre estiveram ao teu lado
durante anos e viagens e através de luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou se só agora, só
saem das tuas raízes
como à terra seca a água traz
um germinar que não conhecia,
ou aos lábios do cântaro esquecido
sobe na água o gosto da terra?

Não sei, não me digas nada, não o sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas quando aproximo os meus sentidos
da luz da tua pele, desapareces,
dissolves-te como o ácido
aroma de um fruto
e o calor de um caminho,
o odor do milho que se desfolha,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra empoeirada,
o perfume infinito da pátria:
magnólia e mato, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta da aldeia,
o pão recém-nascido:
ai toda a tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e de novo serei contigo
a terra que tu és:
és em mim profunda primavera:
em ti volto a saber como germino.


II


Esses teus anos que devia ter sentido
crescer perto de mim como cachos
até teres visto como o sol e a terra
te tinham feito para as minhas mãos de pedra,
até que uva a uva tivesses feito
cantar nas minhas veias o vinho.
O vento ou o cavalo
ao desviarem-se puderam
fazer com que eu tivesse passado pela tua infância,
viste o mesmo céu todos os dias,
o mesmo barro do inverno obscuro,
a ramagem sem fim das ameixieiras
e a sua doçura de cor arroxeada.
Apenas alguns quilómetros de noite,
as distâncias molhadas
da aurora campestre,
um punhado de terra nos separou, os muros
transparentes
que não atravessámos, para que a vida,
depois, pusesse todos
os mares e a terra
entre nós, e nos aproximássemos
não obstante o espaço,
passo a passo em busca um do outro,
de um oceano a outro,
até ver que o céu se incendiava
e voavam na luz os teus cabelos
e chegaste aos meus beijos com o fogo
de um meteoro desenfreado
e ao derreteres-te no meu sangue, recebi
na boca a doçura
da ameixa selvagem da nossa infância,
e abracei-te contra mim como
se readquirisse a terra e a vida.


III


Minha rapariga selvagem, tivemos
de recuperar o tempo
e andar para trás, na distância
das nossas vidas, beijo a beijo,
recolhendo de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que foi aproximando os teus pés dos meus,
e assim sob a minha boca
voltas a ver a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as suas raízes
até ao meu coração que te esperava.
E uma a uma as noites
entre as nossas cidades separadas
juntam-se à noite que nos une.
A luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
nos entregam, tirando-os do tempo,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz o nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor no nosso amor se encerra:
toda a sede termina no nosso abraço.
Aqui estamos por fim frente a frente,
encontrámo-nos,
nada perdemos.
Percorremo-nos lábio a lábio,
mil vezes trocámos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
como mortas medalhas
atirámo-lo para o fundo do mar,
tudo o que aprendemos
não nos serviu de nada:
começamos de novo,
terminamos de novo
morte e vida.
E aqui sobrevivemos,
puros, com a pureza que criamos,
mais vastos do que a terra que não nos pôde apartar,
eternos como o fogo que arderá
enquanto durar a vida.
1 520
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Uma Situação Insustentável

Tanto se falou dos defuntos
na família de Ostrogodo
que ocorreu uma coisa curiosa,
digna de ser estabelecida.

Falavam tanto dos mortos
perto do fogo todo dia,
do primo Carlos, de Felipe,
de Carlota, monja defunta,
de Candelario sepultado,
enfim, não terminavam nunca
de recordar o que não vivia.

Foi então que naquela casa
de escuros pátios e laranjeiras,
no salão de piano negro,
nos corredores sepulcrais,
se instalaram muitos defuntos
que se sentiram em sua casa.

Lentamente, como afogados
naqueles jardins cinzentos
pululavam como morcegos,
dobravam-se como guarda-chuvas
para dormir ou meditar
e deixavam nos sofás
um cheiro acre de tumba,
uma aura que invadiu a casa,
um abano insuportável
de seda cor de naufrágio.

A família Ostrogodo apenas
sim se atrevia a respirar:
era tão puro seu respeito
aos aspectos da morte.

E se aminorados sofriam
ninguém lhes escutou um sussurro.

(Porque falando de economia
aquela invasão silenciosa
não lhes gastava os bolsos:
os mortos não comem nem fumam,
sem dúvida isto é satisfatório,
mas na verdade ocupavam
mais e mais lugares na casa.)

Pendiam dos cortinados,
sentavam-se nas floreiras,
disputavam a poltrona
de Dom Filiberto Ostrogodo,
e ocupavam por longo tempo
o banheiro, talvez polindo
os dentes de suas caveiras:
o certo é que aquela família
se foi retirando do fogo,
da sala de jantar, do dormitório.
E conservando seu decoro
foram-se todos ao jardim
sem protestar dos defuntos,
mostrando uma triste alegria.

À sombra de uma laranjeira
comiam como refugiados
da fronteira perigosa
de uma batalha perdida.
Mas até ali chegaram eles
a pendurar-se das ramagens,
sérios defuntos circunspectos
que se achavam superiores
e não se dignavam a falar
com os benignos Ostrogodos.

Até que de tanto morrer
eles se uniram aos outros
emudecendo e falecendo
naquela casa mortal
que ficou sem ninguém um dia,
sem portas, sem casa, sem luz,
sem laranjeiras e defuntos.

735
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Uma Situação Insustentável

Tanto se falou dos defuntos
na família de Ostrogodo
que ocorreu uma coisa curiosa,
digna de ser estabelecida.

Falavam tanto dos mortos
perto do fogo todo dia,
do primo Carlos, de Felipe,
de Carlota, monja defunta,
de Candelario sepultado,
enfim, não terminavam nunca
de recordar o que não vivia.

Foi então que naquela casa
de escuros pátios e laranjeiras,
no salão de piano negro,
nos corredores sepulcrais,
se instalaram muitos defuntos
que se sentiram em sua casa.

Lentamente, como afogados
naqueles jardins cinzentos
pululavam como morcegos,
dobravam-se como guarda-chuvas
para dormir ou meditar
e deixavam nos sofás
um cheiro acre de tumba,
uma aura que invadiu a casa,
um abano insuportável
de seda cor de naufrágio.

A família Ostrogodo apenas
sim se atrevia a respirar:
era tão puro seu respeito
aos aspectos da morte.

E se aminorados sofriam
ninguém lhes escutou um sussurro.

(Porque falando de economia
aquela invasão silenciosa
não lhes gastava os bolsos:
os mortos não comem nem fumam,
sem dúvida isto é satisfatório,
mas na verdade ocupavam
mais e mais lugares na casa.)

Pendiam dos cortinados,
sentavam-se nas floreiras,
disputavam a poltrona
de Dom Filiberto Ostrogodo,
e ocupavam por longo tempo
o banheiro, talvez polindo
os dentes de suas caveiras:
o certo é que aquela família
se foi retirando do fogo,
da sala de jantar, do dormitório.
E conservando seu decoro
foram-se todos ao jardim
sem protestar dos defuntos,
mostrando uma triste alegria.

À sombra de uma laranjeira
comiam como refugiados
da fronteira perigosa
de uma batalha perdida.
Mas até ali chegaram eles
a pendurar-se das ramagens,
sérios defuntos circunspectos
que se achavam superiores
e não se dignavam a falar
com os benignos Ostrogodos.

Até que de tanto morrer
eles se uniram aos outros
emudecendo e falecendo
naquela casa mortal
que ficou sem ninguém um dia,
sem portas, sem casa, sem luz,
sem laranjeiras e defuntos.

735
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Pedrafina

Deves medir-te, cavaleiro,
companheiro deves medir-te,
me aconselharam um a um,
me aconselharam pouco a pouco,
me aconselharam muito a muito,
até que me fui desmedindo
e cada vez me desmedi,
me desmedi cada dia
até chegar a ser sem dúvida
horripilante e desmedido,
desmedido apesar de tudo,
inaceitável e desmedido,
desmedidamente ditoso
em minha insurgente desmesura.

Quando no rio navegável
navegava como os cisnes
pus em perigo a barcaça
e produzi tão grandes ondas
com minhas estrofes vendavais
que caímos todos na água.
Ali os peixes me olharam
com olhos frios e reprovadores
enquanto sardônicos caranguejos
ameaçavam nossos rabos.

Outra vez assistindo a um longo,
a um funeral interminável,
entre os discursos funestos
me quedei dormindo na tumba
e ali com grave negligência
me jogaram terra, me enterraram:
durante os dias escuros
me alimentei das coroas,
de crisântemos putrefatos.
E quando ressuscitei
ninguém tinha percebido.

Com uma bela me ocorreu
uma aventura desmedida.
Pedrafina, assim se chamava,
se parecia com uma cereja,
com um coração desenhado,
com uma caixinha de cristal.
Quando me viu naturalmente
se enamorou de meu nariz,
prodigou-lhe ternos cuidados
e pequenos beijos celestes.

Então desencadeei
meus inaceitáveis instintos
e a insaciável vaidade
que me leva a tantos erros:
com esforço desenrolei
meu nariz até convertê-lo
em uma tromba de elefante.
E com mortais malabarismos
levei a tal grau a destreza
que Pedrafina ergui até
os ramos de uma cerejeira.

Aquela mulher rechaçou
minhas homenagens desmedidas
e nunca mais desceu dos ramos:
me abandonou. Soube depois
que pouco a pouco, com o tempo,
se converteu em uma cereja.

Não há remédio para estes males
que me fazem feliz tristemente
e amargamente satisfeito:
o orgulho não leva a nada,
mas a verdade seja dita:
não se pode viver sem ele.

1 214
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ode Com Um Lamento

Oh menina entre as rosas, oh pressão de pombas,
oh presídio de peixes e rosais,
a tua alma é uma garrafa cheia de sal sedento
e um sino cheio de uvas é a tua pele.

Por desgraça não tenho para te dar senão unhas
ou pestanas, ou pianos derretidos,
ou sonhos que me saem do coração aos borbotões,
sonhos poeirentos que correm como ginetes negros,
sonhos cheios de velocidade e desgraças.

Só te posso amar com beijos e papoilas,
com grinaldas molhadas de chuva,
olhando cavalos cinzentos e cães amarelos.
Só te posso amar com ondas atrás de mim,
entre vagos golpes de enxofre e águas ensimesmadas,
nadando contra os cemitérios que correm em certos rios
com pasto molhado crescendo sobre os tristes túmulos de gesso,
nadando através de corações submersos
e pálidos róis de crianças insepultas.

Há muita morte, muitos acontecimentos fúnebres
nas minhas desamparadas paixões e desolados beijos,
há a água que me cai na cabeça,
enquanto o cabelo me cresce,
uma água como o tempo, uma água negra imparável,
com uma voz nocturna, com um grito
de pássaros na chuva, com uma interminável
sombra de asa molhada que me protege os ossos:
enquanto me visto, enquanto
interminavelmente me olho nos espelhos e nos vidros,
ouço que alguém me segue e chama soluçante
com uma voz triste apodrecida pelo tempo.

Tu estás de pé sobre a terra, cheia
de dentes e relâmpagos.
Propagas os beijos e matas as formigas.
Choras de saúde, de cebola, de abelha,
de abecedário em fogo.
És como uma espada azul e verde
e ondulas ao tocar-te, como um rio.

Vem até à minha alma vestida de branco, com um ramo
de ensanguentadas rosas e taças de cinzas,
vem com uma maçã e um cavalo,
porque ali há uma sala obscura e um candelabro partido,
umas cadeiras retorcidas que esperam o inverno,
e uma pomba morta, com um número.
1 552