Poemas neste tema
Relações e Família
Vinicius de Moraes
O Apelo
Que te vale, minha alma, essa paisagem fria
Essa terra onde parecem repousar virgens distantes?
Que te importa essa calma, essa tarde caindo sem vozes
Esse ar onde as nuvens se esquecem como adeuses?
Que te diz o adormecimento dessa montanha extática
Onde há caminhos tão tristes que ninguém anda neles
E onde o pipilo de um pássaro que passa de repente
Parece suspender uma lágrima que nunca se derrama?
Para que te debruças inutilmente sobre esse ermo
E buscas um grito de agonia que nunca te chegará a tempo
Que são longos, minha alma, os espaços perdidos...
Ah, chegar! chegar depois de tanta ausência
E despontar como um santo dentro das ruas escuras
Bêbado dos seios da amada cheios de espuma!
Essa terra onde parecem repousar virgens distantes?
Que te importa essa calma, essa tarde caindo sem vozes
Esse ar onde as nuvens se esquecem como adeuses?
Que te diz o adormecimento dessa montanha extática
Onde há caminhos tão tristes que ninguém anda neles
E onde o pipilo de um pássaro que passa de repente
Parece suspender uma lágrima que nunca se derrama?
Para que te debruças inutilmente sobre esse ermo
E buscas um grito de agonia que nunca te chegará a tempo
Que são longos, minha alma, os espaços perdidos...
Ah, chegar! chegar depois de tanta ausência
E despontar como um santo dentro das ruas escuras
Bêbado dos seios da amada cheios de espuma!
1 160
Vinicius de Moraes
O Riso
Aquele riso foi o canto célebre
Da primeira estrela, em vão.
Milagre de primavera intacta
No sepulcro de neve
Rosa aberta ao vento, breve
Muito breve...
Não, aquele riso foi o canto célebre
Alta melodia imóvel
Gorjeio de fonte núbil
Apenas brotada, na treva...
Fonte de lábios (hora
Extremamente mágica do silêncio das aves).
Oh, música entre pétalas
Não afugentes meu amor!
Mistério maior é o sono
Se de súbito não se ouve o riso na noite.
Da primeira estrela, em vão.
Milagre de primavera intacta
No sepulcro de neve
Rosa aberta ao vento, breve
Muito breve...
Não, aquele riso foi o canto célebre
Alta melodia imóvel
Gorjeio de fonte núbil
Apenas brotada, na treva...
Fonte de lábios (hora
Extremamente mágica do silêncio das aves).
Oh, música entre pétalas
Não afugentes meu amor!
Mistério maior é o sono
Se de súbito não se ouve o riso na noite.
1 403
Vinicius de Moraes
Marina
Lembras-te das pescarias
Nas pedras das Três-Marias
Lembras-te, Marina?
Na navalha dos mariscos
Teus pés corriam ariscos
Valente menina!
Crescia na beira-luz
O papo dos baiacus
Que pescávamos
E nas vagas matutinas
Chupávamos tangerinas
E vagávamos...
Tinhas uns peitinhos duros
E teus beicinhos escuros
Flauteavam valsas
Valsas ilhoas! vadio
Eu procurava, no frio
De tuas calças
E te adorava; sentia
Teu cheiro a peixe, bebia
Teu bafo de sal
E quantas vezes, precoce
Em vão, pela tua posse
Não me saí mal...
Deixavas-me dessa luta
Uma adstringência de fruta
De suor, de alga
Mas sempre te libertavas
Com doidas dentadas bravas
Menina fidalga!
Foste minha companheira
Foste minha derradeira
Única aventura?
Que nas outras criaturas
Não vi mais meninas puras
Menina pura.
Nas pedras das Três-Marias
Lembras-te, Marina?
Na navalha dos mariscos
Teus pés corriam ariscos
Valente menina!
Crescia na beira-luz
O papo dos baiacus
Que pescávamos
E nas vagas matutinas
Chupávamos tangerinas
E vagávamos...
Tinhas uns peitinhos duros
E teus beicinhos escuros
Flauteavam valsas
Valsas ilhoas! vadio
Eu procurava, no frio
De tuas calças
E te adorava; sentia
Teu cheiro a peixe, bebia
Teu bafo de sal
E quantas vezes, precoce
Em vão, pela tua posse
Não me saí mal...
Deixavas-me dessa luta
Uma adstringência de fruta
De suor, de alga
Mas sempre te libertavas
Com doidas dentadas bravas
Menina fidalga!
Foste minha companheira
Foste minha derradeira
Única aventura?
Que nas outras criaturas
Não vi mais meninas puras
Menina pura.
1 280
Vinicius de Moraes
Trecho
Quem foi, perguntou o Celo
Que me desobedeceu?
Quem foi que entrou no meu reino
E em meu ouro remexeu?
Quem foi que pulou meu muro
E minhas rosas colheu?
Quem foi, perguntou o Celo
E a Flauta falou: Fui eu.
Mas quem foi, a Flauta disse
Que no meu quarto surgiu?
Quem foi que me deu um beijo
E em minha cama dormiu?
Quem foi que me fez perdida
E que me desiludiu?
Quem foi, perguntou a Flauta
E o velho Celo sorriu.
Que me desobedeceu?
Quem foi que entrou no meu reino
E em meu ouro remexeu?
Quem foi que pulou meu muro
E minhas rosas colheu?
Quem foi, perguntou o Celo
E a Flauta falou: Fui eu.
Mas quem foi, a Flauta disse
Que no meu quarto surgiu?
Quem foi que me deu um beijo
E em minha cama dormiu?
Quem foi que me fez perdida
E que me desiludiu?
Quem foi, perguntou a Flauta
E o velho Celo sorriu.
1 271
Vinicius de Moraes
Trecho
Quem foi, perguntou o Celo
Que me desobedeceu?
Quem foi que entrou no meu reino
E em meu ouro remexeu?
Quem foi que pulou meu muro
E minhas rosas colheu?
Quem foi, perguntou o Celo
E a Flauta falou: Fui eu.
Mas quem foi, a Flauta disse
Que no meu quarto surgiu?
Quem foi que me deu um beijo
E em minha cama dormiu?
Quem foi que me fez perdida
E que me desiludiu?
Quem foi, perguntou a Flauta
E o velho Celo sorriu.
Que me desobedeceu?
Quem foi que entrou no meu reino
E em meu ouro remexeu?
Quem foi que pulou meu muro
E minhas rosas colheu?
Quem foi, perguntou o Celo
E a Flauta falou: Fui eu.
Mas quem foi, a Flauta disse
Que no meu quarto surgiu?
Quem foi que me deu um beijo
E em minha cama dormiu?
Quem foi que me fez perdida
E que me desiludiu?
Quem foi, perguntou a Flauta
E o velho Celo sorriu.
1 271
Vinicius de Moraes
Soneto de Quarta-Feira de Cinzas
Por seres quem me foste, grave e pura
Em tão doce surpresa conquistada
Por seres uma branca criatura
De uma brancura de manhã raiada
Por seres de uma rara formosura
Malgrado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namorada
Porque te vi nascer de mim sozinha
Como a noturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjura
Por não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura.
Rio, 1941
Em tão doce surpresa conquistada
Por seres uma branca criatura
De uma brancura de manhã raiada
Por seres de uma rara formosura
Malgrado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namorada
Porque te vi nascer de mim sozinha
Como a noturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjura
Por não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura.
Rio, 1941
1 149
Vinicius de Moraes
Soneto de Quarta-Feira de Cinzas
Por seres quem me foste, grave e pura
Em tão doce surpresa conquistada
Por seres uma branca criatura
De uma brancura de manhã raiada
Por seres de uma rara formosura
Malgrado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namorada
Porque te vi nascer de mim sozinha
Como a noturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjura
Por não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura.
Rio, 1941
Em tão doce surpresa conquistada
Por seres uma branca criatura
De uma brancura de manhã raiada
Por seres de uma rara formosura
Malgrado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namorada
Porque te vi nascer de mim sozinha
Como a noturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjura
Por não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura.
Rio, 1941
1 149
Vinicius de Moraes
Três Respostas Em Face de Deus
Familles, je vous hais! foyers clos; portes refermées; possessions jalouses
du bonheur.
A. Gide
C'est l'ami ni ardent ni faible. L'ami.
Rimbaud
…ô Femme, monceau d'entrailles, pitié douce Tu n'est jamais la soeur de
charité, jamais
Rimbaud
Sim, vós sois... (eu deveria ajoelhar dizendo os vossos nomes!)
E sem vós quem se mataria no presságio de alguma madrugada?
À vossa mesa irei murchando para que o vosso vinho vá bebendo
De minha poesia farei música para que não mais vos firam os seus acentos
dolorosos
Livres as mãos e serei Tântalo — mas o suplício da sede vós o vereis
apenas nos meus olhos
Que adormeceram nas visões das auroras geladas onde o sol de sangue não
caminha...
E vós!... (Oh, o fervor de dizer os vossos nomes angustiados!)
Deixai correr o vosso sangue eterno sobre as minhas lágrimas de ouro!
Vós sois o espírito, a alma, a inteligência das coisas criadas
E a vós eu não rirei — rir é atormentar a tragédia interior que ama o
silêncio
Convosco e contra vós eu vagarei em todos os desertos
E a mesma águia se alimentará das nossas entranhas tormentosas.
E vós, serenos anjos... (eu deveria morrer dizendo os vossos nomes!)
Vós cujos pequenos seios se iluminavam misteriosamente à minha presença
silenciosa!
V ossa lembrança é como a vida que não abandona o espírito no sono
Vós fostes para mim o grande encontro...
E vós também, ó árvores de desejo! Vós, a jetatura de Deus enlouquecido
Vós sereis o demônio em todas as idades.
du bonheur.
A. Gide
C'est l'ami ni ardent ni faible. L'ami.
Rimbaud
…ô Femme, monceau d'entrailles, pitié douce Tu n'est jamais la soeur de
charité, jamais
Rimbaud
Sim, vós sois... (eu deveria ajoelhar dizendo os vossos nomes!)
E sem vós quem se mataria no presságio de alguma madrugada?
À vossa mesa irei murchando para que o vosso vinho vá bebendo
De minha poesia farei música para que não mais vos firam os seus acentos
dolorosos
Livres as mãos e serei Tântalo — mas o suplício da sede vós o vereis
apenas nos meus olhos
Que adormeceram nas visões das auroras geladas onde o sol de sangue não
caminha...
E vós!... (Oh, o fervor de dizer os vossos nomes angustiados!)
Deixai correr o vosso sangue eterno sobre as minhas lágrimas de ouro!
Vós sois o espírito, a alma, a inteligência das coisas criadas
E a vós eu não rirei — rir é atormentar a tragédia interior que ama o
silêncio
Convosco e contra vós eu vagarei em todos os desertos
E a mesma águia se alimentará das nossas entranhas tormentosas.
E vós, serenos anjos... (eu deveria morrer dizendo os vossos nomes!)
Vós cujos pequenos seios se iluminavam misteriosamente à minha presença
silenciosa!
V ossa lembrança é como a vida que não abandona o espírito no sono
Vós fostes para mim o grande encontro...
E vós também, ó árvores de desejo! Vós, a jetatura de Deus enlouquecido
Vós sereis o demônio em todas as idades.
1 054
Vinicius de Moraes
Soneto de Inspiração
Não te amo como uma criança, nem
Como um homem e nem como um mendigo
Amo-te como se ama todo o bem
Que o grande mal da vida traz consigo.
Não é nem pela calma que me vem
De amar, nem pela glória do perigo
Que me vem de te amar, que te amo; digo
Antes que por te amar não sou ninguém.
Amo-te pelo que és, pequena e doce
Pela infinita inércia que me trouxe
A culpa é de te amar — soubesse eu ver
Através da tua carne defendida
Que sou triste demais para esta vida
E que és pura demais para sofrer.
Como um homem e nem como um mendigo
Amo-te como se ama todo o bem
Que o grande mal da vida traz consigo.
Não é nem pela calma que me vem
De amar, nem pela glória do perigo
Que me vem de te amar, que te amo; digo
Antes que por te amar não sou ninguém.
Amo-te pelo que és, pequena e doce
Pela infinita inércia que me trouxe
A culpa é de te amar — soubesse eu ver
Através da tua carne defendida
Que sou triste demais para esta vida
E que és pura demais para sofrer.
1 309
Vinicius de Moraes
Viagem À Sombra
Tua casa sozinha — lassidão infinita dos devaneios, dos segredos. Frocos
verdes de perfume sobre a malva penumbra (e a tua carne em pianíssimo,
grande gata branca de fala moribunda) e o fumo branco da cidade
inatingível, e o fumo branco, e a tua boca áspera, onde há dentes de
inocência ainda.
És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se cobre, invisível, de
odor marítimo dos brigues selvagens que eu não tive; há teus olhos mansos
de louca, ó louca! e há tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis
falar. Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duendes
ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.
E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos de magia. Sim, é dança!
— o colo que aflora oferecido é a melodiosa recusa das mãos, a anca que
irrompe à carícia é o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita
graça, também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde o mar e as
trágicas aves da tempestade, para ser transportado, a face pousada sobre o
abismo?
Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos
ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei,
fêmea! — Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! — teu
corpo barroco em bolero e rumba. — Mais! — dança! dança! — canta,
rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne
dos batráquios…)
Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica — oh mulher, anjo, cadáver da
minha angústia! — sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no
momento desta sombra, na sombra desta agonia — minha — minha —
minha — oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem...
Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco animal, as
pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu te fecundaria com um
simples pensamento de amor, ai de mim!
Mas ficarás com o teu destino.
verdes de perfume sobre a malva penumbra (e a tua carne em pianíssimo,
grande gata branca de fala moribunda) e o fumo branco da cidade
inatingível, e o fumo branco, e a tua boca áspera, onde há dentes de
inocência ainda.
És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se cobre, invisível, de
odor marítimo dos brigues selvagens que eu não tive; há teus olhos mansos
de louca, ó louca! e há tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis
falar. Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duendes
ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.
E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos de magia. Sim, é dança!
— o colo que aflora oferecido é a melodiosa recusa das mãos, a anca que
irrompe à carícia é o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita
graça, também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde o mar e as
trágicas aves da tempestade, para ser transportado, a face pousada sobre o
abismo?
Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos
ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei,
fêmea! — Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! — teu
corpo barroco em bolero e rumba. — Mais! — dança! dança! — canta,
rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne
dos batráquios…)
Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica — oh mulher, anjo, cadáver da
minha angústia! — sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no
momento desta sombra, na sombra desta agonia — minha — minha —
minha — oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem...
Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco animal, as
pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu te fecundaria com um
simples pensamento de amor, ai de mim!
Mas ficarás com o teu destino.
1 193
Vinicius de Moraes
Viagem À Sombra
Tua casa sozinha — lassidão infinita dos devaneios, dos segredos. Frocos
verdes de perfume sobre a malva penumbra (e a tua carne em pianíssimo,
grande gata branca de fala moribunda) e o fumo branco da cidade
inatingível, e o fumo branco, e a tua boca áspera, onde há dentes de
inocência ainda.
És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se cobre, invisível, de
odor marítimo dos brigues selvagens que eu não tive; há teus olhos mansos
de louca, ó louca! e há tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis
falar. Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duendes
ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.
E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos de magia. Sim, é dança!
— o colo que aflora oferecido é a melodiosa recusa das mãos, a anca que
irrompe à carícia é o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita
graça, também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde o mar e as
trágicas aves da tempestade, para ser transportado, a face pousada sobre o
abismo?
Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos
ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei,
fêmea! — Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! — teu
corpo barroco em bolero e rumba. — Mais! — dança! dança! — canta,
rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne
dos batráquios…)
Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica — oh mulher, anjo, cadáver da
minha angústia! — sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no
momento desta sombra, na sombra desta agonia — minha — minha —
minha — oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem...
Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco animal, as
pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu te fecundaria com um
simples pensamento de amor, ai de mim!
Mas ficarás com o teu destino.
verdes de perfume sobre a malva penumbra (e a tua carne em pianíssimo,
grande gata branca de fala moribunda) e o fumo branco da cidade
inatingível, e o fumo branco, e a tua boca áspera, onde há dentes de
inocência ainda.
És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se cobre, invisível, de
odor marítimo dos brigues selvagens que eu não tive; há teus olhos mansos
de louca, ó louca! e há tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis
falar. Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duendes
ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.
E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos de magia. Sim, é dança!
— o colo que aflora oferecido é a melodiosa recusa das mãos, a anca que
irrompe à carícia é o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita
graça, também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde o mar e as
trágicas aves da tempestade, para ser transportado, a face pousada sobre o
abismo?
Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos
ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei,
fêmea! — Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! — teu
corpo barroco em bolero e rumba. — Mais! — dança! dança! — canta,
rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne
dos batráquios…)
Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica — oh mulher, anjo, cadáver da
minha angústia! — sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no
momento desta sombra, na sombra desta agonia — minha — minha —
minha — oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem...
Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco animal, as
pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu te fecundaria com um
simples pensamento de amor, ai de mim!
Mas ficarás com o teu destino.
1 193
Vinicius de Moraes
Idade Média
Faze com que tua boca seja para mim água e não vinho
E faze com que para mim teus seios peras e não cidras...
Algum dia no teu ventre que eu vejo se estender como uma branca terra
fecunda em lírios
Deixarei a semente de gigantes arianos que atravessarão silenciosamente o
V olga
E que as cabeceiras de seda voando, as lanças de ouro voando, cavalgarão
doidamente contra a lua...
E faze com que para mim teus seios peras e não cidras...
Algum dia no teu ventre que eu vejo se estender como uma branca terra
fecunda em lírios
Deixarei a semente de gigantes arianos que atravessarão silenciosamente o
V olga
E que as cabeceiras de seda voando, as lanças de ouro voando, cavalgarão
doidamente contra a lua...
1 170
Vinicius de Moraes
Ternura
Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
extático da aurora.
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
extático da aurora.
1 432
Vinicius de Moraes
Soneto a Katherine Mansfield
O teu perfume, amada — em tuas cartas
Renasce, azul... — são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.
Relembro-as, vou... nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.
Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto!... e a primavera
Vem já tão próxima!... (Nunca te apartas
Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.
Rio, 1937
Renasce, azul... — são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.
Relembro-as, vou... nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.
Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto!... e a primavera
Vem já tão próxima!... (Nunca te apartas
Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.
Rio, 1937
1 204
Vinicius de Moraes
Soneto de Contrição
Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.
Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.
Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...
E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.
Rio, 1938
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.
Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.
Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...
E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.
Rio, 1938
1 486
Vinicius de Moraes
Ária Para Assovio
Inelutavelmente tu
Rosa sobre o passeio
Branca! e a melancolia
Na tarde do seio
As cássias escorrem
Seu ouro a teus pés
Conheço o soneto
Porém tu quem és?
O madrigal se escreve:
Se é do teu costume
Deixa que eu te leve
(Sê... mínima e breve
A música do perfume
Não guarda ciúme)
Rio, 1936
Rosa sobre o passeio
Branca! e a melancolia
Na tarde do seio
As cássias escorrem
Seu ouro a teus pés
Conheço o soneto
Porém tu quem és?
O madrigal se escreve:
Se é do teu costume
Deixa que eu te leve
(Sê... mínima e breve
A música do perfume
Não guarda ciúme)
Rio, 1936
1 088
Vinicius de Moraes
Uma Mulher No Meio do Mar
(Sobre um desenho original de Almir Castro)
Na praia batida de vento a voz entrecortada chama
Dentro da noite amarga a grande lua está contigo e está com ela — pousa o
teu rosto sobre a areia!
A tua lágrima de homem ficará correndo sobre o teu corpo dormindo e te
levará boiando
E talvez a tua mão inerme encontre a sua mão cheia de frio
Tudo está sozinho e o supremo abandono pousou sobre o corpo nu da que
deixaste ir
A onda solitária é o berço do amor e há uma música eterna nas formas
invisíveis
Passa o teu braço sobre o que foi o triste destroço de um outro mar bem
mais revolto
E sentirás que nunca o pobre corpo foi mais flexuoso ao teu afago nem o
olhar mais aberto ao teu desejo.
Afaga os seios que os teus beijos poluíram e que a água amante fez altos e
serenos
Mergulha os dedos pela última vez na úmida cabeleira espessa que se vai
abrir como as medusas
Porque também a lua vive a vez derradeira a visão escrava
Porque nunca mais também os olhos que estão parados te mostrarão o céu
E as linhas que vês desfeitas já pesam como que para o descanso do fundo
que não atingirás.
Não sentes que é preciso que ela vá, vá dar morada às algas que lhe
cobrirão amorosamente o corpo
Para fugir de ti que o cobrias apenas com a ardência imutável do teu
desejo?
Oh, o amor que abre os braços à piedade!...
Na praia batida de vento a voz entrecortada chama
Dentro da noite amarga a grande lua está contigo e está com ela — pousa o
teu rosto sobre a areia!
A tua lágrima de homem ficará correndo sobre o teu corpo dormindo e te
levará boiando
E talvez a tua mão inerme encontre a sua mão cheia de frio
Tudo está sozinho e o supremo abandono pousou sobre o corpo nu da que
deixaste ir
A onda solitária é o berço do amor e há uma música eterna nas formas
invisíveis
Passa o teu braço sobre o que foi o triste destroço de um outro mar bem
mais revolto
E sentirás que nunca o pobre corpo foi mais flexuoso ao teu afago nem o
olhar mais aberto ao teu desejo.
Afaga os seios que os teus beijos poluíram e que a água amante fez altos e
serenos
Mergulha os dedos pela última vez na úmida cabeleira espessa que se vai
abrir como as medusas
Porque também a lua vive a vez derradeira a visão escrava
Porque nunca mais também os olhos que estão parados te mostrarão o céu
E as linhas que vês desfeitas já pesam como que para o descanso do fundo
que não atingirás.
Não sentes que é preciso que ela vá, vá dar morada às algas que lhe
cobrirão amorosamente o corpo
Para fugir de ti que o cobrias apenas com a ardência imutável do teu
desejo?
Oh, o amor que abre os braços à piedade!...
1 158
Vinicius de Moraes
O Falso Mendigo
Minha mãe, manda comprar um quilo de papel almaço na venda
Quero fazer uma poesia.
Diz a Amélia para preparar um refresco bem gelado
E me trazer muito devagarinho.
Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave
Quero fazer uma poesia.
Se me telefonarem, só estou para Maria
Se for o Ministro, só recebo amanhã
Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vida.
Diz a Amélia para procurar a “Patética” no rádio
Se houver um grande desastre vem logo contar
Se o aneurisma de dona Ângela arrebentar, me avisa
Tenho um tédio enorme da vida.
Liga para vovó Neném, pede a ela uma ideia bem inocente
Quero fazer uma grande poesia.
Quando meu pai chegar tragam-me logo os jornais da tarde
Se eu dormir, pelo amor de Deus, me acordem
Não quero perder nada na vida.
Fizeram bicos de rouxinol para o meu jantar?
Puseram no lugar meu cachimbo e meus poetas?
Tenho um tédio enorme da vida.
Minha mãe estou com vontade de chorar
Estou com taquicardia, me dá um remédio
Não, antes me deixa morrer, quero morrer, a vida
Já não me diz mais nada
Tenho horror da vida, quero fazer a maior poesia do mundo
Quero morrer imediatamente.
Fala com o Presidente para fecharem todos os cinemas
Não aguento mais ser censor.
Ah, pensa uma coisa, minha mãe, para distrair teu filho
Teu falso, teu miserável, teu sórdido filho
Que estala em força, sacrifício, violência, devotamento
Que podia britar pedra alegremente
Ser negociante cantando
Fazer advocacia com o sorriso exato
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor
Sabe ser o melhor, o mais doce e o mais eterno da tua puríssima carícia.
Quero fazer uma poesia.
Diz a Amélia para preparar um refresco bem gelado
E me trazer muito devagarinho.
Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave
Quero fazer uma poesia.
Se me telefonarem, só estou para Maria
Se for o Ministro, só recebo amanhã
Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vida.
Diz a Amélia para procurar a “Patética” no rádio
Se houver um grande desastre vem logo contar
Se o aneurisma de dona Ângela arrebentar, me avisa
Tenho um tédio enorme da vida.
Liga para vovó Neném, pede a ela uma ideia bem inocente
Quero fazer uma grande poesia.
Quando meu pai chegar tragam-me logo os jornais da tarde
Se eu dormir, pelo amor de Deus, me acordem
Não quero perder nada na vida.
Fizeram bicos de rouxinol para o meu jantar?
Puseram no lugar meu cachimbo e meus poetas?
Tenho um tédio enorme da vida.
Minha mãe estou com vontade de chorar
Estou com taquicardia, me dá um remédio
Não, antes me deixa morrer, quero morrer, a vida
Já não me diz mais nada
Tenho horror da vida, quero fazer a maior poesia do mundo
Quero morrer imediatamente.
Fala com o Presidente para fecharem todos os cinemas
Não aguento mais ser censor.
Ah, pensa uma coisa, minha mãe, para distrair teu filho
Teu falso, teu miserável, teu sórdido filho
Que estala em força, sacrifício, violência, devotamento
Que podia britar pedra alegremente
Ser negociante cantando
Fazer advocacia com o sorriso exato
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor
Sabe ser o melhor, o mais doce e o mais eterno da tua puríssima carícia.
1 279
Vinicius de Moraes
A Brusca Poesia da Mulher Amada
Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede
lentamente...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor — oh, a mulher amada
é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?
Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida
dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos
transfigurados...
Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.
lentamente...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor — oh, a mulher amada
é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?
Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida
dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos
transfigurados...
Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.
1 218
Vinicius de Moraes
Lamento Ouvido Não Sei Onde
Minha mãe, toma cuidado
Não zanga assim com meu pai
Um dia ele vai-se embora
E não volta nunca mais.
O mau filho à casa torna
Mãe... nem carece tornar
Mas pai que larga a família
Pra que desgraça não vai!
Não zanga assim com meu pai
Um dia ele vai-se embora
E não volta nunca mais.
O mau filho à casa torna
Mãe... nem carece tornar
Mas pai que larga a família
Pra que desgraça não vai!
1 365
Vinicius de Moraes
Lamento Ouvido Não Sei Onde
Minha mãe, toma cuidado
Não zanga assim com meu pai
Um dia ele vai-se embora
E não volta nunca mais.
O mau filho à casa torna
Mãe... nem carece tornar
Mas pai que larga a família
Pra que desgraça não vai!
Não zanga assim com meu pai
Um dia ele vai-se embora
E não volta nunca mais.
O mau filho à casa torna
Mãe... nem carece tornar
Mas pai que larga a família
Pra que desgraça não vai!
1 365
Vinicius de Moraes
Lamento Ouvido Não Sei Onde
Minha mãe, toma cuidado
Não zanga assim com meu pai
Um dia ele vai-se embora
E não volta nunca mais.
O mau filho à casa torna
Mãe... nem carece tornar
Mas pai que larga a família
Pra que desgraça não vai!
Não zanga assim com meu pai
Um dia ele vai-se embora
E não volta nunca mais.
O mau filho à casa torna
Mãe... nem carece tornar
Mas pai que larga a família
Pra que desgraça não vai!
1 365
Vinicius de Moraes
Balada Para Maria
Não sei o que me angustia
Tardiamente; em meu peito
Vive dormindo perfeito
O sono dessa agonia...
Saudades tuas, Maria?
Na volúpia de uma flora
Úmida, pecaminosa
Nasceu a primeira rosa
Fria...
Perdi o prazer da hora.
Mas se num momento cresce
O sangue, e me engrossa a veia
Maria, que coisa feia!
Todo o meu corpo estremece...
E dos colmos altos, ricos
Em resinas odorantes
Pressinto o coito dos micos
E o amor das cobras possantes.
No mundo há tantos amantes...
Maria...
Cantar-te-ei brasileiro:
Maria, sou teu escravo!
A rosa é a mulher do cravo...
Dá-me o beijo derradeiro?
— Cobrir-te-ei de pomada
Do pólen das flores puras
E te fecundarei deitada
Num chão de frutas maduras
Maria... e morangos, quantos!
E tu que adoras morango!
Dormirás sobre agapantos...
— Fingirei de orangotango!
Não queres mesmo, Maria?
No lombo morno dos gatos
Aprendi muita carícia...
Para fazer-te a delícia
Só terei gestos exatos.
E não bastasse, Maria...
E morro nessas montanhas
Entre as imagens castanhas
Da tua melancolia...
Tardiamente; em meu peito
Vive dormindo perfeito
O sono dessa agonia...
Saudades tuas, Maria?
Na volúpia de uma flora
Úmida, pecaminosa
Nasceu a primeira rosa
Fria...
Perdi o prazer da hora.
Mas se num momento cresce
O sangue, e me engrossa a veia
Maria, que coisa feia!
Todo o meu corpo estremece...
E dos colmos altos, ricos
Em resinas odorantes
Pressinto o coito dos micos
E o amor das cobras possantes.
No mundo há tantos amantes...
Maria...
Cantar-te-ei brasileiro:
Maria, sou teu escravo!
A rosa é a mulher do cravo...
Dá-me o beijo derradeiro?
— Cobrir-te-ei de pomada
Do pólen das flores puras
E te fecundarei deitada
Num chão de frutas maduras
Maria... e morangos, quantos!
E tu que adoras morango!
Dormirás sobre agapantos...
— Fingirei de orangotango!
Não queres mesmo, Maria?
No lombo morno dos gatos
Aprendi muita carícia...
Para fazer-te a delícia
Só terei gestos exatos.
E não bastasse, Maria...
E morro nessas montanhas
Entre as imagens castanhas
Da tua melancolia...
1 042
Vinicius de Moraes
Invocação À Mulher Única
Tu, pássaro — mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do
amor acima do sexo infinito
Tu, que perpetuas o desespero humano — alma desolada da noite sobre o
frio das águas — tu
Tédio escuro, mal da vida — fonte! jamais... jamais... (que o poema receba
as minhas lágrimas!...)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que
três partes sangrentas do meu coração em martírio
E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha
carne é aguda
E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de
um gesto teu sobre o espaço em harmonia.
Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça,
fêmea
Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa
velha madrugada de lua...
A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas
— negações do bem: o Antigo Testamento! — a minha descendência
De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento —
afirmações do bem: dúvida
(Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais
oportuna que a caridade
Dúvida, madrasta do gênio) — tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu
ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito,
amém!
Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra —
perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros
— mulher! tu que deitas o teu sangue
Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias
— mulher!
Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar
de inverno.
Não me deixes morrer!... eu, homem — fruto da terra — eu, homem —
fruto da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do
sêmen que se rejubilam à carne
Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é
o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir... — as viagens remontam à vida!... e por que eu
partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura
A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da
minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma — uma montanha imensa e
desdobrada — por onde eu iria caminhando
Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e
dormiria eternamente como uma múmia egípcia
No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a
minha própria — oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!
amor acima do sexo infinito
Tu, que perpetuas o desespero humano — alma desolada da noite sobre o
frio das águas — tu
Tédio escuro, mal da vida — fonte! jamais... jamais... (que o poema receba
as minhas lágrimas!...)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que
três partes sangrentas do meu coração em martírio
E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha
carne é aguda
E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de
um gesto teu sobre o espaço em harmonia.
Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça,
fêmea
Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa
velha madrugada de lua...
A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas
— negações do bem: o Antigo Testamento! — a minha descendência
De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento —
afirmações do bem: dúvida
(Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais
oportuna que a caridade
Dúvida, madrasta do gênio) — tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu
ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito,
amém!
Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra —
perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros
— mulher! tu que deitas o teu sangue
Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias
— mulher!
Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar
de inverno.
Não me deixes morrer!... eu, homem — fruto da terra — eu, homem —
fruto da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do
sêmen que se rejubilam à carne
Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é
o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir... — as viagens remontam à vida!... e por que eu
partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura
A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da
minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma — uma montanha imensa e
desdobrada — por onde eu iria caminhando
Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e
dormiria eternamente como uma múmia egípcia
No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a
minha própria — oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!
1 134