Poemas neste tema
Relações e Família
António Ramos Rosa
Escrever-Te É Preparar-Me Para Um Novo Dia,
Escrever-te é preparar-me para um novo dia,
uma luta de abraços e de flores no mar.
Escrever-te é enamorar-me do primeiro nome, a terra,
a casa, o chão; ligá-los músculo a músculo
até ao sabor quente do teu bafo animal.
A ferida, a raiva ferida, arrebatada
pelo teu corpo disparado, no silêncio
de um campo de ervas altas; o silêncio
dos nomes do campo concentrado
num muro branco.
O canto e o encanto das coisas nomeadas,
pedra alta, fria chuva, olhos acesos,
ervas e flores,
a geometria do teu andar desperta
e da dureza da terra faz o lugar voltar
ao seu lugar primeiro, ao teu nome de terra.
uma luta de abraços e de flores no mar.
Escrever-te é enamorar-me do primeiro nome, a terra,
a casa, o chão; ligá-los músculo a músculo
até ao sabor quente do teu bafo animal.
A ferida, a raiva ferida, arrebatada
pelo teu corpo disparado, no silêncio
de um campo de ervas altas; o silêncio
dos nomes do campo concentrado
num muro branco.
O canto e o encanto das coisas nomeadas,
pedra alta, fria chuva, olhos acesos,
ervas e flores,
a geometria do teu andar desperta
e da dureza da terra faz o lugar voltar
ao seu lugar primeiro, ao teu nome de terra.
1 148
António Ramos Rosa
Escrever-Te É Preparar-Me Para Um Novo Dia,
Escrever-te é preparar-me para um novo dia,
uma luta de abraços e de flores no mar.
Escrever-te é enamorar-me do primeiro nome, a terra,
a casa, o chão; ligá-los músculo a músculo
até ao sabor quente do teu bafo animal.
A ferida, a raiva ferida, arrebatada
pelo teu corpo disparado, no silêncio
de um campo de ervas altas; o silêncio
dos nomes do campo concentrado
num muro branco.
O canto e o encanto das coisas nomeadas,
pedra alta, fria chuva, olhos acesos,
ervas e flores,
a geometria do teu andar desperta
e da dureza da terra faz o lugar voltar
ao seu lugar primeiro, ao teu nome de terra.
uma luta de abraços e de flores no mar.
Escrever-te é enamorar-me do primeiro nome, a terra,
a casa, o chão; ligá-los músculo a músculo
até ao sabor quente do teu bafo animal.
A ferida, a raiva ferida, arrebatada
pelo teu corpo disparado, no silêncio
de um campo de ervas altas; o silêncio
dos nomes do campo concentrado
num muro branco.
O canto e o encanto das coisas nomeadas,
pedra alta, fria chuva, olhos acesos,
ervas e flores,
a geometria do teu andar desperta
e da dureza da terra faz o lugar voltar
ao seu lugar primeiro, ao teu nome de terra.
1 148
António Ramos Rosa
Não Que Dance, a Folha
Não que dance, a folha
que dirias contra
a noite. Não que a febre
um incêndio pelo pulso alastre
até à terra obscura. Nada,
esta ligeireza simples, estas palavras
ninguém as grita. Espero que
a sombra de outro corpo ao meu
as dei. Um canto
que eu não sei se
as move, ou outro espaço
mas só a sombra
delas.
Antes, depois, já,
quando, um frémito feliz
as traça, o nó
desata, outras minhas
no intervalo que abrem
cessam,
quando, e sem porquê.
que dirias contra
a noite. Não que a febre
um incêndio pelo pulso alastre
até à terra obscura. Nada,
esta ligeireza simples, estas palavras
ninguém as grita. Espero que
a sombra de outro corpo ao meu
as dei. Um canto
que eu não sei se
as move, ou outro espaço
mas só a sombra
delas.
Antes, depois, já,
quando, um frémito feliz
as traça, o nó
desata, outras minhas
no intervalo que abrem
cessam,
quando, e sem porquê.
958
António Ramos Rosa
O Arco, E Logo, a Folha Alta
O arco, e logo, a folha alta,
o dia. O espaço,
o silêncio, um bloco transparente.
A casa vive o que eu escrevo,
e a margem branca (intransponível)
é o corpo que eu não sei,
vivo na claridade.
Um corpo, digo, não um cristal.
Que permanece, ainda que eu hesite
ou falhe, ou recomece. E longamente
se abre, no dia, o arco, e a mão que o perde.
Só uma distância, ou o desejo, o quer.
Mas onde e quando, enquanto existe?
A vulnerada folha não o rasga.
O corpo, no horizonte, dura, intacto.
o dia. O espaço,
o silêncio, um bloco transparente.
A casa vive o que eu escrevo,
e a margem branca (intransponível)
é o corpo que eu não sei,
vivo na claridade.
Um corpo, digo, não um cristal.
Que permanece, ainda que eu hesite
ou falhe, ou recomece. E longamente
se abre, no dia, o arco, e a mão que o perde.
Só uma distância, ou o desejo, o quer.
Mas onde e quando, enquanto existe?
A vulnerada folha não o rasga.
O corpo, no horizonte, dura, intacto.
1 061
António Ramos Rosa
Amor da Palavra, Amor do Corpo
a Maria Aliete Galhoz
A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
746
António Ramos Rosa
O Sol da Casa
Sou o que veio por um momento
de sol.
Vim até à beira da janela
até ao hálito da casa.
Venho até ver com o sol
o ouro do campo
da casa.
Uma boca lenta que percorre
o sabor dos quartos
desta casa de terra quente.
Venho até quase à boca desta casa
silenciosa de sol.
de sol.
Vim até à beira da janela
até ao hálito da casa.
Venho até ver com o sol
o ouro do campo
da casa.
Uma boca lenta que percorre
o sabor dos quartos
desta casa de terra quente.
Venho até quase à boca desta casa
silenciosa de sol.
1 148
António Ramos Rosa
Árvore Aberta
Dobrei os teus pulsos a dura aranha
do teu corpo
a tua árvore
a faca rasgou a barreira do ventre
a tua face abriu-se como um barco
amei-te tempestade de ossos e de nervos
contra ti
contra ti
exílio
pátria sobre o chão
e fuga
furiosa e suave lâmina animada
bebida a jactos
aranha alta e linda
enclavinhada
destilando o suor a baba o vinho a seiva
o estrépito da primavera
de uma árvore que se abre
no silêncio
do teu corpo
a tua árvore
a faca rasgou a barreira do ventre
a tua face abriu-se como um barco
amei-te tempestade de ossos e de nervos
contra ti
contra ti
exílio
pátria sobre o chão
e fuga
furiosa e suave lâmina animada
bebida a jactos
aranha alta e linda
enclavinhada
destilando o suor a baba o vinho a seiva
o estrépito da primavera
de uma árvore que se abre
no silêncio
1 137
António Ramos Rosa
Para Vir Aqui
Para vir aqui, de longe, a este sol da casa.
Para esta casa do corpo — tão de longe.
Chegar à casa onde estou,
olhos da face, ver à beira
da casa o sol da casa
tão perto e longo
o sol da face, o corpo
tão perto — e de tão longe.
Para esta casa do corpo — tão de longe.
Chegar à casa onde estou,
olhos da face, ver à beira
da casa o sol da casa
tão perto e longo
o sol da face, o corpo
tão perto — e de tão longe.
1 067
António Ramos Rosa
Entre Tarde E Noite
Liguei-te, na minha febre seca, ao dia dos meus passos.
Lâmina justa contra o peito — um dorso obscuro e doce
entre tarde e noite.
Adormecida moita à minha beira,
com olhos de silêncio.
É noite já, entre tarde e noite.
Lâmina justa contra o peito — um dorso obscuro e doce
entre tarde e noite.
Adormecida moita à minha beira,
com olhos de silêncio.
É noite já, entre tarde e noite.
1 048
António Ramos Rosa
Boca Para Ler, Para Abrir E Devorar
Boca para ler para abrir e devorar
pernas para lamber fluindo como as colinas do olhar
Boca para o meio-dia solar
pernas para correr sob o arco das montanhas
Boca para lábio a lábio língua a língua ler
Ventre retirado para sentir a fuga viva vir para a frente
Púbis para a espiga alta e pulsante soluçar
Catre rubro e suave para adormecer acordado
aí onde o sim diz a água do sim
terra que bate e bate lenta forte e doce
olho de água olho de terra abrindo e dando
pernas para lamber fluindo como as colinas do olhar
Boca para o meio-dia solar
pernas para correr sob o arco das montanhas
Boca para lábio a lábio língua a língua ler
Ventre retirado para sentir a fuga viva vir para a frente
Púbis para a espiga alta e pulsante soluçar
Catre rubro e suave para adormecer acordado
aí onde o sim diz a água do sim
terra que bate e bate lenta forte e doce
olho de água olho de terra abrindo e dando
1 170
António Ramos Rosa
Terra Imponderável
Uma toalha de água e de ar,
imponderável terra
de um longo instante suave.
Região de luz que toca as franjas
doces do ser: sem distância, distante.
Estou (estava) numa nuvem clara
sem linguagem nem corpo.
Um prolongado sim de todo o sangue calmo.
Imóvel barco ou suspensão que inunda.
Abrigo sem abrigo, morada do espaço.
Para além da mãe nocturna, da súplica e do abraço,
para além do pai funéreo, da cal e cinza pétrea,
o infindável átrio, a água libertada.
As palavras dizem os arcos do ar,
as mãos salvas conhecem-se, sem gestos.
Cheguei à fronte deste instante — à minha fronte,
os sonhos que tive desfizeram-se,
percorro agora a terra onde eles nascem,
os lábios livres cegos vêem e caminham.
Ouso ser simples como o pão e a água.
imponderável terra
de um longo instante suave.
Região de luz que toca as franjas
doces do ser: sem distância, distante.
Estou (estava) numa nuvem clara
sem linguagem nem corpo.
Um prolongado sim de todo o sangue calmo.
Imóvel barco ou suspensão que inunda.
Abrigo sem abrigo, morada do espaço.
Para além da mãe nocturna, da súplica e do abraço,
para além do pai funéreo, da cal e cinza pétrea,
o infindável átrio, a água libertada.
As palavras dizem os arcos do ar,
as mãos salvas conhecem-se, sem gestos.
Cheguei à fronte deste instante — à minha fronte,
os sonhos que tive desfizeram-se,
percorro agora a terra onde eles nascem,
os lábios livres cegos vêem e caminham.
Ouso ser simples como o pão e a água.
1 187
António Ramos Rosa
Na Distância Breve Insuperável
Na distância breve insuperável
em que a lâmpada
apenas de ar
é ar
uma ilha rodeada de ar
um corpo não imaginado
visto
na distância insuperável
ilha inabordável
o desejo que se apaga
e se acende
de ilha em ilha
e o ar único de todas
o ar das ilhas únicas
que no estio se acende
e é lâmpada
de ar
apenas de ar
na distância breve insuperável
o espaço
do desejo
onde o ar as reúne
o efémero ar que passa
entre ausência e presença
entre o ar e o ar
a boca que diz sim
ao ar comum
das ilhas reunidas e dispersas
pelas ruas
animal de estio e brisa
animal forte
e branco
do desejo nu
de uma
que dança clara e forte
nas suas ancas
de mulher
ó ilha de ar
rodeada por todos os lados de ar
e apenas ar
ó distância breve insuperável
margem do desejo
inabolível
a minha fronte atinge essa fronteira
e apenas bebe o ar
mas
o fogo se acende a cada passo
e o espaço nu
é já ardor
caminho do desejo
que atravessa o ar
e entre o corpo e o corpo
o corpo interior projecta
ar de um corpo
a um corpo de ar
próximo futuro
que arde de ser-não ser
e a sombra refresca
na fronte
de um segredo vão
de um ar de todos
e ninguém
e ao olhar nu vem
o ar mais livre
mais leve
em que a lâmpada
apenas de ar
é ar
uma ilha rodeada de ar
um corpo não imaginado
visto
na distância insuperável
ilha inabordável
o desejo que se apaga
e se acende
de ilha em ilha
e o ar único de todas
o ar das ilhas únicas
que no estio se acende
e é lâmpada
de ar
apenas de ar
na distância breve insuperável
o espaço
do desejo
onde o ar as reúne
o efémero ar que passa
entre ausência e presença
entre o ar e o ar
a boca que diz sim
ao ar comum
das ilhas reunidas e dispersas
pelas ruas
animal de estio e brisa
animal forte
e branco
do desejo nu
de uma
que dança clara e forte
nas suas ancas
de mulher
ó ilha de ar
rodeada por todos os lados de ar
e apenas ar
ó distância breve insuperável
margem do desejo
inabolível
a minha fronte atinge essa fronteira
e apenas bebe o ar
mas
o fogo se acende a cada passo
e o espaço nu
é já ardor
caminho do desejo
que atravessa o ar
e entre o corpo e o corpo
o corpo interior projecta
ar de um corpo
a um corpo de ar
próximo futuro
que arde de ser-não ser
e a sombra refresca
na fronte
de um segredo vão
de um ar de todos
e ninguém
e ao olhar nu vem
o ar mais livre
mais leve
1 052
António Ramos Rosa
A Caminho de Ti, Em Ti
Leve mobilização de um maquinismo suave e ardente.
A alta fenda do ar que se me abre.
A torre acessível ao meu abraço, inteira e viva.
Percorro-te, inundo-te: cálido tronco de água.
Energia liberta, seda que vibra.
Minha mulher viva.
A alta fenda do ar que se me abre.
A torre acessível ao meu abraço, inteira e viva.
Percorro-te, inundo-te: cálido tronco de água.
Energia liberta, seda que vibra.
Minha mulher viva.
1 076
António Ramos Rosa
Na Fronteira da Sede
Onde chegam na fronteira da sede,
onde perdem ou ganham lábios felizes, instantâneos,
onde chegam e se perdem, à altura
do chão que se ouve e vê,
espuma do meio-dia,
uma espádua desce longa pela mão,
à altura inteira chegam,
onde se erguem e caem em plena sede.
Queda branca
através de anéis rubros,
na saliva e no suor a estrela viva forma-se,
se desfaz e refaz,
matéria modelada corpo a corpo,
fugacíssima estrela presente,
peso de dança extrema,
a terra se coloca em seu centro de chão,
a estrela ganha lábios de barro em rodopio,
que da raiz dos braços e das virilhas nasce.
Onde chegam, onde chegam, e se consomem, no sumo,
lento, extremo círculo, ténue, pleno círculo
da luz em que se entregaram e beberam,
e soltos pousam livres membros que pesam doces,
cientes dessa água última que se estende e perdura,
doce água última em que se alongam
extensos, perdurando.
onde perdem ou ganham lábios felizes, instantâneos,
onde chegam e se perdem, à altura
do chão que se ouve e vê,
espuma do meio-dia,
uma espádua desce longa pela mão,
à altura inteira chegam,
onde se erguem e caem em plena sede.
Queda branca
através de anéis rubros,
na saliva e no suor a estrela viva forma-se,
se desfaz e refaz,
matéria modelada corpo a corpo,
fugacíssima estrela presente,
peso de dança extrema,
a terra se coloca em seu centro de chão,
a estrela ganha lábios de barro em rodopio,
que da raiz dos braços e das virilhas nasce.
Onde chegam, onde chegam, e se consomem, no sumo,
lento, extremo círculo, ténue, pleno círculo
da luz em que se entregaram e beberam,
e soltos pousam livres membros que pesam doces,
cientes dessa água última que se estende e perdura,
doce água última em que se alongam
extensos, perdurando.
1 089
António Ramos Rosa
Aqui Mereço-Te
O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
1 041
António Ramos Rosa
Bloco Intacto
Abrindo a álea
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou
1 143
António Ramos Rosa
Estou Em Minha Casa
Estou em minha casa
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
1 025
António Ramos Rosa
Diálogo Imóvel
No quarto lavado
perfeito quadrado
— que diálogo branco
entre a flor e a lâmpada
Uma vida acesa
e branca
outra silêncio de rosa apagada
Que vem dizer o sol
entre a flor e a lâmpada
que vem dizer o poema
no silêncio da casa?
*
Eis a palavra que inicia
é limiar e lábio ainda mudo
e já nos abre o espaço
de ó silencioso e claro
todo o quarto se desenha
a janela entreaberta
a luminosa mancha do sol
a mão que escreve
nada muda
senão o silêncio que se ilumina
*
Qual é o coração da casa?
Será o punho que palpita, mudo?
A flor diz o perfume do silêncio
A lâmpada confirma estática
a mão que procura traduzir
o diálogo suspenso
e intérmino
O coração da lâmpada
é uma pequena raiz metálica
A flor tem estames amarelos
e folhas brancas
*
Uma haste e um caule
— uma vertical ao centro
surge da água ao dia
suspende a inocência e a graça
em pétalas
A lâmpada debruçada
envolta na campânula
— recolhe-se
como um punho
A flor é totalmente presente
*
Quando se apaga no punho
a vibração
— quando a mão suspende o gesto
curvo
e o silêncio não fala
todo o diálogo se perdeu
— ninguém viu a flor
ou ela está ausente
*
Se o desejo se acende
quando a corrente se propaga
por fios unidos
se a vontade se dobra
ao dúctil fascínio
da flor
— a graça se abrirá em pétalas
tudo será presença luminosa.
perfeito quadrado
— que diálogo branco
entre a flor e a lâmpada
Uma vida acesa
e branca
outra silêncio de rosa apagada
Que vem dizer o sol
entre a flor e a lâmpada
que vem dizer o poema
no silêncio da casa?
*
Eis a palavra que inicia
é limiar e lábio ainda mudo
e já nos abre o espaço
de ó silencioso e claro
todo o quarto se desenha
a janela entreaberta
a luminosa mancha do sol
a mão que escreve
nada muda
senão o silêncio que se ilumina
*
Qual é o coração da casa?
Será o punho que palpita, mudo?
A flor diz o perfume do silêncio
A lâmpada confirma estática
a mão que procura traduzir
o diálogo suspenso
e intérmino
O coração da lâmpada
é uma pequena raiz metálica
A flor tem estames amarelos
e folhas brancas
*
Uma haste e um caule
— uma vertical ao centro
surge da água ao dia
suspende a inocência e a graça
em pétalas
A lâmpada debruçada
envolta na campânula
— recolhe-se
como um punho
A flor é totalmente presente
*
Quando se apaga no punho
a vibração
— quando a mão suspende o gesto
curvo
e o silêncio não fala
todo o diálogo se perdeu
— ninguém viu a flor
ou ela está ausente
*
Se o desejo se acende
quando a corrente se propaga
por fios unidos
se a vontade se dobra
ao dúctil fascínio
da flor
— a graça se abrirá em pétalas
tudo será presença luminosa.
1 069
António Ramos Rosa
Configurações
A mão limpa na pedra
levanta-se outra devagar.
Rede do dia,
de madeira e de ar.
O pó do ar.
A sombra branca na palma
como uma lâmina
de ar.
A manhã pela janela.
Outras janelas pelo ar.
A face errante e fresca.
Nervos livres na prata solta
do ar.
Casa erguida com ervas e gritos
na luz da rocha ao vento.
Trespassada e sólida.
O tempo de soltar uma vela
rente à sombra da árvore,
os prédios contra o céu claros.
Agulha, estilhas de ar.
O pente das cores e a água do caminho
Um tempo sob os passos,
caminho inextinguível,
a luz jogando leve,
para respirar sem eco
um tronco
um tempo inalterável.
A luz como uma árvore sem bordos.
levanta-se outra devagar.
Rede do dia,
de madeira e de ar.
O pó do ar.
A sombra branca na palma
como uma lâmina
de ar.
A manhã pela janela.
Outras janelas pelo ar.
A face errante e fresca.
Nervos livres na prata solta
do ar.
Casa erguida com ervas e gritos
na luz da rocha ao vento.
Trespassada e sólida.
O tempo de soltar uma vela
rente à sombra da árvore,
os prédios contra o céu claros.
Agulha, estilhas de ar.
O pente das cores e a água do caminho
Um tempo sob os passos,
caminho inextinguível,
a luz jogando leve,
para respirar sem eco
um tronco
um tempo inalterável.
A luz como uma árvore sem bordos.
1 034
António Ramos Rosa
Transcrição da Terra
Para um jardim sem flores
de que matéria? e espaço
e largos corredores,
à mesa no meio-dia,
mesa de pedra fria
ou de madeira lisa
de algum tronco redondo
ainda verde. E o sol.
*
Só no silêncio: o espaço.
O solo coado: por
alguma árvore? Um corpo
matinal ao lado.
O vento que respira
ou o hálito de mulher,
moça feliz, calada,
e vida e sol e nada.
*
Para um jardim de espaço,
pedra de sol, mas pedra
e áleas quase nuas,
nudez do ar, do espaço.
Compasso aberto e largo,
arquitectura calma,
aberta à terra, às claras,
aos braços e às pernas,
ao tronco que respira
aos olhos que se inundam
ou que inventam o espaço
a partir do olhar
este chão lavado.
Terra de sol, silêncio
de uma cor repousada
— a própria calma animada.
*
As janelas rasgadas
transparentes, pensadas:
os ombros altos, jorros
na suavidade sanguínea.
Mental serenidade,
gravidade sem peso,
o ar em sua casa
alonga-se em carícia
de múltiplas notícias
desdobradas, seguidas
de silêncios sonoros
de terra e gente viva.
*
Tudo é calado alento,
tudo é sombra verde
de um pensar sobre o sono
das relvas espalhadas.
Tudo sobe e se alarga
em sua casa de espaço,
tudo tem massas claras,
compactas, leves, puras.
A casa projectada
é um poema aberto:
oásis branco e recto
sobre um calmo deserto.
*
Abertas salas claras
onde os passos propagam
o futuro nome do ar,
presente por criar.
Presente por abrir
e caminhar por salas
de espaço mais solar
de mais sol e ar.
E cada vez mais salas
quartos de espaço uno,
sussurrantes, lavadas,
da sede de criar.
*
Eis a terra transcrita
no seu surto sonoro:
manhã que se faz pedra
para ouvirmos respirar.
Falamos nestas salas
conscientes de ser pedra
e vidro e terra espessa
no sangue novo e claro.
Eis o rumor tão escuro
e fresco das origens
exalando-se das traves
translúcidas, reais.
de que matéria? e espaço
e largos corredores,
à mesa no meio-dia,
mesa de pedra fria
ou de madeira lisa
de algum tronco redondo
ainda verde. E o sol.
*
Só no silêncio: o espaço.
O solo coado: por
alguma árvore? Um corpo
matinal ao lado.
O vento que respira
ou o hálito de mulher,
moça feliz, calada,
e vida e sol e nada.
*
Para um jardim de espaço,
pedra de sol, mas pedra
e áleas quase nuas,
nudez do ar, do espaço.
Compasso aberto e largo,
arquitectura calma,
aberta à terra, às claras,
aos braços e às pernas,
ao tronco que respira
aos olhos que se inundam
ou que inventam o espaço
a partir do olhar
este chão lavado.
Terra de sol, silêncio
de uma cor repousada
— a própria calma animada.
*
As janelas rasgadas
transparentes, pensadas:
os ombros altos, jorros
na suavidade sanguínea.
Mental serenidade,
gravidade sem peso,
o ar em sua casa
alonga-se em carícia
de múltiplas notícias
desdobradas, seguidas
de silêncios sonoros
de terra e gente viva.
*
Tudo é calado alento,
tudo é sombra verde
de um pensar sobre o sono
das relvas espalhadas.
Tudo sobe e se alarga
em sua casa de espaço,
tudo tem massas claras,
compactas, leves, puras.
A casa projectada
é um poema aberto:
oásis branco e recto
sobre um calmo deserto.
*
Abertas salas claras
onde os passos propagam
o futuro nome do ar,
presente por criar.
Presente por abrir
e caminhar por salas
de espaço mais solar
de mais sol e ar.
E cada vez mais salas
quartos de espaço uno,
sussurrantes, lavadas,
da sede de criar.
*
Eis a terra transcrita
no seu surto sonoro:
manhã que se faz pedra
para ouvirmos respirar.
Falamos nestas salas
conscientes de ser pedra
e vidro e terra espessa
no sangue novo e claro.
Eis o rumor tão escuro
e fresco das origens
exalando-se das traves
translúcidas, reais.
1 197
António Ramos Rosa
Sementes Livres
a Pedro Tamen
Eu amo o reino
da promessa
As cores que o vento
traz
os nomes e os cabelos
*
Há uma terra onde o cavalo
começa aí a aventura
talvez mais perto é o início
só de uma rosa fonte e flor
*
Há uma mulher e dormir nela
no vento largo bojo de amor
acordar um dia acordar
é uma festa entre rosa e mão
*
Pequenos tombos quentes e
toda a finura de um templo
o incenso da boca
piscina da noite
*
Criar na liberdade
das portas
o vento
que dissemina
sementes livres
iniciais
*
Sonhei a rapariga
que encontrei na rua
Sonhei a rua na rua
Entre estrelas compreendi
*
Havia um pobre
fora da casa
e eu dentro dela
*
Vivia numa cidade
e à volta à volta
à volta da minha casa
ouvia o vento o vento
*
Esta fábrica de elegância
um pequeno elefante
luz ao luar de
uma simples atenção
*
Nasce de um dedo pequeno
o insecto que liberta
a grande prisioneira
*
Voltarei a construir
danças
casas pequenas para
respirar os ventos
conhecer os animais
*
Convidemos a ser simples
pequenos nobres
os imperadores que somos
sejamos mandarins
*
A flor onde nasci
ovo abelha
é uma estrela onde bebo
o orvalho da manhã
*
Beijo-te puro calcanhar
e punho limites certos
Eu amo o reino
da promessa
As cores que o vento
traz
os nomes e os cabelos
*
Há uma terra onde o cavalo
começa aí a aventura
talvez mais perto é o início
só de uma rosa fonte e flor
*
Há uma mulher e dormir nela
no vento largo bojo de amor
acordar um dia acordar
é uma festa entre rosa e mão
*
Pequenos tombos quentes e
toda a finura de um templo
o incenso da boca
piscina da noite
*
Criar na liberdade
das portas
o vento
que dissemina
sementes livres
iniciais
*
Sonhei a rapariga
que encontrei na rua
Sonhei a rua na rua
Entre estrelas compreendi
*
Havia um pobre
fora da casa
e eu dentro dela
*
Vivia numa cidade
e à volta à volta
à volta da minha casa
ouvia o vento o vento
*
Esta fábrica de elegância
um pequeno elefante
luz ao luar de
uma simples atenção
*
Nasce de um dedo pequeno
o insecto que liberta
a grande prisioneira
*
Voltarei a construir
danças
casas pequenas para
respirar os ventos
conhecer os animais
*
Convidemos a ser simples
pequenos nobres
os imperadores que somos
sejamos mandarins
*
A flor onde nasci
ovo abelha
é uma estrela onde bebo
o orvalho da manhã
*
Beijo-te puro calcanhar
e punho limites certos
567
António Ramos Rosa
Sementes Livres
a Pedro Tamen
Eu amo o reino
da promessa
As cores que o vento
traz
os nomes e os cabelos
*
Há uma terra onde o cavalo
começa aí a aventura
talvez mais perto é o início
só de uma rosa fonte e flor
*
Há uma mulher e dormir nela
no vento largo bojo de amor
acordar um dia acordar
é uma festa entre rosa e mão
*
Pequenos tombos quentes e
toda a finura de um templo
o incenso da boca
piscina da noite
*
Criar na liberdade
das portas
o vento
que dissemina
sementes livres
iniciais
*
Sonhei a rapariga
que encontrei na rua
Sonhei a rua na rua
Entre estrelas compreendi
*
Havia um pobre
fora da casa
e eu dentro dela
*
Vivia numa cidade
e à volta à volta
à volta da minha casa
ouvia o vento o vento
*
Esta fábrica de elegância
um pequeno elefante
luz ao luar de
uma simples atenção
*
Nasce de um dedo pequeno
o insecto que liberta
a grande prisioneira
*
Voltarei a construir
danças
casas pequenas para
respirar os ventos
conhecer os animais
*
Convidemos a ser simples
pequenos nobres
os imperadores que somos
sejamos mandarins
*
A flor onde nasci
ovo abelha
é uma estrela onde bebo
o orvalho da manhã
*
Beijo-te puro calcanhar
e punho limites certos
Eu amo o reino
da promessa
As cores que o vento
traz
os nomes e os cabelos
*
Há uma terra onde o cavalo
começa aí a aventura
talvez mais perto é o início
só de uma rosa fonte e flor
*
Há uma mulher e dormir nela
no vento largo bojo de amor
acordar um dia acordar
é uma festa entre rosa e mão
*
Pequenos tombos quentes e
toda a finura de um templo
o incenso da boca
piscina da noite
*
Criar na liberdade
das portas
o vento
que dissemina
sementes livres
iniciais
*
Sonhei a rapariga
que encontrei na rua
Sonhei a rua na rua
Entre estrelas compreendi
*
Havia um pobre
fora da casa
e eu dentro dela
*
Vivia numa cidade
e à volta à volta
à volta da minha casa
ouvia o vento o vento
*
Esta fábrica de elegância
um pequeno elefante
luz ao luar de
uma simples atenção
*
Nasce de um dedo pequeno
o insecto que liberta
a grande prisioneira
*
Voltarei a construir
danças
casas pequenas para
respirar os ventos
conhecer os animais
*
Convidemos a ser simples
pequenos nobres
os imperadores que somos
sejamos mandarins
*
A flor onde nasci
ovo abelha
é uma estrela onde bebo
o orvalho da manhã
*
Beijo-te puro calcanhar
e punho limites certos
567
António Ramos Rosa
Ex-Voto
Pelo muito que oiço
pelo nada que sou
pelo galo que cantou
pelos meus ossos.
Pela simples paz
duma terra ao sol.
Pelo dia que nasce.
*
Melodia rente
à pobreza inerente
ao frágil caule
da vida desnuda.
Esplende no solo
da terra sem gente
de grãos para pombos,
miúdos escombros.
Na mínima renda
de pedras e pó,
sol de amor e paz.
*
Pela hora vagarosa,
pela mão do amigo,
pela colina ondulada.
Pelas ondas do corpo
da amada.
Pelas ervas, pelo tronco
e pela copa
de grande tranquilidade.
Pelo sono bem merecido
dum chão de terra batido,
pelo macadame da praia
e pela lisura das plantas
pés e palmas.
*
Pela verde melodia
de como é cedo viver.
Quando ainda era verde
um canavial de esperança.
E quando ainda cantava
um pássaro na espessura.
E entre o amor e a pedra
o brilho de um rio havia.
Quando ainda era que seja
o pó de oiro e o ar de abelhas.
*
Pela invenção do teu corpo
e pela paz que dorme nele.
É um país de pupilas
sobre dunas.
E pelos ombros das árvores
que não abraço.
pelo nada que sou
pelo galo que cantou
pelos meus ossos.
Pela simples paz
duma terra ao sol.
Pelo dia que nasce.
*
Melodia rente
à pobreza inerente
ao frágil caule
da vida desnuda.
Esplende no solo
da terra sem gente
de grãos para pombos,
miúdos escombros.
Na mínima renda
de pedras e pó,
sol de amor e paz.
*
Pela hora vagarosa,
pela mão do amigo,
pela colina ondulada.
Pelas ondas do corpo
da amada.
Pelas ervas, pelo tronco
e pela copa
de grande tranquilidade.
Pelo sono bem merecido
dum chão de terra batido,
pelo macadame da praia
e pela lisura das plantas
pés e palmas.
*
Pela verde melodia
de como é cedo viver.
Quando ainda era verde
um canavial de esperança.
E quando ainda cantava
um pássaro na espessura.
E entre o amor e a pedra
o brilho de um rio havia.
Quando ainda era que seja
o pó de oiro e o ar de abelhas.
*
Pela invenção do teu corpo
e pela paz que dorme nele.
É um país de pupilas
sobre dunas.
E pelos ombros das árvores
que não abraço.
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