Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Natércia Freire
Regresso
Quem é? Quem vem?
A porta não estacou
e todos pela mesa olham pasmados.
Só eu amimo a voz:
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou!
Rolam silêncios fundos e pesados.
Imóvel no meu barco de luar,
os meus olhos venceram as ramadas.
Música longa... Um sino a palpitar.
Calçadas e calçadas...
Presépios com pastores de palmo e meio.
Velas que são faróis... Cresceu a bruma.
Deitem-me assim, num jeito de menina,
e envolvam-me de espuma.
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou,
que tem os braços que eu gritei além!
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
Vou com ele nos uivos da tormenta,
com ele vou pregada na paixão.
Medo de quê? Oceanos azulados...
Medo de quê? Neblinas e canções...
— Dentro do Espaço adoçam-se pecados
e morrem solidões.
Sem braços me tomou na posse enorme.
Roçou-me os lábios, simples sem ter boca.
Ele é quem diz: — Sossega, dorme, dorme...
E nunca mais me toca!
As tardes, mesmo ao longo dos casais,
cegos: falas de gestos a ninguém...
Quem é? Quem vem?
Para sempre me tomou ...
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
A porta não estacou
e todos pela mesa olham pasmados.
Só eu amimo a voz:
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou!
Rolam silêncios fundos e pesados.
Imóvel no meu barco de luar,
os meus olhos venceram as ramadas.
Música longa... Um sino a palpitar.
Calçadas e calçadas...
Presépios com pastores de palmo e meio.
Velas que são faróis... Cresceu a bruma.
Deitem-me assim, num jeito de menina,
e envolvam-me de espuma.
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou,
que tem os braços que eu gritei além!
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
Vou com ele nos uivos da tormenta,
com ele vou pregada na paixão.
Medo de quê? Oceanos azulados...
Medo de quê? Neblinas e canções...
— Dentro do Espaço adoçam-se pecados
e morrem solidões.
Sem braços me tomou na posse enorme.
Roçou-me os lábios, simples sem ter boca.
Ele é quem diz: — Sossega, dorme, dorme...
E nunca mais me toca!
As tardes, mesmo ao longo dos casais,
cegos: falas de gestos a ninguém...
Quem é? Quem vem?
Para sempre me tomou ...
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
1 281
1
Mirella Márcia
Primeiro Soneto
(À lembrança de Carlos Eduardo)
Meu amor que ainda não me viu
É um lago profundo onde eu vejo
Um mago que espelha em seu perfil
As águas que refletem meu desejo.
Meu amor que tanto eu procurei
Me procura hoje em seu delírio
E sábio de rotas que eu não sei
Ignora todo o meu martírio.
Meu amor que me pesquisa há tanto
Irá cansar-se e aforgar-se em pranto
Pois não suporta mais andar a esmo
E na própria lágrima com espanto
Vai encontrar as fontes do seu canto
Desligado de mim, fato em si mesmo.
Meu amor que ainda não me viu
É um lago profundo onde eu vejo
Um mago que espelha em seu perfil
As águas que refletem meu desejo.
Meu amor que tanto eu procurei
Me procura hoje em seu delírio
E sábio de rotas que eu não sei
Ignora todo o meu martírio.
Meu amor que me pesquisa há tanto
Irá cansar-se e aforgar-se em pranto
Pois não suporta mais andar a esmo
E na própria lágrima com espanto
Vai encontrar as fontes do seu canto
Desligado de mim, fato em si mesmo.
944
1
Mirella Márcia
Primeiro Soneto
(À lembrança de Carlos Eduardo)
Meu amor que ainda não me viu
É um lago profundo onde eu vejo
Um mago que espelha em seu perfil
As águas que refletem meu desejo.
Meu amor que tanto eu procurei
Me procura hoje em seu delírio
E sábio de rotas que eu não sei
Ignora todo o meu martírio.
Meu amor que me pesquisa há tanto
Irá cansar-se e aforgar-se em pranto
Pois não suporta mais andar a esmo
E na própria lágrima com espanto
Vai encontrar as fontes do seu canto
Desligado de mim, fato em si mesmo.
Meu amor que ainda não me viu
É um lago profundo onde eu vejo
Um mago que espelha em seu perfil
As águas que refletem meu desejo.
Meu amor que tanto eu procurei
Me procura hoje em seu delírio
E sábio de rotas que eu não sei
Ignora todo o meu martírio.
Meu amor que me pesquisa há tanto
Irá cansar-se e aforgar-se em pranto
Pois não suporta mais andar a esmo
E na própria lágrima com espanto
Vai encontrar as fontes do seu canto
Desligado de mim, fato em si mesmo.
944
1
Mário Donizete Massari
Arabela
A TARDE É BELA
A VIDA É BELA
ARABELA É BELA
Um velho leva a vela
Arabela é ainda mais bela
com o rosto iluminado
pela vela
Um velho leva a vela
no enterro de Arabela
A VIDA É BELA
ARABELA É BELA
Um velho leva a vela
Arabela é ainda mais bela
com o rosto iluminado
pela vela
Um velho leva a vela
no enterro de Arabela
1 224
1
Manuel Geraldo
Memória II
E à tarde
Os soldados voltavam
Traziam feridas
E balas a menos
Traziam memórias
De sonhos traídos
Traziam fadigas
De corpos caídos
Nos sacos e rostos
Traziam o regresso
Traziam memórias
Soldados sem armas
Voltavam em transe
Não eram os mesmos
Os soldados voltavam
Traziam feridas
E balas a menos
Traziam memórias
De sonhos traídos
Traziam fadigas
De corpos caídos
Nos sacos e rostos
Traziam o regresso
Traziam memórias
Soldados sem armas
Voltavam em transe
Não eram os mesmos
1 084
1
Mário Donizete Massari
Canto de um povo
Ontem chorei
lágrimas?
Não. Já não as derramo.
Ontem cantei
e até uma rosa plantei
(poeta que sou)
não floresceu.
Eu tinha em mente
uma canção
que apesar de
não ser algo novo,
falasse do povo.
A canção seria a mesma,
mas o cantor
seria o próprio povo.
Mas as portas fecharam
os lábios calaram
e eu fiquei só
com a canção e
a minha dor.
Eu vi a multidão
Eu vi o amor
diluído em dor.
E a canção
que pensei
calou-se em meu peito
em forma de pranto.
lágrimas?
Não. Já não as derramo.
Ontem cantei
e até uma rosa plantei
(poeta que sou)
não floresceu.
Eu tinha em mente
uma canção
que apesar de
não ser algo novo,
falasse do povo.
A canção seria a mesma,
mas o cantor
seria o próprio povo.
Mas as portas fecharam
os lábios calaram
e eu fiquei só
com a canção e
a minha dor.
Eu vi a multidão
Eu vi o amor
diluído em dor.
E a canção
que pensei
calou-se em meu peito
em forma de pranto.
905
1
Mário Donizete Massari
Canto de um povo
Ontem chorei
lágrimas?
Não. Já não as derramo.
Ontem cantei
e até uma rosa plantei
(poeta que sou)
não floresceu.
Eu tinha em mente
uma canção
que apesar de
não ser algo novo,
falasse do povo.
A canção seria a mesma,
mas o cantor
seria o próprio povo.
Mas as portas fecharam
os lábios calaram
e eu fiquei só
com a canção e
a minha dor.
Eu vi a multidão
Eu vi o amor
diluído em dor.
E a canção
que pensei
calou-se em meu peito
em forma de pranto.
lágrimas?
Não. Já não as derramo.
Ontem cantei
e até uma rosa plantei
(poeta que sou)
não floresceu.
Eu tinha em mente
uma canção
que apesar de
não ser algo novo,
falasse do povo.
A canção seria a mesma,
mas o cantor
seria o próprio povo.
Mas as portas fecharam
os lábios calaram
e eu fiquei só
com a canção e
a minha dor.
Eu vi a multidão
Eu vi o amor
diluído em dor.
E a canção
que pensei
calou-se em meu peito
em forma de pranto.
905
1
Mario Ribeiro Martins
Despedida
Os anos são passados que chegamos,
no templo do saber, cultura humana.
E no momento em que nos retiramos,
saudosos vamos desta caravana.
Na cidade ou sertão para onde vamos,
morando num palácio ou na choupana,
jamais esqueceremos quem amamos,
na escola do saber, tão soberana.
Depois de conquistarmos a vitória,
no templo do saber, com tanta glória,
é chegado o momento de partir...
E, ficarão aqui eternamente,
em nosso coração, principalmente,
SAUDADES DESTE TRISTE DESPEDIR.
no templo do saber, cultura humana.
E no momento em que nos retiramos,
saudosos vamos desta caravana.
Na cidade ou sertão para onde vamos,
morando num palácio ou na choupana,
jamais esqueceremos quem amamos,
na escola do saber, tão soberana.
Depois de conquistarmos a vitória,
no templo do saber, com tanta glória,
é chegado o momento de partir...
E, ficarão aqui eternamente,
em nosso coração, principalmente,
SAUDADES DESTE TRISTE DESPEDIR.
991
1
Moreira Campos
Bruma
Chovia.
A pequena estação.
Meu acanhamento adolescente
diante do mal que consumia meu pai.
Quase como se pedisse desculpas,
me escusasse diante dos olhos curiosos
que lhe surpreendiam e seguiam a ruína.
Os grandes ossos a furar-lhe o paletó de brim,
a devastação da face,
o brilho febril de suas órbitas profundas.
O acesso de tosse,
a sua ânsia,
o lenço,
possivelmente manchado de vermelho.
A lembrança sobretudo do seu pobre e inútil guarda-chuva.
Deixava-o ali para a tentativa impossível de uma cura na serra.
Talvez sua mão (sua descarnada mão)
tivesse pousado de leve sobre a minha cabeça.
Sua última imagem se dilui
nas gotas dágua que caíam lentas do beiral da estação
(da pequena estação).
Restou-me de tudo, e para sempre,
a mágoa daquele acanhamento adolescente,
do meu vexame,
do meu quase pedido de desculpas aos curiosos.
Quando chegam as primeiras águas,
fragmento-me no tempo,
e sou bruma.
A pequena estação.
Meu acanhamento adolescente
diante do mal que consumia meu pai.
Quase como se pedisse desculpas,
me escusasse diante dos olhos curiosos
que lhe surpreendiam e seguiam a ruína.
Os grandes ossos a furar-lhe o paletó de brim,
a devastação da face,
o brilho febril de suas órbitas profundas.
O acesso de tosse,
a sua ânsia,
o lenço,
possivelmente manchado de vermelho.
A lembrança sobretudo do seu pobre e inútil guarda-chuva.
Deixava-o ali para a tentativa impossível de uma cura na serra.
Talvez sua mão (sua descarnada mão)
tivesse pousado de leve sobre a minha cabeça.
Sua última imagem se dilui
nas gotas dágua que caíam lentas do beiral da estação
(da pequena estação).
Restou-me de tudo, e para sempre,
a mágoa daquele acanhamento adolescente,
do meu vexame,
do meu quase pedido de desculpas aos curiosos.
Quando chegam as primeiras águas,
fragmento-me no tempo,
e sou bruma.
1 366
1
Marly Vasconcelos
Silêncio
Atenta para a água que ressoa nos aquários,
o caminhar de passos harmoniosos,
pálpebras que baixam lentamente.
Tudo prenuncia o silêncio.
o caminhar de passos harmoniosos,
pálpebras que baixam lentamente.
Tudo prenuncia o silêncio.
1 036
1
Mário Donizete Massari
Dimensão das horas
Dimensão das horas
nos caminhos do homem
fogo nas retinas
paixões, fadiga . . .
"a vida tragada e
consumida em
memoráveis porres
de melancolia . . ."
cinzas na avenida
e o homem caminha
Flutua no ar
qual bêbado no seu
mundo
por que não dizer lindo,
pois qualquer mundo é lindo
quando se é livre e
não lhe cobram por isso.
E a vida se molda
na dimensão das horas
vadias . . .
nos caminhos do homem
fogo nas retinas
paixões, fadiga . . .
"a vida tragada e
consumida em
memoráveis porres
de melancolia . . ."
cinzas na avenida
e o homem caminha
Flutua no ar
qual bêbado no seu
mundo
por que não dizer lindo,
pois qualquer mundo é lindo
quando se é livre e
não lhe cobram por isso.
E a vida se molda
na dimensão das horas
vadias . . .
964
1
Manuel Geraldo
Memória I
Barco de fumo
Cérebros e ventres
Napalm e capim
Gatilho de arma
Espoleta e granada
Crâneos desfeitos
Vomitar de náuseas
Capim em fogo
Homens e gritos
Estoiros e rajadas
Vómitos de sangue
Alienação de um povo
Barco de fumo
Voltar à terra
Nascer de novo
Cérebros e ventres
Napalm e capim
Gatilho de arma
Espoleta e granada
Crâneos desfeitos
Vomitar de náuseas
Capim em fogo
Homens e gritos
Estoiros e rajadas
Vómitos de sangue
Alienação de um povo
Barco de fumo
Voltar à terra
Nascer de novo
1 005
1
Ruy Espinheira Filho
Poema
A que morreu às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
Teve a sorte que quis,
Teve o fim que escolheu.
Nunca, passiva e aterrada, ela rezou.
E antes de flor, foi, como tantas, pomo.
Ninguém a virgindade lhe roubou
Depois dum saque — antes a deu
A quem lha desejou,
Na lama dum reduto,
Sem náusea mas sem cio,
Sob a manta comum,
A pretexto do frio.
Não quis na retaguarda aligeirar,
Entre champanhe, aos generais senis,
As horas de lazer.
Não quis, ativa e boa, tricotar
Agasalhos pueris,
No sossego dum lar.
Não sonhou minorar,
Num heroísmo branco,
De bicho de hospital,
A aflição dos aflitos.
Uma noite, às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
À hora tal, atacou e morreu.
Teve a sorte que quis.
Teve o fim que escolheu.
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
Teve a sorte que quis,
Teve o fim que escolheu.
Nunca, passiva e aterrada, ela rezou.
E antes de flor, foi, como tantas, pomo.
Ninguém a virgindade lhe roubou
Depois dum saque — antes a deu
A quem lha desejou,
Na lama dum reduto,
Sem náusea mas sem cio,
Sob a manta comum,
A pretexto do frio.
Não quis na retaguarda aligeirar,
Entre champanhe, aos generais senis,
As horas de lazer.
Não quis, ativa e boa, tricotar
Agasalhos pueris,
No sossego dum lar.
Não sonhou minorar,
Num heroísmo branco,
De bicho de hospital,
A aflição dos aflitos.
Uma noite, às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
À hora tal, atacou e morreu.
Teve a sorte que quis.
Teve o fim que escolheu.
1 251
1
Trajano Galvão
A Crioula
Sou cativa... que importa? folgando
Hei de o vil cativeiro levar! ...
Hei de sim, que o feitor tem mui brando
Coração, que se pode amansar!...
Como é terno o feitor, quando chama,
À noitinha, escondido com a rama
No caminho — ó crioula, vem cá! —
Há nada que pague o gostinho
De poder-se ao feitor no caminho,
Faceirando, dizer — não vou lá — ?
Tenho um pente coberto de lhamas
De ouro fino, que tal brilho tem,
Que raladas de inveja as mucamas
Me sobre-olham com ar de desdém.
Sou da roça; mas, sou tarefeira.
Roça nova ou feraz capoeira,
Corte arroz ou apanhe algodão,
Cá comigo o feitor não se cansa;
Que o meu cofo não mente à balança,
Cinco arrobas e a concha no chão!
Ao tambor, quando saio da pinha
Das cativas, e danço gentil,
Sou senhora, sou alta rainha,
Não cativa, de escravos a mil!
Com requebros a todos assombro
Voam lenços, ocultam-me o ombro
Entre palmas, aplausos, furor!...
Mas, se alguém ousa dar-me uma punga,
O feitor de ciúmes resmunga,
Pega a taça, desmancha o tambor!
Na quaresma meu seio é só rendas
Quando vou-me a fazer confissão;
E o vigário vê cousas nas fendas,
Que quisera antes vê-las nas mãos.
Senhor padre, o feitor me inquieta;
É pecado ... ? não, filha, antes peta.
Goza a vida... esses mimos dos céus
És formosa... e nos olhos do padre
Eu vi cousa que temo não quadre
Com o sagrado ministro de Deus...
Sou formosa... e meus olhos estrelas
Que transpassam negrumes do céu
Atrativos e formas tão belas
Pra que foi que a natura mais me deu?
E este fogo, que me arde nas veias
Como o sol nas ferventes areias,
Por que arde? Quem foi que o ateou?
Apagá-lo vou já — não sou tola...
E o feitor lá me chama — ó crioula
E eu respondo-lhe branda "já vou".
Hei de o vil cativeiro levar! ...
Hei de sim, que o feitor tem mui brando
Coração, que se pode amansar!...
Como é terno o feitor, quando chama,
À noitinha, escondido com a rama
No caminho — ó crioula, vem cá! —
Há nada que pague o gostinho
De poder-se ao feitor no caminho,
Faceirando, dizer — não vou lá — ?
Tenho um pente coberto de lhamas
De ouro fino, que tal brilho tem,
Que raladas de inveja as mucamas
Me sobre-olham com ar de desdém.
Sou da roça; mas, sou tarefeira.
Roça nova ou feraz capoeira,
Corte arroz ou apanhe algodão,
Cá comigo o feitor não se cansa;
Que o meu cofo não mente à balança,
Cinco arrobas e a concha no chão!
Ao tambor, quando saio da pinha
Das cativas, e danço gentil,
Sou senhora, sou alta rainha,
Não cativa, de escravos a mil!
Com requebros a todos assombro
Voam lenços, ocultam-me o ombro
Entre palmas, aplausos, furor!...
Mas, se alguém ousa dar-me uma punga,
O feitor de ciúmes resmunga,
Pega a taça, desmancha o tambor!
Na quaresma meu seio é só rendas
Quando vou-me a fazer confissão;
E o vigário vê cousas nas fendas,
Que quisera antes vê-las nas mãos.
Senhor padre, o feitor me inquieta;
É pecado ... ? não, filha, antes peta.
Goza a vida... esses mimos dos céus
És formosa... e nos olhos do padre
Eu vi cousa que temo não quadre
Com o sagrado ministro de Deus...
Sou formosa... e meus olhos estrelas
Que transpassam negrumes do céu
Atrativos e formas tão belas
Pra que foi que a natura mais me deu?
E este fogo, que me arde nas veias
Como o sol nas ferventes areias,
Por que arde? Quem foi que o ateou?
Apagá-lo vou já — não sou tola...
E o feitor lá me chama — ó crioula
E eu respondo-lhe branda "já vou".
2 014
1
Trajano Galvão
A Crioula
Sou cativa... que importa? folgando
Hei de o vil cativeiro levar! ...
Hei de sim, que o feitor tem mui brando
Coração, que se pode amansar!...
Como é terno o feitor, quando chama,
À noitinha, escondido com a rama
No caminho — ó crioula, vem cá! —
Há nada que pague o gostinho
De poder-se ao feitor no caminho,
Faceirando, dizer — não vou lá — ?
Tenho um pente coberto de lhamas
De ouro fino, que tal brilho tem,
Que raladas de inveja as mucamas
Me sobre-olham com ar de desdém.
Sou da roça; mas, sou tarefeira.
Roça nova ou feraz capoeira,
Corte arroz ou apanhe algodão,
Cá comigo o feitor não se cansa;
Que o meu cofo não mente à balança,
Cinco arrobas e a concha no chão!
Ao tambor, quando saio da pinha
Das cativas, e danço gentil,
Sou senhora, sou alta rainha,
Não cativa, de escravos a mil!
Com requebros a todos assombro
Voam lenços, ocultam-me o ombro
Entre palmas, aplausos, furor!...
Mas, se alguém ousa dar-me uma punga,
O feitor de ciúmes resmunga,
Pega a taça, desmancha o tambor!
Na quaresma meu seio é só rendas
Quando vou-me a fazer confissão;
E o vigário vê cousas nas fendas,
Que quisera antes vê-las nas mãos.
Senhor padre, o feitor me inquieta;
É pecado ... ? não, filha, antes peta.
Goza a vida... esses mimos dos céus
És formosa... e nos olhos do padre
Eu vi cousa que temo não quadre
Com o sagrado ministro de Deus...
Sou formosa... e meus olhos estrelas
Que transpassam negrumes do céu
Atrativos e formas tão belas
Pra que foi que a natura mais me deu?
E este fogo, que me arde nas veias
Como o sol nas ferventes areias,
Por que arde? Quem foi que o ateou?
Apagá-lo vou já — não sou tola...
E o feitor lá me chama — ó crioula
E eu respondo-lhe branda "já vou".
Hei de o vil cativeiro levar! ...
Hei de sim, que o feitor tem mui brando
Coração, que se pode amansar!...
Como é terno o feitor, quando chama,
À noitinha, escondido com a rama
No caminho — ó crioula, vem cá! —
Há nada que pague o gostinho
De poder-se ao feitor no caminho,
Faceirando, dizer — não vou lá — ?
Tenho um pente coberto de lhamas
De ouro fino, que tal brilho tem,
Que raladas de inveja as mucamas
Me sobre-olham com ar de desdém.
Sou da roça; mas, sou tarefeira.
Roça nova ou feraz capoeira,
Corte arroz ou apanhe algodão,
Cá comigo o feitor não se cansa;
Que o meu cofo não mente à balança,
Cinco arrobas e a concha no chão!
Ao tambor, quando saio da pinha
Das cativas, e danço gentil,
Sou senhora, sou alta rainha,
Não cativa, de escravos a mil!
Com requebros a todos assombro
Voam lenços, ocultam-me o ombro
Entre palmas, aplausos, furor!...
Mas, se alguém ousa dar-me uma punga,
O feitor de ciúmes resmunga,
Pega a taça, desmancha o tambor!
Na quaresma meu seio é só rendas
Quando vou-me a fazer confissão;
E o vigário vê cousas nas fendas,
Que quisera antes vê-las nas mãos.
Senhor padre, o feitor me inquieta;
É pecado ... ? não, filha, antes peta.
Goza a vida... esses mimos dos céus
És formosa... e nos olhos do padre
Eu vi cousa que temo não quadre
Com o sagrado ministro de Deus...
Sou formosa... e meus olhos estrelas
Que transpassam negrumes do céu
Atrativos e formas tão belas
Pra que foi que a natura mais me deu?
E este fogo, que me arde nas veias
Como o sol nas ferventes areias,
Por que arde? Quem foi que o ateou?
Apagá-lo vou já — não sou tola...
E o feitor lá me chama — ó crioula
E eu respondo-lhe branda "já vou".
2 014
1
Mário Hélio
16-VI(Niilismo)
a inutilidade da existência
a existência da inutilidade
viver sofrer gozar
ter bons e maus momentos
depois morrer e encontrar com deus
com deus encontrar depois morrer
que importância têm
viver sofrer gozar
ter bons e maus... enfim a perfeição
a mais vaga das paixões
a felicidade eterna que nos leva ao suicídio
nos faz joguetes dos deuses
deuses dos joguetes faz-nos
a religião confunde tudo
tudo confunde a religião
a inutilidade da assistência
a assistência da inutilidade
o homem como corre como morre
descobre a ciência que a ciência descobre
arquiteta universos, fica deus,
ah angústia suprema de ser tudo
de ser tudo angústia suprema
prana inútil
inutilidade da insistência
insistência da inutilidade.
a existência da inutilidade
viver sofrer gozar
ter bons e maus momentos
depois morrer e encontrar com deus
com deus encontrar depois morrer
que importância têm
viver sofrer gozar
ter bons e maus... enfim a perfeição
a mais vaga das paixões
a felicidade eterna que nos leva ao suicídio
nos faz joguetes dos deuses
deuses dos joguetes faz-nos
a religião confunde tudo
tudo confunde a religião
a inutilidade da assistência
a assistência da inutilidade
o homem como corre como morre
descobre a ciência que a ciência descobre
arquiteta universos, fica deus,
ah angústia suprema de ser tudo
de ser tudo angústia suprema
prana inútil
inutilidade da insistência
insistência da inutilidade.
1 030
1
Lya Carvalho Jardim
A Casa
Uma casa deve ser ampla
com janelas abertas
sem trancas
espaçosa como um coração.
Onde sempre caberá mais um.
Uma casa além de madeira e vidraça
tem que ter a medida certa dos carinhos
Além de concreto e massa
uma casa é feita de riso e graça
A arquitetura fica a cargo da emoção
Tem que ter espaço cativo
para livros
Aconchego para os amigos
Lugar exclusivo para flor
Não poderá faltar varanda
para as redes
Nem teto de vidro
para se mirar a lua
Muitas janelas para o vento entrar
Muitos mirantes para se ver a chuva
Uma casa bonita
se faz com relativa paz
tonelas de alegrias
Com tijolos de antigamente
argamassa de ternura
Uma casa se constrói
como a um filho
É preciso uma fértil imaginação
algumas canções
Sonhos da infância
muitos balões
Uma casa tem que ter brando afeto
gosto de festas
jeito de quem vive eternamente
na primavera
Se constrói uma casa
com fios de sol
com pingos de lua
com chão de estrelas
e muita doçura
Uma casa tem que ter
cheiro de campo
som de pássaro em árvores
ruído de água saindo da fonte
Arco-íris de tintas
Uma casa se constrói
com pedras brutas e alegorias
com vitórias-régias nas banheiras
cachoeiras nas pias
ondas do mar no quintal
tapetes de musgos pelas salas
candelabros de prilampos
Volutas de amor-perfeito
Portal de saudades
colunas de alegrias
Uma casa se constrói
para que caibam nela
discos
amigos
sonhos
filhos
tudo que é carinho
todas as vidas
todos os caminhos
Uma casa se constrói
dentro de um jardim
o jardim dentro da vida
a vida dentro dos sonhos
os sonhos dentro de nós.
com janelas abertas
sem trancas
espaçosa como um coração.
Onde sempre caberá mais um.
Uma casa além de madeira e vidraça
tem que ter a medida certa dos carinhos
Além de concreto e massa
uma casa é feita de riso e graça
A arquitetura fica a cargo da emoção
Tem que ter espaço cativo
para livros
Aconchego para os amigos
Lugar exclusivo para flor
Não poderá faltar varanda
para as redes
Nem teto de vidro
para se mirar a lua
Muitas janelas para o vento entrar
Muitos mirantes para se ver a chuva
Uma casa bonita
se faz com relativa paz
tonelas de alegrias
Com tijolos de antigamente
argamassa de ternura
Uma casa se constrói
como a um filho
É preciso uma fértil imaginação
algumas canções
Sonhos da infância
muitos balões
Uma casa tem que ter brando afeto
gosto de festas
jeito de quem vive eternamente
na primavera
Se constrói uma casa
com fios de sol
com pingos de lua
com chão de estrelas
e muita doçura
Uma casa tem que ter
cheiro de campo
som de pássaro em árvores
ruído de água saindo da fonte
Arco-íris de tintas
Uma casa se constrói
com pedras brutas e alegorias
com vitórias-régias nas banheiras
cachoeiras nas pias
ondas do mar no quintal
tapetes de musgos pelas salas
candelabros de prilampos
Volutas de amor-perfeito
Portal de saudades
colunas de alegrias
Uma casa se constrói
para que caibam nela
discos
amigos
sonhos
filhos
tudo que é carinho
todas as vidas
todos os caminhos
Uma casa se constrói
dentro de um jardim
o jardim dentro da vida
a vida dentro dos sonhos
os sonhos dentro de nós.
884
1
Lya Carvalho Jardim
A Casa
Uma casa deve ser ampla
com janelas abertas
sem trancas
espaçosa como um coração.
Onde sempre caberá mais um.
Uma casa além de madeira e vidraça
tem que ter a medida certa dos carinhos
Além de concreto e massa
uma casa é feita de riso e graça
A arquitetura fica a cargo da emoção
Tem que ter espaço cativo
para livros
Aconchego para os amigos
Lugar exclusivo para flor
Não poderá faltar varanda
para as redes
Nem teto de vidro
para se mirar a lua
Muitas janelas para o vento entrar
Muitos mirantes para se ver a chuva
Uma casa bonita
se faz com relativa paz
tonelas de alegrias
Com tijolos de antigamente
argamassa de ternura
Uma casa se constrói
como a um filho
É preciso uma fértil imaginação
algumas canções
Sonhos da infância
muitos balões
Uma casa tem que ter brando afeto
gosto de festas
jeito de quem vive eternamente
na primavera
Se constrói uma casa
com fios de sol
com pingos de lua
com chão de estrelas
e muita doçura
Uma casa tem que ter
cheiro de campo
som de pássaro em árvores
ruído de água saindo da fonte
Arco-íris de tintas
Uma casa se constrói
com pedras brutas e alegorias
com vitórias-régias nas banheiras
cachoeiras nas pias
ondas do mar no quintal
tapetes de musgos pelas salas
candelabros de prilampos
Volutas de amor-perfeito
Portal de saudades
colunas de alegrias
Uma casa se constrói
para que caibam nela
discos
amigos
sonhos
filhos
tudo que é carinho
todas as vidas
todos os caminhos
Uma casa se constrói
dentro de um jardim
o jardim dentro da vida
a vida dentro dos sonhos
os sonhos dentro de nós.
com janelas abertas
sem trancas
espaçosa como um coração.
Onde sempre caberá mais um.
Uma casa além de madeira e vidraça
tem que ter a medida certa dos carinhos
Além de concreto e massa
uma casa é feita de riso e graça
A arquitetura fica a cargo da emoção
Tem que ter espaço cativo
para livros
Aconchego para os amigos
Lugar exclusivo para flor
Não poderá faltar varanda
para as redes
Nem teto de vidro
para se mirar a lua
Muitas janelas para o vento entrar
Muitos mirantes para se ver a chuva
Uma casa bonita
se faz com relativa paz
tonelas de alegrias
Com tijolos de antigamente
argamassa de ternura
Uma casa se constrói
como a um filho
É preciso uma fértil imaginação
algumas canções
Sonhos da infância
muitos balões
Uma casa tem que ter brando afeto
gosto de festas
jeito de quem vive eternamente
na primavera
Se constrói uma casa
com fios de sol
com pingos de lua
com chão de estrelas
e muita doçura
Uma casa tem que ter
cheiro de campo
som de pássaro em árvores
ruído de água saindo da fonte
Arco-íris de tintas
Uma casa se constrói
com pedras brutas e alegorias
com vitórias-régias nas banheiras
cachoeiras nas pias
ondas do mar no quintal
tapetes de musgos pelas salas
candelabros de prilampos
Volutas de amor-perfeito
Portal de saudades
colunas de alegrias
Uma casa se constrói
para que caibam nela
discos
amigos
sonhos
filhos
tudo que é carinho
todas as vidas
todos os caminhos
Uma casa se constrói
dentro de um jardim
o jardim dentro da vida
a vida dentro dos sonhos
os sonhos dentro de nós.
884
1
Lauro Leite
Ironia Lúcida
Agora é tempo de sorrir
e ser de novo
o garoto das compras e dos recados
Agora é tempo de fingir
que nada valem
os eternos fundilhos remendados,
Agora é tempo de esquecer as lágrimas
— engoli-las de uma vez! —
e voltar à surdez da ignorância,
pois já me afogo em tanta ironia,
pois não suporto ter-me em consciência
e já não quero amar-me em lucidez.
Vinde a mim
as velas coloridas
que aportam às prostitutas
do Desterro.
Abram os caminhos:
quero falar com a Mãe de Deus
e receber a unção
da ansiedade
e da poesia.
Calem, por favor,
as radiolas regueiras;
quero ouvir o boi-bumbá
e o criola,
quero rodopiar o corpo
no balé negreiro.
Agora, tragam a rede
que o poeta vai dormir
com o sonhar afoito
das gentes maranhenses
e o cor o cansado do viver intenso.
e ser de novo
o garoto das compras e dos recados
Agora é tempo de fingir
que nada valem
os eternos fundilhos remendados,
Agora é tempo de esquecer as lágrimas
— engoli-las de uma vez! —
e voltar à surdez da ignorância,
pois já me afogo em tanta ironia,
pois não suporto ter-me em consciência
e já não quero amar-me em lucidez.
Vinde a mim
as velas coloridas
que aportam às prostitutas
do Desterro.
Abram os caminhos:
quero falar com a Mãe de Deus
e receber a unção
da ansiedade
e da poesia.
Calem, por favor,
as radiolas regueiras;
quero ouvir o boi-bumbá
e o criola,
quero rodopiar o corpo
no balé negreiro.
Agora, tragam a rede
que o poeta vai dormir
com o sonhar afoito
das gentes maranhenses
e o cor o cansado do viver intenso.
406
1
Antero de Quental
O Convertido
Entre os
filhos d um século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
D uma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza ...
Mas , um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para deus minha alma triste!
Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!
filhos d um século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
D uma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza ...
Mas , um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para deus minha alma triste!
Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!
2 475
1
Antero de Quental
O Convertido
Entre os
filhos d um século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
D uma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza ...
Mas , um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para deus minha alma triste!
Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!
filhos d um século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
D uma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza ...
Mas , um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para deus minha alma triste!
Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!
2 475
1
Antero de Quental
O Convertido
Entre os
filhos d um século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
D uma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza ...
Mas , um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para deus minha alma triste!
Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!
filhos d um século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
D uma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza ...
Mas , um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para deus minha alma triste!
Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!
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1
Luís Delfino
Eva
Surge Adão: Eva após; Deus os exorta.
Tinham no Paraíso eterno encanto;
Roubam O fruto, que é vedado, e entanto
Deles toda a ventura é logo morta.
A vista deles Deus já não suporta,
E envolve a face irada em rubro manto;
Cai-lhes dos olhos o primeiro pranto:
Rangeu, o Éden fechando, a brônzea porta.
Tinham lá dentro sândalos e nardos;
O anjo de Deus em fogo a espada eleva;
O Sol golpeia-os com seus áureos dardos;
Urram leões em torno, ao pé, na treva.
Eriça-lhes a terra urzes e cardos...
Mas ao seu lado... Adão inda tem
Tinham no Paraíso eterno encanto;
Roubam O fruto, que é vedado, e entanto
Deles toda a ventura é logo morta.
A vista deles Deus já não suporta,
E envolve a face irada em rubro manto;
Cai-lhes dos olhos o primeiro pranto:
Rangeu, o Éden fechando, a brônzea porta.
Tinham lá dentro sândalos e nardos;
O anjo de Deus em fogo a espada eleva;
O Sol golpeia-os com seus áureos dardos;
Urram leões em torno, ao pé, na treva.
Eriça-lhes a terra urzes e cardos...
Mas ao seu lado... Adão inda tem
1 482
1
Luís Delfino
Eva
Surge Adão: Eva após; Deus os exorta.
Tinham no Paraíso eterno encanto;
Roubam O fruto, que é vedado, e entanto
Deles toda a ventura é logo morta.
A vista deles Deus já não suporta,
E envolve a face irada em rubro manto;
Cai-lhes dos olhos o primeiro pranto:
Rangeu, o Éden fechando, a brônzea porta.
Tinham lá dentro sândalos e nardos;
O anjo de Deus em fogo a espada eleva;
O Sol golpeia-os com seus áureos dardos;
Urram leões em torno, ao pé, na treva.
Eriça-lhes a terra urzes e cardos...
Mas ao seu lado... Adão inda tem
Tinham no Paraíso eterno encanto;
Roubam O fruto, que é vedado, e entanto
Deles toda a ventura é logo morta.
A vista deles Deus já não suporta,
E envolve a face irada em rubro manto;
Cai-lhes dos olhos o primeiro pranto:
Rangeu, o Éden fechando, a brônzea porta.
Tinham lá dentro sândalos e nardos;
O anjo de Deus em fogo a espada eleva;
O Sol golpeia-os com seus áureos dardos;
Urram leões em torno, ao pé, na treva.
Eriça-lhes a terra urzes e cardos...
Mas ao seu lado... Adão inda tem
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