Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Herberto Helder
2C
Ficas toda perfumada de passar por baixo do vento que vem
do lado reluzente das laranjeiras.
E crepitam-me as pontas dos dedos ao supor-te no escuro.
Queimavas-me junto às unhas.
E a queimadura subia por antebraço e braço
ao coração sacudido. Eu — perfumado
e queimado por dentro: um laço feito de odor
transposto, ar fosforescendo, uma árvore
banhada
nocturnamente. Tudo em mim trazido
súbito
para o meio. Quando este saco de sangue rodava
defronte da abertura
prodigiosa.
do lado reluzente das laranjeiras.
E crepitam-me as pontas dos dedos ao supor-te no escuro.
Queimavas-me junto às unhas.
E a queimadura subia por antebraço e braço
ao coração sacudido. Eu — perfumado
e queimado por dentro: um laço feito de odor
transposto, ar fosforescendo, uma árvore
banhada
nocturnamente. Tudo em mim trazido
súbito
para o meio. Quando este saco de sangue rodava
defronte da abertura
prodigiosa.
1 080
Ana Marques Gastão
Tronco
Poderia dizer-te, vem,
mas como descrever
essa vinda se não há
nenhum verbo que
se ajuste ao teu
nome impronunciável.
Debruço-me, hirta,
na memória do silvo,
num sono circular,
e é a sombra que vejo,
a cruz ou o seu contorno,
as pálpebras das aves
e o sonho fundo
de rosas-de-toucar.
Mas vem, a esta paragem
de névoa, é à força de não
vermos que aprendemos,
crianças ávidas de peixes
de onde o mar se levanta
num halo dourado.
Vem, nítido, mais alto
que o lamento,
mais líquido que o desejo,
num rouco movimento
que dança e renuncia
incapaz de ser ausente.
Vem, onírico, de corpo
fragmentado,
desconstruído no sonho
em forma de abecedário.
Primeiro o tronco, depois
as mãos, os pés e o falo;
os ombros, o rosto,
como o de um filho
erguido do chão,
para sempre amado.
E agora as pálpebras,
de sal vitral de pássaro
fecha-mas,
torna-me informe,
diz o meu nome,
pede-me o que nem sei
imaginar; rouba-me,
o poema, a cinza a neve,
o pulso decepado
ou quem sabe se a cor
a dor de meus olhos
mudos alvoroçados.
Leva-me
como se só Tu existisses
na intimidade das flores,
nos lábios dos mastros,
leva-me nua e morta
no dorso de teu laço
leva-me leva-me
até o coração me rebentar.
mas como descrever
essa vinda se não há
nenhum verbo que
se ajuste ao teu
nome impronunciável.
Debruço-me, hirta,
na memória do silvo,
num sono circular,
e é a sombra que vejo,
a cruz ou o seu contorno,
as pálpebras das aves
e o sonho fundo
de rosas-de-toucar.
Mas vem, a esta paragem
de névoa, é à força de não
vermos que aprendemos,
crianças ávidas de peixes
de onde o mar se levanta
num halo dourado.
Vem, nítido, mais alto
que o lamento,
mais líquido que o desejo,
num rouco movimento
que dança e renuncia
incapaz de ser ausente.
Vem, onírico, de corpo
fragmentado,
desconstruído no sonho
em forma de abecedário.
Primeiro o tronco, depois
as mãos, os pés e o falo;
os ombros, o rosto,
como o de um filho
erguido do chão,
para sempre amado.
E agora as pálpebras,
de sal vitral de pássaro
fecha-mas,
torna-me informe,
diz o meu nome,
pede-me o que nem sei
imaginar; rouba-me,
o poema, a cinza a neve,
o pulso decepado
ou quem sabe se a cor
a dor de meus olhos
mudos alvoroçados.
Leva-me
como se só Tu existisses
na intimidade das flores,
nos lábios dos mastros,
leva-me nua e morta
no dorso de teu laço
leva-me leva-me
até o coração me rebentar.
818
Ana Marques Gastão
Tronco
Poderia dizer-te, vem,
mas como descrever
essa vinda se não há
nenhum verbo que
se ajuste ao teu
nome impronunciável.
Debruço-me, hirta,
na memória do silvo,
num sono circular,
e é a sombra que vejo,
a cruz ou o seu contorno,
as pálpebras das aves
e o sonho fundo
de rosas-de-toucar.
Mas vem, a esta paragem
de névoa, é à força de não
vermos que aprendemos,
crianças ávidas de peixes
de onde o mar se levanta
num halo dourado.
Vem, nítido, mais alto
que o lamento,
mais líquido que o desejo,
num rouco movimento
que dança e renuncia
incapaz de ser ausente.
Vem, onírico, de corpo
fragmentado,
desconstruído no sonho
em forma de abecedário.
Primeiro o tronco, depois
as mãos, os pés e o falo;
os ombros, o rosto,
como o de um filho
erguido do chão,
para sempre amado.
E agora as pálpebras,
de sal vitral de pássaro
fecha-mas,
torna-me informe,
diz o meu nome,
pede-me o que nem sei
imaginar; rouba-me,
o poema, a cinza a neve,
o pulso decepado
ou quem sabe se a cor
a dor de meus olhos
mudos alvoroçados.
Leva-me
como se só Tu existisses
na intimidade das flores,
nos lábios dos mastros,
leva-me nua e morta
no dorso de teu laço
leva-me leva-me
até o coração me rebentar.
mas como descrever
essa vinda se não há
nenhum verbo que
se ajuste ao teu
nome impronunciável.
Debruço-me, hirta,
na memória do silvo,
num sono circular,
e é a sombra que vejo,
a cruz ou o seu contorno,
as pálpebras das aves
e o sonho fundo
de rosas-de-toucar.
Mas vem, a esta paragem
de névoa, é à força de não
vermos que aprendemos,
crianças ávidas de peixes
de onde o mar se levanta
num halo dourado.
Vem, nítido, mais alto
que o lamento,
mais líquido que o desejo,
num rouco movimento
que dança e renuncia
incapaz de ser ausente.
Vem, onírico, de corpo
fragmentado,
desconstruído no sonho
em forma de abecedário.
Primeiro o tronco, depois
as mãos, os pés e o falo;
os ombros, o rosto,
como o de um filho
erguido do chão,
para sempre amado.
E agora as pálpebras,
de sal vitral de pássaro
fecha-mas,
torna-me informe,
diz o meu nome,
pede-me o que nem sei
imaginar; rouba-me,
o poema, a cinza a neve,
o pulso decepado
ou quem sabe se a cor
a dor de meus olhos
mudos alvoroçados.
Leva-me
como se só Tu existisses
na intimidade das flores,
nos lábios dos mastros,
leva-me nua e morta
no dorso de teu laço
leva-me leva-me
até o coração me rebentar.
818
Herberto Helder
3D
Uma golfada de ar que me acorda numa imagem larga.
Os braços apertam os pulmões da estrela.
E o golpe freme a toda a altura negra. Tremo
na linha sísmica que atravessa o sono.
De ferro em brasa na cabeça,
medo e delírio,
o sombrio trabalho da beleza com as unhas fincadas
na matéria atenta
à olaria.
E súbito, apenas pelo uso elementar das coisas,
esse júbilo terrível.
Os braços apertam os pulmões da estrela.
E o golpe freme a toda a altura negra. Tremo
na linha sísmica que atravessa o sono.
De ferro em brasa na cabeça,
medo e delírio,
o sombrio trabalho da beleza com as unhas fincadas
na matéria atenta
à olaria.
E súbito, apenas pelo uso elementar das coisas,
esse júbilo terrível.
1 125
Herberto Helder
3D
Uma golfada de ar que me acorda numa imagem larga.
Os braços apertam os pulmões da estrela.
E o golpe freme a toda a altura negra. Tremo
na linha sísmica que atravessa o sono.
De ferro em brasa na cabeça,
medo e delírio,
o sombrio trabalho da beleza com as unhas fincadas
na matéria atenta
à olaria.
E súbito, apenas pelo uso elementar das coisas,
esse júbilo terrível.
Os braços apertam os pulmões da estrela.
E o golpe freme a toda a altura negra. Tremo
na linha sísmica que atravessa o sono.
De ferro em brasa na cabeça,
medo e delírio,
o sombrio trabalho da beleza com as unhas fincadas
na matéria atenta
à olaria.
E súbito, apenas pelo uso elementar das coisas,
esse júbilo terrível.
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Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Obscuridade
Esperamos na obscuridade.
Vinde, vós que escutais, vinde
saudar-nos na viagem nocturna:
nenhum sol agora brilha,
nem luz agora nenhuma estrela.
Vinde, ó vós, mostrar-nos o caminho:
que a noite secreta é inimiga,
a noite que fecha as próprias pálpebras.
E eis como a noite inteiramente nos esqueceu.
E esperamos, esperamos, na obscuridade.
Vinde, vós que escutais, vinde
saudar-nos na viagem nocturna:
nenhum sol agora brilha,
nem luz agora nenhuma estrela.
Vinde, ó vós, mostrar-nos o caminho:
que a noite secreta é inimiga,
a noite que fecha as próprias pálpebras.
E eis como a noite inteiramente nos esqueceu.
E esperamos, esperamos, na obscuridade.
1 024
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Obscuridade
Esperamos na obscuridade.
Vinde, vós que escutais, vinde
saudar-nos na viagem nocturna:
nenhum sol agora brilha,
nem luz agora nenhuma estrela.
Vinde, ó vós, mostrar-nos o caminho:
que a noite secreta é inimiga,
a noite que fecha as próprias pálpebras.
E eis como a noite inteiramente nos esqueceu.
E esperamos, esperamos, na obscuridade.
Vinde, vós que escutais, vinde
saudar-nos na viagem nocturna:
nenhum sol agora brilha,
nem luz agora nenhuma estrela.
Vinde, ó vós, mostrar-nos o caminho:
que a noite secreta é inimiga,
a noite que fecha as próprias pálpebras.
E eis como a noite inteiramente nos esqueceu.
E esperamos, esperamos, na obscuridade.
1 024
Herberto Helder
6
Ele disse que
quando
lhe tocava nas zonas quentes a luz do vento abria as searas profundas
encapelava o ouro, os corredores do ar
através das palavras — perguntou:
porquê? O sangue bate mão na mão, perguntou se aquilo era tocar em tudo
disse: toco num objecto ele brilha
objectos que se crispam perguntou se os objectos eram espasmos
do espaço. Disse, os corpos são varas de ouro plantadas.
A seiva rutila nelas. Tocava, abalava organismos, elementos
límpidos, varas vivas.
O ar sem fundo erguia-se de dentro dos sítios. Disse:
o génio ininterrupto de multiplicares
o teu espaço luminoso — e
cada vara brilha de si mesma e da outra vara próxima.
Em que recessos te queimo, virgens, em que
inexplicáveis redes de imagens
buracos
de vento nas searas eriçadas varas com força?
Tu de onde o ar se levanta
se te afastas do teu nome até seres inominável quando toco
o teu nome se
te aproximas com o nome que tu és, essa abundância.
Ele disse: o remoinho da estrela na sua clareira.
Porque se fundem com os dedos as matérias selvagens, ah
como refulge o bocado de carne, que chegue
devagar à boca, refulja
ela também aquela que devora.
Células terríveis, como vibram, células das coisas que trazes
à sua pulsação. O mover
dos dedos move o mundo, disse que era o nexo oculto na arte
de cada coisa.
A leveza da mão desequilibra a chama, a atmosfera dá-lhe
tanta potência. Se te
toco, disse. Se
te devasto no recôndito empunhando as unhas contra a cabeça
coroada quando te deslocas a fôlego
e peso, as translações radiais de ti a mim. Toda
a electricidade
corre pelas fibras dos substantivos, acende-os, trança-os, transforma-os
numa
constelação vergada. Tu
transformas-te — alargas os braços apanhando a claridade onde
os longos arcos
reflexos:
o garfo na boca, a labareda cortada na testa, os laços de carne sob o vestido
com uma cor olhada instantânea.
Disse que a mão compõe a sintaxe de botões luzindo que
quando lhe tocava
o nome do mundo crescia tanto —
quando
lhe tocava nas zonas quentes a luz do vento abria as searas profundas
encapelava o ouro, os corredores do ar
através das palavras — perguntou:
porquê? O sangue bate mão na mão, perguntou se aquilo era tocar em tudo
disse: toco num objecto ele brilha
objectos que se crispam perguntou se os objectos eram espasmos
do espaço. Disse, os corpos são varas de ouro plantadas.
A seiva rutila nelas. Tocava, abalava organismos, elementos
límpidos, varas vivas.
O ar sem fundo erguia-se de dentro dos sítios. Disse:
o génio ininterrupto de multiplicares
o teu espaço luminoso — e
cada vara brilha de si mesma e da outra vara próxima.
Em que recessos te queimo, virgens, em que
inexplicáveis redes de imagens
buracos
de vento nas searas eriçadas varas com força?
Tu de onde o ar se levanta
se te afastas do teu nome até seres inominável quando toco
o teu nome se
te aproximas com o nome que tu és, essa abundância.
Ele disse: o remoinho da estrela na sua clareira.
Porque se fundem com os dedos as matérias selvagens, ah
como refulge o bocado de carne, que chegue
devagar à boca, refulja
ela também aquela que devora.
Células terríveis, como vibram, células das coisas que trazes
à sua pulsação. O mover
dos dedos move o mundo, disse que era o nexo oculto na arte
de cada coisa.
A leveza da mão desequilibra a chama, a atmosfera dá-lhe
tanta potência. Se te
toco, disse. Se
te devasto no recôndito empunhando as unhas contra a cabeça
coroada quando te deslocas a fôlego
e peso, as translações radiais de ti a mim. Toda
a electricidade
corre pelas fibras dos substantivos, acende-os, trança-os, transforma-os
numa
constelação vergada. Tu
transformas-te — alargas os braços apanhando a claridade onde
os longos arcos
reflexos:
o garfo na boca, a labareda cortada na testa, os laços de carne sob o vestido
com uma cor olhada instantânea.
Disse que a mão compõe a sintaxe de botões luzindo que
quando lhe tocava
o nome do mundo crescia tanto —
1 219
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Pintura Na Areia
Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
1 284
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Pintura Na Areia
Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
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Herberto Helder
Canções de Camponeses do Japão - Arrozal de Madrugada
Às quatro da manhã, arranco
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
1 213
Herberto Helder
Canções de Camponeses do Japão - Arrozal de Madrugada
Às quatro da manhã, arranco
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
1 213
Herberto Helder
Canção Tártara
O rosto da minha amada cobriu-se de sangue.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
1 274
Herberto Helder
Canção Tártara
O rosto da minha amada cobriu-se de sangue.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
1 274
Herberto Helder
Canção Tártara
O rosto da minha amada cobriu-se de sangue.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
1 274
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Iúca
Mesmo diante da casa, no alto
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
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Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Iúca
Mesmo diante da casa, no alto
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
997
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Dons do Amante
Sobre a tua cabeleira hei-de pôr, para as núpcias,
uma coroa de borboletas com suas
asas pintadas.
Terás de volta ao pescoço flores de abóbora,
em prata,
e a lua que para ti noites e noites forjei.
Andarás pelo povo sobre um cavalo em turquesa.
Um cavalo ardente e leve, animado
pelo meu fogo de amor.
E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente:
o coração onde correm
milhões de gotas de sangue.
uma coroa de borboletas com suas
asas pintadas.
Terás de volta ao pescoço flores de abóbora,
em prata,
e a lua que para ti noites e noites forjei.
Andarás pelo povo sobre um cavalo em turquesa.
Um cavalo ardente e leve, animado
pelo meu fogo de amor.
E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente:
o coração onde correm
milhões de gotas de sangue.
1 231
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Canção de Amor
Levantei-me cedo, cedo — e era azul
toda a manhã.
Porém, o meu amor já havia partido:
— já tinha atravessado as grandes portas da aurora.
No monte Papago a presa na agonia
olhou-me
com os olhos da minha amada.
toda a manhã.
Porém, o meu amor já havia partido:
— já tinha atravessado as grandes portas da aurora.
No monte Papago a presa na agonia
olhou-me
com os olhos da minha amada.
881
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Canção de Amor
Levantei-me cedo, cedo — e era azul
toda a manhã.
Porém, o meu amor já havia partido:
— já tinha atravessado as grandes portas da aurora.
No monte Papago a presa na agonia
olhou-me
com os olhos da minha amada.
toda a manhã.
Porém, o meu amor já havia partido:
— já tinha atravessado as grandes portas da aurora.
No monte Papago a presa na agonia
olhou-me
com os olhos da minha amada.
881
Herberto Helder
Canção da Cabília
Leve, aparece na dança —
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.
Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.
Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.
— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.
Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.
— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.
Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.
Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.
Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.
— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.
Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.
— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.
Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras
1 012
Herberto Helder
Canção da Cabília
Leve, aparece na dança —
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.
Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.
Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.
— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.
Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.
— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.
Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.
Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.
Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.
— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.
Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.
— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.
Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras
1 012
Herberto Helder
(É Uma Dedicatória)
Se alargas os braços desencadeia-se uma estrela de mão
a mão transparente, e atrás,
nas embocaduras da noite,
o mundo completo treme como uma árvore
luzindo
com a respiração. E ofereces,
das unhas à garganta
talhada, a deslumbrante queimadura do sono.
— Em teu próprio torvelinho se afundam
as coisas. Porque és um vergão raiando entre
esses braços
que irrompem da minha morte se durmo, da loucura
se a veia
violenta que me atravessa a cabeça se torna
ignea como
um rio abrupto num mapa. Quando as salas
negras fotográficas
imprimem a sensivel trama das estações
com as paisagens por cima. E
jorras
desde as costas dos espelhos, seu coração
arrancado pelos dedos todos de que se escreve
o movimento inteiro.
Nunca digas o meu nome se esse nome
não for o do medo. Ou se rapidamente o lume se não repartir
nas formas
lavradas como chamas à tua volta. Os animais
que essa labareda ilumina
na boca. Desde a obscuridade
de tudo que tudo
é inocente. Nunca se pode ver a noite toda de súbito.
E da fronte aos quadris em tuas linhas, és
cega, fechada.
A minha força é a desordem. Reluzes
na têmpera enxuta — queima-te.
O ouro desloca a tua cara. Um nervo
atravessa as frementes, delicadas massas
das imagens:
como uma ferida límpida desde a nascença pela carne
fora. Es alta em mim por essa
cicatriz que se abre ao dormir e quando
se acorda fica aberta.
— Esta
espécie de crime que é escrever uma frase que seja
uma pessoa magnificada.
Uma frase cosida ao fôlego, ou um relâmpago
estancado
nos espelhos. E às vezes é uma raiz engolfada, e quando toca
a fundura das paisagens, as constelações mudam
no chão. A truculência
que se traça como uma frase na pessoa, uma queimadura
branca. Porque ela mostra as devastações
magnéticas
da matéria. Na frase vejo os fulcros da pessoa.
Por furos acerbos as estações que se escoam
e a inquebrantável
paisagem que as persegue por dentro. A frase
que é uma pálpebra
viva
como roupa fechada sobre a radiação das veias.
Que é uma cara, uma cratera.
Ou um hausto animal das unhas à testa
onde
fulguram os cornos em coroa.
E esta massa ofegante é queimada por um
suspiro, um alimento brutal.
O teu rosto cerca-me, a minha
morte cerca o teu rosto como uma clareira
pulsando
na luz cortada. A pessoa
que é uma frase: astro
rude cruamente encordoado entre as omoplatas.
Como se um nervo cosesse todas as partes pungentes e selvagens
da carne. Como
se a tua frase fosse um buraco brilhando até aos pulmões,
com o sangue e a língua
na minha garganta. A beleza que te trabalha
deixa-te
árdua e intacta
no mundo, entre o sangue estrangulado na minha memória.
a mão transparente, e atrás,
nas embocaduras da noite,
o mundo completo treme como uma árvore
luzindo
com a respiração. E ofereces,
das unhas à garganta
talhada, a deslumbrante queimadura do sono.
— Em teu próprio torvelinho se afundam
as coisas. Porque és um vergão raiando entre
esses braços
que irrompem da minha morte se durmo, da loucura
se a veia
violenta que me atravessa a cabeça se torna
ignea como
um rio abrupto num mapa. Quando as salas
negras fotográficas
imprimem a sensivel trama das estações
com as paisagens por cima. E
jorras
desde as costas dos espelhos, seu coração
arrancado pelos dedos todos de que se escreve
o movimento inteiro.
Nunca digas o meu nome se esse nome
não for o do medo. Ou se rapidamente o lume se não repartir
nas formas
lavradas como chamas à tua volta. Os animais
que essa labareda ilumina
na boca. Desde a obscuridade
de tudo que tudo
é inocente. Nunca se pode ver a noite toda de súbito.
E da fronte aos quadris em tuas linhas, és
cega, fechada.
A minha força é a desordem. Reluzes
na têmpera enxuta — queima-te.
O ouro desloca a tua cara. Um nervo
atravessa as frementes, delicadas massas
das imagens:
como uma ferida límpida desde a nascença pela carne
fora. Es alta em mim por essa
cicatriz que se abre ao dormir e quando
se acorda fica aberta.
— Esta
espécie de crime que é escrever uma frase que seja
uma pessoa magnificada.
Uma frase cosida ao fôlego, ou um relâmpago
estancado
nos espelhos. E às vezes é uma raiz engolfada, e quando toca
a fundura das paisagens, as constelações mudam
no chão. A truculência
que se traça como uma frase na pessoa, uma queimadura
branca. Porque ela mostra as devastações
magnéticas
da matéria. Na frase vejo os fulcros da pessoa.
Por furos acerbos as estações que se escoam
e a inquebrantável
paisagem que as persegue por dentro. A frase
que é uma pálpebra
viva
como roupa fechada sobre a radiação das veias.
Que é uma cara, uma cratera.
Ou um hausto animal das unhas à testa
onde
fulguram os cornos em coroa.
E esta massa ofegante é queimada por um
suspiro, um alimento brutal.
O teu rosto cerca-me, a minha
morte cerca o teu rosto como uma clareira
pulsando
na luz cortada. A pessoa
que é uma frase: astro
rude cruamente encordoado entre as omoplatas.
Como se um nervo cosesse todas as partes pungentes e selvagens
da carne. Como
se a tua frase fosse um buraco brilhando até aos pulmões,
com o sangue e a língua
na minha garganta. A beleza que te trabalha
deixa-te
árdua e intacta
no mundo, entre o sangue estrangulado na minha memória.
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Herberto Helder
10
tudo se espalha num impulso curvamente
branco, a crista aberta com silêncio
fulgurante, a imagem que agoniza,
e logo o tempo caído
num espaço sem tempo, freme
a fonte algures simultânea, e a voz
num sulco de sangue criminal,
sobre os pulmões o rítmico decalque carbonizado,
nervos queimando
a lentidão da cabeça pululante
em toda a parte, animal,
sonolência vibrante, uma auréola selvagem
sobre a febre, e pinhas
de ouro incrustadas,
inocentes, o perpassar atroz
de antigas noites saindo para as luzes
frias, de alto a baixo os órgãos doces
fendidos pela faca milagrosa, a loucura,
gota a gota se destila a droga nesta coisa viva,
a dor de ter um rosto a tremer
no mundo, entre planos de noite e planos
de luz parados sobre a agonia,
águas de Deus correm numa paisagem
geral e obsessiva, e no terror de uma brancura explosiva,
a morte ao alto, fixa
1970
branco, a crista aberta com silêncio
fulgurante, a imagem que agoniza,
e logo o tempo caído
num espaço sem tempo, freme
a fonte algures simultânea, e a voz
num sulco de sangue criminal,
sobre os pulmões o rítmico decalque carbonizado,
nervos queimando
a lentidão da cabeça pululante
em toda a parte, animal,
sonolência vibrante, uma auréola selvagem
sobre a febre, e pinhas
de ouro incrustadas,
inocentes, o perpassar atroz
de antigas noites saindo para as luzes
frias, de alto a baixo os órgãos doces
fendidos pela faca milagrosa, a loucura,
gota a gota se destila a droga nesta coisa viva,
a dor de ter um rosto a tremer
no mundo, entre planos de noite e planos
de luz parados sobre a agonia,
águas de Deus correm numa paisagem
geral e obsessiva, e no terror de uma brancura explosiva,
a morte ao alto, fixa
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