Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Herberto Helder
Poemas do Antigo Egipto - Fragmento do Cairo
Quando eu a cinjo e ela me abre os braços,
sou como um homem que regressa da Arábia,
impregnado de perfumes.
Desço o rio numa barca,
ao ritmo dos remadores.
Com um feixe de canas ao ombro,
vou para Mênfis,
e direi a Ptah, senhor da verdade:
«Dá-me esta noite a minha amada.»
Este deus é como um rio de vinho,
com seus maciços de canas.
E a deusa Sekhmet é como se fosse a sua moita de flores.
E a deusa Earit, seu lótus em botão.
E o seu lótus aberto, o deus Nefertum.
— E a minha amada será feliz.
Levanta-se a aurora através da sua beleza.
Mênfis é um cesto de tomates
posto frente ao deus de rosto puro.
Bom é mergulhar, bom,
ó deus meu amigo,
é banhar-me diante de ti.
Adivinhas-me quando se molha
minha túnica de fino linho real.
E juntos entramos nas águas,
e à tua frente eu saio das águas,
agarrando entre os dedos
um estupendo peixe encarnado.
— Olha para mim.
Tanto se alvoroça meu coração, de puro amor,
que metade da minha cabeleira se desfaz,
quando corro ao teu encontro.
Para que me vejas sempre igual e bela
diante de ti,
eu componho os meus cabelos.
sou como um homem que regressa da Arábia,
impregnado de perfumes.
Desço o rio numa barca,
ao ritmo dos remadores.
Com um feixe de canas ao ombro,
vou para Mênfis,
e direi a Ptah, senhor da verdade:
«Dá-me esta noite a minha amada.»
Este deus é como um rio de vinho,
com seus maciços de canas.
E a deusa Sekhmet é como se fosse a sua moita de flores.
E a deusa Earit, seu lótus em botão.
E o seu lótus aberto, o deus Nefertum.
— E a minha amada será feliz.
Levanta-se a aurora através da sua beleza.
Mênfis é um cesto de tomates
posto frente ao deus de rosto puro.
Bom é mergulhar, bom,
ó deus meu amigo,
é banhar-me diante de ti.
Adivinhas-me quando se molha
minha túnica de fino linho real.
E juntos entramos nas águas,
e à tua frente eu saio das águas,
agarrando entre os dedos
um estupendo peixe encarnado.
— Olha para mim.
Tanto se alvoroça meu coração, de puro amor,
que metade da minha cabeleira se desfaz,
quando corro ao teu encontro.
Para que me vejas sempre igual e bela
diante de ti,
eu componho os meus cabelos.
1 309
Herberto Helder
Canção Escocesa
«Porque escorre o sangue pela tua espada,
Eduardo, Eduardo?
Porque escorre o sangue pela tua espada,
e porque estás tão triste, oh?»
«Oh, porque matei o meu melhor falcão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu melhor falcão,
e no mundo não há outro nenhum assim, oh!>>
«O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
Eduardo, Eduardo,
O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
porque me mentes, oh?»
«Oh, porque matei o meu corcel ruão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu corcel ruão,
que era delgado e tão ágil, oh!»
«Esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
Eduardo, Eduardo,
esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
porque me mentes, oh?»
«Oh, foi meu pai quem eu matei,
minha mãe, minha mãe,
oh, foi meu pai quem eu matei, que
a maldição me cubra para sempre, oh!»
«Que penitência farás pelo teu crime,
Eduardo, Eduardo?
Que penitência farás pelo teu crime,
dize-me, ó filho, oh?»
«Embarcarei para longe, bem longe,
minha mãe, minha mãe,
embarcarei para longe, bem longe,
irei por sobre as águas do mar, oh!»
«E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
Eduardo, Eduardo?
E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
que eram tão altos, tão belos, oh?»
«Que fiquem de pé, e que tombem depois,
minha mãe, minha mãe,
que fiquem de pé, e que tombem depois,
e no mundo não reste nenhum sinal, oh!»
«Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
Eduardo, Eduardo?
Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
se te aventuras ao mar, oh?»
«Deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
minha mãe, minha mãe,
deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
que nunca mais os verei, oh!»
«E que deixas tu à tua mãe extremosa,
Eduardo, Eduardo?
E que deixas tu à tua mãe extremosa,
que fica sem ti, oh?»
«A maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
minha mãe, minha mãe,
a maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
que o meu crime é o teu, oh!»
Eduardo, Eduardo?
Porque escorre o sangue pela tua espada,
e porque estás tão triste, oh?»
«Oh, porque matei o meu melhor falcão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu melhor falcão,
e no mundo não há outro nenhum assim, oh!>>
«O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
Eduardo, Eduardo,
O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
porque me mentes, oh?»
«Oh, porque matei o meu corcel ruão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu corcel ruão,
que era delgado e tão ágil, oh!»
«Esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
Eduardo, Eduardo,
esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
porque me mentes, oh?»
«Oh, foi meu pai quem eu matei,
minha mãe, minha mãe,
oh, foi meu pai quem eu matei, que
a maldição me cubra para sempre, oh!»
«Que penitência farás pelo teu crime,
Eduardo, Eduardo?
Que penitência farás pelo teu crime,
dize-me, ó filho, oh?»
«Embarcarei para longe, bem longe,
minha mãe, minha mãe,
embarcarei para longe, bem longe,
irei por sobre as águas do mar, oh!»
«E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
Eduardo, Eduardo?
E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
que eram tão altos, tão belos, oh?»
«Que fiquem de pé, e que tombem depois,
minha mãe, minha mãe,
que fiquem de pé, e que tombem depois,
e no mundo não reste nenhum sinal, oh!»
«Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
Eduardo, Eduardo?
Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
se te aventuras ao mar, oh?»
«Deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
minha mãe, minha mãe,
deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
que nunca mais os verei, oh!»
«E que deixas tu à tua mãe extremosa,
Eduardo, Eduardo?
E que deixas tu à tua mãe extremosa,
que fica sem ti, oh?»
«A maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
minha mãe, minha mãe,
a maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
que o meu crime é o teu, oh!»
586
Herberto Helder
Canção Escocesa
«Porque escorre o sangue pela tua espada,
Eduardo, Eduardo?
Porque escorre o sangue pela tua espada,
e porque estás tão triste, oh?»
«Oh, porque matei o meu melhor falcão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu melhor falcão,
e no mundo não há outro nenhum assim, oh!>>
«O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
Eduardo, Eduardo,
O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
porque me mentes, oh?»
«Oh, porque matei o meu corcel ruão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu corcel ruão,
que era delgado e tão ágil, oh!»
«Esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
Eduardo, Eduardo,
esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
porque me mentes, oh?»
«Oh, foi meu pai quem eu matei,
minha mãe, minha mãe,
oh, foi meu pai quem eu matei, que
a maldição me cubra para sempre, oh!»
«Que penitência farás pelo teu crime,
Eduardo, Eduardo?
Que penitência farás pelo teu crime,
dize-me, ó filho, oh?»
«Embarcarei para longe, bem longe,
minha mãe, minha mãe,
embarcarei para longe, bem longe,
irei por sobre as águas do mar, oh!»
«E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
Eduardo, Eduardo?
E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
que eram tão altos, tão belos, oh?»
«Que fiquem de pé, e que tombem depois,
minha mãe, minha mãe,
que fiquem de pé, e que tombem depois,
e no mundo não reste nenhum sinal, oh!»
«Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
Eduardo, Eduardo?
Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
se te aventuras ao mar, oh?»
«Deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
minha mãe, minha mãe,
deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
que nunca mais os verei, oh!»
«E que deixas tu à tua mãe extremosa,
Eduardo, Eduardo?
E que deixas tu à tua mãe extremosa,
que fica sem ti, oh?»
«A maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
minha mãe, minha mãe,
a maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
que o meu crime é o teu, oh!»
Eduardo, Eduardo?
Porque escorre o sangue pela tua espada,
e porque estás tão triste, oh?»
«Oh, porque matei o meu melhor falcão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu melhor falcão,
e no mundo não há outro nenhum assim, oh!>>
«O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
Eduardo, Eduardo,
O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
porque me mentes, oh?»
«Oh, porque matei o meu corcel ruão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu corcel ruão,
que era delgado e tão ágil, oh!»
«Esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
Eduardo, Eduardo,
esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
porque me mentes, oh?»
«Oh, foi meu pai quem eu matei,
minha mãe, minha mãe,
oh, foi meu pai quem eu matei, que
a maldição me cubra para sempre, oh!»
«Que penitência farás pelo teu crime,
Eduardo, Eduardo?
Que penitência farás pelo teu crime,
dize-me, ó filho, oh?»
«Embarcarei para longe, bem longe,
minha mãe, minha mãe,
embarcarei para longe, bem longe,
irei por sobre as águas do mar, oh!»
«E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
Eduardo, Eduardo?
E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
que eram tão altos, tão belos, oh?»
«Que fiquem de pé, e que tombem depois,
minha mãe, minha mãe,
que fiquem de pé, e que tombem depois,
e no mundo não reste nenhum sinal, oh!»
«Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
Eduardo, Eduardo?
Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
se te aventuras ao mar, oh?»
«Deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
minha mãe, minha mãe,
deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
que nunca mais os verei, oh!»
«E que deixas tu à tua mãe extremosa,
Eduardo, Eduardo?
E que deixas tu à tua mãe extremosa,
que fica sem ti, oh?»
«A maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
minha mãe, minha mãe,
a maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
que o meu crime é o teu, oh!»
586
Herberto Helder
Canções de Camponeses do Japão - Arrozal de Madrugada
Às quatro da manhã, arranco
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
1 222
Herberto Helder
Canções de Camponeses do Japão - Arrozal de Madrugada
Às quatro da manhã, arranco
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
1 222
Herberto Helder
Canção Tártara
O rosto da minha amada cobriu-se de sangue.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
1 288
Herberto Helder
Canção Tártara
O rosto da minha amada cobriu-se de sangue.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
1 288
Herberto Helder
Canção Tártara
O rosto da minha amada cobriu-se de sangue.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
1 288
Herberto Helder
Poemas do Antigo Egipto - Exorcismo
Oh vai, vai dormir, e vai aonde estão as tuas belas mulheres,
sobre cujos cabelos se verteu a mirra
e sobre cujos ombros se verteu o incenso fresco.
sobre cujos cabelos se verteu a mirra
e sobre cujos ombros se verteu o incenso fresco.
1 096
Herberto Helder
Poemas do Antigo Egipto - Exorcismo
Oh vai, vai dormir, e vai aonde estão as tuas belas mulheres,
sobre cujos cabelos se verteu a mirra
e sobre cujos ombros se verteu o incenso fresco.
sobre cujos cabelos se verteu a mirra
e sobre cujos ombros se verteu o incenso fresco.
1 096
Herberto Helder
Poemas do Velho Testamento - Saltério
SALMOS 137, 88, 22, 42, 57, 69 e 139
(Segundo montagem de Jean Grosjean)
Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.
Porque nos pedem cânticos e alegria.
— Entoai, dizem eles, as canções de Sião.
Mas como em terra estranha elevaremos um canto
ao Eterno?
Que me seque a mão direita se te esquecer,
Jerusalém!
E a língua paralise se abandonares
as câmaras da memória,
se Jerusalém não for a mais alta alegria.
Lembra-te, Ó Eterno, de quando
gritavam na terra de Jerusalém: — Devastai-a
até às raízes!
Feliz daquele que em suas mãos erguer teus filhos
e na pedra os esmagar, ó devastadora
filha de Babel!
De dia grito e gemo à noite, à tua frente:
abre-te aos meus soluços. Que te atinja minha dor.
Bêbeda de infortúnio, a minha vida rola.
Estou deitado junto aos mortos e fechado no silêncio,
perdido entre aqueles de quem se perdeu a memória.
A tua fúria me lança nos lugares tenebrosos,
contra mim desencadeias teus turbilhões obscuros.
Apartaste de meu lado os que eram os amigos.
Ao cativo sem esperança o choro consome os olhos.
Digo o teu nome nas trevas, estendo-te as mãos incansáveis —
mas que esperas tu dos mortos? que te importam sombras idas?
Louvam-te acaso a graça na perdição do abismo? Conhece-se o que é justiça
na noite do esquecimento?
Cada manhã meu clamor se levanta para ti:
porque afastas tua face do cerco da minha voz?
Moribundo desde a infância, eu sofri os teus terrores,
teus espantos me esmagaram.
Rodeado pelas ondas, já me afundo sob as vagas.
— Minhas mãos abrem-se e fecham no grande país das trevas.
Meu Deus. meu Deus, porque me abandonaste
e te afastas dos meus gritos?
Brado) em vão e sem repouso.
Encho os dias e as noites com as vozes desta angústia,
e o teu silêncio me cerca.
Chamavam por ti os antigos, e os apelos ecoavam
em tuas altas escarpas.
Eu porém sou como um verme — a vergonha do meu povo.
Escarnece quem me vê:
— Confia no teu Senhor, porque salva aqueles que ama.
Foste tu quem me tirou do ventre de minha mãe,
tu que eras o meu Deus desde o fundo da matriz.
Oh, não te afastes mais de mim, quando a angústia
me rodeia.
Inumeráveis me envolvem os touros de Basã.
Leões que abrem as bocas para me dilacerar.
E os meus ossos desconjuntam-se.
Derrete-se meu coração como cera contra as chamas.
Seca-se a boca de argila.
Ladra o tumulto dos cães. Sangrando de pés e mãos,
rolo sobre um chão mortal.
Espalharam os meus ossos, dividiram minha túnica:
não te afastes mais de mim, ó grande força celeste!
Arranca aos cães e ao gládio esta vida singular.
Toma-a ás garras dos leões e aos altos cornos dos búfalos.
A gazela brame correndo para a água, e corre a minha alma para ti.
Quando verei Aquele de que tenho tanta sede?
Cresce-me o pranto se me perguntam onde está o Deus vivo.
Triste, lembro-me de haver caminhado para ti,
entre os gritos delirantes de um povo na sua festa.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Sobre os montes do exílio tua lembrança me enlouquece.
O abismo tem sede de abismo: tuas chuvas turbilhonantes
caem sempre sobre mim, no fragor das cataratas.
Nascia-me de ti um canto tumultuoso,
longamente agora esqueço nesta inspiração das lágrimas.
— Onde está o Deus vivo? — perguntam-me os frios
de coração. E eu pergunto onde está o meu Deus vivo.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Onde está o Deus vivo, que se não esgota
o tempo das trevas? Sobre os montes do exílio, tremo
e peço que revele a sua luz.
Que eu mencione em minha cítara um Deus de alta presença.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Piedade, ó Deus, piedade!
Agacho-me debaixo da sombra das tuas grandes asas.
Em ti espero a passagem dos flagelos.
Alto Senhor abrindo-se sobre mim, resguarda-me
dos devoradores.
Oh, sê fiel ã tua fidelidade!
Porque a minha alma está deitada entre os leões,
entre fogos e flechas.
Urde-se o canto no silêncio do coração.
Despertai a glória da manhã, ó cítara e alaúde!
Sê fiel á tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Que se embaracem nas redes os que me lançaram
as redes da sua malícia.
Que se envolvam nas suas próprias trevas.
Toldam-se as nuvens em tua graça.
Oh! sê fiel à tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.
Mergulho no lodo profundo, afundo-me no abismo
das águas. Minha vida queimou-se
na espera do Senhor.
Tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas que ela não atinja aqueles que te esperam.
Por ti eu conheci o tempo da confusão, e uma face tenebrosa
se encostou à minha face.
Eu agora sou estranho em casa de minha mãe,
eu agora já não caibo na minha própria casa.
Devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Faço a conta aos inimigos como se contam cabelos.
Tornei-me para eles numa coisa fabulosa.
Nas canções dos bebedores o meu nome passa e passa
como uma sombra maligna.
Que tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Levanta-me do abismo das muitas águas profundas,
tu que sabes toda a angústia.
Alimentaram-me a fel, deram vinagre a beber.
Faz com que tombem á mesa e que a cegueira os fulmine.
E em sua casa vazia e em sua deserta cidade,
o teu furor os calcine!
Volta a folha do teu livro, e o seu nome se dilua.
Mas a mim, que tu vergaste pelas máquinas da dor,
levanta-me do abismo das muitas águas profundas.
Que me devorou o amor da tua Casa longínqua.
Tu me sondas. Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.
Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.
Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.
(Segundo montagem de Jean Grosjean)
Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.
Porque nos pedem cânticos e alegria.
— Entoai, dizem eles, as canções de Sião.
Mas como em terra estranha elevaremos um canto
ao Eterno?
Que me seque a mão direita se te esquecer,
Jerusalém!
E a língua paralise se abandonares
as câmaras da memória,
se Jerusalém não for a mais alta alegria.
Lembra-te, Ó Eterno, de quando
gritavam na terra de Jerusalém: — Devastai-a
até às raízes!
Feliz daquele que em suas mãos erguer teus filhos
e na pedra os esmagar, ó devastadora
filha de Babel!
De dia grito e gemo à noite, à tua frente:
abre-te aos meus soluços. Que te atinja minha dor.
Bêbeda de infortúnio, a minha vida rola.
Estou deitado junto aos mortos e fechado no silêncio,
perdido entre aqueles de quem se perdeu a memória.
A tua fúria me lança nos lugares tenebrosos,
contra mim desencadeias teus turbilhões obscuros.
Apartaste de meu lado os que eram os amigos.
Ao cativo sem esperança o choro consome os olhos.
Digo o teu nome nas trevas, estendo-te as mãos incansáveis —
mas que esperas tu dos mortos? que te importam sombras idas?
Louvam-te acaso a graça na perdição do abismo? Conhece-se o que é justiça
na noite do esquecimento?
Cada manhã meu clamor se levanta para ti:
porque afastas tua face do cerco da minha voz?
Moribundo desde a infância, eu sofri os teus terrores,
teus espantos me esmagaram.
Rodeado pelas ondas, já me afundo sob as vagas.
— Minhas mãos abrem-se e fecham no grande país das trevas.
Meu Deus. meu Deus, porque me abandonaste
e te afastas dos meus gritos?
Brado) em vão e sem repouso.
Encho os dias e as noites com as vozes desta angústia,
e o teu silêncio me cerca.
Chamavam por ti os antigos, e os apelos ecoavam
em tuas altas escarpas.
Eu porém sou como um verme — a vergonha do meu povo.
Escarnece quem me vê:
— Confia no teu Senhor, porque salva aqueles que ama.
Foste tu quem me tirou do ventre de minha mãe,
tu que eras o meu Deus desde o fundo da matriz.
Oh, não te afastes mais de mim, quando a angústia
me rodeia.
Inumeráveis me envolvem os touros de Basã.
Leões que abrem as bocas para me dilacerar.
E os meus ossos desconjuntam-se.
Derrete-se meu coração como cera contra as chamas.
Seca-se a boca de argila.
Ladra o tumulto dos cães. Sangrando de pés e mãos,
rolo sobre um chão mortal.
Espalharam os meus ossos, dividiram minha túnica:
não te afastes mais de mim, ó grande força celeste!
Arranca aos cães e ao gládio esta vida singular.
Toma-a ás garras dos leões e aos altos cornos dos búfalos.
A gazela brame correndo para a água, e corre a minha alma para ti.
Quando verei Aquele de que tenho tanta sede?
Cresce-me o pranto se me perguntam onde está o Deus vivo.
Triste, lembro-me de haver caminhado para ti,
entre os gritos delirantes de um povo na sua festa.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Sobre os montes do exílio tua lembrança me enlouquece.
O abismo tem sede de abismo: tuas chuvas turbilhonantes
caem sempre sobre mim, no fragor das cataratas.
Nascia-me de ti um canto tumultuoso,
longamente agora esqueço nesta inspiração das lágrimas.
— Onde está o Deus vivo? — perguntam-me os frios
de coração. E eu pergunto onde está o meu Deus vivo.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Onde está o Deus vivo, que se não esgota
o tempo das trevas? Sobre os montes do exílio, tremo
e peço que revele a sua luz.
Que eu mencione em minha cítara um Deus de alta presença.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Piedade, ó Deus, piedade!
Agacho-me debaixo da sombra das tuas grandes asas.
Em ti espero a passagem dos flagelos.
Alto Senhor abrindo-se sobre mim, resguarda-me
dos devoradores.
Oh, sê fiel ã tua fidelidade!
Porque a minha alma está deitada entre os leões,
entre fogos e flechas.
Urde-se o canto no silêncio do coração.
Despertai a glória da manhã, ó cítara e alaúde!
Sê fiel á tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Que se embaracem nas redes os que me lançaram
as redes da sua malícia.
Que se envolvam nas suas próprias trevas.
Toldam-se as nuvens em tua graça.
Oh! sê fiel à tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.
Mergulho no lodo profundo, afundo-me no abismo
das águas. Minha vida queimou-se
na espera do Senhor.
Tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas que ela não atinja aqueles que te esperam.
Por ti eu conheci o tempo da confusão, e uma face tenebrosa
se encostou à minha face.
Eu agora sou estranho em casa de minha mãe,
eu agora já não caibo na minha própria casa.
Devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Faço a conta aos inimigos como se contam cabelos.
Tornei-me para eles numa coisa fabulosa.
Nas canções dos bebedores o meu nome passa e passa
como uma sombra maligna.
Que tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Levanta-me do abismo das muitas águas profundas,
tu que sabes toda a angústia.
Alimentaram-me a fel, deram vinagre a beber.
Faz com que tombem á mesa e que a cegueira os fulmine.
E em sua casa vazia e em sua deserta cidade,
o teu furor os calcine!
Volta a folha do teu livro, e o seu nome se dilua.
Mas a mim, que tu vergaste pelas máquinas da dor,
levanta-me do abismo das muitas águas profundas.
Que me devorou o amor da tua Casa longínqua.
Tu me sondas. Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.
Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.
Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.
1 304
Herberto Helder
Poemas do Velho Testamento - Saltério
SALMOS 137, 88, 22, 42, 57, 69 e 139
(Segundo montagem de Jean Grosjean)
Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.
Porque nos pedem cânticos e alegria.
— Entoai, dizem eles, as canções de Sião.
Mas como em terra estranha elevaremos um canto
ao Eterno?
Que me seque a mão direita se te esquecer,
Jerusalém!
E a língua paralise se abandonares
as câmaras da memória,
se Jerusalém não for a mais alta alegria.
Lembra-te, Ó Eterno, de quando
gritavam na terra de Jerusalém: — Devastai-a
até às raízes!
Feliz daquele que em suas mãos erguer teus filhos
e na pedra os esmagar, ó devastadora
filha de Babel!
De dia grito e gemo à noite, à tua frente:
abre-te aos meus soluços. Que te atinja minha dor.
Bêbeda de infortúnio, a minha vida rola.
Estou deitado junto aos mortos e fechado no silêncio,
perdido entre aqueles de quem se perdeu a memória.
A tua fúria me lança nos lugares tenebrosos,
contra mim desencadeias teus turbilhões obscuros.
Apartaste de meu lado os que eram os amigos.
Ao cativo sem esperança o choro consome os olhos.
Digo o teu nome nas trevas, estendo-te as mãos incansáveis —
mas que esperas tu dos mortos? que te importam sombras idas?
Louvam-te acaso a graça na perdição do abismo? Conhece-se o que é justiça
na noite do esquecimento?
Cada manhã meu clamor se levanta para ti:
porque afastas tua face do cerco da minha voz?
Moribundo desde a infância, eu sofri os teus terrores,
teus espantos me esmagaram.
Rodeado pelas ondas, já me afundo sob as vagas.
— Minhas mãos abrem-se e fecham no grande país das trevas.
Meu Deus. meu Deus, porque me abandonaste
e te afastas dos meus gritos?
Brado) em vão e sem repouso.
Encho os dias e as noites com as vozes desta angústia,
e o teu silêncio me cerca.
Chamavam por ti os antigos, e os apelos ecoavam
em tuas altas escarpas.
Eu porém sou como um verme — a vergonha do meu povo.
Escarnece quem me vê:
— Confia no teu Senhor, porque salva aqueles que ama.
Foste tu quem me tirou do ventre de minha mãe,
tu que eras o meu Deus desde o fundo da matriz.
Oh, não te afastes mais de mim, quando a angústia
me rodeia.
Inumeráveis me envolvem os touros de Basã.
Leões que abrem as bocas para me dilacerar.
E os meus ossos desconjuntam-se.
Derrete-se meu coração como cera contra as chamas.
Seca-se a boca de argila.
Ladra o tumulto dos cães. Sangrando de pés e mãos,
rolo sobre um chão mortal.
Espalharam os meus ossos, dividiram minha túnica:
não te afastes mais de mim, ó grande força celeste!
Arranca aos cães e ao gládio esta vida singular.
Toma-a ás garras dos leões e aos altos cornos dos búfalos.
A gazela brame correndo para a água, e corre a minha alma para ti.
Quando verei Aquele de que tenho tanta sede?
Cresce-me o pranto se me perguntam onde está o Deus vivo.
Triste, lembro-me de haver caminhado para ti,
entre os gritos delirantes de um povo na sua festa.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Sobre os montes do exílio tua lembrança me enlouquece.
O abismo tem sede de abismo: tuas chuvas turbilhonantes
caem sempre sobre mim, no fragor das cataratas.
Nascia-me de ti um canto tumultuoso,
longamente agora esqueço nesta inspiração das lágrimas.
— Onde está o Deus vivo? — perguntam-me os frios
de coração. E eu pergunto onde está o meu Deus vivo.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Onde está o Deus vivo, que se não esgota
o tempo das trevas? Sobre os montes do exílio, tremo
e peço que revele a sua luz.
Que eu mencione em minha cítara um Deus de alta presença.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Piedade, ó Deus, piedade!
Agacho-me debaixo da sombra das tuas grandes asas.
Em ti espero a passagem dos flagelos.
Alto Senhor abrindo-se sobre mim, resguarda-me
dos devoradores.
Oh, sê fiel ã tua fidelidade!
Porque a minha alma está deitada entre os leões,
entre fogos e flechas.
Urde-se o canto no silêncio do coração.
Despertai a glória da manhã, ó cítara e alaúde!
Sê fiel á tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Que se embaracem nas redes os que me lançaram
as redes da sua malícia.
Que se envolvam nas suas próprias trevas.
Toldam-se as nuvens em tua graça.
Oh! sê fiel à tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.
Mergulho no lodo profundo, afundo-me no abismo
das águas. Minha vida queimou-se
na espera do Senhor.
Tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas que ela não atinja aqueles que te esperam.
Por ti eu conheci o tempo da confusão, e uma face tenebrosa
se encostou à minha face.
Eu agora sou estranho em casa de minha mãe,
eu agora já não caibo na minha própria casa.
Devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Faço a conta aos inimigos como se contam cabelos.
Tornei-me para eles numa coisa fabulosa.
Nas canções dos bebedores o meu nome passa e passa
como uma sombra maligna.
Que tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Levanta-me do abismo das muitas águas profundas,
tu que sabes toda a angústia.
Alimentaram-me a fel, deram vinagre a beber.
Faz com que tombem á mesa e que a cegueira os fulmine.
E em sua casa vazia e em sua deserta cidade,
o teu furor os calcine!
Volta a folha do teu livro, e o seu nome se dilua.
Mas a mim, que tu vergaste pelas máquinas da dor,
levanta-me do abismo das muitas águas profundas.
Que me devorou o amor da tua Casa longínqua.
Tu me sondas. Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.
Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.
Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.
(Segundo montagem de Jean Grosjean)
Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.
Porque nos pedem cânticos e alegria.
— Entoai, dizem eles, as canções de Sião.
Mas como em terra estranha elevaremos um canto
ao Eterno?
Que me seque a mão direita se te esquecer,
Jerusalém!
E a língua paralise se abandonares
as câmaras da memória,
se Jerusalém não for a mais alta alegria.
Lembra-te, Ó Eterno, de quando
gritavam na terra de Jerusalém: — Devastai-a
até às raízes!
Feliz daquele que em suas mãos erguer teus filhos
e na pedra os esmagar, ó devastadora
filha de Babel!
De dia grito e gemo à noite, à tua frente:
abre-te aos meus soluços. Que te atinja minha dor.
Bêbeda de infortúnio, a minha vida rola.
Estou deitado junto aos mortos e fechado no silêncio,
perdido entre aqueles de quem se perdeu a memória.
A tua fúria me lança nos lugares tenebrosos,
contra mim desencadeias teus turbilhões obscuros.
Apartaste de meu lado os que eram os amigos.
Ao cativo sem esperança o choro consome os olhos.
Digo o teu nome nas trevas, estendo-te as mãos incansáveis —
mas que esperas tu dos mortos? que te importam sombras idas?
Louvam-te acaso a graça na perdição do abismo? Conhece-se o que é justiça
na noite do esquecimento?
Cada manhã meu clamor se levanta para ti:
porque afastas tua face do cerco da minha voz?
Moribundo desde a infância, eu sofri os teus terrores,
teus espantos me esmagaram.
Rodeado pelas ondas, já me afundo sob as vagas.
— Minhas mãos abrem-se e fecham no grande país das trevas.
Meu Deus. meu Deus, porque me abandonaste
e te afastas dos meus gritos?
Brado) em vão e sem repouso.
Encho os dias e as noites com as vozes desta angústia,
e o teu silêncio me cerca.
Chamavam por ti os antigos, e os apelos ecoavam
em tuas altas escarpas.
Eu porém sou como um verme — a vergonha do meu povo.
Escarnece quem me vê:
— Confia no teu Senhor, porque salva aqueles que ama.
Foste tu quem me tirou do ventre de minha mãe,
tu que eras o meu Deus desde o fundo da matriz.
Oh, não te afastes mais de mim, quando a angústia
me rodeia.
Inumeráveis me envolvem os touros de Basã.
Leões que abrem as bocas para me dilacerar.
E os meus ossos desconjuntam-se.
Derrete-se meu coração como cera contra as chamas.
Seca-se a boca de argila.
Ladra o tumulto dos cães. Sangrando de pés e mãos,
rolo sobre um chão mortal.
Espalharam os meus ossos, dividiram minha túnica:
não te afastes mais de mim, ó grande força celeste!
Arranca aos cães e ao gládio esta vida singular.
Toma-a ás garras dos leões e aos altos cornos dos búfalos.
A gazela brame correndo para a água, e corre a minha alma para ti.
Quando verei Aquele de que tenho tanta sede?
Cresce-me o pranto se me perguntam onde está o Deus vivo.
Triste, lembro-me de haver caminhado para ti,
entre os gritos delirantes de um povo na sua festa.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Sobre os montes do exílio tua lembrança me enlouquece.
O abismo tem sede de abismo: tuas chuvas turbilhonantes
caem sempre sobre mim, no fragor das cataratas.
Nascia-me de ti um canto tumultuoso,
longamente agora esqueço nesta inspiração das lágrimas.
— Onde está o Deus vivo? — perguntam-me os frios
de coração. E eu pergunto onde está o meu Deus vivo.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Onde está o Deus vivo, que se não esgota
o tempo das trevas? Sobre os montes do exílio, tremo
e peço que revele a sua luz.
Que eu mencione em minha cítara um Deus de alta presença.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Piedade, ó Deus, piedade!
Agacho-me debaixo da sombra das tuas grandes asas.
Em ti espero a passagem dos flagelos.
Alto Senhor abrindo-se sobre mim, resguarda-me
dos devoradores.
Oh, sê fiel ã tua fidelidade!
Porque a minha alma está deitada entre os leões,
entre fogos e flechas.
Urde-se o canto no silêncio do coração.
Despertai a glória da manhã, ó cítara e alaúde!
Sê fiel á tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Que se embaracem nas redes os que me lançaram
as redes da sua malícia.
Que se envolvam nas suas próprias trevas.
Toldam-se as nuvens em tua graça.
Oh! sê fiel à tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.
Mergulho no lodo profundo, afundo-me no abismo
das águas. Minha vida queimou-se
na espera do Senhor.
Tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas que ela não atinja aqueles que te esperam.
Por ti eu conheci o tempo da confusão, e uma face tenebrosa
se encostou à minha face.
Eu agora sou estranho em casa de minha mãe,
eu agora já não caibo na minha própria casa.
Devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Faço a conta aos inimigos como se contam cabelos.
Tornei-me para eles numa coisa fabulosa.
Nas canções dos bebedores o meu nome passa e passa
como uma sombra maligna.
Que tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Levanta-me do abismo das muitas águas profundas,
tu que sabes toda a angústia.
Alimentaram-me a fel, deram vinagre a beber.
Faz com que tombem á mesa e que a cegueira os fulmine.
E em sua casa vazia e em sua deserta cidade,
o teu furor os calcine!
Volta a folha do teu livro, e o seu nome se dilua.
Mas a mim, que tu vergaste pelas máquinas da dor,
levanta-me do abismo das muitas águas profundas.
Que me devorou o amor da tua Casa longínqua.
Tu me sondas. Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.
Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.
Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.
1 304
Herberto Helder
Poemas do Velho Testamento - Saltério
SALMOS 137, 88, 22, 42, 57, 69 e 139
(Segundo montagem de Jean Grosjean)
Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.
Porque nos pedem cânticos e alegria.
— Entoai, dizem eles, as canções de Sião.
Mas como em terra estranha elevaremos um canto
ao Eterno?
Que me seque a mão direita se te esquecer,
Jerusalém!
E a língua paralise se abandonares
as câmaras da memória,
se Jerusalém não for a mais alta alegria.
Lembra-te, Ó Eterno, de quando
gritavam na terra de Jerusalém: — Devastai-a
até às raízes!
Feliz daquele que em suas mãos erguer teus filhos
e na pedra os esmagar, ó devastadora
filha de Babel!
De dia grito e gemo à noite, à tua frente:
abre-te aos meus soluços. Que te atinja minha dor.
Bêbeda de infortúnio, a minha vida rola.
Estou deitado junto aos mortos e fechado no silêncio,
perdido entre aqueles de quem se perdeu a memória.
A tua fúria me lança nos lugares tenebrosos,
contra mim desencadeias teus turbilhões obscuros.
Apartaste de meu lado os que eram os amigos.
Ao cativo sem esperança o choro consome os olhos.
Digo o teu nome nas trevas, estendo-te as mãos incansáveis —
mas que esperas tu dos mortos? que te importam sombras idas?
Louvam-te acaso a graça na perdição do abismo? Conhece-se o que é justiça
na noite do esquecimento?
Cada manhã meu clamor se levanta para ti:
porque afastas tua face do cerco da minha voz?
Moribundo desde a infância, eu sofri os teus terrores,
teus espantos me esmagaram.
Rodeado pelas ondas, já me afundo sob as vagas.
— Minhas mãos abrem-se e fecham no grande país das trevas.
Meu Deus. meu Deus, porque me abandonaste
e te afastas dos meus gritos?
Brado) em vão e sem repouso.
Encho os dias e as noites com as vozes desta angústia,
e o teu silêncio me cerca.
Chamavam por ti os antigos, e os apelos ecoavam
em tuas altas escarpas.
Eu porém sou como um verme — a vergonha do meu povo.
Escarnece quem me vê:
— Confia no teu Senhor, porque salva aqueles que ama.
Foste tu quem me tirou do ventre de minha mãe,
tu que eras o meu Deus desde o fundo da matriz.
Oh, não te afastes mais de mim, quando a angústia
me rodeia.
Inumeráveis me envolvem os touros de Basã.
Leões que abrem as bocas para me dilacerar.
E os meus ossos desconjuntam-se.
Derrete-se meu coração como cera contra as chamas.
Seca-se a boca de argila.
Ladra o tumulto dos cães. Sangrando de pés e mãos,
rolo sobre um chão mortal.
Espalharam os meus ossos, dividiram minha túnica:
não te afastes mais de mim, ó grande força celeste!
Arranca aos cães e ao gládio esta vida singular.
Toma-a ás garras dos leões e aos altos cornos dos búfalos.
A gazela brame correndo para a água, e corre a minha alma para ti.
Quando verei Aquele de que tenho tanta sede?
Cresce-me o pranto se me perguntam onde está o Deus vivo.
Triste, lembro-me de haver caminhado para ti,
entre os gritos delirantes de um povo na sua festa.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Sobre os montes do exílio tua lembrança me enlouquece.
O abismo tem sede de abismo: tuas chuvas turbilhonantes
caem sempre sobre mim, no fragor das cataratas.
Nascia-me de ti um canto tumultuoso,
longamente agora esqueço nesta inspiração das lágrimas.
— Onde está o Deus vivo? — perguntam-me os frios
de coração. E eu pergunto onde está o meu Deus vivo.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Onde está o Deus vivo, que se não esgota
o tempo das trevas? Sobre os montes do exílio, tremo
e peço que revele a sua luz.
Que eu mencione em minha cítara um Deus de alta presença.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Piedade, ó Deus, piedade!
Agacho-me debaixo da sombra das tuas grandes asas.
Em ti espero a passagem dos flagelos.
Alto Senhor abrindo-se sobre mim, resguarda-me
dos devoradores.
Oh, sê fiel ã tua fidelidade!
Porque a minha alma está deitada entre os leões,
entre fogos e flechas.
Urde-se o canto no silêncio do coração.
Despertai a glória da manhã, ó cítara e alaúde!
Sê fiel á tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Que se embaracem nas redes os que me lançaram
as redes da sua malícia.
Que se envolvam nas suas próprias trevas.
Toldam-se as nuvens em tua graça.
Oh! sê fiel à tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.
Mergulho no lodo profundo, afundo-me no abismo
das águas. Minha vida queimou-se
na espera do Senhor.
Tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas que ela não atinja aqueles que te esperam.
Por ti eu conheci o tempo da confusão, e uma face tenebrosa
se encostou à minha face.
Eu agora sou estranho em casa de minha mãe,
eu agora já não caibo na minha própria casa.
Devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Faço a conta aos inimigos como se contam cabelos.
Tornei-me para eles numa coisa fabulosa.
Nas canções dos bebedores o meu nome passa e passa
como uma sombra maligna.
Que tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Levanta-me do abismo das muitas águas profundas,
tu que sabes toda a angústia.
Alimentaram-me a fel, deram vinagre a beber.
Faz com que tombem á mesa e que a cegueira os fulmine.
E em sua casa vazia e em sua deserta cidade,
o teu furor os calcine!
Volta a folha do teu livro, e o seu nome se dilua.
Mas a mim, que tu vergaste pelas máquinas da dor,
levanta-me do abismo das muitas águas profundas.
Que me devorou o amor da tua Casa longínqua.
Tu me sondas. Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.
Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.
Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.
(Segundo montagem de Jean Grosjean)
Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.
Porque nos pedem cânticos e alegria.
— Entoai, dizem eles, as canções de Sião.
Mas como em terra estranha elevaremos um canto
ao Eterno?
Que me seque a mão direita se te esquecer,
Jerusalém!
E a língua paralise se abandonares
as câmaras da memória,
se Jerusalém não for a mais alta alegria.
Lembra-te, Ó Eterno, de quando
gritavam na terra de Jerusalém: — Devastai-a
até às raízes!
Feliz daquele que em suas mãos erguer teus filhos
e na pedra os esmagar, ó devastadora
filha de Babel!
De dia grito e gemo à noite, à tua frente:
abre-te aos meus soluços. Que te atinja minha dor.
Bêbeda de infortúnio, a minha vida rola.
Estou deitado junto aos mortos e fechado no silêncio,
perdido entre aqueles de quem se perdeu a memória.
A tua fúria me lança nos lugares tenebrosos,
contra mim desencadeias teus turbilhões obscuros.
Apartaste de meu lado os que eram os amigos.
Ao cativo sem esperança o choro consome os olhos.
Digo o teu nome nas trevas, estendo-te as mãos incansáveis —
mas que esperas tu dos mortos? que te importam sombras idas?
Louvam-te acaso a graça na perdição do abismo? Conhece-se o que é justiça
na noite do esquecimento?
Cada manhã meu clamor se levanta para ti:
porque afastas tua face do cerco da minha voz?
Moribundo desde a infância, eu sofri os teus terrores,
teus espantos me esmagaram.
Rodeado pelas ondas, já me afundo sob as vagas.
— Minhas mãos abrem-se e fecham no grande país das trevas.
Meu Deus. meu Deus, porque me abandonaste
e te afastas dos meus gritos?
Brado) em vão e sem repouso.
Encho os dias e as noites com as vozes desta angústia,
e o teu silêncio me cerca.
Chamavam por ti os antigos, e os apelos ecoavam
em tuas altas escarpas.
Eu porém sou como um verme — a vergonha do meu povo.
Escarnece quem me vê:
— Confia no teu Senhor, porque salva aqueles que ama.
Foste tu quem me tirou do ventre de minha mãe,
tu que eras o meu Deus desde o fundo da matriz.
Oh, não te afastes mais de mim, quando a angústia
me rodeia.
Inumeráveis me envolvem os touros de Basã.
Leões que abrem as bocas para me dilacerar.
E os meus ossos desconjuntam-se.
Derrete-se meu coração como cera contra as chamas.
Seca-se a boca de argila.
Ladra o tumulto dos cães. Sangrando de pés e mãos,
rolo sobre um chão mortal.
Espalharam os meus ossos, dividiram minha túnica:
não te afastes mais de mim, ó grande força celeste!
Arranca aos cães e ao gládio esta vida singular.
Toma-a ás garras dos leões e aos altos cornos dos búfalos.
A gazela brame correndo para a água, e corre a minha alma para ti.
Quando verei Aquele de que tenho tanta sede?
Cresce-me o pranto se me perguntam onde está o Deus vivo.
Triste, lembro-me de haver caminhado para ti,
entre os gritos delirantes de um povo na sua festa.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Sobre os montes do exílio tua lembrança me enlouquece.
O abismo tem sede de abismo: tuas chuvas turbilhonantes
caem sempre sobre mim, no fragor das cataratas.
Nascia-me de ti um canto tumultuoso,
longamente agora esqueço nesta inspiração das lágrimas.
— Onde está o Deus vivo? — perguntam-me os frios
de coração. E eu pergunto onde está o meu Deus vivo.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Onde está o Deus vivo, que se não esgota
o tempo das trevas? Sobre os montes do exílio, tremo
e peço que revele a sua luz.
Que eu mencione em minha cítara um Deus de alta presença.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Piedade, ó Deus, piedade!
Agacho-me debaixo da sombra das tuas grandes asas.
Em ti espero a passagem dos flagelos.
Alto Senhor abrindo-se sobre mim, resguarda-me
dos devoradores.
Oh, sê fiel ã tua fidelidade!
Porque a minha alma está deitada entre os leões,
entre fogos e flechas.
Urde-se o canto no silêncio do coração.
Despertai a glória da manhã, ó cítara e alaúde!
Sê fiel á tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Que se embaracem nas redes os que me lançaram
as redes da sua malícia.
Que se envolvam nas suas próprias trevas.
Toldam-se as nuvens em tua graça.
Oh! sê fiel à tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.
Mergulho no lodo profundo, afundo-me no abismo
das águas. Minha vida queimou-se
na espera do Senhor.
Tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas que ela não atinja aqueles que te esperam.
Por ti eu conheci o tempo da confusão, e uma face tenebrosa
se encostou à minha face.
Eu agora sou estranho em casa de minha mãe,
eu agora já não caibo na minha própria casa.
Devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Faço a conta aos inimigos como se contam cabelos.
Tornei-me para eles numa coisa fabulosa.
Nas canções dos bebedores o meu nome passa e passa
como uma sombra maligna.
Que tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Levanta-me do abismo das muitas águas profundas,
tu que sabes toda a angústia.
Alimentaram-me a fel, deram vinagre a beber.
Faz com que tombem á mesa e que a cegueira os fulmine.
E em sua casa vazia e em sua deserta cidade,
o teu furor os calcine!
Volta a folha do teu livro, e o seu nome se dilua.
Mas a mim, que tu vergaste pelas máquinas da dor,
levanta-me do abismo das muitas águas profundas.
Que me devorou o amor da tua Casa longínqua.
Tu me sondas. Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.
Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.
Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.
1 304
Herberto Helder
Poemas do Velho Testamento - Saltério
SALMOS 137, 88, 22, 42, 57, 69 e 139
(Segundo montagem de Jean Grosjean)
Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.
Porque nos pedem cânticos e alegria.
— Entoai, dizem eles, as canções de Sião.
Mas como em terra estranha elevaremos um canto
ao Eterno?
Que me seque a mão direita se te esquecer,
Jerusalém!
E a língua paralise se abandonares
as câmaras da memória,
se Jerusalém não for a mais alta alegria.
Lembra-te, Ó Eterno, de quando
gritavam na terra de Jerusalém: — Devastai-a
até às raízes!
Feliz daquele que em suas mãos erguer teus filhos
e na pedra os esmagar, ó devastadora
filha de Babel!
De dia grito e gemo à noite, à tua frente:
abre-te aos meus soluços. Que te atinja minha dor.
Bêbeda de infortúnio, a minha vida rola.
Estou deitado junto aos mortos e fechado no silêncio,
perdido entre aqueles de quem se perdeu a memória.
A tua fúria me lança nos lugares tenebrosos,
contra mim desencadeias teus turbilhões obscuros.
Apartaste de meu lado os que eram os amigos.
Ao cativo sem esperança o choro consome os olhos.
Digo o teu nome nas trevas, estendo-te as mãos incansáveis —
mas que esperas tu dos mortos? que te importam sombras idas?
Louvam-te acaso a graça na perdição do abismo? Conhece-se o que é justiça
na noite do esquecimento?
Cada manhã meu clamor se levanta para ti:
porque afastas tua face do cerco da minha voz?
Moribundo desde a infância, eu sofri os teus terrores,
teus espantos me esmagaram.
Rodeado pelas ondas, já me afundo sob as vagas.
— Minhas mãos abrem-se e fecham no grande país das trevas.
Meu Deus. meu Deus, porque me abandonaste
e te afastas dos meus gritos?
Brado) em vão e sem repouso.
Encho os dias e as noites com as vozes desta angústia,
e o teu silêncio me cerca.
Chamavam por ti os antigos, e os apelos ecoavam
em tuas altas escarpas.
Eu porém sou como um verme — a vergonha do meu povo.
Escarnece quem me vê:
— Confia no teu Senhor, porque salva aqueles que ama.
Foste tu quem me tirou do ventre de minha mãe,
tu que eras o meu Deus desde o fundo da matriz.
Oh, não te afastes mais de mim, quando a angústia
me rodeia.
Inumeráveis me envolvem os touros de Basã.
Leões que abrem as bocas para me dilacerar.
E os meus ossos desconjuntam-se.
Derrete-se meu coração como cera contra as chamas.
Seca-se a boca de argila.
Ladra o tumulto dos cães. Sangrando de pés e mãos,
rolo sobre um chão mortal.
Espalharam os meus ossos, dividiram minha túnica:
não te afastes mais de mim, ó grande força celeste!
Arranca aos cães e ao gládio esta vida singular.
Toma-a ás garras dos leões e aos altos cornos dos búfalos.
A gazela brame correndo para a água, e corre a minha alma para ti.
Quando verei Aquele de que tenho tanta sede?
Cresce-me o pranto se me perguntam onde está o Deus vivo.
Triste, lembro-me de haver caminhado para ti,
entre os gritos delirantes de um povo na sua festa.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Sobre os montes do exílio tua lembrança me enlouquece.
O abismo tem sede de abismo: tuas chuvas turbilhonantes
caem sempre sobre mim, no fragor das cataratas.
Nascia-me de ti um canto tumultuoso,
longamente agora esqueço nesta inspiração das lágrimas.
— Onde está o Deus vivo? — perguntam-me os frios
de coração. E eu pergunto onde está o meu Deus vivo.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Onde está o Deus vivo, que se não esgota
o tempo das trevas? Sobre os montes do exílio, tremo
e peço que revele a sua luz.
Que eu mencione em minha cítara um Deus de alta presença.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Piedade, ó Deus, piedade!
Agacho-me debaixo da sombra das tuas grandes asas.
Em ti espero a passagem dos flagelos.
Alto Senhor abrindo-se sobre mim, resguarda-me
dos devoradores.
Oh, sê fiel ã tua fidelidade!
Porque a minha alma está deitada entre os leões,
entre fogos e flechas.
Urde-se o canto no silêncio do coração.
Despertai a glória da manhã, ó cítara e alaúde!
Sê fiel á tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Que se embaracem nas redes os que me lançaram
as redes da sua malícia.
Que se envolvam nas suas próprias trevas.
Toldam-se as nuvens em tua graça.
Oh! sê fiel à tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.
Mergulho no lodo profundo, afundo-me no abismo
das águas. Minha vida queimou-se
na espera do Senhor.
Tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas que ela não atinja aqueles que te esperam.
Por ti eu conheci o tempo da confusão, e uma face tenebrosa
se encostou à minha face.
Eu agora sou estranho em casa de minha mãe,
eu agora já não caibo na minha própria casa.
Devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Faço a conta aos inimigos como se contam cabelos.
Tornei-me para eles numa coisa fabulosa.
Nas canções dos bebedores o meu nome passa e passa
como uma sombra maligna.
Que tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Levanta-me do abismo das muitas águas profundas,
tu que sabes toda a angústia.
Alimentaram-me a fel, deram vinagre a beber.
Faz com que tombem á mesa e que a cegueira os fulmine.
E em sua casa vazia e em sua deserta cidade,
o teu furor os calcine!
Volta a folha do teu livro, e o seu nome se dilua.
Mas a mim, que tu vergaste pelas máquinas da dor,
levanta-me do abismo das muitas águas profundas.
Que me devorou o amor da tua Casa longínqua.
Tu me sondas. Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.
Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.
Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.
(Segundo montagem de Jean Grosjean)
Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.
Porque nos pedem cânticos e alegria.
— Entoai, dizem eles, as canções de Sião.
Mas como em terra estranha elevaremos um canto
ao Eterno?
Que me seque a mão direita se te esquecer,
Jerusalém!
E a língua paralise se abandonares
as câmaras da memória,
se Jerusalém não for a mais alta alegria.
Lembra-te, Ó Eterno, de quando
gritavam na terra de Jerusalém: — Devastai-a
até às raízes!
Feliz daquele que em suas mãos erguer teus filhos
e na pedra os esmagar, ó devastadora
filha de Babel!
De dia grito e gemo à noite, à tua frente:
abre-te aos meus soluços. Que te atinja minha dor.
Bêbeda de infortúnio, a minha vida rola.
Estou deitado junto aos mortos e fechado no silêncio,
perdido entre aqueles de quem se perdeu a memória.
A tua fúria me lança nos lugares tenebrosos,
contra mim desencadeias teus turbilhões obscuros.
Apartaste de meu lado os que eram os amigos.
Ao cativo sem esperança o choro consome os olhos.
Digo o teu nome nas trevas, estendo-te as mãos incansáveis —
mas que esperas tu dos mortos? que te importam sombras idas?
Louvam-te acaso a graça na perdição do abismo? Conhece-se o que é justiça
na noite do esquecimento?
Cada manhã meu clamor se levanta para ti:
porque afastas tua face do cerco da minha voz?
Moribundo desde a infância, eu sofri os teus terrores,
teus espantos me esmagaram.
Rodeado pelas ondas, já me afundo sob as vagas.
— Minhas mãos abrem-se e fecham no grande país das trevas.
Meu Deus. meu Deus, porque me abandonaste
e te afastas dos meus gritos?
Brado) em vão e sem repouso.
Encho os dias e as noites com as vozes desta angústia,
e o teu silêncio me cerca.
Chamavam por ti os antigos, e os apelos ecoavam
em tuas altas escarpas.
Eu porém sou como um verme — a vergonha do meu povo.
Escarnece quem me vê:
— Confia no teu Senhor, porque salva aqueles que ama.
Foste tu quem me tirou do ventre de minha mãe,
tu que eras o meu Deus desde o fundo da matriz.
Oh, não te afastes mais de mim, quando a angústia
me rodeia.
Inumeráveis me envolvem os touros de Basã.
Leões que abrem as bocas para me dilacerar.
E os meus ossos desconjuntam-se.
Derrete-se meu coração como cera contra as chamas.
Seca-se a boca de argila.
Ladra o tumulto dos cães. Sangrando de pés e mãos,
rolo sobre um chão mortal.
Espalharam os meus ossos, dividiram minha túnica:
não te afastes mais de mim, ó grande força celeste!
Arranca aos cães e ao gládio esta vida singular.
Toma-a ás garras dos leões e aos altos cornos dos búfalos.
A gazela brame correndo para a água, e corre a minha alma para ti.
Quando verei Aquele de que tenho tanta sede?
Cresce-me o pranto se me perguntam onde está o Deus vivo.
Triste, lembro-me de haver caminhado para ti,
entre os gritos delirantes de um povo na sua festa.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Sobre os montes do exílio tua lembrança me enlouquece.
O abismo tem sede de abismo: tuas chuvas turbilhonantes
caem sempre sobre mim, no fragor das cataratas.
Nascia-me de ti um canto tumultuoso,
longamente agora esqueço nesta inspiração das lágrimas.
— Onde está o Deus vivo? — perguntam-me os frios
de coração. E eu pergunto onde está o meu Deus vivo.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Onde está o Deus vivo, que se não esgota
o tempo das trevas? Sobre os montes do exílio, tremo
e peço que revele a sua luz.
Que eu mencione em minha cítara um Deus de alta presença.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Piedade, ó Deus, piedade!
Agacho-me debaixo da sombra das tuas grandes asas.
Em ti espero a passagem dos flagelos.
Alto Senhor abrindo-se sobre mim, resguarda-me
dos devoradores.
Oh, sê fiel ã tua fidelidade!
Porque a minha alma está deitada entre os leões,
entre fogos e flechas.
Urde-se o canto no silêncio do coração.
Despertai a glória da manhã, ó cítara e alaúde!
Sê fiel á tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Que se embaracem nas redes os que me lançaram
as redes da sua malícia.
Que se envolvam nas suas próprias trevas.
Toldam-se as nuvens em tua graça.
Oh! sê fiel à tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.
Mergulho no lodo profundo, afundo-me no abismo
das águas. Minha vida queimou-se
na espera do Senhor.
Tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas que ela não atinja aqueles que te esperam.
Por ti eu conheci o tempo da confusão, e uma face tenebrosa
se encostou à minha face.
Eu agora sou estranho em casa de minha mãe,
eu agora já não caibo na minha própria casa.
Devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Faço a conta aos inimigos como se contam cabelos.
Tornei-me para eles numa coisa fabulosa.
Nas canções dos bebedores o meu nome passa e passa
como uma sombra maligna.
Que tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Levanta-me do abismo das muitas águas profundas,
tu que sabes toda a angústia.
Alimentaram-me a fel, deram vinagre a beber.
Faz com que tombem á mesa e que a cegueira os fulmine.
E em sua casa vazia e em sua deserta cidade,
o teu furor os calcine!
Volta a folha do teu livro, e o seu nome se dilua.
Mas a mim, que tu vergaste pelas máquinas da dor,
levanta-me do abismo das muitas águas profundas.
Que me devorou o amor da tua Casa longínqua.
Tu me sondas. Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.
Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.
Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.
1 304
Herberto Helder
Canções Indonésias
Perdi uma pérola na erva.
Pérola perdida que guarda o seu oculto oriente.
— O amor àquela que amo um dia se perderá:
pérola de orvalho que morre e que fulgura.
Formigas vermelhas no bambu vazio, vaso
repleto de essência de rosas —
se a luxúria enche o meu corpo fundo,
apenas minha amada o pode esvaziar.
Ouve-se a água bater no coração do coco verde,
e enquanto amadurece, o dúrio guarda os seus segredos.
Eu sei porque te quero nas minhas mãos,
mas tu ignoras porque te queres na minha boca.
Abre o fruto de odor inquietante,
e nunca, nunca mais te poderás saciar.
Os caroços escorregam como ovos debaixo dos teus dedos.
O sumo é forte e doce como o alho e o leite.
Aos milhares voam os pombos
um apenas vem pousar na minha cerca.
— Eu queria morrer na ponta da tua unha,
queria ser enterrado na palma da tua mão.
Se até vós subir o movimento das águas,
querereis um com o outro vos banhar? —
E se até vós subir o movimento da morte,
querereis um com o outro vos banhar?
Pérola perdida que guarda o seu oculto oriente.
— O amor àquela que amo um dia se perderá:
pérola de orvalho que morre e que fulgura.
Formigas vermelhas no bambu vazio, vaso
repleto de essência de rosas —
se a luxúria enche o meu corpo fundo,
apenas minha amada o pode esvaziar.
Ouve-se a água bater no coração do coco verde,
e enquanto amadurece, o dúrio guarda os seus segredos.
Eu sei porque te quero nas minhas mãos,
mas tu ignoras porque te queres na minha boca.
Abre o fruto de odor inquietante,
e nunca, nunca mais te poderás saciar.
Os caroços escorregam como ovos debaixo dos teus dedos.
O sumo é forte e doce como o alho e o leite.
Aos milhares voam os pombos
um apenas vem pousar na minha cerca.
— Eu queria morrer na ponta da tua unha,
queria ser enterrado na palma da tua mão.
Se até vós subir o movimento das águas,
querereis um com o outro vos banhar? —
E se até vós subir o movimento da morte,
querereis um com o outro vos banhar?
1 053
Herberto Helder
Poemas do Antigo Egipto - Ode do Desesperado
A morte está agora diante de mim
como a saúde diante do inválido,
como abandonar um quarto após a doença.
A morte está agora diante de mim
como o odor da mirra,
como sentar-se sob uma tenda num dia de vento.
A morte está agora diante de mim
como o perfume do lótus,
como sentar-se á beira da embriaguez.
A morte está agora diante de mim
como o fim da chuva,
como o regresso de um homem
que um dia partiu para além-mar.
A morte está agora diante de mim
como o instante em que o céu se torna puro,
como o desejo de um homem de rever a pátria
depois de longos, longos anos de cativeiro.
como a saúde diante do inválido,
como abandonar um quarto após a doença.
A morte está agora diante de mim
como o odor da mirra,
como sentar-se sob uma tenda num dia de vento.
A morte está agora diante de mim
como o perfume do lótus,
como sentar-se á beira da embriaguez.
A morte está agora diante de mim
como o fim da chuva,
como o regresso de um homem
que um dia partiu para além-mar.
A morte está agora diante de mim
como o instante em que o céu se torna puro,
como o desejo de um homem de rever a pátria
depois de longos, longos anos de cativeiro.
1 219
Herberto Helder
Canção da Cabília
Leve, aparece na dança —
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.
Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.
Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.
— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.
Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.
— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.
Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.
Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.
Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.
— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.
Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.
— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.
Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras
1 024
Herberto Helder
Canção da Cabília
Leve, aparece na dança —
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.
Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.
Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.
— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.
Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.
— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.
Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.
Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.
Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.
— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.
Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.
— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.
Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras
1 024
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Terceiro Poema
Quem é que sobe do deserto como uma coluna de fumo,
vapor de mirra e de incenso,
vapor de todos os perfumes exóticos?
Eis a liteira de Salomão, rodeada
por sessenta guerreiros de estirpe,
nata dos guerreiros de Israel.
Todos valentes na guerra, trazem à cinta
as espadas,
por causa das ciladas nocturnas.
o rei Salomão mandou construir um trono para si
em madeira do Líbano.
Fez-lhe de prata as colunas, de ouro o dossel,
e o assento de púrpura.
O fundo é uma marchetaria de ébano.
— Vinde ver, ó raparigas de Sião, o meu amado
trazendo o diadema que lhe pôs sua mãe
no dia dos esponsais,
no dia da alegria do seu coração.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas, atrás do véu.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras,
descendo pelas vertentes de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Teus lábios, um fio de escarlata;
e mansas, as palavras que dizes.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
No meio das tranças, levanta-se teu pescoço,
semelhante á torre de David,
edificada para pendurar os broquéis
e os escudos redondos dos guerreiros.
Teus seios são como duas corçazinhas gémeas
pastando por entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite.
irei à montanha da mirra,
à colina do incenso.
Como és bela bela, minha amada, e pura.
Vem comigo do Líbano, meu amor,
comigo do Líbano.
Abaixa teus olhos dos cimos do Amana,
dos cimos do Samir e do Hermon,
covil de leões,
montanhas de leopardos.
Arrebataste meu coração, minha irmã, minha amada,
arrebataste meu coração,
com um só dos teus olhares,
com uma única pérola do teu colar.
Magnífico é o teu amor, minha irmã, minha amada.
E o cheiro dos teus perfumes, melhor
que todos os bálsamos.
Teus lábios, ó minha amada, destilam mel virgem.
Leite e mel na tua língua.
O cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano.
Horto fechado és tu, minha irmã, minha amada,
horto fechado, fonte secreta.
Floresces como um pomar de romãzeiras,
no meio dos aromas raros:
o nardo, e o açafrão, e o cinamomo, e a cana,
e as árvores do incenso, e a mirra, e o aloés —
com os perfumes mais finos.
Ó fonte que fecundas os jardins,
poço de águas vivas, ribeira descendo do Líbano.
Levanta-te, vento norte; corre, vento sul.
Batei no meu jardim, e que os aromas se espalhem.
Entre o meu amacio no seu jardim e prove
seus frutos pesados.
Eu entro no meu jardim, minha irmã, minha amada,
eu colho a minha mirra e o meu bálsamo.
Eu entro no meu jardim, eu como o mel e o favo,
eu bebo o vinho e o leite.
— Comei, amigos. Bebei,
embriagai-vos, ó amados.
vapor de mirra e de incenso,
vapor de todos os perfumes exóticos?
Eis a liteira de Salomão, rodeada
por sessenta guerreiros de estirpe,
nata dos guerreiros de Israel.
Todos valentes na guerra, trazem à cinta
as espadas,
por causa das ciladas nocturnas.
o rei Salomão mandou construir um trono para si
em madeira do Líbano.
Fez-lhe de prata as colunas, de ouro o dossel,
e o assento de púrpura.
O fundo é uma marchetaria de ébano.
— Vinde ver, ó raparigas de Sião, o meu amado
trazendo o diadema que lhe pôs sua mãe
no dia dos esponsais,
no dia da alegria do seu coração.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas, atrás do véu.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras,
descendo pelas vertentes de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Teus lábios, um fio de escarlata;
e mansas, as palavras que dizes.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
No meio das tranças, levanta-se teu pescoço,
semelhante á torre de David,
edificada para pendurar os broquéis
e os escudos redondos dos guerreiros.
Teus seios são como duas corçazinhas gémeas
pastando por entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite.
irei à montanha da mirra,
à colina do incenso.
Como és bela bela, minha amada, e pura.
Vem comigo do Líbano, meu amor,
comigo do Líbano.
Abaixa teus olhos dos cimos do Amana,
dos cimos do Samir e do Hermon,
covil de leões,
montanhas de leopardos.
Arrebataste meu coração, minha irmã, minha amada,
arrebataste meu coração,
com um só dos teus olhares,
com uma única pérola do teu colar.
Magnífico é o teu amor, minha irmã, minha amada.
E o cheiro dos teus perfumes, melhor
que todos os bálsamos.
Teus lábios, ó minha amada, destilam mel virgem.
Leite e mel na tua língua.
O cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano.
Horto fechado és tu, minha irmã, minha amada,
horto fechado, fonte secreta.
Floresces como um pomar de romãzeiras,
no meio dos aromas raros:
o nardo, e o açafrão, e o cinamomo, e a cana,
e as árvores do incenso, e a mirra, e o aloés —
com os perfumes mais finos.
Ó fonte que fecundas os jardins,
poço de águas vivas, ribeira descendo do Líbano.
Levanta-te, vento norte; corre, vento sul.
Batei no meu jardim, e que os aromas se espalhem.
Entre o meu amacio no seu jardim e prove
seus frutos pesados.
Eu entro no meu jardim, minha irmã, minha amada,
eu colho a minha mirra e o meu bálsamo.
Eu entro no meu jardim, eu como o mel e o favo,
eu bebo o vinho e o leite.
— Comei, amigos. Bebei,
embriagai-vos, ó amados.
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Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Terceiro Poema
Quem é que sobe do deserto como uma coluna de fumo,
vapor de mirra e de incenso,
vapor de todos os perfumes exóticos?
Eis a liteira de Salomão, rodeada
por sessenta guerreiros de estirpe,
nata dos guerreiros de Israel.
Todos valentes na guerra, trazem à cinta
as espadas,
por causa das ciladas nocturnas.
o rei Salomão mandou construir um trono para si
em madeira do Líbano.
Fez-lhe de prata as colunas, de ouro o dossel,
e o assento de púrpura.
O fundo é uma marchetaria de ébano.
— Vinde ver, ó raparigas de Sião, o meu amado
trazendo o diadema que lhe pôs sua mãe
no dia dos esponsais,
no dia da alegria do seu coração.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas, atrás do véu.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras,
descendo pelas vertentes de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Teus lábios, um fio de escarlata;
e mansas, as palavras que dizes.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
No meio das tranças, levanta-se teu pescoço,
semelhante á torre de David,
edificada para pendurar os broquéis
e os escudos redondos dos guerreiros.
Teus seios são como duas corçazinhas gémeas
pastando por entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite.
irei à montanha da mirra,
à colina do incenso.
Como és bela bela, minha amada, e pura.
Vem comigo do Líbano, meu amor,
comigo do Líbano.
Abaixa teus olhos dos cimos do Amana,
dos cimos do Samir e do Hermon,
covil de leões,
montanhas de leopardos.
Arrebataste meu coração, minha irmã, minha amada,
arrebataste meu coração,
com um só dos teus olhares,
com uma única pérola do teu colar.
Magnífico é o teu amor, minha irmã, minha amada.
E o cheiro dos teus perfumes, melhor
que todos os bálsamos.
Teus lábios, ó minha amada, destilam mel virgem.
Leite e mel na tua língua.
O cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano.
Horto fechado és tu, minha irmã, minha amada,
horto fechado, fonte secreta.
Floresces como um pomar de romãzeiras,
no meio dos aromas raros:
o nardo, e o açafrão, e o cinamomo, e a cana,
e as árvores do incenso, e a mirra, e o aloés —
com os perfumes mais finos.
Ó fonte que fecundas os jardins,
poço de águas vivas, ribeira descendo do Líbano.
Levanta-te, vento norte; corre, vento sul.
Batei no meu jardim, e que os aromas se espalhem.
Entre o meu amacio no seu jardim e prove
seus frutos pesados.
Eu entro no meu jardim, minha irmã, minha amada,
eu colho a minha mirra e o meu bálsamo.
Eu entro no meu jardim, eu como o mel e o favo,
eu bebo o vinho e o leite.
— Comei, amigos. Bebei,
embriagai-vos, ó amados.
vapor de mirra e de incenso,
vapor de todos os perfumes exóticos?
Eis a liteira de Salomão, rodeada
por sessenta guerreiros de estirpe,
nata dos guerreiros de Israel.
Todos valentes na guerra, trazem à cinta
as espadas,
por causa das ciladas nocturnas.
o rei Salomão mandou construir um trono para si
em madeira do Líbano.
Fez-lhe de prata as colunas, de ouro o dossel,
e o assento de púrpura.
O fundo é uma marchetaria de ébano.
— Vinde ver, ó raparigas de Sião, o meu amado
trazendo o diadema que lhe pôs sua mãe
no dia dos esponsais,
no dia da alegria do seu coração.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas, atrás do véu.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras,
descendo pelas vertentes de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Teus lábios, um fio de escarlata;
e mansas, as palavras que dizes.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
No meio das tranças, levanta-se teu pescoço,
semelhante á torre de David,
edificada para pendurar os broquéis
e os escudos redondos dos guerreiros.
Teus seios são como duas corçazinhas gémeas
pastando por entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite.
irei à montanha da mirra,
à colina do incenso.
Como és bela bela, minha amada, e pura.
Vem comigo do Líbano, meu amor,
comigo do Líbano.
Abaixa teus olhos dos cimos do Amana,
dos cimos do Samir e do Hermon,
covil de leões,
montanhas de leopardos.
Arrebataste meu coração, minha irmã, minha amada,
arrebataste meu coração,
com um só dos teus olhares,
com uma única pérola do teu colar.
Magnífico é o teu amor, minha irmã, minha amada.
E o cheiro dos teus perfumes, melhor
que todos os bálsamos.
Teus lábios, ó minha amada, destilam mel virgem.
Leite e mel na tua língua.
O cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano.
Horto fechado és tu, minha irmã, minha amada,
horto fechado, fonte secreta.
Floresces como um pomar de romãzeiras,
no meio dos aromas raros:
o nardo, e o açafrão, e o cinamomo, e a cana,
e as árvores do incenso, e a mirra, e o aloés —
com os perfumes mais finos.
Ó fonte que fecundas os jardins,
poço de águas vivas, ribeira descendo do Líbano.
Levanta-te, vento norte; corre, vento sul.
Batei no meu jardim, e que os aromas se espalhem.
Entre o meu amacio no seu jardim e prove
seus frutos pesados.
Eu entro no meu jardim, minha irmã, minha amada,
eu colho a minha mirra e o meu bálsamo.
Eu entro no meu jardim, eu como o mel e o favo,
eu bebo o vinho e o leite.
— Comei, amigos. Bebei,
embriagai-vos, ó amados.
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Herberto Helder
Três Canções do Epiro - Canção da Laranja Vermelha
Disseram-me que estás doente, laranja vermelha.
Estás doente da garganta, e eu estou mal da cabeça.
— Sobre as lajes em volta da igreja,
estavam sentadas três raparigas
atando os cabelos com fitas verdes.
Três túmulos se abriram e deles saíram
três belos rapazes.
Ó coração doloroso, consola-te a ti mesmo —
dores iguais a essas já o mundo viu muitas.
Coração doloroso que não estás só no mundo.
Estás doente da garganta, e eu estou mal da cabeça.
— Sobre as lajes em volta da igreja,
estavam sentadas três raparigas
atando os cabelos com fitas verdes.
Três túmulos se abriram e deles saíram
três belos rapazes.
Ó coração doloroso, consola-te a ti mesmo —
dores iguais a essas já o mundo viu muitas.
Coração doloroso que não estás só no mundo.
1 127
Herberto Helder
Três Canções do Epiro - Canção da Laranja Vermelha
Disseram-me que estás doente, laranja vermelha.
Estás doente da garganta, e eu estou mal da cabeça.
— Sobre as lajes em volta da igreja,
estavam sentadas três raparigas
atando os cabelos com fitas verdes.
Três túmulos se abriram e deles saíram
três belos rapazes.
Ó coração doloroso, consola-te a ti mesmo —
dores iguais a essas já o mundo viu muitas.
Coração doloroso que não estás só no mundo.
Estás doente da garganta, e eu estou mal da cabeça.
— Sobre as lajes em volta da igreja,
estavam sentadas três raparigas
atando os cabelos com fitas verdes.
Três túmulos se abriram e deles saíram
três belos rapazes.
Ó coração doloroso, consola-te a ti mesmo —
dores iguais a essas já o mundo viu muitas.
Coração doloroso que não estás só no mundo.
1 127
Herberto Helder
Quatro Poemas Árabes - Ornatos
O vinho cor-de-rosa é bom, ó companheiros.
Sim, eu voltei, e melhor do que o vinho é o regresso.
Dai-me esse vinho antigo no seu vestido de vidro,
jacinto flamante no interior de uma pérola.
Cinzela nele a água ornatos cor de prata,
ramalhete de círculos evanescentes
que me livraram, eles, das chamas do inferno —
o que não posso negar e humildemente agradeço.
Sim, eu voltei, e melhor do que o vinho é o regresso.
Dai-me esse vinho antigo no seu vestido de vidro,
jacinto flamante no interior de uma pérola.
Cinzela nele a água ornatos cor de prata,
ramalhete de círculos evanescentes
que me livraram, eles, das chamas do inferno —
o que não posso negar e humildemente agradeço.
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Herberto Helder
Quatro Poemas Árabes - Ornatos
O vinho cor-de-rosa é bom, ó companheiros.
Sim, eu voltei, e melhor do que o vinho é o regresso.
Dai-me esse vinho antigo no seu vestido de vidro,
jacinto flamante no interior de uma pérola.
Cinzela nele a água ornatos cor de prata,
ramalhete de círculos evanescentes
que me livraram, eles, das chamas do inferno —
o que não posso negar e humildemente agradeço.
Sim, eu voltei, e melhor do que o vinho é o regresso.
Dai-me esse vinho antigo no seu vestido de vidro,
jacinto flamante no interior de uma pérola.
Cinzela nele a água ornatos cor de prata,
ramalhete de círculos evanescentes
que me livraram, eles, das chamas do inferno —
o que não posso negar e humildemente agradeço.
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