Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Afonso X
O Que Foi Passar a Serra
O que foi passar a serra
e nom quis servir a terra,
é ora, entrant'a guerra,
que faroneja?
Pois el agora tam muit'erra,
maldito seja!
O que levou os dinheiros
e nom troux'os cavaleiros,
é por nom ir nos primeiros
que faroneja?
Pois que vem cõn'os prostumeiros,
maldito seja!
O que filhou gram soldada
e nunca fez cavalgada,
é por nom ir a Graada
que faroneja?
Se é ric'hom'ou há mesnada,
maldito seja!
O que meteu na taleiga
pouc'haver e muita meiga,
é por nom entrar na Veiga
que faroneja?
Pois chus mol é [el] que manteiga,
maldito seja!
e nom quis servir a terra,
é ora, entrant'a guerra,
que faroneja?
Pois el agora tam muit'erra,
maldito seja!
O que levou os dinheiros
e nom troux'os cavaleiros,
é por nom ir nos primeiros
que faroneja?
Pois que vem cõn'os prostumeiros,
maldito seja!
O que filhou gram soldada
e nunca fez cavalgada,
é por nom ir a Graada
que faroneja?
Se é ric'hom'ou há mesnada,
maldito seja!
O que meteu na taleiga
pouc'haver e muita meiga,
é por nom entrar na Veiga
que faroneja?
Pois chus mol é [el] que manteiga,
maldito seja!
916
Airas Nunes
Nostro Senhor! E Por Que Foi Veer
Nostro Senhor! e por que foi veer
ũa dona que eu quero gram bem
e querrei sempre já mentr'eu viver,
e que me faz por si perder o sem?
Pero ela faça quanto quiser
contra mim, já, pero me bem nom quer,
nom leixarei de a servir por en.
[...]
ũa dona que eu quero gram bem
e querrei sempre já mentr'eu viver,
e que me faz por si perder o sem?
Pero ela faça quanto quiser
contra mim, já, pero me bem nom quer,
nom leixarei de a servir por en.
[...]
793
Airas Nunes
Bailemos Nós Já Todas Três, Ai Amigas
Bailemos nós já todas três, ai amigas,
sô aquestas avelaneiras frolidas,
e quem for velida, como nós, velidas,
se amigo amar,
sô aquestas avelaneiras frolidas
verrá bailar.
Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
sô aqueste ramo destas avelanas,
e quem for louçana, como nós, louçanas,
se amigo amar,
sô aqueste ramo destas avelanas
verrá bailar.
Por Deus, ai amigas, mentr'al nom fazemos
sô aqueste ramo frolido bailemos,
e quem bem parecer, como nós parecemos,
se amigo amar,
sô aqueste ramo, sol que nós bailemos,
verrá bailar.
sô aquestas avelaneiras frolidas,
e quem for velida, como nós, velidas,
se amigo amar,
sô aquestas avelaneiras frolidas
verrá bailar.
Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
sô aqueste ramo destas avelanas,
e quem for louçana, como nós, louçanas,
se amigo amar,
sô aqueste ramo destas avelanas
verrá bailar.
Por Deus, ai amigas, mentr'al nom fazemos
sô aqueste ramo frolido bailemos,
e quem bem parecer, como nós parecemos,
se amigo amar,
sô aqueste ramo, sol que nós bailemos,
verrá bailar.
2 847
Afonso X
Nom Me Posso Pagar Tanto
Nom me posso pagar tanto
do canto
das aves nem de seu som
nem d'amor nem de missom
nem d'armas - ca hei espanto
por quanto
mui perigo[o]sas som
- come d'um bom galeom
que mi alongue muit'aginha
deste demo da campinha,
u os alacrães som;
ca dentro, no coraçom,
senti deles a espinha.
E juro par Deus lo santo
que manto
nom tragerei, nem granhom,
nem terrei d'amor razom,
nem d'armas, porque quebranto
e chanto
vem delas tod'a sazom;
mais tragerei um dormom,
e irei pela marinha
vendend'azeite e farinha,
e fugirei do poçom
do alacrã, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.
Nem de lançar a tavolado
pagado
nom sõo, se Deus m'ampar,
adés, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m'oimais guardar
do alacrã, e tornar
ao que me foi primeiro.
E direi-vos um recado:
pecado
já me nom pod'enganar
que me faça já falar
em armas, ca nom m'é dado
- doado
m'é de as eu razõar,
poilas nom hei a provar;
ante quer'andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
algũa terra buscar
u me nom possam culpar
alacrã negro nem veiro.
do canto
das aves nem de seu som
nem d'amor nem de missom
nem d'armas - ca hei espanto
por quanto
mui perigo[o]sas som
- come d'um bom galeom
que mi alongue muit'aginha
deste demo da campinha,
u os alacrães som;
ca dentro, no coraçom,
senti deles a espinha.
E juro par Deus lo santo
que manto
nom tragerei, nem granhom,
nem terrei d'amor razom,
nem d'armas, porque quebranto
e chanto
vem delas tod'a sazom;
mais tragerei um dormom,
e irei pela marinha
vendend'azeite e farinha,
e fugirei do poçom
do alacrã, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.
Nem de lançar a tavolado
pagado
nom sõo, se Deus m'ampar,
adés, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m'oimais guardar
do alacrã, e tornar
ao que me foi primeiro.
E direi-vos um recado:
pecado
já me nom pod'enganar
que me faça já falar
em armas, ca nom m'é dado
- doado
m'é de as eu razõar,
poilas nom hei a provar;
ante quer'andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
algũa terra buscar
u me nom possam culpar
alacrã negro nem veiro.
380
Airas Nunes
O Meu Senhor o Bispo, Na Redondela, Um Dia
O meu senhor o bispo, na Redondela, um dia,
de noit'e com gram medo, de desonra fogia;
eu, indo-mi aguisando por ir com el mia via,
achei ũa companha assaz brava e crua
que me decerom logo de cima da mia mua:
azêmela e cama levarom-na por sua.
E des que eu nacera nunca entrara em lide;
[e] pero que já fora cabo Valedolide
escovardoas muitas fezerom em Molide.
E ali me lançarom a mim a falcatrua;
a meus 'scudeiros [em] cage o Churruchão [assua]
e atá aos sergentes, ca som gente befua.
Ali me desbulharom do tabardo e dos panos
e nom houverom vergonha dos meus cabelos canos,
nem me derom por ende grã[a]s nem adianos:
leixarom-me qual fui nado no meio da rua;
e um rapaz tinhoso, que há de par em 'strua,
chamava-mi "minhana, velha fududancua!"
de noit'e com gram medo, de desonra fogia;
eu, indo-mi aguisando por ir com el mia via,
achei ũa companha assaz brava e crua
que me decerom logo de cima da mia mua:
azêmela e cama levarom-na por sua.
E des que eu nacera nunca entrara em lide;
[e] pero que já fora cabo Valedolide
escovardoas muitas fezerom em Molide.
E ali me lançarom a mim a falcatrua;
a meus 'scudeiros [em] cage o Churruchão [assua]
e atá aos sergentes, ca som gente befua.
Ali me desbulharom do tabardo e dos panos
e nom houverom vergonha dos meus cabelos canos,
nem me derom por ende grã[a]s nem adianos:
leixarom-me qual fui nado no meio da rua;
e um rapaz tinhoso, que há de par em 'strua,
chamava-mi "minhana, velha fududancua!"
675
Afonso X
Tanto Sei de Vós, Ric'homem: Pois Fordes N[A] Alcaria
Tanto sei de vós, ric'homem: pois fordes n[a] alcaria
e virde'la[s] azeitona[s], ledo seredes esse dia:
pisaredes as olivas con'os pees ena pia.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Bem sei que seredes ledo, pois fordes no Exarafe
e virdes as azeitonas que foram de Dom Xacafe:
torceredes as olivas, como quer que outrem bafe.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Pois fordes n[a] alcaria e virdes os põombares
e virdes as azeitonas jazer per esses lagares,
trilhá-las-edes [ena] pia com esses ca[l]canhares.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
e virde'la[s] azeitona[s], ledo seredes esse dia:
pisaredes as olivas con'os pees ena pia.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Bem sei que seredes ledo, pois fordes no Exarafe
e virdes as azeitonas que foram de Dom Xacafe:
torceredes as olivas, como quer que outrem bafe.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Pois fordes n[a] alcaria e virdes os põombares
e virdes as azeitonas jazer per esses lagares,
trilhá-las-edes [ena] pia com esses ca[l]canhares.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
755
Afonso X
Se Me Graça Fezesse Este Papa de Roma!
Se me graça fezesse este Papa de Roma!
Pois que or'[estes] panos da mia reposte toma,
que levass'el os cabos e dess'a mi a soma;
mais doutra guisa me foi el vendê'la galdrapa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se m'el graça fezesse, con'os seus cardeaes,
[dos panos] que lh'eu desse que mos talhass'iguaes!
Mais vedes em que vi en'el[e] maos sinaes:
que do que me furtou, foi cobri-l[o] a sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se con'os cardeaes com que faz seus conselhos
posesse que guardasse nós de maos trebelhos,
fezera gram mercêe, ca nom furtar com elhos
e [os] panos dos cristãos meter sô sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Pois que or'[estes] panos da mia reposte toma,
que levass'el os cabos e dess'a mi a soma;
mais doutra guisa me foi el vendê'la galdrapa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se m'el graça fezesse, con'os seus cardeaes,
[dos panos] que lh'eu desse que mos talhass'iguaes!
Mais vedes em que vi en'el[e] maos sinaes:
que do que me furtou, foi cobri-l[o] a sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se con'os cardeaes com que faz seus conselhos
posesse que guardasse nós de maos trebelhos,
fezera gram mercêe, ca nom furtar com elhos
e [os] panos dos cristãos meter sô sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
724
Afonso X
Pero Que Hei Ora Mêngua de Companha
Pero que hei ora mêngua de companha,
nem Pero Garcia nem Pero d'Espanha
nem Pero Galego
nom irá cõmego.
E bem vo-lo juro par Santa Maria:
que Pero d'Espanha nem Pero Garcia
nem Pero Galego
nom irá cõmego.
Nunca cinga espada com bõa bainha,
se Pero d'Espanha nem Pero Galinha
nem Pero Galego
for ora cõmego.
Galego, galego, outrem irá cõmego.
nem Pero Garcia nem Pero d'Espanha
nem Pero Galego
nom irá cõmego.
E bem vo-lo juro par Santa Maria:
que Pero d'Espanha nem Pero Garcia
nem Pero Galego
nom irá cõmego.
Nunca cinga espada com bõa bainha,
se Pero d'Espanha nem Pero Galinha
nem Pero Galego
for ora cõmego.
Galego, galego, outrem irá cõmego.
581
Afonso X
Pero Que Hei Ora Mêngua de Companha
Pero que hei ora mêngua de companha,
nem Pero Garcia nem Pero d'Espanha
nem Pero Galego
nom irá cõmego.
E bem vo-lo juro par Santa Maria:
que Pero d'Espanha nem Pero Garcia
nem Pero Galego
nom irá cõmego.
Nunca cinga espada com bõa bainha,
se Pero d'Espanha nem Pero Galinha
nem Pero Galego
for ora cõmego.
Galego, galego, outrem irá cõmego.
nem Pero Garcia nem Pero d'Espanha
nem Pero Galego
nom irá cõmego.
E bem vo-lo juro par Santa Maria:
que Pero d'Espanha nem Pero Garcia
nem Pero Galego
nom irá cõmego.
Nunca cinga espada com bõa bainha,
se Pero d'Espanha nem Pero Galinha
nem Pero Galego
for ora cõmego.
Galego, galego, outrem irá cõmego.
581
Afonso X
Pero da Pont'há Feito Gram Pecado
Pero da Pont'há feito gram pecado
de seus cantares que el foi furtar
a Cotom: que, quanto el lazerado
houve gram tempo, el x'os quer lograr,
e doutros muitos que nom sei contar,
por que hoj'anda vistido e honrado.
E por en foi Cotom mal dia nado
pois Pero da Ponte herda seu trobar;
e mui mais lhi valera que trobado
nunca houvess'el, assi Deus m'ampar,
pois que se, de quant'el foi lazerar,
serve Dom Pedro e nom lhi dá en grado.
E com dereito seer enforcado
deve Dom Pedro, porque foi filhar
a Cotom, pois lo houve soterrado,
seus cantares, e nom quis en[de] dar
um soldo pera sa alma quitar
sequer do que lhi havia emprestado.
E por end'é gram traedor provado,
de que se já nunca pode salvar,
come quem a seu amigo jurado,
bevendo com el[e], o foi matar
- todo polos cantares del levar,
com os quaes hoj'anda arrufado.
E pois nom há quen’o por en retar
queira, seerá oimais por mim retado.
de seus cantares que el foi furtar
a Cotom: que, quanto el lazerado
houve gram tempo, el x'os quer lograr,
e doutros muitos que nom sei contar,
por que hoj'anda vistido e honrado.
E por en foi Cotom mal dia nado
pois Pero da Ponte herda seu trobar;
e mui mais lhi valera que trobado
nunca houvess'el, assi Deus m'ampar,
pois que se, de quant'el foi lazerar,
serve Dom Pedro e nom lhi dá en grado.
E com dereito seer enforcado
deve Dom Pedro, porque foi filhar
a Cotom, pois lo houve soterrado,
seus cantares, e nom quis en[de] dar
um soldo pera sa alma quitar
sequer do que lhi havia emprestado.
E por end'é gram traedor provado,
de que se já nunca pode salvar,
come quem a seu amigo jurado,
bevendo com el[e], o foi matar
- todo polos cantares del levar,
com os quaes hoj'anda arrufado.
E pois nom há quen’o por en retar
queira, seerá oimais por mim retado.
600
Afonso Lopes de Baião
Senhor, Que Grav'hoj'a Mi É
Senhor, que grav'hoj'a mi é
de m'haver de vós a partir!
Ca sei, de pram, pois m'eu partir,
que mi averrá, per bõa fé:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E pois partir os olhos meus
de vós, que eu quero gram bem,
e vos nom virem, sei eu bem
que mi averrá, senhor, par Deus:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E se Deus algum bem nom der
de vós, que eu por meu mal vi
(tam grave dia vos eu vi!),
se de vós grado nom houver,
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
de m'haver de vós a partir!
Ca sei, de pram, pois m'eu partir,
que mi averrá, per bõa fé:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E pois partir os olhos meus
de vós, que eu quero gram bem,
e vos nom virem, sei eu bem
que mi averrá, senhor, par Deus:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E se Deus algum bem nom der
de vós, que eu por meu mal vi
(tam grave dia vos eu vi!),
se de vós grado nom houver,
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
870
Afonso Lopes de Baião
Senhor, Que Grav'hoj'a Mi É
Senhor, que grav'hoj'a mi é
de m'haver de vós a partir!
Ca sei, de pram, pois m'eu partir,
que mi averrá, per bõa fé:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E pois partir os olhos meus
de vós, que eu quero gram bem,
e vos nom virem, sei eu bem
que mi averrá, senhor, par Deus:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E se Deus algum bem nom der
de vós, que eu por meu mal vi
(tam grave dia vos eu vi!),
se de vós grado nom houver,
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
de m'haver de vós a partir!
Ca sei, de pram, pois m'eu partir,
que mi averrá, per bõa fé:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E pois partir os olhos meus
de vós, que eu quero gram bem,
e vos nom virem, sei eu bem
que mi averrá, senhor, par Deus:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E se Deus algum bem nom der
de vós, que eu por meu mal vi
(tam grave dia vos eu vi!),
se de vós grado nom houver,
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
870
Virgílio Martinho
Viver Amarelo
Um dia descobri uma cidade amarela
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.
Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.
Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.
No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.
Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.
Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.
Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.
No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.
Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
958
Virgílio Martinho
Viver Amarelo
Um dia descobri uma cidade amarela
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.
Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.
Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.
No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.
Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.
Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.
Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.
No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.
Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
958
Virgílio Martinho
Viver Amarelo
Um dia descobri uma cidade amarela
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.
Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.
Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.
No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.
Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.
Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.
Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.
No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.
Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
958
Afonso Mendes de Besteiros
Que Sem Meu Grado Me Parti
Que sem meu grado me parti
de mia senhor e do meu bem,
que quero melhor doutra rem!
E em grave dia naci
por eu nunca poder veer,
poila nom vi, nẽum prazer!
[...]
de mia senhor e do meu bem,
que quero melhor doutra rem!
E em grave dia naci
por eu nunca poder veer,
poila nom vi, nẽum prazer!
[...]
584
Afonso Mendes de Besteiros
Que Sem Meu Grado Me Parti
Que sem meu grado me parti
de mia senhor e do meu bem,
que quero melhor doutra rem!
E em grave dia naci
por eu nunca poder veer,
poila nom vi, nẽum prazer!
[...]
de mia senhor e do meu bem,
que quero melhor doutra rem!
E em grave dia naci
por eu nunca poder veer,
poila nom vi, nẽum prazer!
[...]
584
Virgílio Martinho
Canção Em É
A dor que se tem quando só
É um guardanapo dobrado, é,
Cada dobra a lágrima que vem,
Pérola que cai pingo a pingo, é.
Desfiar lento, água salgada,
Dor a dor sofrimento ai, é,
Como se fora fonte infinda
No paraíso do amor, o que é?
Tudo pode doer, até o coração,
Feito de carne e sangue como é,
Tudo pode doer até mais não,
Que a solidão é punhal, pois é.
Depois chove, é natureza,
A erva cresce, o líquen é,
Viajo na noite, apanho o escuro,
Meu amor nada continua de pé.
Por assim ser, sendo como é,
Tudo se cose e recose em dó,
Na sinfonia que se compõe, é,
Esta coisa simples de estar só.
É um guardanapo dobrado, é,
Cada dobra a lágrima que vem,
Pérola que cai pingo a pingo, é.
Desfiar lento, água salgada,
Dor a dor sofrimento ai, é,
Como se fora fonte infinda
No paraíso do amor, o que é?
Tudo pode doer, até o coração,
Feito de carne e sangue como é,
Tudo pode doer até mais não,
Que a solidão é punhal, pois é.
Depois chove, é natureza,
A erva cresce, o líquen é,
Viajo na noite, apanho o escuro,
Meu amor nada continua de pé.
Por assim ser, sendo como é,
Tudo se cose e recose em dó,
Na sinfonia que se compõe, é,
Esta coisa simples de estar só.
1 071
Virgílio Martinho
Canção Em É
A dor que se tem quando só
É um guardanapo dobrado, é,
Cada dobra a lágrima que vem,
Pérola que cai pingo a pingo, é.
Desfiar lento, água salgada,
Dor a dor sofrimento ai, é,
Como se fora fonte infinda
No paraíso do amor, o que é?
Tudo pode doer, até o coração,
Feito de carne e sangue como é,
Tudo pode doer até mais não,
Que a solidão é punhal, pois é.
Depois chove, é natureza,
A erva cresce, o líquen é,
Viajo na noite, apanho o escuro,
Meu amor nada continua de pé.
Por assim ser, sendo como é,
Tudo se cose e recose em dó,
Na sinfonia que se compõe, é,
Esta coisa simples de estar só.
É um guardanapo dobrado, é,
Cada dobra a lágrima que vem,
Pérola que cai pingo a pingo, é.
Desfiar lento, água salgada,
Dor a dor sofrimento ai, é,
Como se fora fonte infinda
No paraíso do amor, o que é?
Tudo pode doer, até o coração,
Feito de carne e sangue como é,
Tudo pode doer até mais não,
Que a solidão é punhal, pois é.
Depois chove, é natureza,
A erva cresce, o líquen é,
Viajo na noite, apanho o escuro,
Meu amor nada continua de pé.
Por assim ser, sendo como é,
Tudo se cose e recose em dó,
Na sinfonia que se compõe, é,
Esta coisa simples de estar só.
1 071
Virgílio Martinho
Canção Em É
A dor que se tem quando só
É um guardanapo dobrado, é,
Cada dobra a lágrima que vem,
Pérola que cai pingo a pingo, é.
Desfiar lento, água salgada,
Dor a dor sofrimento ai, é,
Como se fora fonte infinda
No paraíso do amor, o que é?
Tudo pode doer, até o coração,
Feito de carne e sangue como é,
Tudo pode doer até mais não,
Que a solidão é punhal, pois é.
Depois chove, é natureza,
A erva cresce, o líquen é,
Viajo na noite, apanho o escuro,
Meu amor nada continua de pé.
Por assim ser, sendo como é,
Tudo se cose e recose em dó,
Na sinfonia que se compõe, é,
Esta coisa simples de estar só.
É um guardanapo dobrado, é,
Cada dobra a lágrima que vem,
Pérola que cai pingo a pingo, é.
Desfiar lento, água salgada,
Dor a dor sofrimento ai, é,
Como se fora fonte infinda
No paraíso do amor, o que é?
Tudo pode doer, até o coração,
Feito de carne e sangue como é,
Tudo pode doer até mais não,
Que a solidão é punhal, pois é.
Depois chove, é natureza,
A erva cresce, o líquen é,
Viajo na noite, apanho o escuro,
Meu amor nada continua de pé.
Por assim ser, sendo como é,
Tudo se cose e recose em dó,
Na sinfonia que se compõe, é,
Esta coisa simples de estar só.
1 071
Afonso X
Med'hei do Pertigueiro Que Tem Deça
Med'hei do pertigueiro que tem Deça,
semelha Pero Gil na calvareça,
e nom vi mia senhor [há] mui gram peça,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueir'e ando soo,
que semelha Pero Gil no feijoo,
e nom vi mia senhor, ond'hei gram doo,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueiro tal que mejo,
que semelha Pero Gil no vedejo,
e nom vi mia senhor, ond'hei desejo:
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
semelha Pero Gil na calvareça,
e nom vi mia senhor [há] mui gram peça,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueir'e ando soo,
que semelha Pero Gil no feijoo,
e nom vi mia senhor, ond'hei gram doo,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueiro tal que mejo,
que semelha Pero Gil no vedejo,
e nom vi mia senhor, ond'hei desejo:
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
669
Afonso X
Med'hei do Pertigueiro Que Tem Deça
Med'hei do pertigueiro que tem Deça,
semelha Pero Gil na calvareça,
e nom vi mia senhor [há] mui gram peça,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueir'e ando soo,
que semelha Pero Gil no feijoo,
e nom vi mia senhor, ond'hei gram doo,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueiro tal que mejo,
que semelha Pero Gil no vedejo,
e nom vi mia senhor, ond'hei desejo:
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
semelha Pero Gil na calvareça,
e nom vi mia senhor [há] mui gram peça,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueir'e ando soo,
que semelha Pero Gil no feijoo,
e nom vi mia senhor, ond'hei gram doo,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueiro tal que mejo,
que semelha Pero Gil no vedejo,
e nom vi mia senhor, ond'hei desejo:
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
669
Afonso X
Med'hei do Pertigueiro Que Tem Deça
Med'hei do pertigueiro que tem Deça,
semelha Pero Gil na calvareça,
e nom vi mia senhor [há] mui gram peça,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueir'e ando soo,
que semelha Pero Gil no feijoo,
e nom vi mia senhor, ond'hei gram doo,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueiro tal que mejo,
que semelha Pero Gil no vedejo,
e nom vi mia senhor, ond'hei desejo:
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
semelha Pero Gil na calvareça,
e nom vi mia senhor [há] mui gram peça,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueir'e ando soo,
que semelha Pero Gil no feijoo,
e nom vi mia senhor, ond'hei gram doo,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueiro tal que mejo,
que semelha Pero Gil no vedejo,
e nom vi mia senhor, ond'hei desejo:
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
669
Afonso X
Achei Sanch' [E]Anes Encavalgada
Achei Sanch' [E]anes encavalgada
e dix'eu por ela cousa guisada:
ca nunca vi dona peior talhada,
e quige jurar que era mostea;
vi-a cavalgar per ũa aldeia
e quige jurar que era mostea.
Vi-a cavalgar, muach'e sendeiro,
e nom ia milhor um cavaleiro.
Santiaguei-m'e disse: - Gram foi o palheiro
onde carregarom tam gram mostea!
Vi-a cavalgar per ũa aldeia
e quige jurar que era mostea.
Vi-a cavalgar indo pela rua,
mui bem vistida em cima da mua;
dix'eu: - Ai, velha fududancua,
que me semelhades ora mostea!
Vi-a cavalgar per ũa aldeia
e quige jurar que era mostea.
e dix'eu por ela cousa guisada:
ca nunca vi dona peior talhada,
e quige jurar que era mostea;
vi-a cavalgar per ũa aldeia
e quige jurar que era mostea.
Vi-a cavalgar, muach'e sendeiro,
e nom ia milhor um cavaleiro.
Santiaguei-m'e disse: - Gram foi o palheiro
onde carregarom tam gram mostea!
Vi-a cavalgar per ũa aldeia
e quige jurar que era mostea.
Vi-a cavalgar indo pela rua,
mui bem vistida em cima da mua;
dix'eu: - Ai, velha fududancua,
que me semelhades ora mostea!
Vi-a cavalgar per ũa aldeia
e quige jurar que era mostea.
738