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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Renato Rezende

Renato Rezende

[Re-Nato]

O poder da respiração—entrando e saindo do corpo

e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo

Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.

(Às vezes me sinto sem pé, submerso).

Saia para uma caminhada pelo bairro

(Como entendo essa língua em que me falam?)

Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.

Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.

Deus veio tocar Rachmaninoff

e tocou pior que Rachmaninoff

(era eu)

A perfeição não é fazer tudo perfeito

Tudo acontece para o melhor

Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.

Esse ato de violência inaugurou nova vida,

o caminho de volta.

Hoje amo o assassino sinceramente.

Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.

O amor está na respiração profunda.

Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!

Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.

Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.

No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias

A vida humana é longa
Se cada instante é doce

aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço

(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania

(que importância um nome tem?)

Sou todo mundo,
agora você sou eu

(Uma mente sem fantasias):

Abra-te Coração.
995
Renato Rezende

Renato Rezende

[Hosana]

Meu sexo se tornou uma rosa amarela
ereta e desabrochada

o seu uma vermelha?

Podemos viver sem o corpo
apenas mente

e sua matéria rara?

Qual a distância correta?

euforia e desamparo

Amamos melhor quando amamos em Presença?

Asa-palavra

Esse é um poema fora de órbita

Stella do Patrocínio:

Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo

Eu quero sempre, em suspenso

—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.

—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.

—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.

—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.

—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.

—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.

—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.

—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.

—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.

Quem quer se casar comigo?

Deus, quer se casar comigo?

Estrela
Eu-sou
Eu-posso

Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio

Oh, Goethe!
1 009
Renato Rezende

Renato Rezende

[Santo]

—é essa a humanidade que pulsa agora.

Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.

Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.

Minha querida devoradora de corações,

Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.

Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.

A palavra do erotismo é o espírito! O salto.

(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).

Tigre,

Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida

Então posso ser o homem

da sua morte?

E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?

Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.

Sim, a matéria salva.

É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.

Eu não estou escrevendo isso.

Eu não estou sentado nessa sala.

Eu estou aqui

(para vocês),
mas eu não estou aqui.

O coração é meu órgão sexual.

Quero gozar o tempo todo.

Amor divino: castidade absoluta.

Eu sou o homem e eu sou a mulher.

Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.

Quanto mais santo mais no mundo?
1 123
Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

As jóias da coroa

Como quase toda menina eu queria
ser princesa eu já não era
loura como Cinderela
minha irmã sim e espevitada
chegara ao mundo resolvida
eu não sabia o que fazer
daquela massa castanha
nem lisa nem crespa sobre a cabeça
e acreditava que talvez a cobiçada coroa
de strass
de miss
operasse um pequeno milagre ao encimar
minhas incertezas infantis
então a cada carnaval a cada ida
às lojas de fantasias no centro da cidade
dava-se uma renovada decepção
a diminuta coroa ficava ali
na mesa envidraçada
com seu brilho de mentira

Um dia
numa celebração de aniversário talvez
meu pai nos fez umas coroas
eram de papel cartão preto
adornadas com purpurina no lugar
das pedras e com volutas douradas
feitas a caneta

A caneta era especial
importada só ele usava
e tudo na coroa traía o traço
que era dele totalmente
que era o mesmo
de seus quadros nas paredes
era a marca de sua mão

Eu não sabia quanto aquela coroa
que levei tristemente à minha
cabeça castanha
era real
tão mais real que o diadema prateado
com pequeninas pedras
esquecido na vitrina

No círculo de papel preto
se encerrava o futuro
não o lar imaculado mas a aranha
pequenina se escondendo
num canto do armário
as meias cobrindo os pés
na hora de dormir numa casa
não aquecida
em mais um inverno austral
ao lado de um homem
o herdeiro
mais legítimo
daquela ideia
de príncipe
que fora possível encontrar
e que me dera um descendente
louro de olhos azuis
repetindo no rosto
seus traços castanhos

O cartão escuro era o que fazia
as joias da coroa luzirem mais
548
Renato Rezende

Renato Rezende

[Irisar]

É como se o chão tivesse se aberto sob os meus pés, como se estivesse tudo no ar, tudo sem sentido, sem nexo—o que me faz sentir-me desencontrado, confuso. No entanto, quando olho à volta, vejo que está tudo aí, no lugar, como sempre esteve, e nada está sendo ameaçado, tudo dentro da normalidade. Para tentar escapar desse sentimento de desconforto, às vezes me entusiasmo por uma ou outra coisa, mas nenhum desses ânimos se sustenta, e eu logo caio novamente no vazio. Da mesma forma, tenho as reações mais chãs, na tentativa de reconhecerme. Percebo, no entanto, que essas identidades já não estão funcionando mais para mim, já não me reconheço nelas. O desafio é aprender a ocupar todo o espaço que se abriu dentro de mim, a me ver desde um outro ponto de vista, a ganhar uma nova identidade. Não sou mais homem nem poeta, sou Deus, com todos os seus atributos. Mas como se faz isso? Coragem—

Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.

Constante crepitar

Areia que se desloca

A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.

Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.

É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.

Há anos que venho morrendo.

Há anos caminho nesse deserto.

Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.

Areia e céu se fundem.

Não está na hora de chegar?

Não é aqui a chegada?

Disse luminoso? E essas sombras

que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?

Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?

A vida é o aceno da morte.

É pela vida que a morte se revela.

Irisar

É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.

Quando começarei a desmontar o circo?

Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.

Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.

O Amor é
Amor

Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.

Nuvens:

Essa umidade toda mais parece uma mulher.

Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.

essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue

escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada

Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.

Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.

E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda

essa entrada no corpo.

E essa entrada, sou eu ou sou o outro?

Estou prenhe de morte.

Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?

Estou cansada da morte.

Estou com medo da morte.

E essas luzes douradas, o que são?

Esta vida estabanada. Como se vive?

Como se vive a vida de um homem? Como

Se morre?

A questão é que nunca me sei suficientemente morto.

Esta é a vida que pedi a Deus.
1 002
Renato Rezende

Renato Rezende

[Filtros]

Eu criei uma ilusão, um véu, há muitas camadas de tecido,
muito filtro, entre eu e a vida.
Mas uma vida humana não é justamente a experiência desses
filtros?
A vida—experiência absurda—não é sempre necessariamente
mediada?
A vida humana só é se mediada.

Somos todos vazios,
Sem existência fixa.

A gente vai sempre virando

apenas mais uma vida,
perdida

ARRISCAR TUDO

Todos os recursos

Concentrar todos os esforços

Lançar tudo fora

Um homem deve dedicar sua vida àquilo pelo qual se esquece

se perde

diante do abismo

pisa

no vazio

Nada tem sentido

Tudo é um fim em si mesmo.
Derreter no coração todos os sentidos.

Nesta terra não há jardim que não tenha sido construído sobre os quintos dos infernos.

A pessoa nunca é em termos absolutos. Nenhum de nós é.

Somos sempre em termos relativos. Em relação ao outro: espelhos uns dos outros. Poderíamos ser qualquer um de nós.

Isso é ser livre?

Toda pessoa que se preze é uma fracassada.

Na Noruega há um Joe Doe que passa os dias olhando pela janela a neve cair, sem vontade de sair de casa. Ele teria coisas para fazer, responder emails e telefonemas, o trabalho se acumulando. Eu não me importo com isso, não o julgo, não o condeno. Acho que ele tem todo o tempo do mundo, o direito a todo esse tempo: não sinto ansiedade, nem culpa, não me envolvo. Agora eu sou esse Joe Doe no Rio de Janeiro:

No meio da tarde, levanto e saio: nada realmente para fazer, apenas a atração pela luz e pelo abismo. Apenas o descaso pelo falatório.
[Essa é a imagem da minha vida].
Mas não saio com a experiência de um vazio interno, um oco. Não é para o exílio que saio, e sim para a VIDA. Agora, quando saio, carrego o mundo comigo: sou eu o vivo, são eles os mortos.
[Não. O Amor nos une a todos: somos todos vivos e mortos: homo caritas est].
831
Renato Rezende

Renato Rezende

[Bússola]

De vez em quando, é bom andar na corda bamba.

Viver é passar por um intestino.

As luzes douradas.
Fogaréu azul.

Não dá para fazer mais nada.

Tenho certeza que algo existe em mim. Só não sei se esse algo sou eu.

Sou em essência alguém ou sou apenas um lugar, um ponto de confluência de palavras e corpos?

Meu carro parado no acostamento da estrada movimentada me provoca uma angustiante sensação de movimento.

Passo pelas coisas ou são as coisas que passam por mim, me atravessam? Atravesso?

O que em mim é?

Imagine a Mariana, por exemplo. Ela está lá, agora, sendo a Mariana. Para mim, ela só existe de vez em quando, quando por alguma razão me lembro dela. Para ela, ela existe o tempo todo. Para mim, eu existo o tempo todo. Mas e se eu conseguir existir para mim como a Mariana existe para mim, ou como eu existo para a Mariana: de vez em quando? Então, quando sair da sala, por exemplo, onde sou eu para os outros, e for ao banheiro, no banheiro serei apenas nada, um ser mijante. E se eu fizer desses intervalos minha vida? E se eu alternar sempre sendo e não-sendo? E se eu carregasse o rosto no bolso?

O desejo é minha bússola
Nosso único norte. O desejo:

Lá onde menos temos controle
é que somos mais o que somos.

O que em mim prefere
na cama uma mulher a um homem
Quando fica com fome, come
coisas cozidas, digere. O que em mim
quando corre sente tremer o corpo?

O maior problema da minha vida é que eu desenvolvi o hábito de abrir janelas à tarde.

Sempre de olho no extraordinário, sempre caindo pelas brechas do calendário, sempre olhando para longe

Eu pareço um balão que está sempre querendo se soltar do chão

Pensei em ir à praia

pensei seriamente em ir à praia

capaz ainda de ir á praia no final da tarde

(não por prazer,
mas por amor):

O mar eternamente batendo na praia

—isso sim é liberdade!:

Na areia, parecia um animal morto,

uma carcaça
mas era uma jaca podre.

O coração aberto como uma concha.
709
Renato Rezende

Renato Rezende

[Oceano]

Círculos de luz opaca, em vibrações, como se saíssem de mim, da região entre os olhos: a sensação de levantar-me dentro de mim mesmo, e ascender, ao ver um objeto caindo, caindo, caindo sem fim e se espatifando junto a uma grande encosta murada, uma muralha que parecia erguer-se indefinidamente, e de repente, eu vendo, lá de cima, o infinito vale muito embaixo, onde corre o rio que era eu o objeto espatifado.

—Então me mata?

[Ela está pedindo para você matá-la]

Não Posso.

—Então me carrega no colo, em silêncio.

Sou uma pepita de ouro no seu ventre.

No fim de todos os caminhos, de todos os atalhos, de todas as vielas, de todos os declives, de todos os abismos, de todas as picadas e veredas está o mar.

O oceano iluminado.

Sonhei com você. A gente estava num bar do aeroporto, se despedindo, você ia viajar para algum lugar e usava umas roupas meio estranhas, tipo assim, roupas de peregrino. Aí você me disse que quando voltasse ia se casar com alguém do seu passado, você disse: “essa pessoa sempre esteve lá, acho que no fundo sempre soube que era ela”.

Uma voz agora:
Que me diga que eu existo, que eu estou vivo.

O sentimento de desamparo, no tudo estar de pernas para o ar, é facilmente sanado pelo Amor. Não o que vem de fora, mas o Amor que vem de dentro: substituir essa sensação por Amor: e tudo volta ao seu lugar, sobre esta terra, ao rés do chão: tudo volta a ter sentido.

Ser como um cão farejador de Amor.

Eu não quero ir a lugar algum.

—se for preciso, cavo.

Escorrer a vida e gozar de suas dádivas, sem cobiçar nada.

O Amor transforma o Tempo num oceano.

Cruzam monstros marinhos, disformes, horrorosos,
escuros
e eu os amo

a todos

Lá vou eu
choramingando de ternura pelos cantos.

Sou muito grata por existir.

Tudo é a Verdade.

Sou
partícula de fogo que retorna ao Sol

Esse corpo nunca mais.

725
Renato Rezende

Renato Rezende

[Oceano]

Círculos de luz opaca, em vibrações, como se saíssem de mim, da região entre os olhos: a sensação de levantar-me dentro de mim mesmo, e ascender, ao ver um objeto caindo, caindo, caindo sem fim e se espatifando junto a uma grande encosta murada, uma muralha que parecia erguer-se indefinidamente, e de repente, eu vendo, lá de cima, o infinito vale muito embaixo, onde corre o rio que era eu o objeto espatifado.

—Então me mata?

[Ela está pedindo para você matá-la]

Não Posso.

—Então me carrega no colo, em silêncio.

Sou uma pepita de ouro no seu ventre.

No fim de todos os caminhos, de todos os atalhos, de todas as vielas, de todos os declives, de todos os abismos, de todas as picadas e veredas está o mar.

O oceano iluminado.

Sonhei com você. A gente estava num bar do aeroporto, se despedindo, você ia viajar para algum lugar e usava umas roupas meio estranhas, tipo assim, roupas de peregrino. Aí você me disse que quando voltasse ia se casar com alguém do seu passado, você disse: “essa pessoa sempre esteve lá, acho que no fundo sempre soube que era ela”.

Uma voz agora:
Que me diga que eu existo, que eu estou vivo.

O sentimento de desamparo, no tudo estar de pernas para o ar, é facilmente sanado pelo Amor. Não o que vem de fora, mas o Amor que vem de dentro: substituir essa sensação por Amor: e tudo volta ao seu lugar, sobre esta terra, ao rés do chão: tudo volta a ter sentido.

Ser como um cão farejador de Amor.

Eu não quero ir a lugar algum.

—se for preciso, cavo.

Escorrer a vida e gozar de suas dádivas, sem cobiçar nada.

O Amor transforma o Tempo num oceano.

Cruzam monstros marinhos, disformes, horrorosos,
escuros
e eu os amo

a todos

Lá vou eu
choramingando de ternura pelos cantos.

Sou muito grata por existir.

Tudo é a Verdade.

Sou
partícula de fogo que retorna ao Sol

Esse corpo nunca mais.

725
Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

Uma carta não enviada de Teerã

Tendo que me haver
com a dor
pergunto-me se existiria
a dor
em Teerã
existiria
em Teerã
a dor da sua perda
a dor dos dias azuis
que se foram
– tão azuis sobre
a rua vazia
tão vazia
a não ser por
você e eu
você a quem
dirijo estas palavras
viverá para sempre
quem a gente ama
não cessa nunca
de viver aqui
ou em Teerã
existiria em Teerã
a melodia confusa
do idioma farsi
a falar de ogivas
de reatores
de urânio
de água pesada
de minas escondidas
de explosões
nas montanhas
há montanhas em Teerã
e picos nevados
há inverno em Teerã
e há carros
muitos carros
que pronunciam sua pressa
sobre viadutos
ao redor de monumentos
através de túneis enormes
em Teerã
igualmente poderia falar
de um doce de
mel de
rosas
de gazelas
tudo seria indistinto
em Teerã
o vendedor diria
laranjas
e não saberíamos como se diz
laranjas
diria nozes melões tangerinas
diria cerejas pêssegos uvas
diria romãs de Teerã
e nada disso saberíamos dizer
ouviríamos nomes
terminados em
i
e em nenhum deles caberia
a redondilha menor
do seu nome
as ascendentes e descendentes
do seu nome
não marcariam página alguma
em Teerã
quiçá
não existisse
a marca que é
a falta do meu pai
em Teerã
imersa estaria eu
no balbucio
murmurejante
no acalanto
do sem sentido
em Teerã
até que me viesse pescar
um nítido
um claro
mérci
recordando o gesto
importado
de outra civilização tomado
de empréstimo
pela diplomacia persa
aquela que
fere
com um elogio
tão discretamente como quem
toma devagar seu café
num café da manhã
em Teerã
625
Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

Uma carta não enviada de Teerã

Tendo que me haver
com a dor
pergunto-me se existiria
a dor
em Teerã
existiria
em Teerã
a dor da sua perda
a dor dos dias azuis
que se foram
– tão azuis sobre
a rua vazia
tão vazia
a não ser por
você e eu
você a quem
dirijo estas palavras
viverá para sempre
quem a gente ama
não cessa nunca
de viver aqui
ou em Teerã
existiria em Teerã
a melodia confusa
do idioma farsi
a falar de ogivas
de reatores
de urânio
de água pesada
de minas escondidas
de explosões
nas montanhas
há montanhas em Teerã
e picos nevados
há inverno em Teerã
e há carros
muitos carros
que pronunciam sua pressa
sobre viadutos
ao redor de monumentos
através de túneis enormes
em Teerã
igualmente poderia falar
de um doce de
mel de
rosas
de gazelas
tudo seria indistinto
em Teerã
o vendedor diria
laranjas
e não saberíamos como se diz
laranjas
diria nozes melões tangerinas
diria cerejas pêssegos uvas
diria romãs de Teerã
e nada disso saberíamos dizer
ouviríamos nomes
terminados em
i
e em nenhum deles caberia
a redondilha menor
do seu nome
as ascendentes e descendentes
do seu nome
não marcariam página alguma
em Teerã
quiçá
não existisse
a marca que é
a falta do meu pai
em Teerã
imersa estaria eu
no balbucio
murmurejante
no acalanto
do sem sentido
em Teerã
até que me viesse pescar
um nítido
um claro
mérci
recordando o gesto
importado
de outra civilização tomado
de empréstimo
pela diplomacia persa
aquela que
fere
com um elogio
tão discretamente como quem
toma devagar seu café
num café da manhã
em Teerã
625
Renato Rezende

Renato Rezende

[Ossos]

Eu fazia, fazia e continuava com a sensação de ser nada. Vazio. Enquanto você, sem fazer nada, era. É. Me ensina a ser, assim, já sendo—sem esse constante vir a ser.

Segure o Amor e solte todo o resto.

Solta.

Tudo é perfeito habitando o Amor,

Amor,

Eu te mando pelo correio um grande coração de chocolate, para você devorar de olhos fechados, como se fosse o meu próprio coração apaixonado.

[depois me manda de volta,
num potinho,
o resultado do meu amor no seu sistema digestivo]

eu te amo desta forma ardente porque sei que nosso amor nunca
vai se realizar

eu te amo porque você é impossível
eu te faço impossível para poder te amar

eu gozo no impossível

eu quero o impossível

[eu sou um poeta místico?]

(Fecho os olhos e me deito sob o sol, fora do tempo, sem história ou linguagem)

Meus olhos estão leves, como se flutuassem fora do corpo.

Sou um homem casto e uma mulher devassa

Com doçura imagino ser devorado por demônios, enormes insetos cegos com garras, até que só restem os ossos, o esqueleto ardente

O sol explode no centro do meu coeur.

O mago ordenou entoando em língua de mortos

que cortassem meu corpo
limpassem meus ossos
recobrindo tudo
com carne nova

Vi o corpo todo em fogo. É preciso incendiar o corpo. Preciso
explodir no aqui.
Emergir do lado de lá.

Como reinventar-se? Como dar nascimento a si mesmo?

Não na linguagem, mas no próprio ser?

O corpo é a linguagem.

Quem inspira e expira em mim agora são meus pés.
1 033
Renato Rezende

Renato Rezende

[Equilibrista]

Agora que vivo a diferença de cultura radicalmente, minha convicção é de que sempre vivemos num sistema de vida muito específico, seja numa cultura, seja noutra, seja entre uma e outra. Poderíamos estar vivendo em outro completamente diferente, mas é esse que impera. Poderíamos ter cinco sexos em vez de dois. Poderíamos ter mais idades de vida ou menos.

É aqui onde eu queria chegar: quanto mais específico se torna o meu saber do mundo, mais levantam-se hipóteses de especificidades totalmente outras e mais aumenta minha convicção da miséria de tal especificidade observada.

O que me espanta é que a maioria acredita no jogo que está jogando, não percebe que se trata de um imenso teatro de um Deus ... nada maléfico, que apenas está nos dando pistas para sair de seu labirinto. Inclusive todos me fornecem pistas para sair do labirinto, todos e tudo. Mas você é um dos que encontrei que mais tem consciência, contudo, de que tudo isso é um teatro labiríntico ou um labirinto teatral.

Quando a gente fica mais madura, fica um pouco horrorizada quando pensa como éramos inconseqüentes, como brincamos de equilibrista à beira do precipício. Olhando para trás, pensamos: somente nossa inocência pode ter nos salvado do desastre.

Como é uma vida nova, receio perdê-la. Receio assustar-me, preocupar-me, angustiar-me, cair em ansiedade—como se para salvar-me eu viesse a botar tudo a perder. Então quero proteger este meu reino interior recém alcançado. Quero protegê-lo e não quero fazer nada, com medo de precipitar-me. Só quero me guiar pelo amor, e dele não quero me afastar—mesmo que pareça que naufragarei contra os rochedos.

Não quero ser útil, não quero produzir, quero apenas ser e amar. Apenas amar.

A verdade é que sempre aspirei à derrota. Sempre busquei a derrota— flertei com o fracasso; o fracasso sempre me seduziu. O fracasso como método de ascese.

Peixe arredio, criatura das profundezas e das madrugadas,
Conformada com amores apenas prometidos,
países maravilhosos para não serem visitados,
vida apenas se for em versos:

Esta sou eu, por dentro e por fora. Meu querido,

Durante as noites tenho tido sonhos que revelam o mundo interior, que descolam a identidade do corpo, que me mergulham no que há aquém da linguagem.

A parte também é infinita, porque o todo é infinito.

(Ao invés de nada, tudo)

Tem muita visceralidade, uma visão do fenômeno poético vinculada à decomposição escatológica da linguagem.

Esse é o diário de um suicida.

Eu sou a cor dourada.

Invente um projeto doido para sua vida:

Gigantesco, Insensato.
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