Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Renato Rezende
Ruínas
Algo me prende ainda
à vida
e espero que passe.
Algo me prende à vida—é o amor
e a arte;
e espero que logo passem.
à vida
e espero que passe.
Algo me prende à vida—é o amor
e a arte;
e espero que logo passem.
1 144
Renato Rezende
Olho
De repente,
no meio do shopping
o impulso natural,
o súbito desejo
de ficar cego.
no meio do shopping
o impulso natural,
o súbito desejo
de ficar cego.
996
Renato Rezende
[O Dia]
Somos todos iguais, é preciso ter compaixão pelas limitações dos outros e pelas minhas também. Preciso de mais compaixão por mim mesmo. Vou deixar rolar o que está acontecendo. Por que essa agonia? Está tudo bem. Sim, existe um grande esforço interno para chegar ao ponto de encontro entre o Ser e o não-Ser, e me sinto confuso.
Tentar colocar o mínimo de estresse possível nesse esforço, nessa confusão.
Eu, que sempre levanto tarde, acordei mais cedo (é sempre bom ver as pessoas na rua, saindo de casa, começando o dia, no frescor da manhã, isso deve acontecer todos os dias, enquanto eu durmo) para buscar um cheque derradeiro. Depois pensei em dar uma volta na cidade, no bairro, visitar uma exposição... mas voltei para casa. Já não sou o flanêur que era. Já não vejo sentido em caminhar a esmo.
Já não quero ver mais nada. Mas tampouco logro ficar parado dentro de mim mesmo.
Tranquila/ No centro de sua maravilha.
Ontem à noite, antes de dormir, senti nitidamente a pulsação, o limite entre o êxtase e um esvaziamento depressivo—era uma questão de um pequeno esforço para fixar-me no êxtase. Mas ambos não
pareciam estar em mim.
Se é para morrer, melhor morrer logo.
Começo a trabalhar sem ânimo numa pequena tradução—sintome encurralado, pressionado, com tudo atrasado. Mesmo com quase nada para fazer.
Não quero fazer nada.
Dai-me um corpo, uma voz, uma função.
O que fazer com meu desejo? Onde está o meu desejo? Eu que não soube escolher entre ser homem ou mulher. De tanto não saber o que fazer com o desejo, perdi-o de vista.
Mais uma vez, deixo o trabalho e deito-me na cama, no meio do dia.
Felicidade. Angústia.
Fique tranqüila/ No centro de sua maravilha.
Tentar colocar o mínimo de estresse possível nesse esforço, nessa confusão.
Eu, que sempre levanto tarde, acordei mais cedo (é sempre bom ver as pessoas na rua, saindo de casa, começando o dia, no frescor da manhã, isso deve acontecer todos os dias, enquanto eu durmo) para buscar um cheque derradeiro. Depois pensei em dar uma volta na cidade, no bairro, visitar uma exposição... mas voltei para casa. Já não sou o flanêur que era. Já não vejo sentido em caminhar a esmo.
Já não quero ver mais nada. Mas tampouco logro ficar parado dentro de mim mesmo.
Tranquila/ No centro de sua maravilha.
Ontem à noite, antes de dormir, senti nitidamente a pulsação, o limite entre o êxtase e um esvaziamento depressivo—era uma questão de um pequeno esforço para fixar-me no êxtase. Mas ambos não
pareciam estar em mim.
Se é para morrer, melhor morrer logo.
Começo a trabalhar sem ânimo numa pequena tradução—sintome encurralado, pressionado, com tudo atrasado. Mesmo com quase nada para fazer.
Não quero fazer nada.
Dai-me um corpo, uma voz, uma função.
O que fazer com meu desejo? Onde está o meu desejo? Eu que não soube escolher entre ser homem ou mulher. De tanto não saber o que fazer com o desejo, perdi-o de vista.
Mais uma vez, deixo o trabalho e deito-me na cama, no meio do dia.
Felicidade. Angústia.
Fique tranqüila/ No centro de sua maravilha.
1 008
Renato Rezende
As Duas Águas
(Sou uma caixa ou uma concha
onde marulha uma água
um mar inteiro preso
entre o espírito e a carne)
Existem duas águas
em mim, em agonia.
As profundas e as rasas.
As rasas são claras,
e no entanto sujas.
Estão em contato
constante com o dia.
(O reino fecundo das cores
e das palavras-fontes).
As profundas são escuras,
embora de matéria mais pura.
Quase não refletem as nuvens.
São as águas
"onde a infância naufraga".
Águas paradas
onde a vida naufraga
em si mesma,
e o dia na noite.
Águas-alma
de total silêncio.
Há em mim
uma tensão entre tais águas
que não se mesclam.
Assim como não se mesclam
o Negro e o Solimões.
Entre estas duas águas
como um peixe
enfermo, eu me sufoco.
Eu, que quero
num salto Amazonas
engolir as águas,
e fazer delas uma.
São Paulo, 20 de junho 1997
onde marulha uma água
um mar inteiro preso
entre o espírito e a carne)
Existem duas águas
em mim, em agonia.
As profundas e as rasas.
As rasas são claras,
e no entanto sujas.
Estão em contato
constante com o dia.
(O reino fecundo das cores
e das palavras-fontes).
As profundas são escuras,
embora de matéria mais pura.
Quase não refletem as nuvens.
São as águas
"onde a infância naufraga".
Águas paradas
onde a vida naufraga
em si mesma,
e o dia na noite.
Águas-alma
de total silêncio.
Há em mim
uma tensão entre tais águas
que não se mesclam.
Assim como não se mesclam
o Negro e o Solimões.
Entre estas duas águas
como um peixe
enfermo, eu me sufoco.
Eu, que quero
num salto Amazonas
engolir as águas,
e fazer delas uma.
São Paulo, 20 de junho 1997
1 193
Renato Rezende
[Abelhas]
Ele pensa que existe, mas no fundo, quem existe sou apenas eu. Sem saber quem é, ele rodopia sem parar pelo mundo. Como uma borboleta, como um beija-flor, sem núcleo, sem centro, vazio-oco. Na caverna dele estou eu, mas ele não me vê, escondida que estou em luz. Por isso ele gira estonteante, amando tudo o que sente, o que vê, o que toca. Eu o fiz para isso mesmo. Para ele me amar. Um dia eu me revelo e ele me descobre.
Ele é apenas uma sombra, no fundo, seu medo tem fundamento. Intui que não existe, sabe que vai morrer. Quem existe sou eu: não mais a Morte, mas a Bem-Aventurança.
A pessoa viva deseja. A morta ama.
Eu sou sempre-viva porque todos os dias me despedaço por ele.
Todos os dias bebo meu próprio sangue por ele. Você se sacrificaria por mim?
Mais cedo ou mais tarde, tem um dia em que o teto cai, a gente rola para dentro do próprio ralo. Minha amiga: eu fico aqui, de boca aberta, esperando, torcendo. Você terá coragem de passar por esse ralo? Você vem jorrar em minha boca?
Eu não escrevo poemas; eu sou um poema. Eu escrevo pessoas. Por exemplo, agora, estou escrevendo você.
Enquanto você se transforma em palavras, eu te transformo em pessoa. Sei que é difícil de entender, mas é assim mesmo. Você é como um molde de cera, um equilíbrio de passagem. Assim que esvaziarse toda em palavra e seu frágil molde derreter pelo meu fogo, vai perceber surpresa que em seu lugar você agora é: ouro. Vida nova.
Vida viva. Ouro aéreo: luz: o universo iluminado. Vai se sentir virada do avesso. Grata: esse trabalho quem faz sou eu.
Mas é preciso que você queira. É preciso que você me deseje obscenamente. Venha, minha amiga, sejamos cachorras.
Não se assuste. Minha função é pôr a mão na sua caixa de marimbondos. Libertar suas abelhas vermelhas, ferozes. Você multiplicada, dividida, em milhões de abelhas douradas pelo espaço aberto. Você suportará seu próprio zumbir?
Eu posso perfeitamente mastigar abelhas vivas. Quer ver?
Ele é apenas uma sombra, no fundo, seu medo tem fundamento. Intui que não existe, sabe que vai morrer. Quem existe sou eu: não mais a Morte, mas a Bem-Aventurança.
A pessoa viva deseja. A morta ama.
Eu sou sempre-viva porque todos os dias me despedaço por ele.
Todos os dias bebo meu próprio sangue por ele. Você se sacrificaria por mim?
Mais cedo ou mais tarde, tem um dia em que o teto cai, a gente rola para dentro do próprio ralo. Minha amiga: eu fico aqui, de boca aberta, esperando, torcendo. Você terá coragem de passar por esse ralo? Você vem jorrar em minha boca?
Eu não escrevo poemas; eu sou um poema. Eu escrevo pessoas. Por exemplo, agora, estou escrevendo você.
Enquanto você se transforma em palavras, eu te transformo em pessoa. Sei que é difícil de entender, mas é assim mesmo. Você é como um molde de cera, um equilíbrio de passagem. Assim que esvaziarse toda em palavra e seu frágil molde derreter pelo meu fogo, vai perceber surpresa que em seu lugar você agora é: ouro. Vida nova.
Vida viva. Ouro aéreo: luz: o universo iluminado. Vai se sentir virada do avesso. Grata: esse trabalho quem faz sou eu.
Mas é preciso que você queira. É preciso que você me deseje obscenamente. Venha, minha amiga, sejamos cachorras.
Não se assuste. Minha função é pôr a mão na sua caixa de marimbondos. Libertar suas abelhas vermelhas, ferozes. Você multiplicada, dividida, em milhões de abelhas douradas pelo espaço aberto. Você suportará seu próprio zumbir?
Eu posso perfeitamente mastigar abelhas vivas. Quer ver?
1 062
Renato Rezende
Fim da Trilha
Não faça nada:
sente
nesta praça às margens
do mundo
e deixe
a dor cortar fundo.
Faca
in-su-por-tá-vel.
Eu tenho seguido suas pegadas
pelos caminhos mais gelados, amor.
– ABRE!
sente
nesta praça às margens
do mundo
e deixe
a dor cortar fundo.
Faca
in-su-por-tá-vel.
Eu tenho seguido suas pegadas
pelos caminhos mais gelados, amor.
– ABRE!
983
Renato Rezende
Fim da Trilha
Não faça nada:
sente
nesta praça às margens
do mundo
e deixe
a dor cortar fundo.
Faca
in-su-por-tá-vel.
Eu tenho seguido suas pegadas
pelos caminhos mais gelados, amor.
– ABRE!
sente
nesta praça às margens
do mundo
e deixe
a dor cortar fundo.
Faca
in-su-por-tá-vel.
Eu tenho seguido suas pegadas
pelos caminhos mais gelados, amor.
– ABRE!
983
Renato Rezende
O Outro Em Mim
Presta atenção: a vida inteira
esperando que um dia alguém nos dê a mão.
Na juventude, para mim, era uma sombra feminina
que eu levava para todos os cantos, e amava.
Eu amava estonteantemente aquela menina.
Nunca veio, nunca virá, meu próprio espelho.
Estamos essencialmente sós neste mundo. Mas não tão
sós a ponto de poder fazer de cada momento
um momento sem qualquer desejo,
puro e pleno.
(ROMPER TODOS OS ESPELHOS)
esperando que um dia alguém nos dê a mão.
Na juventude, para mim, era uma sombra feminina
que eu levava para todos os cantos, e amava.
Eu amava estonteantemente aquela menina.
Nunca veio, nunca virá, meu próprio espelho.
Estamos essencialmente sós neste mundo. Mas não tão
sós a ponto de poder fazer de cada momento
um momento sem qualquer desejo,
puro e pleno.
(ROMPER TODOS OS ESPELHOS)
739
Renato Rezende
O Outro Em Mim
Presta atenção: a vida inteira
esperando que um dia alguém nos dê a mão.
Na juventude, para mim, era uma sombra feminina
que eu levava para todos os cantos, e amava.
Eu amava estonteantemente aquela menina.
Nunca veio, nunca virá, meu próprio espelho.
Estamos essencialmente sós neste mundo. Mas não tão
sós a ponto de poder fazer de cada momento
um momento sem qualquer desejo,
puro e pleno.
(ROMPER TODOS OS ESPELHOS)
esperando que um dia alguém nos dê a mão.
Na juventude, para mim, era uma sombra feminina
que eu levava para todos os cantos, e amava.
Eu amava estonteantemente aquela menina.
Nunca veio, nunca virá, meu próprio espelho.
Estamos essencialmente sós neste mundo. Mas não tão
sós a ponto de poder fazer de cada momento
um momento sem qualquer desejo,
puro e pleno.
(ROMPER TODOS OS ESPELHOS)
739
Renato Rezende
Mudo
A linguagem é tudo
para o homem, não há mundo
fora dela, a linguagem
me recobre, e quando forço
a passagem, quando forço
o que em mim diz “não posso
mais”/ caio
fundo
poço
de silêncio murro:
MUDO
para o homem, não há mundo
fora dela, a linguagem
me recobre, e quando forço
a passagem, quando forço
o que em mim diz “não posso
mais”/ caio
fundo
poço
de silêncio murro:
MUDO
1 109
Renato Rezende
Balada Das Barcas
As barcas
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
947
Renato Rezende
A Mangueira
Sob o sol há sempre perda e esse pé
de manga na calçada da ladeira
me lembra agora a infância passada
descalça na ensolarada fazenda.
Meu pai a cavalo! As brincadeiras
no curral entre as vacas, as batalhas
de cevada quente, a terra vermelha,
a cachoeira em prata, o terreiro de café!
O sol parecia eterno.
Mas tudo passa. A cega mangueira
sozinha (longe da mata) na subida
íngreme desta alameda escondida
das avenidas do Rio de Janeiro
também parece me reconhecer, lenta
e perplexa --e como que se abaixa.
Aproximo-me. Sem que ninguém veja
longamente beijo sua antiga casca.
Velha amiga! Foi apenas ontem
que sem medo subia em seus galhos.
Durante o dia com fome dos seus frutos
como o sol dourados e doces;
ou na preguiçosa tarde sob sua sombra
observando os pássaros do mato.
E de noite contra seu tronco, sedento
do fruto proibido, os beijos escondidos
(na brincadeira de esconde-esconde), a boca
rosada da jovem moça da colônia...
No céu riscavam estrelas cadentes...
Lembra? Foi mesmo ontem! E hoje
nos reencontramos de novo!
Mas, amiga, não estaria eu sendo tolo
e dourando (de novo) a pílula do passado?
Fala a verdade, responde... uma rajada
de vento farfalha as suas folhas:
Isto é o lado bom, a grande vantagem
do tempo, que passa, e passando
recolore o já vivido com nova graça....
Que bom que isso aconteça, e é certo
que assim seja. Mas quando, amiga, onde
o sol que enfim nos espera, que vai dourar
o que sempre somos agora? Cá estamos,
você --permita-me-- abandonada e seca
eu, abandonado e longe, náufragos à deriva
em nossos corpos --de nossas próprias vidas.
Vivemos ainda da seiva dos velhos sonhos.
(Os velhos sonhos de ser tudo e todos
além do fogo-tempo e seus círculos).
Rio de Janeiro, 18 de julho 1997
de manga na calçada da ladeira
me lembra agora a infância passada
descalça na ensolarada fazenda.
Meu pai a cavalo! As brincadeiras
no curral entre as vacas, as batalhas
de cevada quente, a terra vermelha,
a cachoeira em prata, o terreiro de café!
O sol parecia eterno.
Mas tudo passa. A cega mangueira
sozinha (longe da mata) na subida
íngreme desta alameda escondida
das avenidas do Rio de Janeiro
também parece me reconhecer, lenta
e perplexa --e como que se abaixa.
Aproximo-me. Sem que ninguém veja
longamente beijo sua antiga casca.
Velha amiga! Foi apenas ontem
que sem medo subia em seus galhos.
Durante o dia com fome dos seus frutos
como o sol dourados e doces;
ou na preguiçosa tarde sob sua sombra
observando os pássaros do mato.
E de noite contra seu tronco, sedento
do fruto proibido, os beijos escondidos
(na brincadeira de esconde-esconde), a boca
rosada da jovem moça da colônia...
No céu riscavam estrelas cadentes...
Lembra? Foi mesmo ontem! E hoje
nos reencontramos de novo!
Mas, amiga, não estaria eu sendo tolo
e dourando (de novo) a pílula do passado?
Fala a verdade, responde... uma rajada
de vento farfalha as suas folhas:
Isto é o lado bom, a grande vantagem
do tempo, que passa, e passando
recolore o já vivido com nova graça....
Que bom que isso aconteça, e é certo
que assim seja. Mas quando, amiga, onde
o sol que enfim nos espera, que vai dourar
o que sempre somos agora? Cá estamos,
você --permita-me-- abandonada e seca
eu, abandonado e longe, náufragos à deriva
em nossos corpos --de nossas próprias vidas.
Vivemos ainda da seiva dos velhos sonhos.
(Os velhos sonhos de ser tudo e todos
além do fogo-tempo e seus círculos).
Rio de Janeiro, 18 de julho 1997
704
Renato Rezende
A Mangueira
Sob o sol há sempre perda e esse pé
de manga na calçada da ladeira
me lembra agora a infância passada
descalça na ensolarada fazenda.
Meu pai a cavalo! As brincadeiras
no curral entre as vacas, as batalhas
de cevada quente, a terra vermelha,
a cachoeira em prata, o terreiro de café!
O sol parecia eterno.
Mas tudo passa. A cega mangueira
sozinha (longe da mata) na subida
íngreme desta alameda escondida
das avenidas do Rio de Janeiro
também parece me reconhecer, lenta
e perplexa --e como que se abaixa.
Aproximo-me. Sem que ninguém veja
longamente beijo sua antiga casca.
Velha amiga! Foi apenas ontem
que sem medo subia em seus galhos.
Durante o dia com fome dos seus frutos
como o sol dourados e doces;
ou na preguiçosa tarde sob sua sombra
observando os pássaros do mato.
E de noite contra seu tronco, sedento
do fruto proibido, os beijos escondidos
(na brincadeira de esconde-esconde), a boca
rosada da jovem moça da colônia...
No céu riscavam estrelas cadentes...
Lembra? Foi mesmo ontem! E hoje
nos reencontramos de novo!
Mas, amiga, não estaria eu sendo tolo
e dourando (de novo) a pílula do passado?
Fala a verdade, responde... uma rajada
de vento farfalha as suas folhas:
Isto é o lado bom, a grande vantagem
do tempo, que passa, e passando
recolore o já vivido com nova graça....
Que bom que isso aconteça, e é certo
que assim seja. Mas quando, amiga, onde
o sol que enfim nos espera, que vai dourar
o que sempre somos agora? Cá estamos,
você --permita-me-- abandonada e seca
eu, abandonado e longe, náufragos à deriva
em nossos corpos --de nossas próprias vidas.
Vivemos ainda da seiva dos velhos sonhos.
(Os velhos sonhos de ser tudo e todos
além do fogo-tempo e seus círculos).
Rio de Janeiro, 18 de julho 1997
de manga na calçada da ladeira
me lembra agora a infância passada
descalça na ensolarada fazenda.
Meu pai a cavalo! As brincadeiras
no curral entre as vacas, as batalhas
de cevada quente, a terra vermelha,
a cachoeira em prata, o terreiro de café!
O sol parecia eterno.
Mas tudo passa. A cega mangueira
sozinha (longe da mata) na subida
íngreme desta alameda escondida
das avenidas do Rio de Janeiro
também parece me reconhecer, lenta
e perplexa --e como que se abaixa.
Aproximo-me. Sem que ninguém veja
longamente beijo sua antiga casca.
Velha amiga! Foi apenas ontem
que sem medo subia em seus galhos.
Durante o dia com fome dos seus frutos
como o sol dourados e doces;
ou na preguiçosa tarde sob sua sombra
observando os pássaros do mato.
E de noite contra seu tronco, sedento
do fruto proibido, os beijos escondidos
(na brincadeira de esconde-esconde), a boca
rosada da jovem moça da colônia...
No céu riscavam estrelas cadentes...
Lembra? Foi mesmo ontem! E hoje
nos reencontramos de novo!
Mas, amiga, não estaria eu sendo tolo
e dourando (de novo) a pílula do passado?
Fala a verdade, responde... uma rajada
de vento farfalha as suas folhas:
Isto é o lado bom, a grande vantagem
do tempo, que passa, e passando
recolore o já vivido com nova graça....
Que bom que isso aconteça, e é certo
que assim seja. Mas quando, amiga, onde
o sol que enfim nos espera, que vai dourar
o que sempre somos agora? Cá estamos,
você --permita-me-- abandonada e seca
eu, abandonado e longe, náufragos à deriva
em nossos corpos --de nossas próprias vidas.
Vivemos ainda da seiva dos velhos sonhos.
(Os velhos sonhos de ser tudo e todos
além do fogo-tempo e seus círculos).
Rio de Janeiro, 18 de julho 1997
704
Renato Rezende
Corte
[ ]
La vraie vie
est absente.
] [
Mas onde
é isso?
Na Abissínia?
Na morte?
[EU NÃO VOLTO!]
La vraie vie
est absente.
] [
Mas onde
é isso?
Na Abissínia?
Na morte?
[EU NÃO VOLTO!]
962
Renato Rezende
Desprendimentos
...
desolações extraordinárias.
tempestades
de carne; terremotos
nos ossos; tufões
no olho d’alma.
...
fome; erupções
vulcânicas; quedas das alturas
mais altas;
pragas.
...
a queda de cada máscara
com a cara + serena e calma
desolações extraordinárias.
tempestades
de carne; terremotos
nos ossos; tufões
no olho d’alma.
...
fome; erupções
vulcânicas; quedas das alturas
mais altas;
pragas.
...
a queda de cada máscara
com a cara + serena e calma
730
Renato Rezende
Desprendimentos
...
desolações extraordinárias.
tempestades
de carne; terremotos
nos ossos; tufões
no olho d’alma.
...
fome; erupções
vulcânicas; quedas das alturas
mais altas;
pragas.
...
a queda de cada máscara
com a cara + serena e calma
desolações extraordinárias.
tempestades
de carne; terremotos
nos ossos; tufões
no olho d’alma.
...
fome; erupções
vulcânicas; quedas das alturas
mais altas;
pragas.
...
a queda de cada máscara
com a cara + serena e calma
730
Renato Rezende
Ímpar
nem homem, nem mulher, nem anjo,
nem cachorro, nem demônio
nada
que tenha par
estranho
e no entanto anda
e fala
nem cachorro, nem demônio
nada
que tenha par
estranho
e no entanto anda
e fala
1 003
Renato Rezende
[Beija-Flor]
Ele viu um beija-flor todo enroscado numa teia de aranha. O beijaflor estava praticamente mumificado e, se ainda vivia, não seria por muito tempo. Ele ficou um tempão observando aquilo, surpreso, sem entender como um pássaro podia ficar preso em algo tão frágil quanto uma teia de aranha. Ele achava que isso só acontecia com insetos. Como é que o beija-flor, que era muito mais forte, não havia simplesmente rompido a teia? Então lhe ocorreu que a gente pode se enroscar na própria fragilidade, até chegar ao ponto de perder as forças. Por algum motivo o beija-flor se enroscou, e se debateu em vez de apenas ir embora, entrou em pânico, perdeu o caminho, exauriu-se. E aí foi fácil para a aranha tecer mais e mais teia em volta dele.
Estou carregando um cadáver.
É preciso vencer de uma vez por todas essa zona magnética de dor que me evita chegar em mim mesmo.
Apesar de ainda manter fortes resquícios de um véu doloroso e sentimentos de confusão e incerteza, sinto que estou reagindo bem e vencendo o caos sem deixar que ele se expanda.
Invoquei a Deusa—a deusa é uma realidade. Senti-me a deusa. É preciso fazer todos os esforços para manter a experiência do amor divino, a chama acesa dentro do corpo brilhando alto. Invoquei Durga, e vi seu pé gigantesco, seu dedão do pé direito gigantesco, seu corpo que subia até os céus e seu rosto que era o rosto de Deus.
Disse à deusa: corte minha cabeça. E me inclinei.
Não se enrosque na fragilidade.
Homens ou mulheres; somos todos mulheres.
Corte minha cabeça
e beba meu sangue.
Eu não sou eu; eu sou uma coisa muito diferente de mim mesmo.
Não. Somos todos iguais, sim. Em cada um de nós existe a luz e a escuridão. Eu preciso tomar posse de todo meu território. E direcionar minha vida. Pois o direcionamento acontece no tempo, e o tempo é a dimensão humana. O que eu vou fazer com esta vida que me foi dada,
assim, de repente? Estou nervosa. Muito nervosa. Vou sangrar. Rôo unhas.
Tenho unhas. Vou sair andando como se fosse de fato uma pessoa, e vou fazer coisas que uma pessoa faz. Vou gastar meu tempo escrevendo.
Dianóia
Posso ser enquanto falo?
Estou carregando um cadáver.
É preciso vencer de uma vez por todas essa zona magnética de dor que me evita chegar em mim mesmo.
Apesar de ainda manter fortes resquícios de um véu doloroso e sentimentos de confusão e incerteza, sinto que estou reagindo bem e vencendo o caos sem deixar que ele se expanda.
Invoquei a Deusa—a deusa é uma realidade. Senti-me a deusa. É preciso fazer todos os esforços para manter a experiência do amor divino, a chama acesa dentro do corpo brilhando alto. Invoquei Durga, e vi seu pé gigantesco, seu dedão do pé direito gigantesco, seu corpo que subia até os céus e seu rosto que era o rosto de Deus.
Disse à deusa: corte minha cabeça. E me inclinei.
Não se enrosque na fragilidade.
Homens ou mulheres; somos todos mulheres.
Corte minha cabeça
e beba meu sangue.
Eu não sou eu; eu sou uma coisa muito diferente de mim mesmo.
Não. Somos todos iguais, sim. Em cada um de nós existe a luz e a escuridão. Eu preciso tomar posse de todo meu território. E direcionar minha vida. Pois o direcionamento acontece no tempo, e o tempo é a dimensão humana. O que eu vou fazer com esta vida que me foi dada,
assim, de repente? Estou nervosa. Muito nervosa. Vou sangrar. Rôo unhas.
Tenho unhas. Vou sair andando como se fosse de fato uma pessoa, e vou fazer coisas que uma pessoa faz. Vou gastar meu tempo escrevendo.
Dianóia
Posso ser enquanto falo?
1 081
Renato Rezende
Dasein 04.02.05
Acordo durante a noite para mijar e envolto em manchas de luz azul percebo que a alegria
constante, livre de qualquer dor ou preocupação é possível e, na verdade, a verdadeira realidade.
Volto para a cama me perguntando quando vou despertar deste sonho, deste nível de existência
diversificada, e enfim penetrar na realidade real, a realidade azul do Ser—quando atravessarei a
fronteira e começarei a existir de fato?
constante, livre de qualquer dor ou preocupação é possível e, na verdade, a verdadeira realidade.
Volto para a cama me perguntando quando vou despertar deste sonho, deste nível de existência
diversificada, e enfim penetrar na realidade real, a realidade azul do Ser—quando atravessarei a
fronteira e começarei a existir de fato?
960
Renato Rezende
Bicho de Goiaba
No tacho de cobre/ vermelho
era eu mesmo me derretendo.
Todos os dias, o dia.
Aqui estou eu, de repente, o mesmo,
no ermo recanto das flores
da infância de mim mesmo.
Aqui estou eu, como num sonho
ou num porto-fragmento
do que já fui, perdido no tempo.
Irrompo aos gritos a casa ensolarada
e tudo brilha e está em seu lugar
enquanto gira ao redor do nada.
Aquelas manhãs na fazenda
ainda existem, não se perderam, estão lá
agora,
você que é o sempre ausente.
Mas espere
ainda há esperança, e por mais um dia
por dádiva dos deuses
que giram todos os dias
a roda do destino
eu apareço, inteiro.
As terras
ainda estão aqui, generosas
e fecundas, vermelhas.
Ainda não vendemos
nossa memória, nem mesmo o medo
de menino sozinho no quarto escuro...
e já acaba o óleo da lamparina
papai e mamãe dormem
do outro lado da enorme casa
e a sombra bruxeleia na parede escura,
no forro passeiam gambás
aranhas e baratas
infestam o chão a esta hora.
O banheiro
está do outro lado do mundo
no fim do corredor
imenso de assoalho vermelho.
Se acordo meu pai
ele vai ficar bravo e vai ser pior.
Fazer xixi na cama
é até gostoso
(o prenúncio
de um prazer maior),
é quentinho
e com este calor logo seca, ninguém nota.
Meu irmão dorme na cama ao lado
e estas duas camas parecem agora dois barcos
que se separam no enorme mar do tempo.
Tenho medo
de ficar sozinho.
E se meus pais morrerem?
(Ensaio na madrugada o sofrimento da desgraça
que durante a vida inteira espero que aconteça).
Rompe o dia.
Assisto
pela janela encardida a delicadeza da aurora
e com pijamas saio lá fora.
Estou na varanda. Ouço pássaros novos
e vacas rumo aos currais de outrora.
Do pomar irrompe um porco
que como tudo agora é puro mistério e delicadeza
banhado de luz dourada.
A doçura é tanta
que acuado volto para cama.
O que mais dança
no centro do meu peito?
Antigas penteadeiras
de madeira de lei
ou mármore de carrara.
Jarras de prata, tachos
de cobre
onde ferve a minha carne
mexida pela preta velha
que pica e cospe tabaco
junto ao seu fogão de cinzas e lenha.
Posso vê-la, de longe
varrendo pétalas e poeira
sobre as pedras do terreiro.
-- Aí! D. Paula!
Esse pirão é feito de água ou leite?
-- De água, fiô, de água.
Espelhos.
Piso de tábua larga.
Ping-pong com besouros.
Sapos de línguas longas.
Cavalos mangalarga
desembestados no pasto largo.
Briga de bois bravos
a despedaçar o curral.
E os homens munidos com varas e paus.
-- Ôôo! Pierrô! Eiaa! Apolo!
E depois a calmaria
da tarde de rolinhas
aninhando-se no enorme pau-d'alho
as borboletas com grande olhos
o pôr do sol.
O pôr do sol mais belo
e mais longo do mundo.
Mas ainda há tempo para mais um mergulho
na piscina de água corrente
onde antigamente era lavadouro de café.
Ainda há tempo
para uma espiga de milho quente,
para um copo de leite,
um punhado de jabuticabas,
um roubo de pitangas,
uma guerra de cevada.
Ainda há tempo, antes
que caia novamente a noite...
Que venham! Que venham!
No mar do naufrágio de agora
os escombros dos dias plenos.
(Hoje queremos apenas
que as crianças cresçam
e ganhar muito dinheiro).
Ribeirão Preto, Natal 1997
era eu mesmo me derretendo.
Todos os dias, o dia.
Aqui estou eu, de repente, o mesmo,
no ermo recanto das flores
da infância de mim mesmo.
Aqui estou eu, como num sonho
ou num porto-fragmento
do que já fui, perdido no tempo.
Irrompo aos gritos a casa ensolarada
e tudo brilha e está em seu lugar
enquanto gira ao redor do nada.
Aquelas manhãs na fazenda
ainda existem, não se perderam, estão lá
agora,
você que é o sempre ausente.
Mas espere
ainda há esperança, e por mais um dia
por dádiva dos deuses
que giram todos os dias
a roda do destino
eu apareço, inteiro.
As terras
ainda estão aqui, generosas
e fecundas, vermelhas.
Ainda não vendemos
nossa memória, nem mesmo o medo
de menino sozinho no quarto escuro...
e já acaba o óleo da lamparina
papai e mamãe dormem
do outro lado da enorme casa
e a sombra bruxeleia na parede escura,
no forro passeiam gambás
aranhas e baratas
infestam o chão a esta hora.
O banheiro
está do outro lado do mundo
no fim do corredor
imenso de assoalho vermelho.
Se acordo meu pai
ele vai ficar bravo e vai ser pior.
Fazer xixi na cama
é até gostoso
(o prenúncio
de um prazer maior),
é quentinho
e com este calor logo seca, ninguém nota.
Meu irmão dorme na cama ao lado
e estas duas camas parecem agora dois barcos
que se separam no enorme mar do tempo.
Tenho medo
de ficar sozinho.
E se meus pais morrerem?
(Ensaio na madrugada o sofrimento da desgraça
que durante a vida inteira espero que aconteça).
Rompe o dia.
Assisto
pela janela encardida a delicadeza da aurora
e com pijamas saio lá fora.
Estou na varanda. Ouço pássaros novos
e vacas rumo aos currais de outrora.
Do pomar irrompe um porco
que como tudo agora é puro mistério e delicadeza
banhado de luz dourada.
A doçura é tanta
que acuado volto para cama.
O que mais dança
no centro do meu peito?
Antigas penteadeiras
de madeira de lei
ou mármore de carrara.
Jarras de prata, tachos
de cobre
onde ferve a minha carne
mexida pela preta velha
que pica e cospe tabaco
junto ao seu fogão de cinzas e lenha.
Posso vê-la, de longe
varrendo pétalas e poeira
sobre as pedras do terreiro.
-- Aí! D. Paula!
Esse pirão é feito de água ou leite?
-- De água, fiô, de água.
Espelhos.
Piso de tábua larga.
Ping-pong com besouros.
Sapos de línguas longas.
Cavalos mangalarga
desembestados no pasto largo.
Briga de bois bravos
a despedaçar o curral.
E os homens munidos com varas e paus.
-- Ôôo! Pierrô! Eiaa! Apolo!
E depois a calmaria
da tarde de rolinhas
aninhando-se no enorme pau-d'alho
as borboletas com grande olhos
o pôr do sol.
O pôr do sol mais belo
e mais longo do mundo.
Mas ainda há tempo para mais um mergulho
na piscina de água corrente
onde antigamente era lavadouro de café.
Ainda há tempo
para uma espiga de milho quente,
para um copo de leite,
um punhado de jabuticabas,
um roubo de pitangas,
uma guerra de cevada.
Ainda há tempo, antes
que caia novamente a noite...
Que venham! Que venham!
No mar do naufrágio de agora
os escombros dos dias plenos.
(Hoje queremos apenas
que as crianças cresçam
e ganhar muito dinheiro).
Ribeirão Preto, Natal 1997
1 033
Renato Rezende
Solta
Quando a música mais doce chegar,
o murmúrio do gozo
da amada
a se contorcer contra o seu corpo,
não faça nada
que de cor já saiba.
A mente calada
colada no calor do outro
abre a porta
para o salto.
AGORA: SALTA!
o murmúrio do gozo
da amada
a se contorcer contra o seu corpo,
não faça nada
que de cor já saiba.
A mente calada
colada no calor do outro
abre a porta
para o salto.
AGORA: SALTA!
1 055
Renato Rezende
Data 2
Saí para almoçar e, ao passar entre dois carros estacionados no meio-fio, vi uma menina de
rua, já para lá de adolescente, cagando. Estava agachada, de cócoras, com a calça abaixada.
Quando me viu, abriu o maior sorriso, e disse, “meu banheiro é aqui mesmo, moço”, sem por um
instante parar de fazer o que fazia. Dava para ver, por entre o vão formado por suas pernas, a massa
de merda no asfalto. Eu, que costumo me indignar com os dejetos de cães nas ruas, não me ofendi,
e não me senti diante de um ato estranho ou transgressor. Rolou até uma certa e indiscutível
sensualidade, um inconfundível apelo erótico, e por um momento pensei em parar para admirar a
cena completa, até o fim. Retribui o sorriso dos seus olhos brincalhões e continuei passando—
apenas um pouco surpreso com a total naturalidade de tudo.
rua, já para lá de adolescente, cagando. Estava agachada, de cócoras, com a calça abaixada.
Quando me viu, abriu o maior sorriso, e disse, “meu banheiro é aqui mesmo, moço”, sem por um
instante parar de fazer o que fazia. Dava para ver, por entre o vão formado por suas pernas, a massa
de merda no asfalto. Eu, que costumo me indignar com os dejetos de cães nas ruas, não me ofendi,
e não me senti diante de um ato estranho ou transgressor. Rolou até uma certa e indiscutível
sensualidade, um inconfundível apelo erótico, e por um momento pensei em parar para admirar a
cena completa, até o fim. Retribui o sorriso dos seus olhos brincalhões e continuei passando—
apenas um pouco surpreso com a total naturalidade de tudo.
767
Renato Rezende
Irene Encarnada
Le con d'Irene
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene
Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos
A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos
e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)
Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua
(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)
Nova York, outubro 1996
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene
Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos
A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos
e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)
Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua
(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)
Nova York, outubro 1996
942
Renato Rezende
Paraíso Perdido (Ou Pré-Poema)
Nenhum de nós jamais pensaria
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.
Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?
Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.
Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?
Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?
Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.
Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.
Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.
Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.
Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.
Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?
Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.
Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?
Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?
Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.
Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.
Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.
Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.
Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
943