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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Charles Bukowski

Charles Bukowski

2 Vistas

meu amigo diz, como é que você pode escrever tantos poemas
daí desta janela? eu escrevo, do útero,
ele me diz. a coisa escura da dor,
a ponta da pena da dor.
bom, isso impressiona muito
mas acontece que eu sei que nós dois recebemos uma boa quantidade de
cartas de recusa, fumamos uma boa quantidade de cigarros,
bebemos demais e tentamos roubar as mulheres
um do outro, o que não é poesia de jeito nenhum.
e ele me lê seus poemas
ele sempre me lê seus poemas
e eu ouço e não digo muita coisa,
olho pela janela,
e lá está a mesma rua
minha rua,
minha rua bêbada, ensolarada, enchuvarada, da
criançada,
e à noite olho para esta rua
às vezes
quando ela pensa que não a estou olhando,
os 1 ou 2 carros movendo-se silenciosamente,
o mesmo velho, ainda vivo, em sua
caminhada noturna,
as cortinas das casas cerradas,
o amor falhou mas
se aguenta
então vamos em frente.
mas agora é dia claro e as crianças
que algum dia serão homens velhos e mulheres velhas
caminhando através de seus últimos momentos,
essas crianças correm ao redor de um carro vermelho
gritando qualquer bobagem,
então meu amigo pousa seu poema.
bem, o que você acha?, ele pergunta.
tente assim e assim, eu cito uma revista
e então estranhamente
penso em guitarras sob o mar
tentando tocar música;
isso é triste e bom e quieto.
ele me vê parado à janela.
o que há lá fora?
olhe, eu digo,
e veja...
ele é 11 anos mais novo que eu.
ele se afasta da janela. eu preciso de uma cerveja,
não tenho mais cerveja.
caminho até a geladeira
e o assunto está encerrado.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Pague Seu Aluguel Ou Saia

em algum lugar a princesa morta
dorme com um novo amante;
só tenho alguns pacotes vazios de tocos
de cigarro que sobraram
pescados de volta pelas redes de anseios
mas tudo está bem
exceto a cor e a conduta
da abelha,
a cera demasiado vermelha
e um bilhete da mulher
na colina
que compra meus quadros:
"preocupada com você. ligue-
-me. amor. R.",
e outro bilhete sob a
porta:
"pague seu aluguel ou saia".
o aquecedor está ligado e
há um pote de pura pimenta
em pó a encarar-me,
e papel para datilografar
para preencher com poemas;
tudo está bem,
calçadas ecoam os cliques dos
saltos,
motores dão partida,
e eu tenho que lavar essas malditas
xícaras rachadas de café;
e eu me pergunto: como vai você hoje, meu
amigo?
como você está? desapontado?
infeliz?
eu? é duro. duro como um
bom poema.
mas eu me sinto muito bem,
e realmente,
essencialmente, daqui a pouco eu
vou comer
ou picadinho ou ensopado, qualquer coisa
de dentro de uma lata.
eu também poderei fazer levantamento de pesos e
espero
continuar me sentindo legal, embora meu
rádio esteja chiando
e fale de besteiras como
bons serviços de jatos;
agora são 7:30, e esse é
o jeito de homens
viverem e morrerem: não o jeito de Eliot
mas
meu jeito, nosso jeito,
quietos como uma asa fechada,
ódio queimado como em uma chaminé;
os lençóis baixando
rasgados pelo tempo
e à minha direita há uma faca que
não cortaria nem mesmo uma cebola
mas eu não tenho nenhuma cebola para
cortar, e
eu espero que você também
esteja se sentindo bem.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Pague Seu Aluguel Ou Saia

em algum lugar a princesa morta
dorme com um novo amante;
só tenho alguns pacotes vazios de tocos
de cigarro que sobraram
pescados de volta pelas redes de anseios
mas tudo está bem
exceto a cor e a conduta
da abelha,
a cera demasiado vermelha
e um bilhete da mulher
na colina
que compra meus quadros:
"preocupada com você. ligue-
-me. amor. R.",
e outro bilhete sob a
porta:
"pague seu aluguel ou saia".
o aquecedor está ligado e
há um pote de pura pimenta
em pó a encarar-me,
e papel para datilografar
para preencher com poemas;
tudo está bem,
calçadas ecoam os cliques dos
saltos,
motores dão partida,
e eu tenho que lavar essas malditas
xícaras rachadas de café;
e eu me pergunto: como vai você hoje, meu
amigo?
como você está? desapontado?
infeliz?
eu? é duro. duro como um
bom poema.
mas eu me sinto muito bem,
e realmente,
essencialmente, daqui a pouco eu
vou comer
ou picadinho ou ensopado, qualquer coisa
de dentro de uma lata.
eu também poderei fazer levantamento de pesos e
espero
continuar me sentindo legal, embora meu
rádio esteja chiando
e fale de besteiras como
bons serviços de jatos;
agora são 7:30, e esse é
o jeito de homens
viverem e morrerem: não o jeito de Eliot
mas
meu jeito, nosso jeito,
quietos como uma asa fechada,
ódio queimado como em uma chaminé;
os lençóis baixando
rasgados pelo tempo
e à minha direita há uma faca que
não cortaria nem mesmo uma cebola
mas eu não tenho nenhuma cebola para
cortar, e
eu espero que você também
esteja se sentindo bem.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Pague Seu Aluguel Ou Saia

em algum lugar a princesa morta
dorme com um novo amante;
só tenho alguns pacotes vazios de tocos
de cigarro que sobraram
pescados de volta pelas redes de anseios
mas tudo está bem
exceto a cor e a conduta
da abelha,
a cera demasiado vermelha
e um bilhete da mulher
na colina
que compra meus quadros:
"preocupada com você. ligue-
-me. amor. R.",
e outro bilhete sob a
porta:
"pague seu aluguel ou saia".
o aquecedor está ligado e
há um pote de pura pimenta
em pó a encarar-me,
e papel para datilografar
para preencher com poemas;
tudo está bem,
calçadas ecoam os cliques dos
saltos,
motores dão partida,
e eu tenho que lavar essas malditas
xícaras rachadas de café;
e eu me pergunto: como vai você hoje, meu
amigo?
como você está? desapontado?
infeliz?
eu? é duro. duro como um
bom poema.
mas eu me sinto muito bem,
e realmente,
essencialmente, daqui a pouco eu
vou comer
ou picadinho ou ensopado, qualquer coisa
de dentro de uma lata.
eu também poderei fazer levantamento de pesos e
espero
continuar me sentindo legal, embora meu
rádio esteja chiando
e fale de besteiras como
bons serviços de jatos;
agora são 7:30, e esse é
o jeito de homens
viverem e morrerem: não o jeito de Eliot
mas
meu jeito, nosso jeito,
quietos como uma asa fechada,
ódio queimado como em uma chaminé;
os lençóis baixando
rasgados pelo tempo
e à minha direita há uma faca que
não cortaria nem mesmo uma cebola
mas eu não tenho nenhuma cebola para
cortar, e
eu espero que você também
esteja se sentindo bem.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Licença Médica

aqui estou deitado de barriga para baixo, Hem está morto, Shake está
morto,
os peixes que pesquei e comi e caguei estão mortos
e o médico está martelando um tubo de vidro em meu rabo,
um tubo de vidro com uma luzinha no final,
e estou torcendo por um atestado médico
para mais 2 dias de licença
e o doutor faz o jogo direitinho: "você tem umas belezas aí,
você deveria ser cortado..." bem, os russos brancos costumavam
cavar um buraco em um homem e agarrar a ponta do seu intestino
e pregá-lo a uma árvore e em seguida obrigavam o homem a
correr dando voltas e voltas na árvore.
ele puxa o tubo de vidro para fora do meu rabo
e uma parte de mim vem junto
ele tem uma cara de castanha e quando sua enfermeira
se debruça (o que é frequente)
a bunda dela é como um travesseiro macio ou
uma rosquinha açucarada, nada de sangue, só nuvens,
e digo, "Doutor, acrescente um dia à licença médica,
posso sentir a dor até lá embaixo nos meus bagos..."
"com certeza," ele diz, "com certeza, eu conheço um monte de rapazes
da agência dos correios, todos bons rapazes."
em casa saco a tampa da garrafa
e tomo o primeiro gole da boa: chovia enquanto ele remexia em mim:
a chuva continua a luzir na janela
como moscas comendo sonhos,
e abro o boletim de apostas com meu polegar,
em seguida telefono para meu agente
"...dê-me 2 para Indian Blood,
5 na ponta para Lady Fanfare, 5 de placê em The Rage."
desligo e penso suavemente em Kafka
dormindo sob patas de esquilos
enquanto a senhora do outro lado do corredor canta para seu canário.
o amor se acendeu e se apagou
como um isqueiro
e agora o amor dela é um
pássaro.
é assim quando não acontece muita coisa
e você atua em um palco pequeno,
e eu espeto minha licença médica
sobre um dos meus velhos quadros
esfrego um pouco de unguento em meu rabo
e me sirvo de mais um drinque.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Abandono da Luta

cometeram seu primeiro erro quando
deitaram o campeão
de cara para baixo
na mesa do vestiário -
foi um grito de
câncer -
e então ele os amaldiçoou em italiano de
gente pobre e disse
me virem me virem me virem seus bundões
me virem,
e eles o fizeram
e ele disse,
ele quebrou todas as costelas do meu lado esquerdo
é um assassino, não é um lutador,
e então ele
disse,
olha, me arranje uma arma, eu vou matar aquele filho de uma
puta.
vá com calma, campeão, disse seu empresário, não foi pelo título, você
ainda tem o título. você pode derrotá-lo
na revanche. não assinamos o contrato para
lutar com Sondelle ainda. vamos adiar com
Sondelle e pegar esse cara na
revanche.
eu não vou lutar com esse assassino outra vez, disse o
campeão,
deviam banir esse chupador de paus nojento do
ringue.
veja, campeão, disse o empresário, não seja
estúpido, vamos conseguir uma bilheteria
grande para a próxima
luta, vão querer ver se ele pode
fazer isso de novo.
o campeão os amaldiçoou em italiano e depois disse,
nunca mais vão conseguir me colocar no ringue com esse
assassino outra vez.
olha, campeão, ele é um vagabundo eu lhe digo, um vagabundo, ele
nunca
bateu em ninguém antes, na próxima vez você
se prepara, larga a bebida e as fodas por
uma semana, ele não conseguirá
tocá-lo quando você estiver bem. ele não pode bater em você porra
nenhuma, campeão.
ele me
bateu. nunca vou tomar outra surra como essa de
ninguém.
você vai abandonar, campeão? você vai abandonar?
vou lutar com qualquer um menos
com esse cara.
tudo certo.
então, está bem, que tal um raio X das minhas
costelas? não consigo respirar, de verdade,
sinto-as cutucando meu
pulmão.
eles o retiraram dali e o levaram em uma
longa e negra
limusine baixa
ao hospital particular onde o
raio X não mostrou
nenhuma fratura.
eles estão mentindo, berrou o campeão, esses porras desses
idiotas estão mentindo! você não acha que eu
consigo sentir meus próprios ossos quando estão
quebrados?
ninguém disse nada.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Abandono da Luta

cometeram seu primeiro erro quando
deitaram o campeão
de cara para baixo
na mesa do vestiário -
foi um grito de
câncer -
e então ele os amaldiçoou em italiano de
gente pobre e disse
me virem me virem me virem seus bundões
me virem,
e eles o fizeram
e ele disse,
ele quebrou todas as costelas do meu lado esquerdo
é um assassino, não é um lutador,
e então ele
disse,
olha, me arranje uma arma, eu vou matar aquele filho de uma
puta.
vá com calma, campeão, disse seu empresário, não foi pelo título, você
ainda tem o título. você pode derrotá-lo
na revanche. não assinamos o contrato para
lutar com Sondelle ainda. vamos adiar com
Sondelle e pegar esse cara na
revanche.
eu não vou lutar com esse assassino outra vez, disse o
campeão,
deviam banir esse chupador de paus nojento do
ringue.
veja, campeão, disse o empresário, não seja
estúpido, vamos conseguir uma bilheteria
grande para a próxima
luta, vão querer ver se ele pode
fazer isso de novo.
o campeão os amaldiçoou em italiano e depois disse,
nunca mais vão conseguir me colocar no ringue com esse
assassino outra vez.
olha, campeão, ele é um vagabundo eu lhe digo, um vagabundo, ele
nunca
bateu em ninguém antes, na próxima vez você
se prepara, larga a bebida e as fodas por
uma semana, ele não conseguirá
tocá-lo quando você estiver bem. ele não pode bater em você porra
nenhuma, campeão.
ele me
bateu. nunca vou tomar outra surra como essa de
ninguém.
você vai abandonar, campeão? você vai abandonar?
vou lutar com qualquer um menos
com esse cara.
tudo certo.
então, está bem, que tal um raio X das minhas
costelas? não consigo respirar, de verdade,
sinto-as cutucando meu
pulmão.
eles o retiraram dali e o levaram em uma
longa e negra
limusine baixa
ao hospital particular onde o
raio X não mostrou
nenhuma fratura.
eles estão mentindo, berrou o campeão, esses porras desses
idiotas estão mentindo! você não acha que eu
consigo sentir meus próprios ossos quando estão
quebrados?
ninguém disse nada.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Tudo Certo, Camus

encontrei esse cara em algum lugar, inferno, seus olhos pareciam aqueles
de um louco
ou talvez fosse apenas meu reflexo neles.
bem, de qualquer modo, ele me disse, você leu Camus?
estamos ambos no bar sem mulheres procurando
um pedaço de rabo ou alguma saída através do teto do céu e
não estava funcionando - só havia o balconista do bar perguntando-se
por que
havia se metido nesse negócio
e eu, muito desanimado com o fato de até agora só ter sido traduzido
em 6 ou 7 línguas.
o cara continuava a falar -
O estrangeiro, você sabe, o livro que retrata nossa sociedade moderna -
sobre o homem amortecido que não
conseguia chorar no funeral da mãe dele, que
matou um árabe ou dois sem nem mesmo saber por quê -
ele prosseguia e prosseguia
e prosseguia e prosseguia
contando-me que filho de uma puta era O estrangeiro,
e fiquei pensando que talvez ele tivesse razão -
você sabe, esses discursos horrorosos diante da Academia Francesa -
você não saberia dizer se Camus estava falando pelo
canto da sua boca ou
se ele estava
sério. ele certamente não soava melhor que
o sujeito a meu lado no bar
e nós estávamos apenas procurando
xota.
foi muito triste -
o tempo todo O estrangeiro havia sido meu herói
porque eu achava que ele enxergara para além da tentativa
ou do cuidado
porque tudo era uma tamanha chatice
tão sem sentido -
a vida em um grande buraco no chão olhando para cima -
e eu estava errado mais uma vez:
inferno, eu era O estrangeiro e o livro simplesmente não havia saído
do jeito que
deveria.
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