Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Manuel de Freitas
MERDAFÍSICA
A poesia não é um tema importante (há quinze dias
que o mundo deixou de ter sentido).
O que interessa afinal são os breves modos
da morte, a mosca que teimosamente
caiu no rude prato da nossa sopa.
Porque é sobre nós que deixa de haver mundo
para podermos celebrar o vazio
– ou outra coisa qualquer
que o mundo deixou de ter sentido).
O que interessa afinal são os breves modos
da morte, a mosca que teimosamente
caiu no rude prato da nossa sopa.
Porque é sobre nós que deixa de haver mundo
para podermos celebrar o vazio
– ou outra coisa qualquer
1 128
Manuel de Freitas
5 602543 0300515
Por mim, pagava-lhe a água
e a sandes (duvidosa, como
tudo o que aqui se faz). Mas não
posso ser despedida agora.
Ao dar-me o dinheiro, quase
pede desculpa dessa vida também
em forma de navalha romba.
até, de certeza, amanhã – pois
nem a morte quer ir com a nossa cara
e a sandes (duvidosa, como
tudo o que aqui se faz). Mas não
posso ser despedida agora.
Ao dar-me o dinheiro, quase
pede desculpa dessa vida também
em forma de navalha romba.
até, de certeza, amanhã – pois
nem a morte quer ir com a nossa cara
1 036
Manuel de Freitas
5 602543 0300515
Por mim, pagava-lhe a água
e a sandes (duvidosa, como
tudo o que aqui se faz). Mas não
posso ser despedida agora.
Ao dar-me o dinheiro, quase
pede desculpa dessa vida também
em forma de navalha romba.
até, de certeza, amanhã – pois
nem a morte quer ir com a nossa cara
e a sandes (duvidosa, como
tudo o que aqui se faz). Mas não
posso ser despedida agora.
Ao dar-me o dinheiro, quase
pede desculpa dessa vida também
em forma de navalha romba.
até, de certeza, amanhã – pois
nem a morte quer ir com a nossa cara
1 036
João Filho
UMA MULHER TODA MÚSICA
Eu pretendi colhê-la num só gesto,
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
598
Manuel de Freitas
5 010509 001229
É o que se chama um “higiênico”: latas,
comida feita e embalada, whisky,
cerveja ou vinho (quando não três).
Deve beber-lhe bem e mudar pelo menos
duas vezes por semana a areia do gato.
é tímido, inseguro e– por isso mesmo–
extremamente rápido a arrumar as compras.
Vai pagar outra vez com o cartão. Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante da leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.
Mas para que tantas palavras? Bastava-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz.
escusava era de maçar a gente
com o que sofre ou deixa de sofrer.
A minha sabedoria é muda, desumana:
um dia enlouqueço ou fico para sempre presa
a um pesadelo sentado, com barras transparentes.
comida feita e embalada, whisky,
cerveja ou vinho (quando não três).
Deve beber-lhe bem e mudar pelo menos
duas vezes por semana a areia do gato.
é tímido, inseguro e– por isso mesmo–
extremamente rápido a arrumar as compras.
Vai pagar outra vez com o cartão. Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante da leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.
Mas para que tantas palavras? Bastava-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz.
escusava era de maçar a gente
com o que sofre ou deixa de sofrer.
A minha sabedoria é muda, desumana:
um dia enlouqueço ou fico para sempre presa
a um pesadelo sentado, com barras transparentes.
1 054
Manuel de Freitas
5 010509 001229
É o que se chama um “higiênico”: latas,
comida feita e embalada, whisky,
cerveja ou vinho (quando não três).
Deve beber-lhe bem e mudar pelo menos
duas vezes por semana a areia do gato.
é tímido, inseguro e– por isso mesmo–
extremamente rápido a arrumar as compras.
Vai pagar outra vez com o cartão. Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante da leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.
Mas para que tantas palavras? Bastava-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz.
escusava era de maçar a gente
com o que sofre ou deixa de sofrer.
A minha sabedoria é muda, desumana:
um dia enlouqueço ou fico para sempre presa
a um pesadelo sentado, com barras transparentes.
comida feita e embalada, whisky,
cerveja ou vinho (quando não três).
Deve beber-lhe bem e mudar pelo menos
duas vezes por semana a areia do gato.
é tímido, inseguro e– por isso mesmo–
extremamente rápido a arrumar as compras.
Vai pagar outra vez com o cartão. Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante da leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.
Mas para que tantas palavras? Bastava-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz.
escusava era de maçar a gente
com o que sofre ou deixa de sofrer.
A minha sabedoria é muda, desumana:
um dia enlouqueço ou fico para sempre presa
a um pesadelo sentado, com barras transparentes.
1 054
Ademir Assunção
Caverna
me tranquei na caverna com platão
pra enfrentar meus próprios males
não vi primata nem zapata nem dragão
ouvi o canto das sereias pelos bares
chamei pra briga o capeta de facão
senti o aço perfurando a carne mole
gritei bem alto um tremendo palavrão
chamei são jorge pra ajudar o filho pobre
daqui ninguém sai vivo nem com reza ou um milhão
um dia até o tolo acaba que descobre
perdi o medo de espelho e solidão
só levo a vida com a pele que me cobre
pra enfrentar meus próprios males
não vi primata nem zapata nem dragão
ouvi o canto das sereias pelos bares
chamei pra briga o capeta de facão
senti o aço perfurando a carne mole
gritei bem alto um tremendo palavrão
chamei são jorge pra ajudar o filho pobre
daqui ninguém sai vivo nem com reza ou um milhão
um dia até o tolo acaba que descobre
perdi o medo de espelho e solidão
só levo a vida com a pele que me cobre
1 226
Ademir Assunção
Caverna
me tranquei na caverna com platão
pra enfrentar meus próprios males
não vi primata nem zapata nem dragão
ouvi o canto das sereias pelos bares
chamei pra briga o capeta de facão
senti o aço perfurando a carne mole
gritei bem alto um tremendo palavrão
chamei são jorge pra ajudar o filho pobre
daqui ninguém sai vivo nem com reza ou um milhão
um dia até o tolo acaba que descobre
perdi o medo de espelho e solidão
só levo a vida com a pele que me cobre
pra enfrentar meus próprios males
não vi primata nem zapata nem dragão
ouvi o canto das sereias pelos bares
chamei pra briga o capeta de facão
senti o aço perfurando a carne mole
gritei bem alto um tremendo palavrão
chamei são jorge pra ajudar o filho pobre
daqui ninguém sai vivo nem com reza ou um milhão
um dia até o tolo acaba que descobre
perdi o medo de espelho e solidão
só levo a vida com a pele que me cobre
1 226
Manuel de Freitas
CAVE BAR
para a Susana
Há tabernas assim, de
desusada melancolia para estes
tempos que correm friamente.
Aqui estivemos algumas tardes,
bebendo martinis sob o azul sombrio
das paredes, junto ao lavatório
sujo e amarelecido. Quase
ninguém chegava para além de nós,
em silêncio e ranho exilados.
A disposição das mesas, a patroa
envelhecendo por detrás do
balcão, o som demasiado alto do rádio
– tudo nos fazia lembrar um livro,
demorada canção onde afinal
não pudemos caber.
Depois, apenas sozinho regressei
a este quieto lugar de sombra.
Abandono-me à mesma mesa, mas agora
é como o Verlaine de certa fotografia.
Como ninguém.
Subterrânea foi a nossa despedida.
Há tabernas assim, de
desusada melancolia para estes
tempos que correm friamente.
Aqui estivemos algumas tardes,
bebendo martinis sob o azul sombrio
das paredes, junto ao lavatório
sujo e amarelecido. Quase
ninguém chegava para além de nós,
em silêncio e ranho exilados.
A disposição das mesas, a patroa
envelhecendo por detrás do
balcão, o som demasiado alto do rádio
– tudo nos fazia lembrar um livro,
demorada canção onde afinal
não pudemos caber.
Depois, apenas sozinho regressei
a este quieto lugar de sombra.
Abandono-me à mesma mesa, mas agora
é como o Verlaine de certa fotografia.
Como ninguém.
Subterrânea foi a nossa despedida.
1 172
Manuel de Freitas
CAVE BAR
para a Susana
Há tabernas assim, de
desusada melancolia para estes
tempos que correm friamente.
Aqui estivemos algumas tardes,
bebendo martinis sob o azul sombrio
das paredes, junto ao lavatório
sujo e amarelecido. Quase
ninguém chegava para além de nós,
em silêncio e ranho exilados.
A disposição das mesas, a patroa
envelhecendo por detrás do
balcão, o som demasiado alto do rádio
– tudo nos fazia lembrar um livro,
demorada canção onde afinal
não pudemos caber.
Depois, apenas sozinho regressei
a este quieto lugar de sombra.
Abandono-me à mesma mesa, mas agora
é como o Verlaine de certa fotografia.
Como ninguém.
Subterrânea foi a nossa despedida.
Há tabernas assim, de
desusada melancolia para estes
tempos que correm friamente.
Aqui estivemos algumas tardes,
bebendo martinis sob o azul sombrio
das paredes, junto ao lavatório
sujo e amarelecido. Quase
ninguém chegava para além de nós,
em silêncio e ranho exilados.
A disposição das mesas, a patroa
envelhecendo por detrás do
balcão, o som demasiado alto do rádio
– tudo nos fazia lembrar um livro,
demorada canção onde afinal
não pudemos caber.
Depois, apenas sozinho regressei
a este quieto lugar de sombra.
Abandono-me à mesma mesa, mas agora
é como o Verlaine de certa fotografia.
Como ninguém.
Subterrânea foi a nossa despedida.
1 172
Manuel de Freitas
CAVE BAR
para a Susana
Há tabernas assim, de
desusada melancolia para estes
tempos que correm friamente.
Aqui estivemos algumas tardes,
bebendo martinis sob o azul sombrio
das paredes, junto ao lavatório
sujo e amarelecido. Quase
ninguém chegava para além de nós,
em silêncio e ranho exilados.
A disposição das mesas, a patroa
envelhecendo por detrás do
balcão, o som demasiado alto do rádio
– tudo nos fazia lembrar um livro,
demorada canção onde afinal
não pudemos caber.
Depois, apenas sozinho regressei
a este quieto lugar de sombra.
Abandono-me à mesma mesa, mas agora
é como o Verlaine de certa fotografia.
Como ninguém.
Subterrânea foi a nossa despedida.
Há tabernas assim, de
desusada melancolia para estes
tempos que correm friamente.
Aqui estivemos algumas tardes,
bebendo martinis sob o azul sombrio
das paredes, junto ao lavatório
sujo e amarelecido. Quase
ninguém chegava para além de nós,
em silêncio e ranho exilados.
A disposição das mesas, a patroa
envelhecendo por detrás do
balcão, o som demasiado alto do rádio
– tudo nos fazia lembrar um livro,
demorada canção onde afinal
não pudemos caber.
Depois, apenas sozinho regressei
a este quieto lugar de sombra.
Abandono-me à mesma mesa, mas agora
é como o Verlaine de certa fotografia.
Como ninguém.
Subterrânea foi a nossa despedida.
1 172
Manuel de Freitas
CAVE BAR
para a Susana
Há tabernas assim, de
desusada melancolia para estes
tempos que correm friamente.
Aqui estivemos algumas tardes,
bebendo martinis sob o azul sombrio
das paredes, junto ao lavatório
sujo e amarelecido. Quase
ninguém chegava para além de nós,
em silêncio e ranho exilados.
A disposição das mesas, a patroa
envelhecendo por detrás do
balcão, o som demasiado alto do rádio
– tudo nos fazia lembrar um livro,
demorada canção onde afinal
não pudemos caber.
Depois, apenas sozinho regressei
a este quieto lugar de sombra.
Abandono-me à mesma mesa, mas agora
é como o Verlaine de certa fotografia.
Como ninguém.
Subterrânea foi a nossa despedida.
Há tabernas assim, de
desusada melancolia para estes
tempos que correm friamente.
Aqui estivemos algumas tardes,
bebendo martinis sob o azul sombrio
das paredes, junto ao lavatório
sujo e amarelecido. Quase
ninguém chegava para além de nós,
em silêncio e ranho exilados.
A disposição das mesas, a patroa
envelhecendo por detrás do
balcão, o som demasiado alto do rádio
– tudo nos fazia lembrar um livro,
demorada canção onde afinal
não pudemos caber.
Depois, apenas sozinho regressei
a este quieto lugar de sombra.
Abandono-me à mesma mesa, mas agora
é como o Verlaine de certa fotografia.
Como ninguém.
Subterrânea foi a nossa despedida.
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Ademir Assunção
O Anjo do Ácido Elétrico
o anjo sujo, esfarrapado
remela nos olhos
cabeça feita
bate as asas sob o céu lilás
:
luas se dissolvem
(comprimidos de sonrisal
na fornalha da noite)
música que não cessa
minha mão dentro da sua
veias são nervuras
golfinho saltando
na pele das costas
vênus vestindo
um manto de água
a ninfa chapada
de olhos elétricos
cores girando
no abismo sem fundo
dança de estrelas
no teto da sala
dois sóis em cada ontem
três vozes
na voz de quem cala
remela nos olhos
cabeça feita
bate as asas sob o céu lilás
:
luas se dissolvem
(comprimidos de sonrisal
na fornalha da noite)
música que não cessa
minha mão dentro da sua
veias são nervuras
golfinho saltando
na pele das costas
vênus vestindo
um manto de água
a ninfa chapada
de olhos elétricos
cores girando
no abismo sem fundo
dança de estrelas
no teto da sala
dois sóis em cada ontem
três vozes
na voz de quem cala
796
Ademir Assunção
A Volta do Anjo Torto
no canto da sala a TV ligada
o pastor gritava
a bolsa despencava
as contas vencidas
as batatas queimadas
o dólar subia
o poeta pirava
“meu deus, como pode
tanta merda enlatada?
que gente mais troncha
que vida fodida
quer saber
dessa noite não passa
ou pulo do empire state
ou me torno um homicida”
mas eis que um anjo torto
aquele mesmo, com asas de avião
entrou pela porta
um baseado na mão
bateu as duas asas
e foi logo dizendo:
“sai dessa, poeta
para de punheta
vive a vida, desencana
come sua mina, segue seu rumo
o real é a ilusão virtual
dos que batem a cara contra o muro”
o pastor gritava
a bolsa despencava
as contas vencidas
as batatas queimadas
o dólar subia
o poeta pirava
“meu deus, como pode
tanta merda enlatada?
que gente mais troncha
que vida fodida
quer saber
dessa noite não passa
ou pulo do empire state
ou me torno um homicida”
mas eis que um anjo torto
aquele mesmo, com asas de avião
entrou pela porta
um baseado na mão
bateu as duas asas
e foi logo dizendo:
“sai dessa, poeta
para de punheta
vive a vida, desencana
come sua mina, segue seu rumo
o real é a ilusão virtual
dos que batem a cara contra o muro”
924
Ademir Assunção
CURRAL VIP NA ILHA DE FODAS
O sol sádico cai com peso de bigorna
na Ilha de Fodas.
A Noite Neblina veste espartilho de couro
e tapa-sexo metálico.
Chicotes com espinhos de chumbo sobre a carne crua,
mamilos lacerados e nádegas marcadas
com ferro em brasa – celebridades big brother
contorcem músculos siliconados,
ganem ladainhas obscenas em louvor à Senhora dos Açoites,
suplicam suplícios e torturas
para afugentar o tédio.
Olhos vendados na Alcova de Prazeres Bárbaros,
a Cantora Devassa é sodomizada por Black Ice
em sessões contínuas de fist fucking.
Microcâmeras Paparazzi flagram em detalhes
as mucosas do intestino vip.
Olor de sêmen, sangue e fezes excita narizes de platina.
Âncoras de noticiários políticos rastejam no chão
salpicado de lâminas, clamando açoites brutais.
Policiais com uniforme de oficiais nazistas,
coturnos prateados & máscaras de bode,
achacam escravas brancas
na Galeria do Amor.
na Ilha de Fodas.
A Noite Neblina veste espartilho de couro
e tapa-sexo metálico.
Chicotes com espinhos de chumbo sobre a carne crua,
mamilos lacerados e nádegas marcadas
com ferro em brasa – celebridades big brother
contorcem músculos siliconados,
ganem ladainhas obscenas em louvor à Senhora dos Açoites,
suplicam suplícios e torturas
para afugentar o tédio.
Olhos vendados na Alcova de Prazeres Bárbaros,
a Cantora Devassa é sodomizada por Black Ice
em sessões contínuas de fist fucking.
Microcâmeras Paparazzi flagram em detalhes
as mucosas do intestino vip.
Olor de sêmen, sangue e fezes excita narizes de platina.
Âncoras de noticiários políticos rastejam no chão
salpicado de lâminas, clamando açoites brutais.
Policiais com uniforme de oficiais nazistas,
coturnos prateados & máscaras de bode,
achacam escravas brancas
na Galeria do Amor.
1 004
Ademir Assunção
CURRAL VIP NA ILHA DE FODAS
O sol sádico cai com peso de bigorna
na Ilha de Fodas.
A Noite Neblina veste espartilho de couro
e tapa-sexo metálico.
Chicotes com espinhos de chumbo sobre a carne crua,
mamilos lacerados e nádegas marcadas
com ferro em brasa – celebridades big brother
contorcem músculos siliconados,
ganem ladainhas obscenas em louvor à Senhora dos Açoites,
suplicam suplícios e torturas
para afugentar o tédio.
Olhos vendados na Alcova de Prazeres Bárbaros,
a Cantora Devassa é sodomizada por Black Ice
em sessões contínuas de fist fucking.
Microcâmeras Paparazzi flagram em detalhes
as mucosas do intestino vip.
Olor de sêmen, sangue e fezes excita narizes de platina.
Âncoras de noticiários políticos rastejam no chão
salpicado de lâminas, clamando açoites brutais.
Policiais com uniforme de oficiais nazistas,
coturnos prateados & máscaras de bode,
achacam escravas brancas
na Galeria do Amor.
na Ilha de Fodas.
A Noite Neblina veste espartilho de couro
e tapa-sexo metálico.
Chicotes com espinhos de chumbo sobre a carne crua,
mamilos lacerados e nádegas marcadas
com ferro em brasa – celebridades big brother
contorcem músculos siliconados,
ganem ladainhas obscenas em louvor à Senhora dos Açoites,
suplicam suplícios e torturas
para afugentar o tédio.
Olhos vendados na Alcova de Prazeres Bárbaros,
a Cantora Devassa é sodomizada por Black Ice
em sessões contínuas de fist fucking.
Microcâmeras Paparazzi flagram em detalhes
as mucosas do intestino vip.
Olor de sêmen, sangue e fezes excita narizes de platina.
Âncoras de noticiários políticos rastejam no chão
salpicado de lâminas, clamando açoites brutais.
Policiais com uniforme de oficiais nazistas,
coturnos prateados & máscaras de bode,
achacam escravas brancas
na Galeria do Amor.
1 004
João Filho
Quase Gregas - Segunda
quele anônimo
(suado e sangrento,
mas não morto,
fugindo de Tebas sem Ílio que o zele),
só escapa da impiedade de Diomedes,
por ter rastejado entre cadáveres, rio e deserto,
e invisível ao aço cruel dos deuses inimigos;
não se acovarda,
procura, sim, reinos mais altos –
o fruto ofertado, apesar de severo.
Gratíssimo pelo respiro de tudo,
mais velho que o lume primeiro
e mais seguro que o lastro de Aquiles.
À sombra, já longe,
sob uma oliveira repousa,
olha a planície
– vida cristal, espantosa de tão óbvia –
e ri suas lágrimas.
A águia e a árvore,
voo e raiz,
os prodígios sem causa desse amoroso diário,
que incansável canta seu sol.
Dorme sem dores,
derrotas não há,
apesar das ruínas da cidade devastada,
do choro sem retorno de mães, filhos e sábios,
estirpe findada.
Endereça-se ao reino mais alto,
àquele,
que estampa em seu siclo confiança e perdão.
(suado e sangrento,
mas não morto,
fugindo de Tebas sem Ílio que o zele),
só escapa da impiedade de Diomedes,
por ter rastejado entre cadáveres, rio e deserto,
e invisível ao aço cruel dos deuses inimigos;
não se acovarda,
procura, sim, reinos mais altos –
o fruto ofertado, apesar de severo.
Gratíssimo pelo respiro de tudo,
mais velho que o lume primeiro
e mais seguro que o lastro de Aquiles.
À sombra, já longe,
sob uma oliveira repousa,
olha a planície
– vida cristal, espantosa de tão óbvia –
e ri suas lágrimas.
A águia e a árvore,
voo e raiz,
os prodígios sem causa desse amoroso diário,
que incansável canta seu sol.
Dorme sem dores,
derrotas não há,
apesar das ruínas da cidade devastada,
do choro sem retorno de mães, filhos e sábios,
estirpe findada.
Endereça-se ao reino mais alto,
àquele,
que estampa em seu siclo confiança e perdão.
522
Ademir Assunção
LENDA URBANA
Sombra Vermelha perseguia lenhadores
no coração da floresta.
Mas o coração da floresta parou.
Não há mais lenhadores.
Não há mais árvores.
Sombra Vermelha teve a pele coberta
por grossas escamas de petróleo.
Lili Maconha escuta vozes na secretária eletrônica,
vindas de muito longe.
As cortinas esfarrapadas tremulam levemente
ante a paisagem de escombros.
Cavalos de névoa são vistos trotando na Praça da Sé,
depois que o sino badala
as últimas blasfêmias da noite
e o breu desaba sobre o chafariz de água suja.
As paredes dos manicômios sangram óleo de caminhão.
no coração da floresta.
Mas o coração da floresta parou.
Não há mais lenhadores.
Não há mais árvores.
Sombra Vermelha teve a pele coberta
por grossas escamas de petróleo.
Lili Maconha escuta vozes na secretária eletrônica,
vindas de muito longe.
As cortinas esfarrapadas tremulam levemente
ante a paisagem de escombros.
Cavalos de névoa são vistos trotando na Praça da Sé,
depois que o sino badala
as últimas blasfêmias da noite
e o breu desaba sobre o chafariz de água suja.
As paredes dos manicômios sangram óleo de caminhão.
1 209
João Filho
Quase Gregas - Nona
O fogo foi o menor dos teus roubos,
estranho a dureza dos deuses.
Tal lume belo, mas breve, foi pobre
contra o puro lampejo
(– também provisório –, esse que nos funda e
nomeia,
miraculoso,
que aqui, mundo errado,
passando e pesado,
é luz liberta assustada com tudo;
nas vísceras, o frio vivo
e o discurso em acúmulo
é o mapa nos desrumando de Argos).
No entanto, infeliz, teu suplício,
por mais insano, comove.
Depois nosso cosmo foi pouco,
mas tua dor, moribundo,
não pode encerrar o tal ciclo sanguissedento,
banquete dos deuses mais loucos,
aqueles que não puderam,
por cegos,
firmarem, na própria cabeça, o sacrifício.
Por séculos, foi este o motivo:
aniquilante equilíbrio.
Se foi necessário?
Indubitável –
aí, te encontras plasmado em obscuro penhasco.
Com moscardos e súplicas, até Io te abandonou.
Agora, só, medita sobre o teu gesto:
outro labirinto infindável.
estranho a dureza dos deuses.
Tal lume belo, mas breve, foi pobre
contra o puro lampejo
(– também provisório –, esse que nos funda e
nomeia,
miraculoso,
que aqui, mundo errado,
passando e pesado,
é luz liberta assustada com tudo;
nas vísceras, o frio vivo
e o discurso em acúmulo
é o mapa nos desrumando de Argos).
No entanto, infeliz, teu suplício,
por mais insano, comove.
Depois nosso cosmo foi pouco,
mas tua dor, moribundo,
não pode encerrar o tal ciclo sanguissedento,
banquete dos deuses mais loucos,
aqueles que não puderam,
por cegos,
firmarem, na própria cabeça, o sacrifício.
Por séculos, foi este o motivo:
aniquilante equilíbrio.
Se foi necessário?
Indubitável –
aí, te encontras plasmado em obscuro penhasco.
Com moscardos e súplicas, até Io te abandonou.
Agora, só, medita sobre o teu gesto:
outro labirinto infindável.
679
Ademir Assunção
MONTANHAS SÃO FRIAS QUANTO A NOITE CAI
numa noite sem nome
a severa senhora de olhos escuros
toca-nos a face
com seus dedos de pelica
e vai arrancando, uma a uma,
todas as máscaras
que vestimos
e nessa hora sem hora
até o mais valente dos valentes
sente um tremor,
ainda que leve,
na mão que empunha o revólver
a severa senhora de olhos escuros
toca-nos a face
com seus dedos de pelica
e vai arrancando, uma a uma,
todas as máscaras
que vestimos
e nessa hora sem hora
até o mais valente dos valentes
sente um tremor,
ainda que leve,
na mão que empunha o revólver
1 288
Ademir Assunção
MONTANHAS SÃO FRIAS QUANTO A NOITE CAI
numa noite sem nome
a severa senhora de olhos escuros
toca-nos a face
com seus dedos de pelica
e vai arrancando, uma a uma,
todas as máscaras
que vestimos
e nessa hora sem hora
até o mais valente dos valentes
sente um tremor,
ainda que leve,
na mão que empunha o revólver
a severa senhora de olhos escuros
toca-nos a face
com seus dedos de pelica
e vai arrancando, uma a uma,
todas as máscaras
que vestimos
e nessa hora sem hora
até o mais valente dos valentes
sente um tremor,
ainda que leve,
na mão que empunha o revólver
1 288
João Filho
Quase Gregas - Sétima
O soco explode
e arrebenta o nariz do Primeiro,
que cai
não cai,
tonteia aos tropeços
e, em fúria,
num giro,
arremete!,
– bloco compacto contra o Segundo,
quando, surpreso num susto,
ângulos confusos,
o Primeiro devolve-lhe o murro!
Lábio partido,
perdido dois dentes,
esguicho de sangue;
soco após soco, o Segundo,
no chão,
consegue, no sufoco,
num empurrão,
projetá-lo pra longe.
Cuspindo vermelho,
arfando,
sem trégua, retorna o Primeiro,
travado num chute
que, ainda deitado, o Segundo lhe acerta.
Dobrando sem fôlego,
tomba a três metros.
(Não são lutadores,
talvez inimigos,
mas devem ter seus motivos, pois, antes,
calados, se olharam
e, feito bichos grunhindo,
mediram-se em mil semicírculos).
Se erguem insultando um ao outro,
e, num impulso, se atracam no ar!
Leva vantagem na queda o Segundo,
acertando sequências desencontradas
no rosto,
pescoço, nariz do Primeiro,
este, no desespero, o asfixia
até vê-lo em desmaio convulso.
e arrebenta o nariz do Primeiro,
que cai
não cai,
tonteia aos tropeços
e, em fúria,
num giro,
arremete!,
– bloco compacto contra o Segundo,
quando, surpreso num susto,
ângulos confusos,
o Primeiro devolve-lhe o murro!
Lábio partido,
perdido dois dentes,
esguicho de sangue;
soco após soco, o Segundo,
no chão,
consegue, no sufoco,
num empurrão,
projetá-lo pra longe.
Cuspindo vermelho,
arfando,
sem trégua, retorna o Primeiro,
travado num chute
que, ainda deitado, o Segundo lhe acerta.
Dobrando sem fôlego,
tomba a três metros.
(Não são lutadores,
talvez inimigos,
mas devem ter seus motivos, pois, antes,
calados, se olharam
e, feito bichos grunhindo,
mediram-se em mil semicírculos).
Se erguem insultando um ao outro,
e, num impulso, se atracam no ar!
Leva vantagem na queda o Segundo,
acertando sequências desencontradas
no rosto,
pescoço, nariz do Primeiro,
este, no desespero, o asfixia
até vê-lo em desmaio convulso.
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João Filho
Quase Gregas - Quarta
Nossos pequenos tesouros terrenos,
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
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João Filho
Quase Gregas - Quarta
Nossos pequenos tesouros terrenos,
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
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