Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Charles Bukowski
Faíscas
a fábrica longe da Av. Santa Fé era
melhor.
empacotávamos suportes de luminárias
pesados em caixas pesadas e longas
e depois jogávamos as caixas em pilhas
de seis.
aí os carregadores
vinham
esvaziar sua mesa e
você começava as seis seguintes.
jornada de dez horas
quatro no sábado
pagamento pelo sindicato
bom demais para trabalho não especializado
e se você não chegava lá
com músculos
logo, logo ia arranjá-los
a maioria de nós em
camisetas brancas e jeans
cigarro no bico
cerveja furtiva
a gerência olhando
pro outro lado
poucos brancos
os brancos não demoravam:
trabalhadores preguiçosos
na maioria mexicanos e
pretos
frios e rancorosos
aqui e ali
brilhava uma faca
ou alguém
era ferido
a gerência olhando
pro outro lado
os raros brancos que ficavam
eram loucos
trabalhava-se
e as jovens mexicanas
nos mantinham
acesos e esperançosos
seus olhos piscando
mensagens
de lá da
linha de montagem.
eu era um dos
brancos loucos
que duraram
eu era bom trabalhador
só pelo ritmo da coisa
pelo diabo da coisa
e depois de dez horas
de trabalho duro
depois de trocar insultos
vivendo entre atritos
com os que não eram suficientemente calmos
para se conformar
saíamos
ainda dispostos
subíamos em nossos velhos
carros para
voltar para casa
beber metade da noite
brigar com nossas mulheres
para recomeçar no dia seguinte
a embalar os suportes
sabendo que éramos
uns babacas
fazendo os ricos
mais ricos
enfiávamos
nossa camiseta branca
e o jeans
e deslizávamos
entre as jovens mexicanas
éramos simples e perfeitos
para o que fazíamos
ressaca
podíamos
fazer bem pra burro
nosso trabalho
mas isso
não nos tocou
nunca
entre aquelas paredes despelando
o barulho das brocas
e serras
as faíscas
éramos uma turma boa
naquele balé mortal
éramos maravilhosos
dávamos a eles
muito mais do que pediam
e ainda assim
a eles não dávamos
nada.
melhor.
empacotávamos suportes de luminárias
pesados em caixas pesadas e longas
e depois jogávamos as caixas em pilhas
de seis.
aí os carregadores
vinham
esvaziar sua mesa e
você começava as seis seguintes.
jornada de dez horas
quatro no sábado
pagamento pelo sindicato
bom demais para trabalho não especializado
e se você não chegava lá
com músculos
logo, logo ia arranjá-los
a maioria de nós em
camisetas brancas e jeans
cigarro no bico
cerveja furtiva
a gerência olhando
pro outro lado
poucos brancos
os brancos não demoravam:
trabalhadores preguiçosos
na maioria mexicanos e
pretos
frios e rancorosos
aqui e ali
brilhava uma faca
ou alguém
era ferido
a gerência olhando
pro outro lado
os raros brancos que ficavam
eram loucos
trabalhava-se
e as jovens mexicanas
nos mantinham
acesos e esperançosos
seus olhos piscando
mensagens
de lá da
linha de montagem.
eu era um dos
brancos loucos
que duraram
eu era bom trabalhador
só pelo ritmo da coisa
pelo diabo da coisa
e depois de dez horas
de trabalho duro
depois de trocar insultos
vivendo entre atritos
com os que não eram suficientemente calmos
para se conformar
saíamos
ainda dispostos
subíamos em nossos velhos
carros para
voltar para casa
beber metade da noite
brigar com nossas mulheres
para recomeçar no dia seguinte
a embalar os suportes
sabendo que éramos
uns babacas
fazendo os ricos
mais ricos
enfiávamos
nossa camiseta branca
e o jeans
e deslizávamos
entre as jovens mexicanas
éramos simples e perfeitos
para o que fazíamos
ressaca
podíamos
fazer bem pra burro
nosso trabalho
mas isso
não nos tocou
nunca
entre aquelas paredes despelando
o barulho das brocas
e serras
as faíscas
éramos uma turma boa
naquele balé mortal
éramos maravilhosos
dávamos a eles
muito mais do que pediam
e ainda assim
a eles não dávamos
nada.
1 079
Charles Bukowski
O Homem Forte
eu fui vê-lo, lá naquele lugar em
Echo Park
depois do meu expediente
nos correios.
ele era um enorme sujeito barbudo
e estava sentado em sua cadeira como um
Buda
e ele era o meu Buda, meu guru
meu herói, meu rugido de
luz.
às vezes ele não era gentil
mas ele era sempre bem mais do que
interessante.
sair daqueles escravos
dos correios
e entrar naquela explosão de luz
me confundia,
mas era uma confusão
extraordinária e
deliciosa.
milhares de livros sobre
centenas de assuntos
apodreciam em seu
porão.
jogar xadrez com ele era
levar uma surra risível no
tabuleiro.
desafiá-lo
física ou
mentalmente era
inútil.
mas ele tinha a habilidade de
escutar nossa
caçoada
com paciência
e também a habilidade
de resumir as
fraquezas,
as ilusões daquilo
numa única frase.
eu muitas vezes me perguntava como é que
ele aguentava as minhas
queixas; ele era gentil,
afinal de contas.
as noites duravam 7,
8 horas.
eu tinha minhas libações.
ele tinha a si mesmo
e uma linda mulher
que sorria em silêncio enquanto
nos
escutava.
ela trabalhava numa prancheta
de desenho,
projetando coisas.
nunca perguntei o que era e
ela nunca
disse.
as paredes e os tetos
eram cobertos com
centenas de dizeres esquisitos
colados –
como as últimas palavras de
um homem numa cadeira
elétrica,
ou gângsteres em seus
leitos de morte,
ou as instruções de uma velha mulher de bandido
para suas crianças;
fotos de Hitler, Al Capone,
Chefe Touro Sentado,
Lucky Luciano.
era uma interminável
colmeia de faces
e
declarações estranhas.
era sombriamente revigorante.
e em momentos raros e ocasionais
até eu ficava bom.
então o Buda assentia
com a cabeça.
ele gravava tudo em
fitas.
às vezes numa outra
noite ele tocava uma
fita desde o começo para
mim.
e aí eu me dava
conta de como
eu soava lastimável,
desprezível,
inepto.
raramente ele falhava.
por vezes eu me perguntava por que
o mundo não
o
descobrira.
ele não fazia o menor esforço para ser
descoberto.
ele recebia outros
visitantes,
sempre gente maluca,
original,
revigorante.
era mais louco do que o
sol incendiando o
mar,
eram os morcegos do inferno
rodopiando pela
sala.
era a depuração
da merda na
psique
retalhada.
noite após noite após
noite, eu
me enchia, eu voava, eu me encharcava
num deslumbramento
especial.
isso foi décadas atrás
e ele ainda está
vivo, eu
também.
ele criou um lugar quando
não havia
lugar.
um lugar para ir quando tudo
estava se fechando,
estrangulando, esmagando,
debilitando,
quando não havia
voz, não havia som,
não havia sentido,
ele emprestava calma
salvando
a graça
natural.
eu sinto que lhe devo
uma,
eu sinto que lhe devo
várias.
mas consigo ouvi-lo
agora, aquela mesma
voz
de quando ele se sentava
tão imenso
naquela mesma
cadeira:
“Não há dívida alguma,
Bukowski.”
afinal você está errado
dessa vez,
John Thomas, seu
desgraçado.
Echo Park
depois do meu expediente
nos correios.
ele era um enorme sujeito barbudo
e estava sentado em sua cadeira como um
Buda
e ele era o meu Buda, meu guru
meu herói, meu rugido de
luz.
às vezes ele não era gentil
mas ele era sempre bem mais do que
interessante.
sair daqueles escravos
dos correios
e entrar naquela explosão de luz
me confundia,
mas era uma confusão
extraordinária e
deliciosa.
milhares de livros sobre
centenas de assuntos
apodreciam em seu
porão.
jogar xadrez com ele era
levar uma surra risível no
tabuleiro.
desafiá-lo
física ou
mentalmente era
inútil.
mas ele tinha a habilidade de
escutar nossa
caçoada
com paciência
e também a habilidade
de resumir as
fraquezas,
as ilusões daquilo
numa única frase.
eu muitas vezes me perguntava como é que
ele aguentava as minhas
queixas; ele era gentil,
afinal de contas.
as noites duravam 7,
8 horas.
eu tinha minhas libações.
ele tinha a si mesmo
e uma linda mulher
que sorria em silêncio enquanto
nos
escutava.
ela trabalhava numa prancheta
de desenho,
projetando coisas.
nunca perguntei o que era e
ela nunca
disse.
as paredes e os tetos
eram cobertos com
centenas de dizeres esquisitos
colados –
como as últimas palavras de
um homem numa cadeira
elétrica,
ou gângsteres em seus
leitos de morte,
ou as instruções de uma velha mulher de bandido
para suas crianças;
fotos de Hitler, Al Capone,
Chefe Touro Sentado,
Lucky Luciano.
era uma interminável
colmeia de faces
e
declarações estranhas.
era sombriamente revigorante.
e em momentos raros e ocasionais
até eu ficava bom.
então o Buda assentia
com a cabeça.
ele gravava tudo em
fitas.
às vezes numa outra
noite ele tocava uma
fita desde o começo para
mim.
e aí eu me dava
conta de como
eu soava lastimável,
desprezível,
inepto.
raramente ele falhava.
por vezes eu me perguntava por que
o mundo não
o
descobrira.
ele não fazia o menor esforço para ser
descoberto.
ele recebia outros
visitantes,
sempre gente maluca,
original,
revigorante.
era mais louco do que o
sol incendiando o
mar,
eram os morcegos do inferno
rodopiando pela
sala.
era a depuração
da merda na
psique
retalhada.
noite após noite após
noite, eu
me enchia, eu voava, eu me encharcava
num deslumbramento
especial.
isso foi décadas atrás
e ele ainda está
vivo, eu
também.
ele criou um lugar quando
não havia
lugar.
um lugar para ir quando tudo
estava se fechando,
estrangulando, esmagando,
debilitando,
quando não havia
voz, não havia som,
não havia sentido,
ele emprestava calma
salvando
a graça
natural.
eu sinto que lhe devo
uma,
eu sinto que lhe devo
várias.
mas consigo ouvi-lo
agora, aquela mesma
voz
de quando ele se sentava
tão imenso
naquela mesma
cadeira:
“Não há dívida alguma,
Bukowski.”
afinal você está errado
dessa vez,
John Thomas, seu
desgraçado.
695
Charles Bukowski
O Homem Forte
eu fui vê-lo, lá naquele lugar em
Echo Park
depois do meu expediente
nos correios.
ele era um enorme sujeito barbudo
e estava sentado em sua cadeira como um
Buda
e ele era o meu Buda, meu guru
meu herói, meu rugido de
luz.
às vezes ele não era gentil
mas ele era sempre bem mais do que
interessante.
sair daqueles escravos
dos correios
e entrar naquela explosão de luz
me confundia,
mas era uma confusão
extraordinária e
deliciosa.
milhares de livros sobre
centenas de assuntos
apodreciam em seu
porão.
jogar xadrez com ele era
levar uma surra risível no
tabuleiro.
desafiá-lo
física ou
mentalmente era
inútil.
mas ele tinha a habilidade de
escutar nossa
caçoada
com paciência
e também a habilidade
de resumir as
fraquezas,
as ilusões daquilo
numa única frase.
eu muitas vezes me perguntava como é que
ele aguentava as minhas
queixas; ele era gentil,
afinal de contas.
as noites duravam 7,
8 horas.
eu tinha minhas libações.
ele tinha a si mesmo
e uma linda mulher
que sorria em silêncio enquanto
nos
escutava.
ela trabalhava numa prancheta
de desenho,
projetando coisas.
nunca perguntei o que era e
ela nunca
disse.
as paredes e os tetos
eram cobertos com
centenas de dizeres esquisitos
colados –
como as últimas palavras de
um homem numa cadeira
elétrica,
ou gângsteres em seus
leitos de morte,
ou as instruções de uma velha mulher de bandido
para suas crianças;
fotos de Hitler, Al Capone,
Chefe Touro Sentado,
Lucky Luciano.
era uma interminável
colmeia de faces
e
declarações estranhas.
era sombriamente revigorante.
e em momentos raros e ocasionais
até eu ficava bom.
então o Buda assentia
com a cabeça.
ele gravava tudo em
fitas.
às vezes numa outra
noite ele tocava uma
fita desde o começo para
mim.
e aí eu me dava
conta de como
eu soava lastimável,
desprezível,
inepto.
raramente ele falhava.
por vezes eu me perguntava por que
o mundo não
o
descobrira.
ele não fazia o menor esforço para ser
descoberto.
ele recebia outros
visitantes,
sempre gente maluca,
original,
revigorante.
era mais louco do que o
sol incendiando o
mar,
eram os morcegos do inferno
rodopiando pela
sala.
era a depuração
da merda na
psique
retalhada.
noite após noite após
noite, eu
me enchia, eu voava, eu me encharcava
num deslumbramento
especial.
isso foi décadas atrás
e ele ainda está
vivo, eu
também.
ele criou um lugar quando
não havia
lugar.
um lugar para ir quando tudo
estava se fechando,
estrangulando, esmagando,
debilitando,
quando não havia
voz, não havia som,
não havia sentido,
ele emprestava calma
salvando
a graça
natural.
eu sinto que lhe devo
uma,
eu sinto que lhe devo
várias.
mas consigo ouvi-lo
agora, aquela mesma
voz
de quando ele se sentava
tão imenso
naquela mesma
cadeira:
“Não há dívida alguma,
Bukowski.”
afinal você está errado
dessa vez,
John Thomas, seu
desgraçado.
Echo Park
depois do meu expediente
nos correios.
ele era um enorme sujeito barbudo
e estava sentado em sua cadeira como um
Buda
e ele era o meu Buda, meu guru
meu herói, meu rugido de
luz.
às vezes ele não era gentil
mas ele era sempre bem mais do que
interessante.
sair daqueles escravos
dos correios
e entrar naquela explosão de luz
me confundia,
mas era uma confusão
extraordinária e
deliciosa.
milhares de livros sobre
centenas de assuntos
apodreciam em seu
porão.
jogar xadrez com ele era
levar uma surra risível no
tabuleiro.
desafiá-lo
física ou
mentalmente era
inútil.
mas ele tinha a habilidade de
escutar nossa
caçoada
com paciência
e também a habilidade
de resumir as
fraquezas,
as ilusões daquilo
numa única frase.
eu muitas vezes me perguntava como é que
ele aguentava as minhas
queixas; ele era gentil,
afinal de contas.
as noites duravam 7,
8 horas.
eu tinha minhas libações.
ele tinha a si mesmo
e uma linda mulher
que sorria em silêncio enquanto
nos
escutava.
ela trabalhava numa prancheta
de desenho,
projetando coisas.
nunca perguntei o que era e
ela nunca
disse.
as paredes e os tetos
eram cobertos com
centenas de dizeres esquisitos
colados –
como as últimas palavras de
um homem numa cadeira
elétrica,
ou gângsteres em seus
leitos de morte,
ou as instruções de uma velha mulher de bandido
para suas crianças;
fotos de Hitler, Al Capone,
Chefe Touro Sentado,
Lucky Luciano.
era uma interminável
colmeia de faces
e
declarações estranhas.
era sombriamente revigorante.
e em momentos raros e ocasionais
até eu ficava bom.
então o Buda assentia
com a cabeça.
ele gravava tudo em
fitas.
às vezes numa outra
noite ele tocava uma
fita desde o começo para
mim.
e aí eu me dava
conta de como
eu soava lastimável,
desprezível,
inepto.
raramente ele falhava.
por vezes eu me perguntava por que
o mundo não
o
descobrira.
ele não fazia o menor esforço para ser
descoberto.
ele recebia outros
visitantes,
sempre gente maluca,
original,
revigorante.
era mais louco do que o
sol incendiando o
mar,
eram os morcegos do inferno
rodopiando pela
sala.
era a depuração
da merda na
psique
retalhada.
noite após noite após
noite, eu
me enchia, eu voava, eu me encharcava
num deslumbramento
especial.
isso foi décadas atrás
e ele ainda está
vivo, eu
também.
ele criou um lugar quando
não havia
lugar.
um lugar para ir quando tudo
estava se fechando,
estrangulando, esmagando,
debilitando,
quando não havia
voz, não havia som,
não havia sentido,
ele emprestava calma
salvando
a graça
natural.
eu sinto que lhe devo
uma,
eu sinto que lhe devo
várias.
mas consigo ouvi-lo
agora, aquela mesma
voz
de quando ele se sentava
tão imenso
naquela mesma
cadeira:
“Não há dívida alguma,
Bukowski.”
afinal você está errado
dessa vez,
John Thomas, seu
desgraçado.
695
Charles Bukowski
Noite de Vento
eles sorriem e trazem a comida
sorriem e se curvam
enquanto um pequeno tufão aturde
os cegos
e o íbis escarlate aparece
e dança no esterco
em meu prato
eu não estou mesmo com fome
Leda, Tyndareus, Clytemnestra,
Castor, Pollux ou quem mais seja
que eu conheça não
comia essa porcaria.
peço uma sacola pra comida de cachorro.
ele sorriem e derramam a comida
dentro.
mais tarde, em minha cozinha,
divido a comida nos pratos,
ponho tudo no chão
enquanto os meus três gatos ficam imóveis
olhando pra mim
e eu pergunto: "O que é que há?
O que é que há? Comam!”
com a ventania
os galhos batem no vidro da janela
enquanto apago a luz da
cozinha
e vou para a sala
ligo a TV
bem na hora em que um guarda atira num
homem no alto de uma escada de incêndio
e ele cai e cai
e se esborracha na
rua:
esse nunca mais vai ter que comer
camarão Szechwan com ervilha chinesa
na vida.
sorriem e se curvam
enquanto um pequeno tufão aturde
os cegos
e o íbis escarlate aparece
e dança no esterco
em meu prato
eu não estou mesmo com fome
Leda, Tyndareus, Clytemnestra,
Castor, Pollux ou quem mais seja
que eu conheça não
comia essa porcaria.
peço uma sacola pra comida de cachorro.
ele sorriem e derramam a comida
dentro.
mais tarde, em minha cozinha,
divido a comida nos pratos,
ponho tudo no chão
enquanto os meus três gatos ficam imóveis
olhando pra mim
e eu pergunto: "O que é que há?
O que é que há? Comam!”
com a ventania
os galhos batem no vidro da janela
enquanto apago a luz da
cozinha
e vou para a sala
ligo a TV
bem na hora em que um guarda atira num
homem no alto de uma escada de incêndio
e ele cai e cai
e se esborracha na
rua:
esse nunca mais vai ter que comer
camarão Szechwan com ervilha chinesa
na vida.
1 273
Charles Bukowski
Todas as Perdas...
eu disse a ela na cama então
depois de voar toda a descida
até ali
eu disse a ela na cama
depois
"não tem volta,
cê sabe, é danado
de ruim demais..."
e era, embora eu
ficasse 2 ou
3 dias
e aí ela me levou
até o aeroporto
cachorro no
banco traseiro
aquele cachorro que tinha vivido
conosco
naqueles poucos
anos.
eu saí
disse a ela
"não entre",
o cachorro pulou pra cima
e pra baixo,
ele sabia que eu estava indo embora
assanhei o pêlo dele,
ele lambeu meu rosto
de volta.
que fracasso.
inclinado para dentro
segurava minha mala,
ela me deu um pequeno
beijo de adeus,
e então eu me virei e
caminhei para
o guichê do aeroporto
e o cara do controle
destacou fora
a outra metade do bilhete de ida
e volta.
"fumante ou
não-fumante?", o funcionário
perguntou.
"bebedor", eu
respondi.
recebi meu bilhete de embarque
e caminhei até
o portão
me sentindo mal
porque todo mundo
que eu sabia
que não sabia
ia ficar
sabendo.
depois de voar toda a descida
até ali
eu disse a ela na cama
depois
"não tem volta,
cê sabe, é danado
de ruim demais..."
e era, embora eu
ficasse 2 ou
3 dias
e aí ela me levou
até o aeroporto
cachorro no
banco traseiro
aquele cachorro que tinha vivido
conosco
naqueles poucos
anos.
eu saí
disse a ela
"não entre",
o cachorro pulou pra cima
e pra baixo,
ele sabia que eu estava indo embora
assanhei o pêlo dele,
ele lambeu meu rosto
de volta.
que fracasso.
inclinado para dentro
segurava minha mala,
ela me deu um pequeno
beijo de adeus,
e então eu me virei e
caminhei para
o guichê do aeroporto
e o cara do controle
destacou fora
a outra metade do bilhete de ida
e volta.
"fumante ou
não-fumante?", o funcionário
perguntou.
"bebedor", eu
respondi.
recebi meu bilhete de embarque
e caminhei até
o portão
me sentindo mal
porque todo mundo
que eu sabia
que não sabia
ia ficar
sabendo.
1 206
Charles Bukowski
Todas as Perdas...
eu disse a ela na cama então
depois de voar toda a descida
até ali
eu disse a ela na cama
depois
"não tem volta,
cê sabe, é danado
de ruim demais..."
e era, embora eu
ficasse 2 ou
3 dias
e aí ela me levou
até o aeroporto
cachorro no
banco traseiro
aquele cachorro que tinha vivido
conosco
naqueles poucos
anos.
eu saí
disse a ela
"não entre",
o cachorro pulou pra cima
e pra baixo,
ele sabia que eu estava indo embora
assanhei o pêlo dele,
ele lambeu meu rosto
de volta.
que fracasso.
inclinado para dentro
segurava minha mala,
ela me deu um pequeno
beijo de adeus,
e então eu me virei e
caminhei para
o guichê do aeroporto
e o cara do controle
destacou fora
a outra metade do bilhete de ida
e volta.
"fumante ou
não-fumante?", o funcionário
perguntou.
"bebedor", eu
respondi.
recebi meu bilhete de embarque
e caminhei até
o portão
me sentindo mal
porque todo mundo
que eu sabia
que não sabia
ia ficar
sabendo.
depois de voar toda a descida
até ali
eu disse a ela na cama
depois
"não tem volta,
cê sabe, é danado
de ruim demais..."
e era, embora eu
ficasse 2 ou
3 dias
e aí ela me levou
até o aeroporto
cachorro no
banco traseiro
aquele cachorro que tinha vivido
conosco
naqueles poucos
anos.
eu saí
disse a ela
"não entre",
o cachorro pulou pra cima
e pra baixo,
ele sabia que eu estava indo embora
assanhei o pêlo dele,
ele lambeu meu rosto
de volta.
que fracasso.
inclinado para dentro
segurava minha mala,
ela me deu um pequeno
beijo de adeus,
e então eu me virei e
caminhei para
o guichê do aeroporto
e o cara do controle
destacou fora
a outra metade do bilhete de ida
e volta.
"fumante ou
não-fumante?", o funcionário
perguntou.
"bebedor", eu
respondi.
recebi meu bilhete de embarque
e caminhei até
o portão
me sentindo mal
porque todo mundo
que eu sabia
que não sabia
ia ficar
sabendo.
1 206
Charles Bukowski
Treinando para Kid Aztec
eu era um cara moço em Los Angeles.
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão
e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.
eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...
acabei a garrafa
pedi outra.
"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.
nenhuma resposta.
"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."
silêncio.
desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"
nenhuma resposta.
botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.
quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.
"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."
o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.
eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."
"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.
"pô, claro..."
"e sobre que são
esses' poemas?"
"o amor..."
"oh, o amor, Señor?"
"poemas de amor para a
Morte..."
esvaziei minha garrafa
e pedi outra.
"eu também escrevo,
Señor..."
"ah, é?”
"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."
os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.
"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"
"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"
tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.
"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.
"nah, já chega, tenho que
descansar..."
caminhei para a
saída.
"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.
caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.
eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.
parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador
ninguém notou.
talvez não viessem
a notar nunca.
segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem
alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão
e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.
eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...
acabei a garrafa
pedi outra.
"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.
nenhuma resposta.
"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."
silêncio.
desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"
nenhuma resposta.
botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.
quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.
"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."
o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.
eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."
"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.
"pô, claro..."
"e sobre que são
esses' poemas?"
"o amor..."
"oh, o amor, Señor?"
"poemas de amor para a
Morte..."
esvaziei minha garrafa
e pedi outra.
"eu também escrevo,
Señor..."
"ah, é?”
"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."
os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.
"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"
"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"
tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.
"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.
"nah, já chega, tenho que
descansar..."
caminhei para a
saída.
"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.
caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.
eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.
parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador
ninguém notou.
talvez não viessem
a notar nunca.
segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem
alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
1 115
Charles Bukowski
Treinando para Kid Aztec
eu era um cara moço em Los Angeles.
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão
e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.
eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...
acabei a garrafa
pedi outra.
"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.
nenhuma resposta.
"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."
silêncio.
desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"
nenhuma resposta.
botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.
quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.
"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."
o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.
eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."
"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.
"pô, claro..."
"e sobre que são
esses' poemas?"
"o amor..."
"oh, o amor, Señor?"
"poemas de amor para a
Morte..."
esvaziei minha garrafa
e pedi outra.
"eu também escrevo,
Señor..."
"ah, é?”
"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."
os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.
"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"
"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"
tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.
"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.
"nah, já chega, tenho que
descansar..."
caminhei para a
saída.
"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.
caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.
eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.
parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador
ninguém notou.
talvez não viessem
a notar nunca.
segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem
alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão
e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.
eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...
acabei a garrafa
pedi outra.
"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.
nenhuma resposta.
"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."
silêncio.
desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"
nenhuma resposta.
botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.
quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.
"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."
o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.
eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."
"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.
"pô, claro..."
"e sobre que são
esses' poemas?"
"o amor..."
"oh, o amor, Señor?"
"poemas de amor para a
Morte..."
esvaziei minha garrafa
e pedi outra.
"eu também escrevo,
Señor..."
"ah, é?”
"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."
os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.
"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"
"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"
tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.
"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.
"nah, já chega, tenho que
descansar..."
caminhei para a
saída.
"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.
caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.
eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.
parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador
ninguém notou.
talvez não viessem
a notar nunca.
segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem
alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
1 115
Charles Bukowski
Treinando para Kid Aztec
eu era um cara moço em Los Angeles.
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão
e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.
eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...
acabei a garrafa
pedi outra.
"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.
nenhuma resposta.
"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."
silêncio.
desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"
nenhuma resposta.
botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.
quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.
"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."
o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.
eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."
"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.
"pô, claro..."
"e sobre que são
esses' poemas?"
"o amor..."
"oh, o amor, Señor?"
"poemas de amor para a
Morte..."
esvaziei minha garrafa
e pedi outra.
"eu também escrevo,
Señor..."
"ah, é?”
"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."
os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.
"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"
"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"
tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.
"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.
"nah, já chega, tenho que
descansar..."
caminhei para a
saída.
"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.
caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.
eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.
parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador
ninguém notou.
talvez não viessem
a notar nunca.
segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem
alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão
e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.
eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...
acabei a garrafa
pedi outra.
"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.
nenhuma resposta.
"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."
silêncio.
desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"
nenhuma resposta.
botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.
quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.
"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."
o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.
eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."
"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.
"pô, claro..."
"e sobre que são
esses' poemas?"
"o amor..."
"oh, o amor, Señor?"
"poemas de amor para a
Morte..."
esvaziei minha garrafa
e pedi outra.
"eu também escrevo,
Señor..."
"ah, é?”
"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."
os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.
"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"
"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"
tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.
"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.
"nah, já chega, tenho que
descansar..."
caminhei para a
saída.
"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.
caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.
eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.
parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador
ninguém notou.
talvez não viessem
a notar nunca.
segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem
alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
1 115
Charles Bukowski
A Sova do Consolo
numa semana eu tive 6 mulheres diferentes
em 6 camas diferentes
(tirei uma quinta-feira de folga
para descansar)
e só falhei
sexualmente
uma noite,
a última noite da semana:
aconteceu quando eu estava em ação.
ela levou para o lado pessoal.
agora fiquei com uma só mulher
e eu não a traio.
quando você constata que pode se foder
facilmente
você constata que não precisa sair
por aí
simplesmente fodendo mulheres
e usando seus banheiros e seus
chuveiros e suas toalhas
e suas entranhas,
seus pensamentos, seus
sentimentos.
agora tenho um belo jardim lá fora.
ela o plantou.
eu o rego diariamente.
vasos de plantas pendem de cordas.
estou em paz.
ela fica aqui 3 dias por semana
então volta para sua casa.
o carteiro me pergunta: “ei, o que
aconteceu com todas as suas mulheres? você
costumava ter umas duas delas
sentadas na sua varanda quando eu passava
por aqui...”
“Sam”, eu lhe digo, “eu estava começando
a me sentir como um consolo...”
o cara da entrega de bebidas aparece:
“ei, cara! onde foi parar a mulherada toda?
você está sozinho nesta noite...”
“mais bebida pra mim,
Ernie...”
fodi a cidade, bebi a
metrópole, trepei com o país,
mijei no universo.
resta pouco a fazer exceto
firmar posição e relaxar.
tenho um belo jardim.
tenho uma mulher adorável.
já não me sinto como um
consolo.
eu me sinto como um homem.
a sensação é bem
melhor, é
mesmo. não se preocupem
comigo.
em 6 camas diferentes
(tirei uma quinta-feira de folga
para descansar)
e só falhei
sexualmente
uma noite,
a última noite da semana:
aconteceu quando eu estava em ação.
ela levou para o lado pessoal.
agora fiquei com uma só mulher
e eu não a traio.
quando você constata que pode se foder
facilmente
você constata que não precisa sair
por aí
simplesmente fodendo mulheres
e usando seus banheiros e seus
chuveiros e suas toalhas
e suas entranhas,
seus pensamentos, seus
sentimentos.
agora tenho um belo jardim lá fora.
ela o plantou.
eu o rego diariamente.
vasos de plantas pendem de cordas.
estou em paz.
ela fica aqui 3 dias por semana
então volta para sua casa.
o carteiro me pergunta: “ei, o que
aconteceu com todas as suas mulheres? você
costumava ter umas duas delas
sentadas na sua varanda quando eu passava
por aqui...”
“Sam”, eu lhe digo, “eu estava começando
a me sentir como um consolo...”
o cara da entrega de bebidas aparece:
“ei, cara! onde foi parar a mulherada toda?
você está sozinho nesta noite...”
“mais bebida pra mim,
Ernie...”
fodi a cidade, bebi a
metrópole, trepei com o país,
mijei no universo.
resta pouco a fazer exceto
firmar posição e relaxar.
tenho um belo jardim.
tenho uma mulher adorável.
já não me sinto como um
consolo.
eu me sinto como um homem.
a sensação é bem
melhor, é
mesmo. não se preocupem
comigo.
741
Charles Bukowski
Ah, Eu Era o Terror da Mulherada!
você
se pergunta sobre
quando
você corria por entre as mulheres
como um maníaco
em campo aberto
com sua total
desconsideração por
calcinhas, panos de prato,
fotos
e todos os outros
apetrechos –
como
o emaranhamento das
almas.
o que
você estava
tentando
fazer
estava tentando
ir atrás
do quê?
era como uma
caçada.
quantas você
conseguiu
ensacar?
partir
pra cima?
nomes
sapatos
vestidos
lençóis, banheiros,
quartos, cozinhas,
salas
da frente,
cafés,
animais de estimação,
nomes de animais de estimação,
nomes de crianças;
nomes do meio, sobrenomes,
nomes
inventados.
você provou que era
fácil.
você provou que
podia ser feito
sempre
de novo,
aquelas pernas erguidas
alto
por trás de quase
você todo.
ou
elas ficavam por cima
ou
você ficava
por trás
ou
ambos
de lado
além de
outras
invenções.
canções em rádios.
carros estacionados.
vozes telefônicas.
bebidas sendo
servidas.
as conversas
sem sentido.
agora você sabe
você não passava de um
maldito
cão, ou
de uma lesma enrolada
numa lesma –
conchas pegajosas na luz
do sol, ou nas
noites enevoadas,
ou no escuro
escuro.
você era
o idiota da
natureza,
não provando mas
sendo
provado.
não um homem mas um
plano
se desenrolando,
não empurrando mas
sendo
empurrado.
agora
você sabe.
naquele tempo
você se achava
um belo de um
espertalhão
um belo de um
cafajeste
um belo de um
machão
um belo de um
transgressor
sorrindo acima de seu
vinho
planejando sua próxima
jogada
que
perda de tempo
você era
seu grande
cavaleiro
seu Átila das
primaveras e
tudo mais
você poderia ter
dormido esse tempo
todo
e ninguém nunca teria
sentido sua
falta
nunca teriam
sentido sua
falta
em
absoluto.
se pergunta sobre
quando
você corria por entre as mulheres
como um maníaco
em campo aberto
com sua total
desconsideração por
calcinhas, panos de prato,
fotos
e todos os outros
apetrechos –
como
o emaranhamento das
almas.
o que
você estava
tentando
fazer
estava tentando
ir atrás
do quê?
era como uma
caçada.
quantas você
conseguiu
ensacar?
partir
pra cima?
nomes
sapatos
vestidos
lençóis, banheiros,
quartos, cozinhas,
salas
da frente,
cafés,
animais de estimação,
nomes de animais de estimação,
nomes de crianças;
nomes do meio, sobrenomes,
nomes
inventados.
você provou que era
fácil.
você provou que
podia ser feito
sempre
de novo,
aquelas pernas erguidas
alto
por trás de quase
você todo.
ou
elas ficavam por cima
ou
você ficava
por trás
ou
ambos
de lado
além de
outras
invenções.
canções em rádios.
carros estacionados.
vozes telefônicas.
bebidas sendo
servidas.
as conversas
sem sentido.
agora você sabe
você não passava de um
maldito
cão, ou
de uma lesma enrolada
numa lesma –
conchas pegajosas na luz
do sol, ou nas
noites enevoadas,
ou no escuro
escuro.
você era
o idiota da
natureza,
não provando mas
sendo
provado.
não um homem mas um
plano
se desenrolando,
não empurrando mas
sendo
empurrado.
agora
você sabe.
naquele tempo
você se achava
um belo de um
espertalhão
um belo de um
cafajeste
um belo de um
machão
um belo de um
transgressor
sorrindo acima de seu
vinho
planejando sua próxima
jogada
que
perda de tempo
você era
seu grande
cavaleiro
seu Átila das
primaveras e
tudo mais
você poderia ter
dormido esse tempo
todo
e ninguém nunca teria
sentido sua
falta
nunca teriam
sentido sua
falta
em
absoluto.
654
Charles Bukowski
Ah, Eu Era o Terror da Mulherada!
você
se pergunta sobre
quando
você corria por entre as mulheres
como um maníaco
em campo aberto
com sua total
desconsideração por
calcinhas, panos de prato,
fotos
e todos os outros
apetrechos –
como
o emaranhamento das
almas.
o que
você estava
tentando
fazer
estava tentando
ir atrás
do quê?
era como uma
caçada.
quantas você
conseguiu
ensacar?
partir
pra cima?
nomes
sapatos
vestidos
lençóis, banheiros,
quartos, cozinhas,
salas
da frente,
cafés,
animais de estimação,
nomes de animais de estimação,
nomes de crianças;
nomes do meio, sobrenomes,
nomes
inventados.
você provou que era
fácil.
você provou que
podia ser feito
sempre
de novo,
aquelas pernas erguidas
alto
por trás de quase
você todo.
ou
elas ficavam por cima
ou
você ficava
por trás
ou
ambos
de lado
além de
outras
invenções.
canções em rádios.
carros estacionados.
vozes telefônicas.
bebidas sendo
servidas.
as conversas
sem sentido.
agora você sabe
você não passava de um
maldito
cão, ou
de uma lesma enrolada
numa lesma –
conchas pegajosas na luz
do sol, ou nas
noites enevoadas,
ou no escuro
escuro.
você era
o idiota da
natureza,
não provando mas
sendo
provado.
não um homem mas um
plano
se desenrolando,
não empurrando mas
sendo
empurrado.
agora
você sabe.
naquele tempo
você se achava
um belo de um
espertalhão
um belo de um
cafajeste
um belo de um
machão
um belo de um
transgressor
sorrindo acima de seu
vinho
planejando sua próxima
jogada
que
perda de tempo
você era
seu grande
cavaleiro
seu Átila das
primaveras e
tudo mais
você poderia ter
dormido esse tempo
todo
e ninguém nunca teria
sentido sua
falta
nunca teriam
sentido sua
falta
em
absoluto.
se pergunta sobre
quando
você corria por entre as mulheres
como um maníaco
em campo aberto
com sua total
desconsideração por
calcinhas, panos de prato,
fotos
e todos os outros
apetrechos –
como
o emaranhamento das
almas.
o que
você estava
tentando
fazer
estava tentando
ir atrás
do quê?
era como uma
caçada.
quantas você
conseguiu
ensacar?
partir
pra cima?
nomes
sapatos
vestidos
lençóis, banheiros,
quartos, cozinhas,
salas
da frente,
cafés,
animais de estimação,
nomes de animais de estimação,
nomes de crianças;
nomes do meio, sobrenomes,
nomes
inventados.
você provou que era
fácil.
você provou que
podia ser feito
sempre
de novo,
aquelas pernas erguidas
alto
por trás de quase
você todo.
ou
elas ficavam por cima
ou
você ficava
por trás
ou
ambos
de lado
além de
outras
invenções.
canções em rádios.
carros estacionados.
vozes telefônicas.
bebidas sendo
servidas.
as conversas
sem sentido.
agora você sabe
você não passava de um
maldito
cão, ou
de uma lesma enrolada
numa lesma –
conchas pegajosas na luz
do sol, ou nas
noites enevoadas,
ou no escuro
escuro.
você era
o idiota da
natureza,
não provando mas
sendo
provado.
não um homem mas um
plano
se desenrolando,
não empurrando mas
sendo
empurrado.
agora
você sabe.
naquele tempo
você se achava
um belo de um
espertalhão
um belo de um
cafajeste
um belo de um
machão
um belo de um
transgressor
sorrindo acima de seu
vinho
planejando sua próxima
jogada
que
perda de tempo
você era
seu grande
cavaleiro
seu Átila das
primaveras e
tudo mais
você poderia ter
dormido esse tempo
todo
e ninguém nunca teria
sentido sua
falta
nunca teriam
sentido sua
falta
em
absoluto.
654
Charles Bukowski
Poema de Amor
lugar nenhum e meio
na torre
desmoronada
que os vermes conquistem
a glória
escuro dentro da
escuridão
a última aposta
perdida
tentando
alcançar
silêncio
ósseo.
na torre
desmoronada
que os vermes conquistem
a glória
escuro dentro da
escuridão
a última aposta
perdida
tentando
alcançar
silêncio
ósseo.
1 155
Charles Bukowski
Quatro e Meia da Manhã
os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões,
e gatos sonhando
com passarinhos vermelhos
e estes sonhando com
minhocas,
e as minhocas sonhando
os ossos do
meu amor,
e eu não posso dormir,
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e dirão:
e vão procurar por mim
no estaleiro
"ele tá bêbado de novo",
mas eu estarei adormecido,
finalmente,
no meio das garrafas e da
luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e
como algo esfaqueado e
cicatrizando,
como
40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões,
e gatos sonhando
com passarinhos vermelhos
e estes sonhando com
minhocas,
e as minhocas sonhando
os ossos do
meu amor,
e eu não posso dormir,
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e dirão:
e vão procurar por mim
no estaleiro
"ele tá bêbado de novo",
mas eu estarei adormecido,
finalmente,
no meio das garrafas e da
luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e
como algo esfaqueado e
cicatrizando,
como
40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.
1 334
Charles Bukowski
Quatro e Meia da Manhã
os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões,
e gatos sonhando
com passarinhos vermelhos
e estes sonhando com
minhocas,
e as minhocas sonhando
os ossos do
meu amor,
e eu não posso dormir,
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e dirão:
e vão procurar por mim
no estaleiro
"ele tá bêbado de novo",
mas eu estarei adormecido,
finalmente,
no meio das garrafas e da
luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e
como algo esfaqueado e
cicatrizando,
como
40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões,
e gatos sonhando
com passarinhos vermelhos
e estes sonhando com
minhocas,
e as minhocas sonhando
os ossos do
meu amor,
e eu não posso dormir,
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e dirão:
e vão procurar por mim
no estaleiro
"ele tá bêbado de novo",
mas eu estarei adormecido,
finalmente,
no meio das garrafas e da
luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e
como algo esfaqueado e
cicatrizando,
como
40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.
1 334
Charles Bukowski
Até Que Foi Bom
ela é agora uma boa e velha garota.
ela ficou gorda e grisalha.
fomos amantes muitos anos
atrás,
houve uma criança,
há uma criança,
hoje uma mulher.
essa mulher me deu
uma fita
com sua mãe
falando sobre poesia
e sua vida e
lendo seus
poemas.
uma fita com uma hora de gravação.
ouvi a fita.
infelizmente
a poesia não era
muito boa
mas quase toda poesia
não é.
ela seguia falando
sobre
oficinas de poesia,
diversas influências –
família, amigos, seu
marido (não
era eu), que não
parecia gostar do fato de
ela escrever poesia.
ela mantinha um caderninho
perto da cama
e outro em sua
bolsa.
falava sobre
isso e aquilo.
fiquei feliz por ela
que tenham lhe dado espaço
numa rádio
por uma hora.
eu já tinha ouvido coisas piores
de professores que
haviam assumido
a literatura
como ofício.
e conforme fui escutando
sua voz
era a
mesma voz
que eu escutara
20 anos atrás
quando apareci
na casa dela
na Vermont Avenue
e a encontrei
alimentando formigas
com açúcar
em seu quarto
e havia
várias formigas
lá
mas ela tinha
um corpo fantástico
na época
e eu estava
duro que nem
o diabo.
foi uma
boa hora,
Fran.
ela ficou gorda e grisalha.
fomos amantes muitos anos
atrás,
houve uma criança,
há uma criança,
hoje uma mulher.
essa mulher me deu
uma fita
com sua mãe
falando sobre poesia
e sua vida e
lendo seus
poemas.
uma fita com uma hora de gravação.
ouvi a fita.
infelizmente
a poesia não era
muito boa
mas quase toda poesia
não é.
ela seguia falando
sobre
oficinas de poesia,
diversas influências –
família, amigos, seu
marido (não
era eu), que não
parecia gostar do fato de
ela escrever poesia.
ela mantinha um caderninho
perto da cama
e outro em sua
bolsa.
falava sobre
isso e aquilo.
fiquei feliz por ela
que tenham lhe dado espaço
numa rádio
por uma hora.
eu já tinha ouvido coisas piores
de professores que
haviam assumido
a literatura
como ofício.
e conforme fui escutando
sua voz
era a
mesma voz
que eu escutara
20 anos atrás
quando apareci
na casa dela
na Vermont Avenue
e a encontrei
alimentando formigas
com açúcar
em seu quarto
e havia
várias formigas
lá
mas ela tinha
um corpo fantástico
na época
e eu estava
duro que nem
o diabo.
foi uma
boa hora,
Fran.
1 101
Charles Bukowski
Carta do Norte
meu amigo escreve falando de rejeições e editores,
e conta sua visita a K.,ou R., ou W,
e pergunta se estou na S., número 12, que ele
tem um poema nela
e T. escreveu da Flórida
mas recusou seus poemas, R. dorme na tipografia
e T. o criticou impiedosamente....
encontrou o editor da Revista X. na rua,
e o editor parecia que tinha levado um chute nos colhões
no momento em que ele o identificou
e pediu sua opinião sobre os poemas,
é bom imprensar esses caras de vez em quando,
dar uma escovadela neles;
as agências de publicidade esqueceram dele, e W. está
demorando demais para ler o seu livro, ganhou só cinco
pratas para ler no Unicorn,
telefonou a K., da Revista W., parece um bom sujeito,
e acha à que acabou com R.,
manda uns recortes para que eu me divirta:
seu nome numa coluna de jornal, vai ter que telefonar para R. de novo: S. está lecionando
na universidade
e ele não aguenta ir, M. é homo,
C. não é capaz de se decidir e P. está louco com ele
porque ele bebeu cerveja na frente de N.
só cartas de recusa, mas ele sabe que sua produção é boa.
L. esteve lá para pegar um maço de Pall Malls emprestado, o puto o deixa
doente, sempre se lamentando...
B. escreve dizendo que P está com problemas, é preciso esquematizar
uma ajuda,
terrivelmente desanimado. dinheiro nem para os selos.
morto sem selos, escreva-me, ele diz,
estou na baixa.
escrever para você? meu amigo, sobre o quê?
eu só me interesso
por poesia.
e conta sua visita a K.,ou R., ou W,
e pergunta se estou na S., número 12, que ele
tem um poema nela
e T. escreveu da Flórida
mas recusou seus poemas, R. dorme na tipografia
e T. o criticou impiedosamente....
encontrou o editor da Revista X. na rua,
e o editor parecia que tinha levado um chute nos colhões
no momento em que ele o identificou
e pediu sua opinião sobre os poemas,
é bom imprensar esses caras de vez em quando,
dar uma escovadela neles;
as agências de publicidade esqueceram dele, e W. está
demorando demais para ler o seu livro, ganhou só cinco
pratas para ler no Unicorn,
telefonou a K., da Revista W., parece um bom sujeito,
e acha à que acabou com R.,
manda uns recortes para que eu me divirta:
seu nome numa coluna de jornal, vai ter que telefonar para R. de novo: S. está lecionando
na universidade
e ele não aguenta ir, M. é homo,
C. não é capaz de se decidir e P. está louco com ele
porque ele bebeu cerveja na frente de N.
só cartas de recusa, mas ele sabe que sua produção é boa.
L. esteve lá para pegar um maço de Pall Malls emprestado, o puto o deixa
doente, sempre se lamentando...
B. escreve dizendo que P está com problemas, é preciso esquematizar
uma ajuda,
terrivelmente desanimado. dinheiro nem para os selos.
morto sem selos, escreva-me, ele diz,
estou na baixa.
escrever para você? meu amigo, sobre o quê?
eu só me interesso
por poesia.
1 077
Charles Bukowski
Os Cisnes Passeiam por Meu Cérebro em Abril Chove
você quer que eu descasque uma laranja e
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
521
Charles Bukowski
Os Cisnes Passeiam por Meu Cérebro em Abril Chove
você quer que eu descasque uma laranja e
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
521
Charles Bukowski
Os Cisnes Passeiam por Meu Cérebro em Abril Chove
você quer que eu descasque uma laranja e
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
521
Charles Bukowski
Os Cisnes Passeiam por Meu Cérebro em Abril Chove
você quer que eu descasque uma laranja e
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
521
Charles Bukowski
O Tordo Azul
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo: fique aí, não vou
deixar que ninguém veja
você.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os bartenders
e os balconistas de mercearia
nunca sabem que
ele está
ali dentro.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo:
fique quieto, você quer
me ferrar?
quer foder com a minha
situação?
quer detonar as minhas vendas de livros na
Europa?
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou esperto demais, só o deixo sair
em algumas noites
quando todo mundo está dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique
triste.
depois o coloco de volta,
mas ele está cantando um pouco
ali dentro, não o deixei morrer
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso
pacto secreto
e é bom o bastante para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo: fique aí, não vou
deixar que ninguém veja
você.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os bartenders
e os balconistas de mercearia
nunca sabem que
ele está
ali dentro.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo:
fique quieto, você quer
me ferrar?
quer foder com a minha
situação?
quer detonar as minhas vendas de livros na
Europa?
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou esperto demais, só o deixo sair
em algumas noites
quando todo mundo está dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique
triste.
depois o coloco de volta,
mas ele está cantando um pouco
ali dentro, não o deixei morrer
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso
pacto secreto
e é bom o bastante para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?
1 218
Charles Bukowski
O Tordo Azul
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo: fique aí, não vou
deixar que ninguém veja
você.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os bartenders
e os balconistas de mercearia
nunca sabem que
ele está
ali dentro.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo:
fique quieto, você quer
me ferrar?
quer foder com a minha
situação?
quer detonar as minhas vendas de livros na
Europa?
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou esperto demais, só o deixo sair
em algumas noites
quando todo mundo está dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique
triste.
depois o coloco de volta,
mas ele está cantando um pouco
ali dentro, não o deixei morrer
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso
pacto secreto
e é bom o bastante para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo: fique aí, não vou
deixar que ninguém veja
você.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os bartenders
e os balconistas de mercearia
nunca sabem que
ele está
ali dentro.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo:
fique quieto, você quer
me ferrar?
quer foder com a minha
situação?
quer detonar as minhas vendas de livros na
Europa?
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou esperto demais, só o deixo sair
em algumas noites
quando todo mundo está dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique
triste.
depois o coloco de volta,
mas ele está cantando um pouco
ali dentro, não o deixei morrer
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso
pacto secreto
e é bom o bastante para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?
1 218
Charles Bukowski
Minhas Paredes do Amor
em noites como esta, recupero o que
posso.
a vida é dura, a escrita é livre.
se as mulheres pudessem ser tão fáceis
mas elas eram sempre quase a mesma coisa:
gostavam da minha escrita em formato de livro
finalizado
mas havia sempre algo em relação ao efetivo
ato de datilografar
de trabalhar em direção ao novo
que as incomodava...
eu não estava competindo com elas
mas elas se mostravam competitivas comigo
em formas e estilos que eu não considerava
nem originais nem criativos
se bem que para mim
eram sem dúvida
assombrosos o bastante.
agora estão libertadas
consigo mesmas e com os outros
e têm novos problemas
de outra maneira.
todas aquelas gracinhas:
fico contente por estar com elas em espírito
e não em carne
pois agora posso martelar a porra desta máquina
sem preocupação.
posso.
a vida é dura, a escrita é livre.
se as mulheres pudessem ser tão fáceis
mas elas eram sempre quase a mesma coisa:
gostavam da minha escrita em formato de livro
finalizado
mas havia sempre algo em relação ao efetivo
ato de datilografar
de trabalhar em direção ao novo
que as incomodava...
eu não estava competindo com elas
mas elas se mostravam competitivas comigo
em formas e estilos que eu não considerava
nem originais nem criativos
se bem que para mim
eram sem dúvida
assombrosos o bastante.
agora estão libertadas
consigo mesmas e com os outros
e têm novos problemas
de outra maneira.
todas aquelas gracinhas:
fico contente por estar com elas em espírito
e não em carne
pois agora posso martelar a porra desta máquina
sem preocupação.
670