Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Charles Bukowski
o tortuoso bem de socorrer quem sofre
tendo ficado muito magro e nervoso
como um músico passando fome
alimentei-o bem
e ele ficou gordo
como um texano magnata do petróleo e não tão
nervoso
mas mesmo assim
esquisito.
adormecido na cama eu desperto
e seu nariz está tocando meu
nariz e aqueles
grandes olhos amarelos
SONDANDO
o que resta de minha alma
e aí eu digo -
Sai, desgraçado!
tira esse seu nariz do meu
nariz!
ronronando como uma aranha cheia de
moscas ele se afasta um
pouco.
eu estava na banheira ontem
e ele veio andando
pernas esticadas alto
cauda sacudindo
e eu ali
fumando um charuto e lendo a
NEW YORKER
e ele pulou na borda da
banheira
equilibrando-se sobre o marfim escorregadio
curvando-se
e eu disse a ele:
meu caro, o senhor é um gato e gatos
não gostam de água.
mas ele se voltou rumo às torneiras
e ficou pendurado ali com seus pés pretos
e a outra parte dele estava
de cabeça para baixo
farejando a água e a água estava
QUENTE e ele começou a bebê-la
a fina língua vermelha
acanhada e milagrosa
mergulhando na água quente
e ele continuou
farejando
tentando imaginar o que eu estava fazendo ali dentro
o que eu via de tão bom naquilo
e então aquele tolo branco e gordo
caiu na água! -
nós todos saímos dali
molhados e velozes;
gato, eu, charuto e NEW YORKER
salivando, soando, silvando, ensaboados
e minha esposa entrou correndo
MEU DEUS! O QUE ACONTECEU? O QUE ACONTECEU?
falei por entre meu charuto desemaranhado:
o cara não pode nem mesmo ter um pouco de privacidade
em sua própria banheira, foi isso!
ela somente riu de nós
e O gato sequer ficou zangado
ainda estava molhado e inchado
exceto pelo rabo
que agora parecia quase tão fino quanto um
rabo de rato e muito triste e
ele começou a se
lamber.
usei uma toalha,
então fui para o quarto
deitei na cama
e tentei encontrar meu lugar na
revista.
mas o bom humor estava desfeito
larguei a publicação de lado
e olhei para o teto
lá para o espaço onde Deus supostamente
estava
então escutei:
MIIIAuiAU!
o próximo gato desgarrado que aparecer na minha porta vai
continuar sendo um
desgarrado.
como um músico passando fome
alimentei-o bem
e ele ficou gordo
como um texano magnata do petróleo e não tão
nervoso
mas mesmo assim
esquisito.
adormecido na cama eu desperto
e seu nariz está tocando meu
nariz e aqueles
grandes olhos amarelos
SONDANDO
o que resta de minha alma
e aí eu digo -
Sai, desgraçado!
tira esse seu nariz do meu
nariz!
ronronando como uma aranha cheia de
moscas ele se afasta um
pouco.
eu estava na banheira ontem
e ele veio andando
pernas esticadas alto
cauda sacudindo
e eu ali
fumando um charuto e lendo a
NEW YORKER
e ele pulou na borda da
banheira
equilibrando-se sobre o marfim escorregadio
curvando-se
e eu disse a ele:
meu caro, o senhor é um gato e gatos
não gostam de água.
mas ele se voltou rumo às torneiras
e ficou pendurado ali com seus pés pretos
e a outra parte dele estava
de cabeça para baixo
farejando a água e a água estava
QUENTE e ele começou a bebê-la
a fina língua vermelha
acanhada e milagrosa
mergulhando na água quente
e ele continuou
farejando
tentando imaginar o que eu estava fazendo ali dentro
o que eu via de tão bom naquilo
e então aquele tolo branco e gordo
caiu na água! -
nós todos saímos dali
molhados e velozes;
gato, eu, charuto e NEW YORKER
salivando, soando, silvando, ensaboados
e minha esposa entrou correndo
MEU DEUS! O QUE ACONTECEU? O QUE ACONTECEU?
falei por entre meu charuto desemaranhado:
o cara não pode nem mesmo ter um pouco de privacidade
em sua própria banheira, foi isso!
ela somente riu de nós
e O gato sequer ficou zangado
ainda estava molhado e inchado
exceto pelo rabo
que agora parecia quase tão fino quanto um
rabo de rato e muito triste e
ele começou a se
lamber.
usei uma toalha,
então fui para o quarto
deitei na cama
e tentei encontrar meu lugar na
revista.
mas o bom humor estava desfeito
larguei a publicação de lado
e olhei para o teto
lá para o espaço onde Deus supostamente
estava
então escutei:
MIIIAuiAU!
o próximo gato desgarrado que aparecer na minha porta vai
continuar sendo um
desgarrado.
1 164
Charles Bukowski
Poema de Amor Para Uma Stripper
50 anos atrás eu observava as garotas
rebolando e fazendo striptease
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
e a luz mudava de verde para
roxo para rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora sento aqui esta noite
fumando e bebendo
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de
seus nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, sabia como fazer,
e nós girávamos em nossos assentos e
fazíamos barulhos
e Rosalie dava magia
para os solitários
tanto tempo atrás.
agora, Rosalie,
ou tão absolutamente velha ou
tão tranquila embaixo da
terra,
este é o garoto
com o rosto cheio de espinhas
que mentiu sobre sua
idade
apenas para ver
você.
você era boa, Rosalie,
em 1935,
boa o bastante para lembrar
agora
quando a luz é
amarela
e as noites são
lentas.
rebolando e fazendo striptease
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
e a luz mudava de verde para
roxo para rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora sento aqui esta noite
fumando e bebendo
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de
seus nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, sabia como fazer,
e nós girávamos em nossos assentos e
fazíamos barulhos
e Rosalie dava magia
para os solitários
tanto tempo atrás.
agora, Rosalie,
ou tão absolutamente velha ou
tão tranquila embaixo da
terra,
este é o garoto
com o rosto cheio de espinhas
que mentiu sobre sua
idade
apenas para ver
você.
você era boa, Rosalie,
em 1935,
boa o bastante para lembrar
agora
quando a luz é
amarela
e as noites são
lentas.
616
Charles Bukowski
Eulogia Para Uma Dama E Tanto
certos cães que dormem à noite
devem sonhar com ossos
e eu me lembro dos seus ossos
na carne
e melhor
naquele vestido verde-escuro
e naqueles brilhantes sapatos pretos
de salto alto,
você sempre praguejava quando
bebia,
seu cabelo desabando, você
queria explodir para fugir
daquilo que a detinha:
memórias podres de um
passado
podre, e
você afinal
escapou
morrendo,
deixando-me com o
presente
podre;
você está morta
faz 28 anos
mas ainda me lembro de você
melhor do que de qualquer uma
delas;
você foi a única
que compreendeu
a futilidade do
arranjo da
vida;
todas as outras ficavam
desgostosas com
segmentos triviais,
queixavam-se
absurdamente sobre
absurdos;
Jane, você foi
morta por
saber demais.
eis um brinde
para seus ossos
com os quais
este cão
ainda
sonha.
devem sonhar com ossos
e eu me lembro dos seus ossos
na carne
e melhor
naquele vestido verde-escuro
e naqueles brilhantes sapatos pretos
de salto alto,
você sempre praguejava quando
bebia,
seu cabelo desabando, você
queria explodir para fugir
daquilo que a detinha:
memórias podres de um
passado
podre, e
você afinal
escapou
morrendo,
deixando-me com o
presente
podre;
você está morta
faz 28 anos
mas ainda me lembro de você
melhor do que de qualquer uma
delas;
você foi a única
que compreendeu
a futilidade do
arranjo da
vida;
todas as outras ficavam
desgostosas com
segmentos triviais,
queixavam-se
absurdamente sobre
absurdos;
Jane, você foi
morta por
saber demais.
eis um brinde
para seus ossos
com os quais
este cão
ainda
sonha.
1 173
Charles Bukowski
Eulogia Para Uma Dama E Tanto
certos cães que dormem à noite
devem sonhar com ossos
e eu me lembro dos seus ossos
na carne
e melhor
naquele vestido verde-escuro
e naqueles brilhantes sapatos pretos
de salto alto,
você sempre praguejava quando
bebia,
seu cabelo desabando, você
queria explodir para fugir
daquilo que a detinha:
memórias podres de um
passado
podre, e
você afinal
escapou
morrendo,
deixando-me com o
presente
podre;
você está morta
faz 28 anos
mas ainda me lembro de você
melhor do que de qualquer uma
delas;
você foi a única
que compreendeu
a futilidade do
arranjo da
vida;
todas as outras ficavam
desgostosas com
segmentos triviais,
queixavam-se
absurdamente sobre
absurdos;
Jane, você foi
morta por
saber demais.
eis um brinde
para seus ossos
com os quais
este cão
ainda
sonha.
devem sonhar com ossos
e eu me lembro dos seus ossos
na carne
e melhor
naquele vestido verde-escuro
e naqueles brilhantes sapatos pretos
de salto alto,
você sempre praguejava quando
bebia,
seu cabelo desabando, você
queria explodir para fugir
daquilo que a detinha:
memórias podres de um
passado
podre, e
você afinal
escapou
morrendo,
deixando-me com o
presente
podre;
você está morta
faz 28 anos
mas ainda me lembro de você
melhor do que de qualquer uma
delas;
você foi a única
que compreendeu
a futilidade do
arranjo da
vida;
todas as outras ficavam
desgostosas com
segmentos triviais,
queixavam-se
absurdamente sobre
absurdos;
Jane, você foi
morta por
saber demais.
eis um brinde
para seus ossos
com os quais
este cão
ainda
sonha.
1 173
Charles Bukowski
Carta do Norte
meu amigo escreve falando de rejeições e editores,
e conta sua visita a K.,ou R., ou W,
e pergunta se estou na S., número 12, que ele
tem um poema nela
e T. escreveu da Flórida
mas recusou seus poemas, R. dorme na tipografia
e T. o criticou impiedosamente....
encontrou o editor da Revista X. na rua,
e o editor parecia que tinha levado um chute nos colhões
no momento em que ele o identificou
e pediu sua opinião sobre os poemas,
é bom imprensar esses caras de vez em quando,
dar uma escovadela neles;
as agências de publicidade esqueceram dele, e W. está
demorando demais para ler o seu livro, ganhou só cinco
pratas para ler no Unicorn,
telefonou a K., da Revista W., parece um bom sujeito,
e acha à que acabou com R.,
manda uns recortes para que eu me divirta:
seu nome numa coluna de jornal, vai ter que telefonar para R. de novo: S. está lecionando
na universidade
e ele não aguenta ir, M. é homo,
C. não é capaz de se decidir e P. está louco com ele
porque ele bebeu cerveja na frente de N.
só cartas de recusa, mas ele sabe que sua produção é boa.
L. esteve lá para pegar um maço de Pall Malls emprestado, o puto o deixa
doente, sempre se lamentando...
B. escreve dizendo que P está com problemas, é preciso esquematizar
uma ajuda,
terrivelmente desanimado. dinheiro nem para os selos.
morto sem selos, escreva-me, ele diz,
estou na baixa.
escrever para você? meu amigo, sobre o quê?
eu só me interesso
por poesia.
e conta sua visita a K.,ou R., ou W,
e pergunta se estou na S., número 12, que ele
tem um poema nela
e T. escreveu da Flórida
mas recusou seus poemas, R. dorme na tipografia
e T. o criticou impiedosamente....
encontrou o editor da Revista X. na rua,
e o editor parecia que tinha levado um chute nos colhões
no momento em que ele o identificou
e pediu sua opinião sobre os poemas,
é bom imprensar esses caras de vez em quando,
dar uma escovadela neles;
as agências de publicidade esqueceram dele, e W. está
demorando demais para ler o seu livro, ganhou só cinco
pratas para ler no Unicorn,
telefonou a K., da Revista W., parece um bom sujeito,
e acha à que acabou com R.,
manda uns recortes para que eu me divirta:
seu nome numa coluna de jornal, vai ter que telefonar para R. de novo: S. está lecionando
na universidade
e ele não aguenta ir, M. é homo,
C. não é capaz de se decidir e P. está louco com ele
porque ele bebeu cerveja na frente de N.
só cartas de recusa, mas ele sabe que sua produção é boa.
L. esteve lá para pegar um maço de Pall Malls emprestado, o puto o deixa
doente, sempre se lamentando...
B. escreve dizendo que P está com problemas, é preciso esquematizar
uma ajuda,
terrivelmente desanimado. dinheiro nem para os selos.
morto sem selos, escreva-me, ele diz,
estou na baixa.
escrever para você? meu amigo, sobre o quê?
eu só me interesso
por poesia.
1 077
Charles Bukowski
Entrevistado por um Ganhador do Guggenheim
esse sul-americano ganhador de um Gugg
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?
ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse
que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?
ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse
que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
1 096
Charles Bukowski
Entrevistado por um Ganhador do Guggenheim
esse sul-americano ganhador de um Gugg
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?
ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse
que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?
ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse
que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
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Charles Bukowski
Entrevistado por um Ganhador do Guggenheim
esse sul-americano ganhador de um Gugg
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?
ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse
que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?
ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse
que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
1 096
Charles Bukowski
Minhas Paredes do Amor
em noites como esta, recupero o que
posso.
a vida é dura, a escrita é livre.
se as mulheres pudessem ser tão fáceis
mas elas eram sempre quase a mesma coisa:
gostavam da minha escrita em formato de livro
finalizado
mas havia sempre algo em relação ao efetivo
ato de datilografar
de trabalhar em direção ao novo
que as incomodava...
eu não estava competindo com elas
mas elas se mostravam competitivas comigo
em formas e estilos que eu não considerava
nem originais nem criativos
se bem que para mim
eram sem dúvida
assombrosos o bastante.
agora estão libertadas
consigo mesmas e com os outros
e têm novos problemas
de outra maneira.
todas aquelas gracinhas:
fico contente por estar com elas em espírito
e não em carne
pois agora posso martelar a porra desta máquina
sem preocupação.
posso.
a vida é dura, a escrita é livre.
se as mulheres pudessem ser tão fáceis
mas elas eram sempre quase a mesma coisa:
gostavam da minha escrita em formato de livro
finalizado
mas havia sempre algo em relação ao efetivo
ato de datilografar
de trabalhar em direção ao novo
que as incomodava...
eu não estava competindo com elas
mas elas se mostravam competitivas comigo
em formas e estilos que eu não considerava
nem originais nem criativos
se bem que para mim
eram sem dúvida
assombrosos o bastante.
agora estão libertadas
consigo mesmas e com os outros
e têm novos problemas
de outra maneira.
todas aquelas gracinhas:
fico contente por estar com elas em espírito
e não em carne
pois agora posso martelar a porra desta máquina
sem preocupação.
670
Charles Bukowski
eu nem sempre odeio o gato que mata o pássaro, só o gato que me mata...
amiga lua, amigo gato, vocês não pedem nada de misericórdia ou
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
1 060
Charles Bukowski
Já Vivi na Inglaterra
já vivi na Inglaterra
e já vivi no inferno,
mas talvez não haja nada tão horrível
como pegar a última revista literária
entupida com os últimos queridinhos,
K. ensina em L., M. está lançando
um segundo volume de poemas, O. foi
publicado nos melhores jornais, S. ganhou
uma bolsa para Paris -
e você segura as páginas
contra a luz do abajur
e mesmo assim
nada transparece.
é um problema, realmente,
muito mais do que quando num pique de 90 por um
aparece algum na pista no último momento
e cruza na frente.
um cavalo pode viver.
e você, de fato, espera encontrar
poesia
numa revista de poesia?
as coisas não são tão
simples.
e já vivi no inferno,
mas talvez não haja nada tão horrível
como pegar a última revista literária
entupida com os últimos queridinhos,
K. ensina em L., M. está lançando
um segundo volume de poemas, O. foi
publicado nos melhores jornais, S. ganhou
uma bolsa para Paris -
e você segura as páginas
contra a luz do abajur
e mesmo assim
nada transparece.
é um problema, realmente,
muito mais do que quando num pique de 90 por um
aparece algum na pista no último momento
e cruza na frente.
um cavalo pode viver.
e você, de fato, espera encontrar
poesia
numa revista de poesia?
as coisas não são tão
simples.
1 082
Charles Bukowski
Conversa às Três e Meia da Madrugada
às três e meia da madrugada
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.
com os diabos, ela diz, você não dorme nunca?
e ela entra
com o cabelo nos rolinhos e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho
e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos,
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.
você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe que está sempre caindo.
não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,
e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.
e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.
com os diabos, ela diz, você não dorme nunca?
e ela entra
com o cabelo nos rolinhos e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho
e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos,
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.
você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe que está sempre caindo.
não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,
e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.
e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.
1 050
Charles Bukowski
Conversa às Três e Meia da Madrugada
às três e meia da madrugada
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.
com os diabos, ela diz, você não dorme nunca?
e ela entra
com o cabelo nos rolinhos e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho
e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos,
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.
você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe que está sempre caindo.
não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,
e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.
e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.
com os diabos, ela diz, você não dorme nunca?
e ela entra
com o cabelo nos rolinhos e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho
e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos,
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.
você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe que está sempre caindo.
não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,
e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.
e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.
1 050
Charles Bukowski
Nesta Noite
“seus poemas sobre as garotas ainda estarão por aí
daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem desaparecido”,
meu editor me telefona.
caro editor:
parece que as garotas já
se foram.
entendo o que você quer dizer
mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
atravessando o assoalho na minha direção
e você pode ficar com todos os poemas
os bons
os maus
ou qualquer outro que eu porventura escreva
depois deste.
entendo o que você quer dizer.
você entende o que eu quero dizer?
daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem desaparecido”,
meu editor me telefona.
caro editor:
parece que as garotas já
se foram.
entendo o que você quer dizer
mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
atravessando o assoalho na minha direção
e você pode ficar com todos os poemas
os bons
os maus
ou qualquer outro que eu porventura escreva
depois deste.
entendo o que você quer dizer.
você entende o que eu quero dizer?
1 089
Charles Bukowski
Uma Definição
o amor não passa de farol aceso à
noite cortando a névoa
o amor não passa de uma tampinha de cerveja
na qual você pisa a caminho
do banheiro
o amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado
o amor é o que acontece um dia por
ano
um ano a cada dez
o amor são os gatos esmagados
do universo
o amor é um jornaleiro na
esquina que
desistiu
o amor são as primeiras 3 filas de
potenciais matadores no
Olympic Auditorium
o amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
o amor é o que desapareceu com a
era dos encouraçados de batalha
o amor é o telefone tocando
e a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa
o amor é traição
o amor é o bebum
sendo queimado no beco
o amor é aço
o amor é a barata
o amor é uma caixa de correio
o amor é chuva batendo no telhado
do hotel mais barato
de Los Angeles
o amor é o seu pai que
detestava você dentro de um caixão
o amor é um cavalo com a
perna quebrada
tentando ficar de pé
enquanto 55.000 pessoas
observam
o amor é o nosso jeito de ferver
como a lagosta
o amor é um cigarro de filtro
preso na sua boca e
aceso pela ponta errada
o amor é tudo que dissemos
que não era
o amor é o Corcunda de
Notre Dame
o amor é a pulga que você não consegue
encontrar
o amor é o mosquito
o amor são 50 granadeiros
o amor é o mais vazio dos
urinóis
o amor é uma rebelião em Quentin
o amor é um manicômio lotado
o amor é um burro cagando numa
rua de moscas
o amor é um banco de bar quando
ninguém está sentado nele
o amor é um filme do Hindenburg
se desmanchando em pedaços
em tempos que ainda gritam
o amor é Dostoiévski na
roleta
o amor é o que rasteja
pelo chão
o amor é a sua mulher dançando
apertada nos braços de um estranho
o amor é uma mulher velha
beliscando um naco de pão
o amor é uma palavra usada
constantemente
muitíssimo constantemente
o amor são telhados vermelhos e telhados
verdes e telhados azuis
e voar em aviões a jato
isso é tudo.
noite cortando a névoa
o amor não passa de uma tampinha de cerveja
na qual você pisa a caminho
do banheiro
o amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado
o amor é o que acontece um dia por
ano
um ano a cada dez
o amor são os gatos esmagados
do universo
o amor é um jornaleiro na
esquina que
desistiu
o amor são as primeiras 3 filas de
potenciais matadores no
Olympic Auditorium
o amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
o amor é o que desapareceu com a
era dos encouraçados de batalha
o amor é o telefone tocando
e a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa
o amor é traição
o amor é o bebum
sendo queimado no beco
o amor é aço
o amor é a barata
o amor é uma caixa de correio
o amor é chuva batendo no telhado
do hotel mais barato
de Los Angeles
o amor é o seu pai que
detestava você dentro de um caixão
o amor é um cavalo com a
perna quebrada
tentando ficar de pé
enquanto 55.000 pessoas
observam
o amor é o nosso jeito de ferver
como a lagosta
o amor é um cigarro de filtro
preso na sua boca e
aceso pela ponta errada
o amor é tudo que dissemos
que não era
o amor é o Corcunda de
Notre Dame
o amor é a pulga que você não consegue
encontrar
o amor é o mosquito
o amor são 50 granadeiros
o amor é o mais vazio dos
urinóis
o amor é uma rebelião em Quentin
o amor é um manicômio lotado
o amor é um burro cagando numa
rua de moscas
o amor é um banco de bar quando
ninguém está sentado nele
o amor é um filme do Hindenburg
se desmanchando em pedaços
em tempos que ainda gritam
o amor é Dostoiévski na
roleta
o amor é o que rasteja
pelo chão
o amor é a sua mulher dançando
apertada nos braços de um estranho
o amor é uma mulher velha
beliscando um naco de pão
o amor é uma palavra usada
constantemente
muitíssimo constantemente
o amor são telhados vermelhos e telhados
verdes e telhados azuis
e voar em aviões a jato
isso é tudo.
1 781
Charles Bukowski
Uma Definição
o amor não passa de farol aceso à
noite cortando a névoa
o amor não passa de uma tampinha de cerveja
na qual você pisa a caminho
do banheiro
o amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado
o amor é o que acontece um dia por
ano
um ano a cada dez
o amor são os gatos esmagados
do universo
o amor é um jornaleiro na
esquina que
desistiu
o amor são as primeiras 3 filas de
potenciais matadores no
Olympic Auditorium
o amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
o amor é o que desapareceu com a
era dos encouraçados de batalha
o amor é o telefone tocando
e a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa
o amor é traição
o amor é o bebum
sendo queimado no beco
o amor é aço
o amor é a barata
o amor é uma caixa de correio
o amor é chuva batendo no telhado
do hotel mais barato
de Los Angeles
o amor é o seu pai que
detestava você dentro de um caixão
o amor é um cavalo com a
perna quebrada
tentando ficar de pé
enquanto 55.000 pessoas
observam
o amor é o nosso jeito de ferver
como a lagosta
o amor é um cigarro de filtro
preso na sua boca e
aceso pela ponta errada
o amor é tudo que dissemos
que não era
o amor é o Corcunda de
Notre Dame
o amor é a pulga que você não consegue
encontrar
o amor é o mosquito
o amor são 50 granadeiros
o amor é o mais vazio dos
urinóis
o amor é uma rebelião em Quentin
o amor é um manicômio lotado
o amor é um burro cagando numa
rua de moscas
o amor é um banco de bar quando
ninguém está sentado nele
o amor é um filme do Hindenburg
se desmanchando em pedaços
em tempos que ainda gritam
o amor é Dostoiévski na
roleta
o amor é o que rasteja
pelo chão
o amor é a sua mulher dançando
apertada nos braços de um estranho
o amor é uma mulher velha
beliscando um naco de pão
o amor é uma palavra usada
constantemente
muitíssimo constantemente
o amor são telhados vermelhos e telhados
verdes e telhados azuis
e voar em aviões a jato
isso é tudo.
noite cortando a névoa
o amor não passa de uma tampinha de cerveja
na qual você pisa a caminho
do banheiro
o amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado
o amor é o que acontece um dia por
ano
um ano a cada dez
o amor são os gatos esmagados
do universo
o amor é um jornaleiro na
esquina que
desistiu
o amor são as primeiras 3 filas de
potenciais matadores no
Olympic Auditorium
o amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
o amor é o que desapareceu com a
era dos encouraçados de batalha
o amor é o telefone tocando
e a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa
o amor é traição
o amor é o bebum
sendo queimado no beco
o amor é aço
o amor é a barata
o amor é uma caixa de correio
o amor é chuva batendo no telhado
do hotel mais barato
de Los Angeles
o amor é o seu pai que
detestava você dentro de um caixão
o amor é um cavalo com a
perna quebrada
tentando ficar de pé
enquanto 55.000 pessoas
observam
o amor é o nosso jeito de ferver
como a lagosta
o amor é um cigarro de filtro
preso na sua boca e
aceso pela ponta errada
o amor é tudo que dissemos
que não era
o amor é o Corcunda de
Notre Dame
o amor é a pulga que você não consegue
encontrar
o amor é o mosquito
o amor são 50 granadeiros
o amor é o mais vazio dos
urinóis
o amor é uma rebelião em Quentin
o amor é um manicômio lotado
o amor é um burro cagando numa
rua de moscas
o amor é um banco de bar quando
ninguém está sentado nele
o amor é um filme do Hindenburg
se desmanchando em pedaços
em tempos que ainda gritam
o amor é Dostoiévski na
roleta
o amor é o que rasteja
pelo chão
o amor é a sua mulher dançando
apertada nos braços de um estranho
o amor é uma mulher velha
beliscando um naco de pão
o amor é uma palavra usada
constantemente
muitíssimo constantemente
o amor são telhados vermelhos e telhados
verdes e telhados azuis
e voar em aviões a jato
isso é tudo.
1 781
Charles Bukowski
Posso Ouvir o Som Das Vidas Humanas Sendo Rasgadas Em Pedaços
estranho calor, fêmeas quentes e frias,
eu faço amor gostoso, mas amor não é só
sexo, e as mulheres que conheci são na maioria
muito ambiciosas, e eu gosto de ficar atirado
sobre grandes travesseiros sobre colchões às 3
da tarde, gosto de olhar o sol
através das folhas de um arbusto lá fora
enquanto o mundo exterior
se mantém afastado de mim, conheço isso muito bem, todas
as páginas sujas, e eu gosto de ficar atirado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo fluindo bem:
nectarinas, luvas de boxe usadas, livros de história da
Guerra da Crimeia;
é tão tranquilo ficar tranquilo – se você gostar, nada mais
é necessário.
mas a fêmea é estranha, ela é muito
ambiciosa – “Merda! Não posso dormir o dia todo!
Comer! Fazer amor! Dormir! Comer! Fazer amor!”
“Minha querida”, eu lhe digo, “há homens lá fora agora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
há homens e mulheres morrendo embaixo do sol,
há homens e mulheres morrendo em fábricas
por nada, uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
você não sabe a sorte
que temos...”
“Mas você chegou lá”, ela diz,
“os seus poemas...”
meu amor se levanta da cama.
eu a escuto na sala ao lado.
a máquina de escrever está funcionando.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
têm algo a ver com
criação.
creio que em assuntos como política, medicina,
história e religião
todos acreditaram em mentiras
também.
eu me deito de bruços e pego no sono com minha
bunda voltada para o teto.
eu faço amor gostoso, mas amor não é só
sexo, e as mulheres que conheci são na maioria
muito ambiciosas, e eu gosto de ficar atirado
sobre grandes travesseiros sobre colchões às 3
da tarde, gosto de olhar o sol
através das folhas de um arbusto lá fora
enquanto o mundo exterior
se mantém afastado de mim, conheço isso muito bem, todas
as páginas sujas, e eu gosto de ficar atirado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo fluindo bem:
nectarinas, luvas de boxe usadas, livros de história da
Guerra da Crimeia;
é tão tranquilo ficar tranquilo – se você gostar, nada mais
é necessário.
mas a fêmea é estranha, ela é muito
ambiciosa – “Merda! Não posso dormir o dia todo!
Comer! Fazer amor! Dormir! Comer! Fazer amor!”
“Minha querida”, eu lhe digo, “há homens lá fora agora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
há homens e mulheres morrendo embaixo do sol,
há homens e mulheres morrendo em fábricas
por nada, uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
você não sabe a sorte
que temos...”
“Mas você chegou lá”, ela diz,
“os seus poemas...”
meu amor se levanta da cama.
eu a escuto na sala ao lado.
a máquina de escrever está funcionando.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
têm algo a ver com
criação.
creio que em assuntos como política, medicina,
história e religião
todos acreditaram em mentiras
também.
eu me deito de bruços e pego no sono com minha
bunda voltada para o teto.
653
Charles Bukowski
Um Lugar Pra Relaxar
ser um jovem tolo e pobre e feio
não dá um aspecto muito bom às paredes.
tantos fins de tarde, examinando as paredes
sem nada pra beber
nada pra fumar
nada pra comer
(nós bebíamos meus contracheques depressa).
ela sempre sabia o momento de ir embora.
ela me fez passar por sua faculdade –
ela me deu meu mestrado e meu doutorado,
e ela sempre voltava,
ela queria um lugar pra relaxar
um lugar pra pendurar suas roupas.
ela afirmava que eu era muito engraçado,
que eu a fazia rir
mas eu não estava tentando ser
engraçado.
ela tinha pernas lindas e era
inteligente mas simplesmente não se importava,
e toda a minha fúria e todo o meu humor e
toda a minha loucura eram mero entretenimento
para ela: eu estava atuando pra ela
como uma espécie de marionete numa espécie de inferno de mim mesmo.
algumas vezes quando ela ia embora eu tinha suficiente
vinho barato e suficientes cigarros
para ouvir o rádio e olhar as
paredes e ficar bêbado em grau suficiente para escapar
dela.
mas ela sempre voltava para me testar
mais uma vez.
eu me lembro dela em especial.
outras mulheres melhores fizeram com que eu me sentisse tão
mal
quanto naqueles fins de tarde
dando aquela caminhada de três quilômetros do trabalho para casa
dobrando no beco
olhando a janela no alto
e encontrando a cortina fechada.
ela me ensinou a agonia dos amaldiçoados
e dos inúteis.
todo mundo quer tempo bom, sorte boa, sonhos
bons.
para mim era um palpite arriscado numa pista comprida,
fazia frio e a impossível aposta não deu
em nada.
eu a enterrei cinco anos depois de a ter conhecido,
raramente a tendo visto nos últimos três.
só havia quatro pessoas diante da sepultura:
o padre
a senhoria dela
o filho dela e eu.
isso não importava:
todas aquelas caminhadas pelo beco
na esperança de uma luz por trás da cortina.
todas aquelas dúzias de homens que a tinham fodido
não estavam lá
e um dos homens que a tinham amado
estava: “Meu louco garoto do almoxarifado da
loja de departamentos”, ela me chamava.
não dá um aspecto muito bom às paredes.
tantos fins de tarde, examinando as paredes
sem nada pra beber
nada pra fumar
nada pra comer
(nós bebíamos meus contracheques depressa).
ela sempre sabia o momento de ir embora.
ela me fez passar por sua faculdade –
ela me deu meu mestrado e meu doutorado,
e ela sempre voltava,
ela queria um lugar pra relaxar
um lugar pra pendurar suas roupas.
ela afirmava que eu era muito engraçado,
que eu a fazia rir
mas eu não estava tentando ser
engraçado.
ela tinha pernas lindas e era
inteligente mas simplesmente não se importava,
e toda a minha fúria e todo o meu humor e
toda a minha loucura eram mero entretenimento
para ela: eu estava atuando pra ela
como uma espécie de marionete numa espécie de inferno de mim mesmo.
algumas vezes quando ela ia embora eu tinha suficiente
vinho barato e suficientes cigarros
para ouvir o rádio e olhar as
paredes e ficar bêbado em grau suficiente para escapar
dela.
mas ela sempre voltava para me testar
mais uma vez.
eu me lembro dela em especial.
outras mulheres melhores fizeram com que eu me sentisse tão
mal
quanto naqueles fins de tarde
dando aquela caminhada de três quilômetros do trabalho para casa
dobrando no beco
olhando a janela no alto
e encontrando a cortina fechada.
ela me ensinou a agonia dos amaldiçoados
e dos inúteis.
todo mundo quer tempo bom, sorte boa, sonhos
bons.
para mim era um palpite arriscado numa pista comprida,
fazia frio e a impossível aposta não deu
em nada.
eu a enterrei cinco anos depois de a ter conhecido,
raramente a tendo visto nos últimos três.
só havia quatro pessoas diante da sepultura:
o padre
a senhoria dela
o filho dela e eu.
isso não importava:
todas aquelas caminhadas pelo beco
na esperança de uma luz por trás da cortina.
todas aquelas dúzias de homens que a tinham fodido
não estavam lá
e um dos homens que a tinham amado
estava: “Meu louco garoto do almoxarifado da
loja de departamentos”, ela me chamava.
629
Charles Bukowski
Um Lugar Pra Relaxar
ser um jovem tolo e pobre e feio
não dá um aspecto muito bom às paredes.
tantos fins de tarde, examinando as paredes
sem nada pra beber
nada pra fumar
nada pra comer
(nós bebíamos meus contracheques depressa).
ela sempre sabia o momento de ir embora.
ela me fez passar por sua faculdade –
ela me deu meu mestrado e meu doutorado,
e ela sempre voltava,
ela queria um lugar pra relaxar
um lugar pra pendurar suas roupas.
ela afirmava que eu era muito engraçado,
que eu a fazia rir
mas eu não estava tentando ser
engraçado.
ela tinha pernas lindas e era
inteligente mas simplesmente não se importava,
e toda a minha fúria e todo o meu humor e
toda a minha loucura eram mero entretenimento
para ela: eu estava atuando pra ela
como uma espécie de marionete numa espécie de inferno de mim mesmo.
algumas vezes quando ela ia embora eu tinha suficiente
vinho barato e suficientes cigarros
para ouvir o rádio e olhar as
paredes e ficar bêbado em grau suficiente para escapar
dela.
mas ela sempre voltava para me testar
mais uma vez.
eu me lembro dela em especial.
outras mulheres melhores fizeram com que eu me sentisse tão
mal
quanto naqueles fins de tarde
dando aquela caminhada de três quilômetros do trabalho para casa
dobrando no beco
olhando a janela no alto
e encontrando a cortina fechada.
ela me ensinou a agonia dos amaldiçoados
e dos inúteis.
todo mundo quer tempo bom, sorte boa, sonhos
bons.
para mim era um palpite arriscado numa pista comprida,
fazia frio e a impossível aposta não deu
em nada.
eu a enterrei cinco anos depois de a ter conhecido,
raramente a tendo visto nos últimos três.
só havia quatro pessoas diante da sepultura:
o padre
a senhoria dela
o filho dela e eu.
isso não importava:
todas aquelas caminhadas pelo beco
na esperança de uma luz por trás da cortina.
todas aquelas dúzias de homens que a tinham fodido
não estavam lá
e um dos homens que a tinham amado
estava: “Meu louco garoto do almoxarifado da
loja de departamentos”, ela me chamava.
não dá um aspecto muito bom às paredes.
tantos fins de tarde, examinando as paredes
sem nada pra beber
nada pra fumar
nada pra comer
(nós bebíamos meus contracheques depressa).
ela sempre sabia o momento de ir embora.
ela me fez passar por sua faculdade –
ela me deu meu mestrado e meu doutorado,
e ela sempre voltava,
ela queria um lugar pra relaxar
um lugar pra pendurar suas roupas.
ela afirmava que eu era muito engraçado,
que eu a fazia rir
mas eu não estava tentando ser
engraçado.
ela tinha pernas lindas e era
inteligente mas simplesmente não se importava,
e toda a minha fúria e todo o meu humor e
toda a minha loucura eram mero entretenimento
para ela: eu estava atuando pra ela
como uma espécie de marionete numa espécie de inferno de mim mesmo.
algumas vezes quando ela ia embora eu tinha suficiente
vinho barato e suficientes cigarros
para ouvir o rádio e olhar as
paredes e ficar bêbado em grau suficiente para escapar
dela.
mas ela sempre voltava para me testar
mais uma vez.
eu me lembro dela em especial.
outras mulheres melhores fizeram com que eu me sentisse tão
mal
quanto naqueles fins de tarde
dando aquela caminhada de três quilômetros do trabalho para casa
dobrando no beco
olhando a janela no alto
e encontrando a cortina fechada.
ela me ensinou a agonia dos amaldiçoados
e dos inúteis.
todo mundo quer tempo bom, sorte boa, sonhos
bons.
para mim era um palpite arriscado numa pista comprida,
fazia frio e a impossível aposta não deu
em nada.
eu a enterrei cinco anos depois de a ter conhecido,
raramente a tendo visto nos últimos três.
só havia quatro pessoas diante da sepultura:
o padre
a senhoria dela
o filho dela e eu.
isso não importava:
todas aquelas caminhadas pelo beco
na esperança de uma luz por trás da cortina.
todas aquelas dúzias de homens que a tinham fodido
não estavam lá
e um dos homens que a tinham amado
estava: “Meu louco garoto do almoxarifado da
loja de departamentos”, ela me chamava.
629
Charles Bukowski
Para Jane: Com Todo o Amor Que Eu Tinha, Que Não Foi Suficiente
eu pego a saia,
eu pego as contas cintilantes
em preto,
essa coisa que se movia outrora
em volta de carne,
e chamo Deus de mentiroso,
repito qualquer coisa que se movesse
daquele jeito
ou soubesse
meu nome
jamais poderia morrer
na veracidade comum da morte,
e eu pego
seu gracioso
vestido,
sua graciosidade toda se foi,
e falo
a todos os deuses,
deuses judeus, deuses de Cristo,
lascas de coisas piscantes,
ídolos, pílulas, pão,
profundidades, riscos,
rendição experiente,
ratos no molho de 2 totalmente enlouquecidos
sem chance,
conhecimento de beija-flor, chance de beija-flor,
eu me apoio nisso,
eu me apoio em tudo isso
e sei:
seu vestido em meu braço:
mas
não querem
devolvê-la pra mim.
eu pego as contas cintilantes
em preto,
essa coisa que se movia outrora
em volta de carne,
e chamo Deus de mentiroso,
repito qualquer coisa que se movesse
daquele jeito
ou soubesse
meu nome
jamais poderia morrer
na veracidade comum da morte,
e eu pego
seu gracioso
vestido,
sua graciosidade toda se foi,
e falo
a todos os deuses,
deuses judeus, deuses de Cristo,
lascas de coisas piscantes,
ídolos, pílulas, pão,
profundidades, riscos,
rendição experiente,
ratos no molho de 2 totalmente enlouquecidos
sem chance,
conhecimento de beija-flor, chance de beija-flor,
eu me apoio nisso,
eu me apoio em tudo isso
e sei:
seu vestido em meu braço:
mas
não querem
devolvê-la pra mim.
869
Charles Bukowski
Corcunda
momentos de danação e momentos de glória
tamborilam ao longo do meu telhado.
o gato passa por mim
parecendo saber tudo.
minha sorte tem sido melhor, creio,
do que a sorte do gladíolo,
se bem que não tenho certeza.
fui amado por muitas mulheres,
e, para um corcunda da vida,
isso é uma sorte.
tantos dedos por entre meus cabelos
tantas mãos agarrando as minhas bolas
tantos sapatos tombados de lado pelo tapete do meu
quarto.
tantos olhos observando
endentados num crânio que vai carregar todos esses
olhos rumo à morte,
recordando.
fui tratado melhor do que eu
merecia –
não pela vida em geral
ou pela maquinaria das coisas
mas pelas mulheres.
e o outro
(pelas mulheres): eu
parado no quarto sozinho
dobrado
mãos segurando a pança –
pensando
por que por que por que por que por que por quê?
mulheres caídas por homens como porcos
mulheres caídas por homens com mãos como galhos secos
mulheres caídas por homens que trepam mal
mulheres caídas por coisas de homens
mulheres caídas
caídas
porque elas precisam cair
na ordem das
coisas.
as mulheres sabem
mas com mais frequência decidem fugir da
desordem e da confusão.
elas podem matar o que tocam.
estou morrendo
mas não estou morto.
tamborilam ao longo do meu telhado.
o gato passa por mim
parecendo saber tudo.
minha sorte tem sido melhor, creio,
do que a sorte do gladíolo,
se bem que não tenho certeza.
fui amado por muitas mulheres,
e, para um corcunda da vida,
isso é uma sorte.
tantos dedos por entre meus cabelos
tantas mãos agarrando as minhas bolas
tantos sapatos tombados de lado pelo tapete do meu
quarto.
tantos olhos observando
endentados num crânio que vai carregar todos esses
olhos rumo à morte,
recordando.
fui tratado melhor do que eu
merecia –
não pela vida em geral
ou pela maquinaria das coisas
mas pelas mulheres.
e o outro
(pelas mulheres): eu
parado no quarto sozinho
dobrado
mãos segurando a pança –
pensando
por que por que por que por que por que por quê?
mulheres caídas por homens como porcos
mulheres caídas por homens com mãos como galhos secos
mulheres caídas por homens que trepam mal
mulheres caídas por coisas de homens
mulheres caídas
caídas
porque elas precisam cair
na ordem das
coisas.
as mulheres sabem
mas com mais frequência decidem fugir da
desordem e da confusão.
elas podem matar o que tocam.
estou morrendo
mas não estou morto.
1 109
Charles Bukowski
Um Bilhete de Aceitação
16 anos de idade
durante a Depressão
eu voltava pra casa bêbado
e todas as minhas roupas –
calções, camisas, meias,
maleta e páginas de
contos
estavam jogadas no
gramado da frente e pela
rua.
minha mãe me esperava
atrás de uma árvore:
“Henry, Henry, não
entre... ele vai
matar você, ele leu
as suas histórias...”
“eu posso arrebentar
o traseiro dele...”
“Henry, por favor pegue
isso... e
encontre um quarto pra você”.
mas o preocupava
que eu não conseguisse
terminar o ensino médio
então eu voltava pra casa
outra vez.
certa noite ele entrou
com as páginas de
um dos meus contos
(que eu nunca tinha lhe
mostrado)
e disse: “este é
um grande conto!”
e eu falei “o.k.”,
e ele o devolveu pra mim
e eu o li.
era uma história sobre
um homem rico
que brigara com
a esposa e tinha
saído pela noite
para tomar um café
e tinha notado
a garçonete e as colheres
e os garfos e os
saleiros e pimenteiros
e o letreiro de neon
na janela
e então tinha voltado
até seu estábulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que então
lhe deu um coice na cabeça
e o matou.
de algum modo
a história fazia
sentido pra ele
se bem que
ao escrevê-la
nem me passara pela cabeça
sobre o que eu
estava escrevendo.
então eu lhe falei:
“o.k., velho, você pode
ficar com ele”.
e ele o pegou
e saiu
e fechou a porta.
acho que isso foi
o mais perto
que já chegamos.
durante a Depressão
eu voltava pra casa bêbado
e todas as minhas roupas –
calções, camisas, meias,
maleta e páginas de
contos
estavam jogadas no
gramado da frente e pela
rua.
minha mãe me esperava
atrás de uma árvore:
“Henry, Henry, não
entre... ele vai
matar você, ele leu
as suas histórias...”
“eu posso arrebentar
o traseiro dele...”
“Henry, por favor pegue
isso... e
encontre um quarto pra você”.
mas o preocupava
que eu não conseguisse
terminar o ensino médio
então eu voltava pra casa
outra vez.
certa noite ele entrou
com as páginas de
um dos meus contos
(que eu nunca tinha lhe
mostrado)
e disse: “este é
um grande conto!”
e eu falei “o.k.”,
e ele o devolveu pra mim
e eu o li.
era uma história sobre
um homem rico
que brigara com
a esposa e tinha
saído pela noite
para tomar um café
e tinha notado
a garçonete e as colheres
e os garfos e os
saleiros e pimenteiros
e o letreiro de neon
na janela
e então tinha voltado
até seu estábulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que então
lhe deu um coice na cabeça
e o matou.
de algum modo
a história fazia
sentido pra ele
se bem que
ao escrevê-la
nem me passara pela cabeça
sobre o que eu
estava escrevendo.
então eu lhe falei:
“o.k., velho, você pode
ficar com ele”.
e ele o pegou
e saiu
e fechou a porta.
acho que isso foi
o mais perto
que já chegamos.
1 040
Charles Bukowski
Cometi Um Erro
me estiquei até o alto do armário
e puxei uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e falou:
“não, essa pertence a um cão”.
ela foi embora depois disso e não a vi
desde então. não está na casa dela.
continuo indo lá, deixando bilhetes enfiados
por baixo da porta. volto lá e os bilhetes
continuam ali. tiro a cruz de Malta
arranco-a do espelho do meu carro, amarro-a
com um cadarço em sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
quando retorno na noite seguinte tudo
continua ali.
sigo rondando as ruas em busca daquele
encouraçado sangue-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo de dobradiças quebradas.
dirijo pelas ruas
a um centímetro de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um velho confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte
foi parar.
e puxei uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e falou:
“não, essa pertence a um cão”.
ela foi embora depois disso e não a vi
desde então. não está na casa dela.
continuo indo lá, deixando bilhetes enfiados
por baixo da porta. volto lá e os bilhetes
continuam ali. tiro a cruz de Malta
arranco-a do espelho do meu carro, amarro-a
com um cadarço em sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
quando retorno na noite seguinte tudo
continua ali.
sigo rondando as ruas em busca daquele
encouraçado sangue-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo de dobradiças quebradas.
dirijo pelas ruas
a um centímetro de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um velho confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte
foi parar.
1 096
Charles Bukowski
Cometi Um Erro
me estiquei até o alto do armário
e puxei uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e falou:
“não, essa pertence a um cão”.
ela foi embora depois disso e não a vi
desde então. não está na casa dela.
continuo indo lá, deixando bilhetes enfiados
por baixo da porta. volto lá e os bilhetes
continuam ali. tiro a cruz de Malta
arranco-a do espelho do meu carro, amarro-a
com um cadarço em sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
quando retorno na noite seguinte tudo
continua ali.
sigo rondando as ruas em busca daquele
encouraçado sangue-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo de dobradiças quebradas.
dirijo pelas ruas
a um centímetro de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um velho confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte
foi parar.
e puxei uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e falou:
“não, essa pertence a um cão”.
ela foi embora depois disso e não a vi
desde então. não está na casa dela.
continuo indo lá, deixando bilhetes enfiados
por baixo da porta. volto lá e os bilhetes
continuam ali. tiro a cruz de Malta
arranco-a do espelho do meu carro, amarro-a
com um cadarço em sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
quando retorno na noite seguinte tudo
continua ali.
sigo rondando as ruas em busca daquele
encouraçado sangue-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo de dobradiças quebradas.
dirijo pelas ruas
a um centímetro de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um velho confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte
foi parar.
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